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França: O regime bonapartista afunda. A revolução ronda a Europa

O resultado das eleições francesas é muito mais do que uma disputa entre direita e extrema-direita. É a expressão eleitoral da crise do regime bonapartista construído por Charles De Gaulle, em 1958, onde o poder está concentrado de forma ditatorial ou monárquica, como denuncia Jean Luc Mélenchon, nas mãos da presidência da república. E com um sistema eleitoral feito sob medida para eleger deputados e senadores esmagando os pequenos partidos e barrando a possibilidade do surgimento de novos partidos. O que significa uma barreira de defesa contra a esquerda, que foi extremamente perseguida por De Gaulle e seus sucessores, chegando a nos anos 60 cassar a existência de organizações de esquerda.

O resultado eleitoral do primeiro turno das eleições presidenciais mostra que o regime político bonapartista da Quinta República começa a desmoronar. Um novo ciclo se abre no país da Grande Revolução Francesa e da Comuna de Paris.

A União por um Movimento Popular, a ex-UMP, de Sarkozy e François Fillon, agora rebatizado de “Os Republicanos” (LR), foi até agora o principal partido burguês desde a constituição da União por uma Nova República (UNR), em 1958, por De Gaulle. Desde então o partido dos “republicanos” sofreu mutações de nome a cada eleição, mas conservando essencialmente o mesmo cérebro e a mesma alma. Nos últimos tempos estava conduzido por Sarkozy e nessas eleições estava representado por François Fillon, que desmoronou para o terceiro lugar com 20,01% dos votos, praticamente empatado com Jean Luc Melènchon que fez 19,58% dos votos.

O Partido Socialista, de Hollande, afundou, com seu candidato fazendo 6,35% dos votos, o que é o seu pior resultado eleitoral desde seu renascimento pelas mãos de Mitterrand que assumiu seu controle em 1971. Mitterrand estabeleceu uma aliança com o Partido Comunista Francês (PCF) e em 1981 ganhou as eleições para a presidência da França. Surgia o governo PS/PCF. O resultado do PS indica que ele faz o mesmo caminho do PASOK, na Grécia, que de partido majoritário na classe trabalhadora terminou com 4,8% dos votos, em 2015, após governar com um programa burguês de austeridade.

O fato central na eleição francesa é, portanto, que os dois partidos que se revezavam no poder desde 1958 e sustentavam politicamente o regime bonapartista são superados por novas formações e terminam em 3º e 5º lugar. O regime se afunda e o novo começa a surgir mesmo que o velho ainda não esteja morto.

Macron e Le Pen

O crescimento de Jean Luc Mélenchon, que chega em empate técnico com o candidato dos republicanos, François Fillon, e praticamente embolado com Makron (24,01%), uma nova formação política burguesa chamada “Em Marcha” e Marine Le Pen (21,3%) da Frente Nacional.

Não é demais notar que as seitas de esquerda na França, Novo Partido Anticapitalista (NPA) e Lutte Ouvriére, conseguiram a proeza de fazer 1% e 0,6% dos votos, respectivamente, o que os mostra como irrelevantes no cenário político. Ainda mais que se eles tivessem compreendido minimamente o que de fato se passa na França e estava em jogo nestas eleições teriam se retirado na última semana e chamado voto em Mélenchon. A soma de seus votos colocaria o candidato da França Insubmissa à frente de Marine Le Pen e o segundo turno seria entre o banqueiro Makron e Jean Luc Mélenchon reunindo todas as forças de esquerda. Agora, o que há é um segundo turno entre a “Bruta” e o Banqueiro, como dizem nossos camaradas franceses.

Mas, não apenas estas duas seitas se recusaram a intervir de fato no processo real da luta de classes. As duas formações políticas saídas da cisão da organização dirigidas historicamente por Pierre Lambert, a majoritária dirigida por Marc Lacaze e Lucien Gauthier, assim como a minoritária, dirigida por Daniel Gluckstein, ambas com uma posição de fato abstencionista, se concentraram em passar a campanha acusando Jean Luc Mélenchon de “continuar dividindo” (!), de “não realizar a unidade” (!) com… Benoit Hamon, do Partido Socialista de François Hollande!!

As duas formações, portanto, propunham uma aliança com o governo contra o qual toda a classe trabalhadora e a juventude francesa se revoltou durante os últimos anos e um dos pilares de sustentação da 5ª República bonapartista contra a qual combatem, teoricamente, as duas formações lambertistas. Se Mélenchon tivesse feito isso estaria neste momento com os mesmos votos de Benoit Hamon, provavelmente, destroçado politicamente. Um exemplo onde um esquema mental substitui a realidade da luta dos trabalhadores e da juventude.

Todas estas seitas estão condenadas à desgraça política e a cisões em sequência. É muito duro para um militante sério, que reflete sobre a realidade se chocar alegremente com um muro por indicação de uns dirigentes arrogantes e autoproclamatórios.

Mélenchon

Sem deixar de fazer críticas a Mélenchon sobre seu programa, seu nacionalismo, sua concepção global do que fazer, que se mantém nos marcos da sociedade burguesa capitalista, nossos camaradas franceses entenderam perfeitamente que através dessa campanha e mesmo da radicalização verbal de Mélenchon se expressava o sentimento profundo que se gesta na França da necessidade de uma revolução contra este sistema sem saída.

A França política, a França revolucionária, mais uma vez se coloca na vanguarda europeia da revolução social com uma polarização que seguramente vai se expressar na luta de classe direta no próximo período.  E isso está assentado no fato de que na maioria da juventude, Mélenchon foi o mais votado entre todos os candidatos. Assim como também nas áreas de concentração operária das grandes cidades da França.

A imensa juventude militante da campanha da “França Insubmissa”, que com alegria e determinação, junto com enormes contingentes de trabalhadores, inundou as ruas da França alçando o movimento de resistência agora a um patamar político elevado, questionando os fundamentos do regime e aspirando a uma república social, esta juventude é uma nova geração livre do peso do passado, o material vivo da próxima revolução francesa. Esses jovens são material revolucionário para a construção da organização revolucionária na França.

Uma campanha que concentrou 130 mil apoiadores no aniversário da Comuna de Paris (18 de março), que se alça contra a OTAN e a União Europeia, defende o direito ao aborto, afirma que os trabalhadores têm o direito de se fazer de posse das fábricas se os proprietários tentam fechá-las, que revogará as reacionárias Reformas da Previdência e Trabalhistas, e termina o Ato na Place de la Republique, com o candidato e a multidão cantando a Marselhesa, hino da Grande Revolução Francesa, e depois A Internacional, com o punho cerrado, esta campanha mereceu ser apoiada. E carregou nela o embrião da revolução social.

Os marxistas saberão a partir disso expressar todas as necessidades teóricas e políticas de que a construção efetiva de um verdadeiro partido operário revolucionário tem necessidade para dirigir uma revolução, vencer e estabelecer a ditadura do proletariado, o governo da democracia da maioria. E enterrar o regime da propriedade privada dos grandes meios de produção.

Aux armes, citoyens!     (Às armas, cidadãos!)
Formez vos bataillons!   (Formem vossos batalhões!)
Marchons, marchons!     (Marchemos, Marchemos!)

A Marselhesa

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Bem unido façamos,
Nesta luta final,
Uma terra sem amos
A Internacional

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Vive la révolution!

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