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Explosão em XuZhou: A escolha chinesa entre o socialismo e a barbárie

Na noite da quinta-feira, 15 de junho, uma explosão destruiu uma creche na cidade de XuZhou, Província de Jiangsu, causando um grande número de mortos e feridos. Os boletins oficiais de polícia mais recentes informam que oito pessoas morreram e 65 ficaram feridas, embora muitos internautas chineses suspeitem que esse número seja subestimado dadas as fotos do local da explosão que vazaram na internet, e que mais tarde foram removidas por ordem do governo.

O estranho modo como as autoridades do chamado Partido “Comunista” Chinês (PCC) lidaram com a tragédia também chamou atenção. Quase imediatamente após a explosão, a polícia afirmou que ela havia sido causada por um defeito em cilindros de gás. No entanto, no dia seguinte a polícia veiculou a informação de que a explosão havia sido um ataque realizado por um homem de 22 anos de idade “que sofria de problemas neurológicos, havia abandonado a escola e realizava trabalhos de baixa qualificação na região”. Foi informado que esse homem, conhecido apenas pelo sobrenome Xu, construiu a bomba em sua própria casa. Ele teria morrido no local da explosão após detonar a bomba.

Após veicular essa informação, a polícia anunciou que a investigação seria encerrada, o que fez com que muitos questionassem como um jovem poderia ser capaz de conseguir materiais para produzir uma bomba tão poderosa. Ainda mais suspeito é o fato de que, desde 16 de junho, todas as discussões e relatos que não estavam de acordo com os relatórios oficiais foram bloqueados na internet. Muitos acreditam que o Departamento de Propaganda do CCP, um órgão estatal de alto escalão supervisionado pelos burocratas centrais de Pequim, esteja diretamente envolvido no controle das discussões e relatos sobre o ataque.

Independentemente de haver mais fatos sobre o ataque do que foi informado, por si só a explosão se soma à pilha de evidências de que a sociedade capitalista chinesa está se deteriorando a passos largos. Apesar das totalitárias e onipresentes medidas de vigilância tomadas pelo PCC para controlar a informação e suprimir dissidentes, principalmente na internet, eventos dramáticos como esse ainda brotam nesse país imperialista em ascensão que supostamente implementa um “socialismo com características chinesas”, isto é, uma economia capitalista de mercado sem suas contradições inerentes.

A realidade é o extremo oposto dessa visão: o capitalismo chinês não é menos brutal, explorador e contraditório que o dos países ocidentais, os quais em muitos setores colaboram com a classe dominante chinesa na exploração da sua classe trabalhadora. Como acontece em todo o mundo, a economia capitalista chinesa também está caminhando em direção à crise, apesar do rápido crescimento nos anos 2000. A contínua desaceleração do crescimento, que atingiu seus níveis mais baixos em abril deste ano, é acompanhada pela dívida interna que atinge 164% do PIB. Enquanto o PCC media as esporádicas quebras e prejuízos financeiros com imensos gastos públicos em infraestrutura, sua eficiência em melhorar a qualidade de vida das massas se mantém questionável e a sombra da austeridade permanece ameaçando o futuro.

O Serviço Chinês de Notícias, por exemplo, um dos veículos estatais de mídia conhecidos por trazerem sempre boas notícias, informou em um artigo publicado por diversos pesquisadores que, entre 2000 e 2015, o sistema nacional de saúde pública teve um crescimento anual de 19,75% em receita e de 21,43% em despesa. O artigo projetou ainda que em 2019 a relação entre receitas e despesas do sistema de saúde dos funcionários públicos iria chegar a zero e que em 2034 ele iria apresentar déficit. O artigo conclui que tal déficit poderia ser postergado por “reformas graduais no sistema de financiamento tripartite do atendimento médico, da indústria farmacêutica e dos planos de saúde, além de melhorias na fiscalização das atividades médicas”. Tais afirmações têm muita semelhança com a linguagem utilizada pelos burocratas do FMI e da União Europeia ao exigir austeridade.

O que já é concreto para os trabalhadores e a juventude chinesa é a diminuição das vagas de emprego, a piora das condições de trabalho, o crescimento da carga horária não paga, o aumento da privatização, a desenfreada desvalorização do salário, a corrupção, a pressão do envelhecimento populacional e outros mil e um horrores do capitalismo. Os salários para recém-graduados em 2017 caíram 16% em comparação com o ano passado e o mais recente aumento geral dos salários foi o menor dos últimos oito anos, apenas 5%.

A ebulição causada pela crise do capitalismo se junta com a repressão brutal por parte do PCC dos direitos democráticos de organizar atividades políticas, manifestações e sindicatos independentes, canais que poderiam ser utilizados por membros da classe trabalhadora para se defenderem e expressarem seu descontentamento. Nessa situação insustentável, não é de se admirar que atos individuais terríveis sejam realizados a despeito do estado policial chinês.

Uma tendência assustadora que parece estar se repetindo na China são os casos cada vez mais numerosos de indivíduos perturbados matando crianças. A explosão em XuZhou aconteceu apenas um mês após um terrível incidente em que um motorista de ônibus de Shandong, que não havia recebido suas horas extras e adicional noturno, incendiou um ônibus escolar lotado de estudantes chineses e coreanos com idades entre três e seis anos, matando 12 pessoas e deixando uma professora com graves sequelas. Nos últimos tempos, ataques com armas brancas em escolas e lugares públicos também se tornaram absurdamente frequentes em toda a China. Nas regiões com grande número de minorias étnicas e religiosas, a supressão castradora de seus costumes por parte do PCC levou a atos extremos como a autoimolação dos monges tibetanos, além do crescimento de atividades islamistas reacionárias em Xinjiang.

Se houvesse um partido de massas da classe trabalhadora baseado com um programa genuinamente marxista e democrático, que lutasse contra o capitalismo e contra a burocracia do PCC em nome de uma transformação real em direção ao socialismo, esses indivíduos provavelmente teriam recebido um canal saudável e progressista para expressar seu descontentamento, que tem raízes nos problemas concretos da sociedade capitalista chinesa. A falta de tal partido é, antes de mais nada, resultado da repressão implacável por parte do PCC dos direitos democráticos dos trabalhadores em nome do capitalismo. A máfia de Xi Jinping, bem como sua corte capitalista, carrega a maior responsabilidade por criar uma sociedade onde pessoas lancem mão de terríveis insanidades para expressar sua raiva incontida.

Existe um imenso vácuo onde um verdadeiro partido de massas da classe trabalhadora poderia crescer. Esse grande potencial, juntamente com a vontade dos trabalhadores de lutar contra o sistema, pôde ser visto em  inéditos  conflitos trabalhistas, bem como nos exaltados movimentos de massas exemplificados na grande manifestação contra as indústrias químicas poluidoras de  Xangai em 2015, a greve municipal de mineiros em Heilongjiang, a nova insurreição do vilarejo de Wuan e a tentativa de greve nacional dos trabalhadores do Walmart em 2016, sem mencionar os incontáveis casos não contabilizados de luta. O único elemento que falta é uma organização revolucionária que possa unir todas essas frações militantes da classe trabalhadora, as quais depois podem chamar as camadas mais amplas dos trabalhadores, camponeses e nacionalidades oprimidas da China para formar um partido de massas que possa resistir de maneira confiante aos ataques do PCC e dos capitalistas. A luta contra os elementos da barbárie que se desenvolve na época de declínio do capitalismo só pode ser levada adiante por um movimento revolucionário que forneça um canal de expressão para a raiva e o desespero das massas e possa derrubar o sistema que as causa.

Publicado originalmente em 21 de junho de 2017, no site da Corrente Marxista Internacional (CMI), sob o título “The XuZhou Bombing: China’s Choice Between Socialism and Barbarism“.

Tradução de Felipe Libório.

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