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Feliz Ano Velho

A crise promete muito mais para 2009

Na virada do ano, direto do decadente Reino da Inglaterra, também conhecido na linguagem imperialista como “Reino Unido” ou, pior ainda, “Grã-Bretanha”, o primeiro ministro Gordon Brown provocou uma sonora gargalhada da oposição ao declarar na quarta-feira (10/12), no Parlamento daquele país que suas originalíssimas medidas econômicas “salvaram os bancos e o mundo”.

No clima pesado de afundamento da produção industrial inglesa, aumento rápido do desemprego etc., o líder do principal partido de oposição, David Cameron, deu a resposta com a fina ironia inglesa: “ele está tão ocupado em salvar o mundo que se esqueceu de salvar a Inglaterra”. Nova estrondosa gargalhada no plenário, desta vez de total concordância.

Em períodos de crise os capitalistas se tornam mais ridículos do que em períodos de paz na taxa de lucro. O mesmo acontece com suas políticas econômicas e suas milagrosas receitas de reduzir impostos e aumentar despesas para tentar evitar a catástrofe econômica. A verdade é que as intervenções dos governos e dos bancos centrais das principais economias – as patrocinadas pelo patético Gordon Brown em primeiro lugar – ainda não desviaram nem um milímetro os bancos e o mundo do capital da rota de uma grande catástrofe.

Mas por que não funcionam mais esses “infalíveis poderes e conhecimentos dos governos e dos bancos centrais” que os capitalistas e seus economistas confiavam tanto? Por causa do equivocado diagnóstico da crise que eles fizeram (e continuam fazendo): uma crise de crédito que se originou de uma bolha especulativa no mercado imobiliário americano e que se alastrou pelo mundo! Com base nesta bobagem eles aplicam remédios altamente tóxicos para as finanças públicas e que, ao invés de amenizar, agravam exponencialmente o problema do paciente*.

“Erro crasso keynesiano”

Além de inócuos, os remédios keynesianos aplicados sem limites por gente irresponsável como Gordon Brown são altamente mutiladores de importantes órgãos de funcionamento da esfera da circulação do capital global. Podem, por exemplo, transformar a dívida pública das principais economias (EUA, Eurozona e Japão) em uma fogueira de conseqüências catastróficas no mercado mundial. Essa perspectiva já desperta a reação de gente mais preocupada com o futuro da Europa capitalista:

“O ministro das Finanças da Alemanha atacou o pacote de estímulo anunciado esta semana pelo Reino Unido. Peer Steinbrueck disse que a crise está produzindo um ‘erro crasso keynesiano’ e que o plano britânico de cortes de impostos e aumentos de gastos só elevará o déficit para ‘um nível tal que levará toda uma geração para ser equacionado’. Para o premiê britânico, Gordon Brown, ‘o que importa é que quase todos os países estão fazendo o que estamos fazendo’” (Valor Econômico, 12/12/2008).

Essa áspera advertência alemã não impediu a reincidência do “erro crasso keynesiano” naquele mesmo dia com a aprovação do “plano britânico” de mais um gigantesco pacote de elevação dos gastos públicos e redução de impostos na União Européia:

“Os chefes de Estado e de governo da União Européia aprovaram nesta sexta-feira um pacote de estímulo econômico de 200 bilhões de euros, ou 1,5% do Produto Interno Bruto (PIB) comunitário. O plano visa sustentar a demanda e combater a perda de dinamismo econômico, conforme rascunho final das conclusões da cúpula em Bruxelas apresentado nesta manhã. Pelo documento em discussão dá-se liberdade a cada país de optar por uma elevação do gasto público ou redução de pressão fiscal, entre outros pontos. Os líderes europeus se comprometem a retomar o equilíbrio orçamentário quando a situação econômica normalizar-se” (BBC.com, 12/12/2008).

Plantando vento

Quando a situação econômica vai normalizar-se ninguém sabe. Muito menos os obesos líderes da Eurozona. Aliás, tem gente que acha até que ela pode até nunca mais normalizar-se. Não é uma hipótese para ser totalmente descartada. A única coisa que se sabe neste momento com certeza é o que apontam os primeiros números divulgados pelos governos acerca dessa farra do boi com a dívida pública:

“O governo federal dos Estados Unidos registrou um déficit orçamentário de US$ 164,40 bilhões em novembro, elevando o déficit acumulado nos dois primeiros meses do atual ano fiscal para US$ 401,57 bilhões. No ano fiscal 2008, que foi encerrado em setembro, o governo registrou um déficit orçamentário de US$ 454,8 bilhões, que foi recorde” (Bloomberg, 10/12/2008).

Façam suas previsões para o déficit do atual ano fiscal a se encerrar em 30 de setembro de 2009. Conservadoramente, pode-se prever um valor acima de US 990 bilhões, coincidindo com a previsão desta semana do Bank of America. Seria mais que o dobro do ano fiscal anterior, perfazendo um déficit nominal de cerca de 8% do PIB. Convenhamos, uma taxa para FMI nenhum botar defeito**.

Resta saber como reagirá o mercado, quer dizer, os fiéis depositantes da poupança global nos T-bonds (ou Treasuries), os títulos de dívida do Tesouro dos Estados Unidos, no desdobramento desse derretimento das finanças públicas da maior economia do planeta.

Como falamos anteriormente, nada tem mais credibilidade no mundo que os Treasuries. E é exatamente por isso que a demanda por esses papéis aumenta na proporção em que aumentam os sinais anunciadores de uma depressão econômica:

“Os Treasuries dispararam, levando a taxa de rendimento (yield) para quedas recordes***, com os investidores vendendo ações em todo o mundo e fugindo para a segurança dos títulos governamentais depois que o Senado rejeitou o resgate das montadoras nacionais. Os Treasuries subiram, empurrando as notas de três meses para taxa negativa pela primeira vez, com os investidores sendo atraídos pela segurança da dívida dos Estados Unidos frente à pior crise financeira desde a Grande Depressão. As taxas de rendimento das notas de 10 anos caíram para 2,48%, o nível mais baixo desde 1954. As taxas das notas de 3 meses, que caíram abaixo de 0% estavam a 0,01% antes de um relatório do governo anunciar deflação na economia.” (Bloomberg, 12/12/2008).

Fantástico. As taxas de retorno dos títulos de três meses caíram abaixo de zero, pela primeira vez, de acordo com a Bloomberg. Isso quer dizer que o indivíduo que comprou esses títulos está pagando um valor acima do valor de face, quer dizer, o que ele receberia na data de liquidação do papel, daqui a 2 meses, por exemplo. Quer dizer, o indivíduo paga um ágio pela proteção que o título ofereceria ao seu capital ameaçado de virar pó em outras aplicações, nas bolsas de valores, principalmente. Paga um pouco para não perder tudo.

NOVA BOLHA

Além da fuga para a segurança, comprar Treasuries com taxas de rendimento negativas não quer dizer que o indivíduo não possa ter um bom lucro. Vai depender do preço de mercado que ele conseguir com a venda do mesmo papel. Neste ano o retorno desses títulos de dívida ficou acima de 12%. Elevadíssimas, um retorno de juros de títulos públicos do terceiro mundo, como os do Brasil. A diferença é que estes últimos têm o inconveniente de não oferecer segurança nenhuma de que sua dívida será honrada.

Mas nada é perfeito. Acontece que junto com a explosão da dívida pública (e do déficit) dos EUA, essa disparada de governos, empresas e capitalistas individuais em busca da proteção dos Treasuries está criando uma nova e mais explosiva bolha de crédito:

“Os títulos do Tesouro dos Estados Unidos estão no melhor ano desde 2000, dando um retorno de 12,2%, o mais elevado em termos anuais, desde o ganho de 13,4% em 2000. Isso pode ser comparado com as perdas de 39% do índice S&P500 de ações. A disparada para os Treasuries nesta semana aumenta a preocupação que os US$ 5,3 trilhões da dívida do governo dos EUA é uma bolha pronta para ser estourada. Os Treasuries têm muitas características de bolha. Um título a zero por cento está sobrevalorizado”. (Bloomberg, 12/12/2008).

O limite (ou data de explosão) dessa nova bolha especulativa, criada pelo capital privado em cima do crédito público da economia de ponta do sistema, depende em primeiro lugar do desdobramento nos próximos trimestres da situação da produção industrial e, conseqüentemente, da taxa geral de lucro criada no mercado mundial.

Sinais de depressão

O fator básico da real doença capitalista continua avançando em forma de uma corrosiva metástase pelo corpo capitalista. A crise de superprodução de capital se generaliza na totalidade do mercado mundial como se não houvesse nada capaz de interromper a concretização de uma severa depressão da produção industrial global nos próximos meses. Vejamos alguns fenômenos que estão a marcar essas crescentes pulsações no Calcanhar de Aquiles do sistema.

O último relatório “JPMorgan Global Manufacturing PMI” está cheio de boas notícias. Começando pelo título: A retração industrial global aprofundou em Novembro. O índice JPMorgan (PMI) que mede o nível de atividade da indústria mundial mergulhou de bico – como um avião em queda livre – no mês de Novembro, para o nível mais baixo da série, mostrando “uma severa deterioração do desempenho produtivo mundial”. O aprofundamento da retração industrial atingiu todas principais economias, sendo que o índice da indústria dos Estados Unidos foi o mais fraco desde 1982. Outra revelação importante deste relatório é sobre a deflação mundial:

“O índice do Preço de Produção Industrial Global mostrou o mais baixo nível desde que os componentes do PMI começaram a ser compilados. Isso indica uma notável reversão na tendência da média dos preços de custo, com o índice caindo cerca de 45 pontos desde o pico recorde de 80.8 pontos registrado apenas quatro meses atrás. O declínio das taxas de preços dos insumos foi especialmente notável nos Estados Unidos e na China. Os EUA presenciaram a queda dos custos de matérias primas no ritmo mais rápido desde 1949, e na China o ritmo foi o mais rápido desde quando foi incluída na pesquisa em abril de 1994”.

Essa tendência deflacionária da indústria mundial, um importante indicador da queda da taxa geral de lucro e da crise de superprodução de capital, é confirmada em outros relatórios publicados no início de dezembro.

Mas agora temos que interromper momentaneamente a análise. Os acontecimentos deste feliz ano velho são tão volumosos que não cabem em um único ano de análise. Mas não temos pressa. Tentaremos seguir nesta trabalhosa tarefa no próximo ano. Por ora desligaremos as máquinas durante algumas semanas para manutenção. Abraços fraternais aos companheiros e às companheiras que nos acompanham há tanto tempo e com tanta paciência. Nos reencontramos logo. Feliz Ano Novo!!!

* Servem, quando muito, para dar uma relativa estabilidade ao sistema financeiro e seu oceano de capital fictício. Essa é a grande preocupação dos economistas e governos contemporâneos. Nas retomadas cíclicas eles conseguem salvar e manter grande parte desse lixo tóxico debaixo do tapete da acumulação real. É nesse movimento do sistema financeiro (e sua estrutura de propriedade e de repartição da mais-valia social) que eles pensam a crise e seus possíveis remédios. Refletem a fusão histórica da burguesia industrial (Ricardo) e os proprietários fundiários antigos (Malthus), que resultou na civilização moderna e seu Estado democrático.

** Afinal, cadê o FMI? Exatamente em Washington. Por que em Washington? Ora, para fiscalizar as economias dominadas, quer dizer, sem moeda, como o Brasil, para que elas continuem aumentando suas taxas básicas de juros e os superávits primários para uma saudável estabilidade econômica.

*** No caso dos títulos públicos, quanto maior a procura e, conseqüentemente, o seu valor de mercado, menor a taxa de rendimento. Essa taxa é medida pela diferença do seu valor de face, a ser liquidado na data de vencimento, e o valor de mercado atual. Assim, quando o valor de mercado dos títulos se eleva, a taxa de rendimento declina.

**** Este texto foi publicado no boletim Crítica Semanal da Economia.

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