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Fica Valter Pomar. Enquanto isso, trabalhadores e jovens dizem adeus

Valter Pomar polemiza com nossas posições, o que é seu direito. Mas também é meu direito considerar que ele está muito longe do marxismo no método, nas análises e nas posições políticas.

O diabo mora nos detalhes, diz um ditado popular. Assim sendo, Valter Pomar no começo da sua tréplica (veja aqui) ao meu artigo, ironiza que errei no título do seu texto (e ele tem razão) utilizando duas letras maiúsculas ao invés de minúsculas.

Mais à frente, veremos alguns outros detalhes, um tanto mais relevantes, que Valter esquece. O fato central é que continuamos discordando nas avaliações políticas e ele erra quando me acusa de estar contra a “esquerda marxista” (em minúsculo).

Valter polemiza com nossas posições, o que é seu direito. Mas também é meu direito considerar que ele está muito longe do marxismo no método, nas análises e nas posições políticas.

A decisão da Esquerda Marxista de saída do PT está centrada no fato de que os jovens já abandonaram o partido há um bom tempo e os trabalhadores seguem o mesmo caminho. A direção do PT olha, impotente, sua base social se distanciar, pois está presa por seus compromissos com a burguesia e o imperialismo.

A juventude, em especial, não conhece o PT da luta contra a Ditadura, só conhece o PT no governo. E este governo (do PT) é aquele que mantem as universidades públicas cada vez mais sucateadas e com vagas insuficientes, é o governo que colocou à disposição, através do ministro da justiça, as tropas da Força Nacional de Segurança para o governador Geraldo Alckmin (PSDB) reprimir as manifestações em São Paulo contra o aumento da tarifa no começo de junho de 2013, é o governo que se alia aos inimigos, aperta a mão de Maluf, abraça Collor e Sarney, curva-se aos capitalistas.

De 2003 a 2013 esta situação foi se acumulando. Explodiu nas jornadas de junho de 2013. A resposta do governo (e do PT) a esta situação foi a “Reforma Política”, apoiada pela maioria do partido, incluindo a Articulação de Esquerda (AE), corrente de Valter Pomar. Só que esta resposta está longe de atender aos anseios concretos que levaram milhões às ruas por transporte, saúde e educação, públicos, gratuitos e para todos. Por essas e outras, a juventude vê o PT como um partido igual aos outros, o que foi admitido pelo próprio Lula na melancólica comemoração dos 35 anos do PT. Este partido não atrai mais a juventude, pois deixou de ser um instrumento para a organização e o combate por um mundo novo, mais justo, livre, fraterno e igualitário.

Como dissemos na Carta Aberta a Lula, Dilma e à direção do PT, logo após o 2º turno, o PT recebeu uma última advertência na eleição de 2014. O governo e o PT, desde então, decidiram ir mais à direita. Isto só poderia provocar o abandono definitivo de toda uma camada de trabalhadores que ainda acreditava no PT.

Estar ou não em um partido, para os revolucionários, não tem relação direta com a quantidade de erros e traições da direção desse partido (Lenin, por exemplo, aconselhou os comunistas ingleses a intervirem no Partido Trabalhista, por conta da ligação desse partido com o movimento operário, mesmo os trabalhistas tendo apoiado sua burguesia na 1ª Guerra Mundial). A intervenção dos marxista em um partido está ligada à relação que ele tem com os jovens e trabalhadores. O quanto ele segue sendo uma referência para as lutas dos oprimidos pelo capitalismo. E convenhamos, o PT não consegue atrair e mobilizar as massas para nenhum combate mais, aliás, a direção do PT, por sua política, teme as massas nas ruas. É por isso que mesmo quando atacado, não convoca mobilizações na base para defender o partido.

Internamente, o aumento dos filiados “virtuais” e a criação do PED (Processo de Eleição Direta) desvirtuou a democracia operária presente na origem do PT. Agora, os congressos e encontros reúnem uma maioria de funcionários de gabinetes parlamentares ou de cargos de confiança. Os trabalhadores tiveram pouca vez e voto para mudar o rumo catastrófico que a direção conduziu e continua conduzindo o partido.

Valter declara em seu artigo “Eu não mudei”. Verdade. Eu li as decisões da AE que Valter cita (www.pagina13.org.br). E, confesso, não tinha lido o texto Comemoração e Luta

E para provar que Valter não mudou, ressalto um parágrafo desse último texto, lançado após o 2º turno:

“De imediato, isto exige que nossa tática para 2016 e 2018 seja construída tendo como aliado preferencial não o PMDB (grifo nosso), mas sim esta esquerda política e social que foi às ruas garantir nossa vitória. Precisamos organizar uma Frente Popular, unificando os partidos de esquerda e os movimentos sociais, numa coalizão estratégica para disputar o comando do Estado. Não será um movimento fácil, pois temos o PMDB na vice e com grande influência num Congresso Nacional ainda mais conservador do que em anteriores legislaturas. Mas é um movimento necessário, pois não haverá vitória sem mudança e não haverá mudança tendo o PMDB como aliado prioritário (grifo nosso). Aliás, como suposto aliado prioritário, pois a maior parte do PMDB já opera contra nós há anos.”

O que salta aos olhos neste parágrafo, em meio a palavras bem de esquerda, é que a AE continua com a posição que o PMDB não pode ser o “aliado prioritário”. E como o diabo mora nos detalhes, já que a AE não está propondo claramente romper a aliança com o PMDB, o que ela propõe nesse texto, então, é continuar a tratar o PMDB como um aliado… “não prioritário”. Isso vai aparecer novamente na resolução de seu último Congresso, quando diz:

“Embora a tática eleitoral em 2016 tenha aspectos locais, cabe ao Partido definir os parâmetros nacionais do processo, em torno das seguintes diretrizes: apoio ao governo Dilma, defesa de uma plataforma de aprofundamento das mudanças e prioridade para os partidos de esquerda nas alianças.”

Ou seja, priorizar partidos de esquerda, mas manter a porta aberta para partidos de direita.

Valter pode falar que defende há tempos uma “mudança global na estratégia do partido”, belas palavras, mas que não mudam o fato de que ele e sua corrente não combateram as alianças de Lula e Dilma nas eleições anteriores e, no PED 2013, dizia vagamente que a política de alianças para a eleição de 2014 deveria ser “orientada pelo programa de reformas estruturais”, deixando claro que o debate não deveria ser “com ou sem o PMDB” e que as alianças precisariam se ampliar no segundo turno, caso contrário cairíamos no beco sem saída “ou ganhamos no primeiro turno, ou perdemos no segundo turno”. Isso tudo está na nota de esclarecimento redigida por Valter Pomar e publicada em nosso site naquela oportunidade, e que agora ele indica em seu novo texto, na tentativa de convencer os leitores de que ele sempre combateu a colaboração de classes. Como nós já constatávamos na introdução da nota de esclarecimento de 2013: “De todo modo, não há nenhum empecilho para a colaboração de classes na sua posição”.

Nós sempre combatemos, inclusive na eleição de Lula em 2002, as alianças com a burguesia e a submissão ao capitalismo evidenciada na chamada “Carta aos brasileiros”. A burguesia foi entrando cada vez mais no governo, em 2006 o PMDB foi agregado ao leque de alianças. No novo mandato de Dilma, representantes dos principais setores da burguesia são chamados a compor o ministério. 

Estes governos, mesmo que encabeçado por um partido com origem entre os trabalhadores (PT) é composto também por partidos burgueses (PMDB, PP, PDT, etc.), e aplica, concretamente, a política da burguesia. Para Valter, que só vê esquerda e direita, este é um governo de esquerda que precisa ser defendido. Para nós, a política deste governo é indefensável do ponto de vista marxista, de independência de classe.

E nós, que sempre recusamos cargos em ministérios ou em estatais, somos agora acusados por Valter Pomar de oportunistas. As palavras, na política, tem seu significado, e o oportunismo está evidentemente ligado à quebra dos princípios, na busca pelo poder político e econômico no interior do capitalismo. Nós sempre tivemos firmeza nos princípio de independência de classe e de luta pelo socialismo.    

Valter ainda nos critica por termos decidido sair agora, quando o PT é alvo da direita. Recordemos alguns fatos. Nós, da Esquerda Marxista, fomos os que na época do julgamento do chamado “mensalão”, apresentamos a proposta à direção do PT de um “Encontro Nacional de trabalhadores em defesa do PT e da CUT. Contra a criminalização do movimento operário e popular”, proposta ignorada pelos dirigentes e pelos próprios condenados. Nós também entramos com uma representação criminal no Ministério Público por incitação ao magnicídio contra Bolsonaro, que incitou o fuzilamento da presidente em ato público no final do ano passado. Nós que condenamos publicamente os ataques às sedes do PT em Jundiaí e no centro de São Paulo, colocando que a direção deveria chamar mobilizações para repudiar esses atentados. Nós fomos e somos contrários aos ataques da burguesia contra o PT. No entanto, é preciso constatar, a submissão do governo e do PT, que apanha sem reação, é o que encoraja estes ataques, que não tem como alvo só o PT, mas o conjunto da luta da classe trabalhadora. 

E, apesar de tudo e de todos, apesar da covardia das direções, jovens e trabalhadores vão às ruas, fazem greves e manifestações, contra a repressão e a criminalização das lutas, contra os ataques de patrões e governos, pelas reivindicações. É com esse movimento que os revolucionários precisam estar conectados e é essa disposição de luta que pode derrotar a burguesia e abrir uma saída.

Valter me acusa de criticar muito o PT e que isto é normal em uma cisão. Verdade. Mas as críticas da Esquerda Marxista à direção do PT existem há anos e foram todas expostas em nosso site, nas teses de nossas chapas e aos congressos do PT.

A maior crítica que fiz no meu artigo foi à AE (já que era uma resposta ao dirigente desta corrente) e à sua posição de cobertura da direção do PT. Valter diz que sofremos de cretinismo parlamentar ao centrar fogo na questão dos parlamentares. O problema Valter, é que vocês não dirigem a CUT, mas vocês têm parlamentares, que poderiam em alto e bom som colocar suas críticas e exigir com a CUT (posição formal) que o governo retirasse as MPs. Mas vocês não fizeram isso. E continuam sem fazer.

Nós enxergamos muito bem o movimento que faz a burguesia. E este movimento começa com a posição da direção da Petrobras, com o acordo do governo, de vender ativos da empresa para resolver o seu problema de endividamento. Ora, se a Petrobras foi roubada por um grupo de empresários e empresas, não é justo que seus bens sejam confiscados por decreto governamental, sem indenização, que todas estas empresas sejam estatizadas e que se mobilize o povo para defender isso?

Ao invés disso, a Petrobras pretende vender ativos, inclusive do Pré-Sal (que já não é completamente estatal). Depois de mobilizar até navios de guerra para ameaçar manifestantes que se pronunciaram contra o leilão do campo de Libra, agora a Petrobras pretende vender o restante. Sim, acusar o Serra é fácil, ainda mais que ele está fazendo exatamente o que o governo pretende: abrir caminho para a venda do Pré-sal.

E, lembremos, o “fato positivo” que o governo pretende criar na atual situação de crise é mais concessões e privatizações, enquanto a inflação aumenta, o emprego diminui, as indústrias demitem, os juros aumentam. Não adianta criticar só a direita, quando a direita está na composição e na política do próprio governo.

Sim, estivemos (quase) todos unidos contra o PL 4330. “Quase” porque o governo foi ao congresso negociar emendas para garantir a arrecadação dos tributos e não para barrar a terceirização. É um ponto de vista de classe, o problema é o ajuste.

Por último, Valter nos acusa de não vermos as manifestações de “direita” nas ruas. As manifestações foram de um setor da pequena burguesia (as pesquisas feitas entre os manifestantes de São Paulo mostram a predominância deste setor) infladas pela burguesia (rede Globo em primeiro lugar) para pressionar o PT. E o partido então, segue sua caminhada para a direita. O governo segue com privatizações e medidas de “ajuste”, tirando dos trabalhadores para seguir o pagamento da “dívida” aos banqueiros. No momento em que Dilma, respondendo às manifestações, passa a defender um “ajuste” mais forte, o jornal O Globo passa a se posicionar com um “apoio crítico” ao governo. Critica mas defende.

E esta é a posição da maioria da burguesia. Não por acaso FHC é contra o impeachment. E Aécio oscila. Eduardo Cunha diz que vai rejeitar a entrada do pedido, simplesmente. E as manifestações desidratam-se. Diminuem de tamanho e a “marcha sobre Brasília” é noticiada com destaque na Folha com a presença de… 23 caminhantes. A pequena burguesia, sem perspectiva histórica, aparece e some.

E os trabalhadores? Esses continuam em sua luta. Mostrando que não estão acuados por uma suposta “onda conservadora”. Greves de professores, metalúrgicos e outros varrem o país. Em alguns casos, como dos professores do Paraná, adquirem o caráter de greves de massas. A direção da CUT tenta conter este processo, usando o fato de ser direção da maioria dos sindicatos e conduzindo greves isoladas de professores de norte a sul do país. Posiciona-se contra as MPs 664 e 665, mas não mobiliza a base para o combate. Nos metalúrgicos quer apressar o ACE (Acordo Coletivo Especial) onde se troca a manutenção do emprego pela redução do salário e direitos. Só que na Volks, um acordo nesse sentido foi derrotado pelos operários, que impuseram a manutenção dos empregos.

É dessa disposição de luta da classe trabalhadora e da juventude que nascerá o futuro. Destas lutas nascerá a reorganização do proletariado. O PT, no momento atual, com essa política, segue o destino que os gregos reservaram ao PASOK.

Valter tem todo o direito de ficar no PT, mas gentilmente alertamos que ele está conduzindo sua corrente a afundar no navio que ele ajudou a levar para os rochedos, apoiando a política de colaboração de classes.

Nós saímos do PT e buscamos atrair jovens e trabalhadores para construir algo novo. Estamos propondo a construção de uma Frente de Esquerda, para abrir caminho para uma organização independente da classe trabalhadora, tarefa que convocamos militantes, sindicalistas, estudantes, organizações, partidos, coletivos e correntes para dar a sua contribuição na busca de uma saída política para a atual situação.

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