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França: depois do segundo turno das eleições legislativas, prepara-se a contraofensiva

Do total de inscritos nas eleições legislativas da França, 57,4% não foram às urnas,  no segundo turno  – contra 51,3% do primeiro turno. Isso não surpreende: na maioria das zonas eleitorais os eleitores não tinham outra escolha que mais do mesmo com diversos rótulos (LREM[1], LR[2] ou mesmo PS[3]).

A composição da nova Assembleia Nacional é mais que nunca desconectada da realidade política do país. Depois de ganhar 8,6 milhões de votos no primeiro turno das eleições presidenciais, Macron contará com maioria absoluta, com 350 deputados de LREM/Modem[4]. Por sua vez, Mélenchon obteve 7 milhões de votos, mas na Assembleia Nacional contará com apenas 27 deputados da França Insubmissa (FI) e do PCF[5] (ou 28 se, felizmente, Valls for derrotado).

Com certeza FI e PCF conseguiriam mais deputados se tivessem se unido no primeiro turno. Mas ainda assim haveria uma desproporção enorme entre o número de votos dado a Macron e a Mélenchon em 23 de abril, com o número de deputados correspondentes. O mesmo aconteceu com a FN[6]: 7,6 milhões de votos em abril e oito deputados. Ao contrário, o PS ficou super-representado em relação a FI-PCF e a FN: 2,3 milhões de votos para Hamon nas eleições presidenciais e 44 deputados do PS. Dessa maneira, a Assembleia Nacional expressa muito pouco do que foi a eleição presidencial, oferecendo uma imagem distorcida das correntes de opinião do país (a FN, por exemplo, escondendo seu verdadeiro programa). O termo “representação nacional” nunca esteve tão longe de seu conceito na V República.

Com 57,4% de abstenção, podemos falar de uma espécie de boicote à eleição. Mélenchon convoca a uma “greve geral cívica” e afirma que a abstenção tem um “significado político ofensivo”. Certo, até certo ponto. Mélenchon acrescenta: “Vejo esta abstenção como uma energia disponível, desde que saibamos convoca-la para a luta. […] Esta força pode ser acionada e passar da abstenção à ofensiva. Esse é nosso chamamento”. Esse é o desafio que vem pela frente. E a luta contra a política do governo Macron deve ser acionada imediatamente. De fato já se iniciou por meio da mobilização da “Frente Social”, que inclui um número crescente de estruturas sindicais.

A violência da nova “Lei do Trabalho” será proporcional à exigência da classe dominante francesa: uma aceleração das políticas de contrarreforma adotadas pelos governos anteriores. É correspondente às necessidades objetivas dos grandes capitalistas. Emmanuel Macron é seu procurador; sua missão é atacar brutalmente todas as conquistas sociais arrancadas pelo movimento dos trabalhadores nas décadas posteriores à Segunda Guerra Mundial. Mas a burguesia tem um problema: é impossível a implantação de tal política sem provocar grandes mobilizações sociais, cedo ou tarde.

Grandes lutas estão na ordem do dia. Entretanto, o movimento dos trabalhadores deve tirar as lições das mobilizações dos últimos anos. Diante da determinação do patronato e de seu governo, a estratégia das “jornadas de ação” sindicais não será suficiente. Somente o desenvolvimento de uma sólida greve por tempo indeterminado fará Macron recuar. Uma quantidade crescente de militantes sindicais deve entender isso, como vimos durante último congresso da CGT[7]. Porém, as direções sindicais não refletem a radicalização que exprime a base. Elas sofrem a pressão da burguesia e têm a esperança que as “negociações” com o governo irão diminuir os danos. É completamente ilusório e contraproducente: a fragilidade é um convite à agressão.

O surgimento da “Frente Social” é em si uma consequência do descompasso entre a base e a cúpula do movimento sindical. A “Frente Social” procura dar expressão à combatividade da base. É difícil dizer se continuará sua ascensão, mas está claramente mostrando o caminho. Pode ter um papel importante para o desenvolvimento de uma estratégia de luta mais radical, quer dizer, de acordo com o que é necessário.

A hora não é de esperar falsas negociações com um governo que prepara uma série de ataques ainda maiores contra nossas condições de vida e de trabalho. O momento é de preparação de uma contraofensiva do movimento dos trabalhadores e da juventude. No plano sindical, assenta-se a questão da construção de uma greve por tempo indeterminado abarcando o maior número possível de setores. No plano político, supõe-se a adoção de um programa de ruptura com o capitalismo em crise, que não oferece outra perspectiva que a regressão social permanente.

 

[1] La République en Marche (República em Marcha), partido de centro, criado por Emmanuel Macron, atual presidente da França (Nota do Tradutor – N.T.).

[2] Les Républicains (Republicanos), partido de direita, fundado em 2015 por Nicolas Sarkozy (N.T.).

[3] Parti Socialiste (Partido Socialista), partido de centro-esquerda reformista que desde 1971 com a vitória de François Mitterand, esteve entre os grandes partidos franceses até o governo de François Hollande e suas políticas de austeridade, que fizeram o partido ter os piores resultados eleitorais de sua existência (N.T.).

[4] Mouvement Démocrate (Movimento Democrático), partido de centro, surgido em 2007 da União pela Democracia Francesa, partido criado em 1978 (N.T.).

[5] Parti Comuniste Français (Partido Comunista Francês) (N.T.).

[6] Front National (Frente Nacional), partido de extrema-direita, que lançou como candidata nas eleições presidenciais de 2017 a Marine Le Pen (N.T.).

[7] Confédération Générale du Travail (Confederação Geral do Trabalho), principal central sindical francesa (N.T.).

Artigo de Révolution, seção francesa da Corrente Marxista Internacional, sob o título “Après le deuxième tour des législatives, il faut préparer la contre-offensive”, publicado em 19 de junho de 2017.

 Tradução de Nathan Belcavello.

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