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França: Giro à esquerda e o surgimento da ala marxista no PCF

Tese defendida pelos marxistas para o 34º Congresso do Partido Comunista Francês obtém 15% dos votos dos filiados.

As idéias do marxismo deram um grande passo adiante no Partido Comunista Francês. Na semana passada a militância do partido decidiu, em votação na qual três documentos se converteriam na declaração política básica do próximo congresso do partido, o 34º. Segundo os estatutos do partido o documento que tenha maior número de votos se converte na “tese guia” que pode receber emendas no congresso.

Neste ano a ala marxista do partido, cujas idéias estão expressas no jornal revolucionário La Riposte e na web no site www.lariposte.com, conseguiu obter o número necessário de assinaturas para seu documento. Em função disto, foi um dos documentos submetidos à votação. Pela primeira vez havia uma declaração clara das idéias marxistas, contrastando com a política insípida e conciliadora dos reformistas que dirigem o partido atualmente. Com idéias marxistas não corrompidas pela falsa caricatura das idéias comunistas que representavam as falsificações stalinistas do passado, o texto foi enviado a mais de 100.000 militantes do partido em uma edição especial do jornal L’Humanité.

Para surpresa da direção do partido, e também para os autores do documento, “Renforcer Le PCF, renuer avecle marxisme” conseguiu 15% dos votos! Outro texto da oposição, cujo principal protagonista é André Gerin (vice-prefeito de Vénissieux, um bairro de Lyon), era também muito crítico com a direção do partido, ainda que de um ponto de vista reformista de “esquerda” e nacionalista. Este documento conseguiu 25%, o que supõe que entre os documentos opositores se conseguiu 40% dos votos. Ambos textos, apesar de haver importantes diferenças entre eles, foram considerados pelos militantes do partido como uma maneira de recusar o conteúdo “antiliberal moderado” que caracterizou o programa do partido durante estes últimos anos.

Um exame dos resultados da votação nas distintas federações (no PCF, cada departamento tem sua própria federação, formada por agrupamentos do partido) indicam um profundo giro à esquerda do pensamento da militância desde o último congresso. A declaração política apresentada pela direção nacional perdeu em 92 departamentos (de um total de 99, quatro deles do exterior). Em termos de porcentagem, a oposição aumentou sua proporção de votos em 87% dos departamentos. Em 71 deles o aumento foi superior a 10% e em 32 mais de 20%. A oposição conseguiu mais de um terço dos votos em 58 federações (10 mais que da última vez) e conseguiu mais de um terço dos votos em 58 federações, comparado com apenas 4 que havia conseguido no congresso passado.

Os votos conseguidos pelo texto apresentado pelos marxistas são muito importantes. Terá um impacto transcendental nos acontecimentos políticos do partido durante o próximo período. Este era um documento da “base”. Entre os militantes do partido que assinaram o texto não havia nem um só parlamentar, senador, prefeito e nem sequer nenhum dos 254 membros do Conselho Nacional do PCF. Apesar de todo o trabalho realizado por La Riposte, que leva muitos anos lutando pelo restabelecimento do programa e base teórica do marxismo no PCF, a lista de nomes que assinaram o documento era desconhecida para a maioria dos militantes do partido, diferentemente da lista que apoiava o documento reformista de esquerda, que incluía vários dirigentes “históricos” e respeitados no partido.

Também devemos dizer que, em vez de responder às idéias políticas expostas em nosso documento, os seguidores de Guerin passaram os últimos meses tentando despertar suspeitas e desconfianças contra seus autores, a quem qualifcaram de “socialdemocratas”, agentes da direção nacional para “dividir a oposição”, “entristas”, etc. Em circunstâncias como estas e devido aos limitados recursos humanos e econômicos de La Riposte, o que foi conquistado é um passo muito importante para o marxismo, inclusive se houvéssemos conseguido menos votos. Sendo assim, 15% é uma conquista importante e só pode haver uma explicação séria: o impacto das idéias que se sustentaram no texto. O título do documento resume suas idéias básicas. O PCF deve fortalecer-se e a única maneira de consegui-lo é sobre a base das genuínas idéias marxistas.

“Renforcer Le PCF, renouer avec le marxisme” explica que a política reacionária de Sarkozy e os anteriores governos da direita não caem do céu, senão que são a expressão de um sistema em crise, um sistema que é totalmente incompatível com as reformas sociais ou conquistas materiais alcançadas pelas lutas dos trabalhadores no passado. Explica o profundo declínio da oposição do capitalismo francês no mundo e as conseqüências que tem para a classe operária. Explica que depois das tremendas lutas protagonizadas pelos jovens e trabalhadores franceses nos últimos anos, com uma onda de greves e mobilizações de massas, o PCF deveria ter saído reforçado, sobretudo devido à bancarrota da direção do PSF, que foi a principal razão da vitória de Sarkozy em 2007. Ainda assim, o PCF em vez de avançar, decresceu em número de militantes, apoio eleitoral e em todos os aspectos de sua atividade.

A explicação deste declínio é o distanciamento das idéias e política comunistas por parte da direção, até o ponto de ter apoiado, quando estava no governo de Jospin (1997-2002), o maior programa de privatizações de qualquer outro governo em toda a história do país. Em nosso documento se analisam com detalhes alguns dos pontos do programa do partido, como a proposta de que os trabalhadores, como contribuintes, paguem o juro dos empréstimos bancários contraídos pelos capitalistas, para animar estes últimos a investir em empregos e tecnologia! As questões internacionais como a Venezuela, Cuba ou Afeganistão também se tratam no documento, explicando que tipo de programa deveria se adotar no PCF para reforçar sua posição entre as organizações politicamente mais avançadas de jovens e trabalhadores, e também entre a classe operária em geral.

Chegaram mensagens de apoio à oposição marxista desde vários países, incluindo Espanha, Itália e Brasil. Lançou-se uma nova página na web: www.renforcerlepcf.com. Nela pode-se encontrar três documentos importantes publicados por La Riposte que se somam ao texto principal. A lista de aderentes a estes documentos do La Riposte alcança já os 1.400. Estes documentos incluem uma resposta à direção do PCF do distrito 15 de Paris, que tentou apresentar o texto marxista como fruto de uma conspiração internacional, uma crítica do texto proposto pela direção nacional e uma explicação das diferenças fundamentais entre “Renforcer Le PCF, renouer avec Le marxism” e o texto apresentado por Gerin e seus aliados.

André Gerin, em particular, defende certas idéias que caso se converta em dominantes provocarão um sério dano ao partido. Suas idéias são uma variação do populismo “nacional-comunista”, incluindo idéias racistas. Em seu último livro, “Os guetos da República”, Gerin faz referência a um discurso abertamente racista de Chirac em 1991, no qual qualifica o papel social dos “negros e muçulmanos” como parasitas, se queixa do “ruído e o odor” que supostamente possuem. Gerin diz que Chirac “só dizia a verdade”.

Este tipo de pensamento pode levar a conclusões direitistas e não seria a primeira vez na história do PCF que figuras dirigentes com uma postura opositora de “esquerda” giram à extrema direita. Gerin parece apontar ao mesmo caminho.

No contexto da atual crise mundial do capitalismo um número crescente de comunistas na França compreenderam que a diluição reformista e “antiliberal” do programa do partido não é uma alternativa séria ao capitalismo. A partir de agora, no PCF existe uma ala marxista na França, legítima e conhecida. Com 15% dos votos, as idéias do La Riposte já não podem ser ignoradas e, sem dúvida, avançarão nos próximos meses e anos.

Paris [10], 6 de Novembro de 2008.

* Greg Oxley é editor do jornal La Riposte, impulsionado pela seção francesa da Corrente Marxista Internacional que atua dentro do PCF.

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