EUROPA E EUA EM CRISE – PERSPECTIVAS PARA O BRASIL – Parte 4

 

Esquerda Marxista
 
Quarta parte de uma série de sete artigos de análise da atual situação econômica e política do Brasil.
 

O objetivo da Esquerda Marxista ao disponibilizar estes textos é ajudar no armamento político necessário dos militantes socialistas que buscam compreender para onde vai o país e o governo Dilma Roussef. E, portanto, quais são as perspectivas para a luta de classes do proletariado e da juventude. O artigo integral pode ser lido em www.marxismo.org.br

Crise política no governo e nos partidos

O governo Dilma gastou o seu período de “Lua de Mel” (os seis primeiros meses) vivendo e alimentando uma crise após outra. Neste curto período três ministros foram derrubados por acusações de corrupção, entre eles o supostamente todo-poderoso Palocci. Já um quarto ministro foi demitido. Nada mais nada menos que o ministro da Defesa, Nelson Jobim, após protagonizar diversas cenas de humilhação da presidente e seu governo.
Este aliás, é um caso extremo de demonstração da podridão que é a política de alianças com a burguesia. Ministro de Lula mantido por Dilma, Jobim, declara que havia votado em Serra. E mesmo assim o traidor (afinal era “aliado”) é mantido no cargo. E para ser defenestrado ainda teria que insultar os petistas, os membros do governo e ridicularizar outros ministros. Sem esquecer que Jobim já havia ameaçado e chantageado Lula no governo ao exigir vetos em relação ao Plano Nacional de Direitos Humanos 3 (PNDH3). E Lula aceitou.
 
O fato é que as alianças com os partidos burgueses só podem alimentar estas situações. A burguesia em todo mundo é cada dia mais mafiosa e os Estados burgueses são cada vez mais organizações corruptas, violentas e bárbaras. Na medida em que a burguesia, por razões econômicas e políticas, é cada vez mais incapaz de governar com base em apoio das massas transforma as próprias democracias burguesas (onde existiram plenamente como na Europa e EUA) em simulacros cada vez mais bastardos, o processo de mafiosização dos estados burgueses se acelera em todo o mundo, e no Brasil não é diferente.
 
A atual etapa da crise política do governo é apresentada pelos jornais como uma tentativa de “faxina”. A própria Dilma, publicamente, nega a política de faxina. Mas não teve alternativa e, afinal, estes acontecimentos são uma acusação contra ela própria, que era a principal ministra do governo anterior (Casa Civil) e responsável pelo acompanhamento de todos os Ministérios. Só a ruptura do PT com os partidos burgueses e o Capital pode salvar o governo e o partido das consequências da decomposição social e política do Estado Burguês e do capitalismo.
 
A inesperada derrubada em série de ministros já no começo do governo é fruto direto da aproximação da crise econômica que se aprofunda nos EUA e na Europa. No final de 2010, a burguesia e seus arautos não se cansavam de anunciar que já se viam “os brotos verdes” do renascimento econômico na Europa e EUA.
 
Mas, os marxistas que não se deixam iludir pelas aparências afirmavam, em dezembro de 2010: “É nesse quadro que o governo Dilma pode ter que se enfrentar com uma situação difícil se há um aprofundamento da crise na Europa e nos EUA, o que atingiria o Brasil agora já tendo utilizado quase todos os fundos que podia para evitar a chegada do tsunami. A “marolinha” passou por aqui deixando 2 milhões de desempregados e só a farta distribuição de dinheiro público e amplo endividamento permitiu sobreviver sem grandes solavancos sociais.
 
Hoje, a situação tem outros dados. A tendência é de queda no PIB no próximo ano e já se sente desde o meio de 2010 uma desaceleração da produção industrial brasileira e no crescimento do PIB. A balança comercial brasileira já se ressente da guerra comercial internacional, cujo comandante é os EUA, e já está sendo deficitária”. (Leia aqui o texto completo )
 
O governo Dilma inicia o mandato se instalando como um “Governo de Austeridade” e, exatamente como todos os governos europeus, anuncia cortes no Orçamento já aprovado no Congresso. Cortes que obviamente se dirigem aos gastos sociais como Saúde e Educação, Previdência e Serviços Públicos em geral, sem tocar nos valores para pagamento da Dívida Pública, empreiteiras e farras financeiras em geral.
 
De fato, a percepção de que não há mais muito fôlego para empurrar a crise mais à frente começa a deixar nervosos todos os “parceiros” burgueses do governo e seus chefes, os capitalistas. E a regra da escassez entre capitalistas é “Se a farinha é pouca, meu pirão primeiro”. A disputa pelo butim se instala e as camarilhas mafiosas começam a se destroçar denunciando-se reciprocamente. E inclusive usando os instrumentos oficiais para isso, como a PF e suas diversas frações. Este processo vai continuar, inevitavelmente, se as atuais alianças permanecerem.
 
E como a oposição de direita, PSDB e DEM, são incapazes de apresentar uma política alternativa, pois o governo está realizando, do seu jeito, o programa que eles sempre defenderam, resta à imprensa burguesa fazer escândalo denunciando a corrupção, ou a hesitação, ou a fraqueza do governo em aplicar o seu programa comum. Hoje, os grandes jornais burgueses como O Estado de SP, a Folha, o Globo, e as revistas Veja, Isto É, etc., são os verdadeiros partidos políticos da burguesia no Brasil. São eles que combatem e ao mesmo tempo tentam disciplinar o governo.
 
Fruto desta crise de representação da burguesia surge, também, o novo PSD, anunciado por Kassab, e que tem no seu interior desde já o grupo de Jorge Bornhausenn , inclusive seu filho deputado federal, o governador de SC, mas também tem gente do governador “aliado” de PE, Eduardo Campos, além de outros tipos vindos de diferentes partidos burgueses. Este partido, que se constitui como dissidência do PFL/DEM, mas é mais do que isso, tem também em sua cúpula Kátia Abreu, a latifundiária presidente da Confederação Nacional da Agricultura (CNA), organização patronal que orienta e organiza o combate contra a Reforma Agrária e o Movimento dos Sem Terra com todas as dolorosas consequências que se conhece. Este partido que surge envolto em fraudes eleitorais transita para se acoplar na “base aliada” do governo federal com apoio de dirigentes petistas e de Dilma. Dilma Roussef recebeu uma comitiva liderada por Kassab, no Palácio presidencial, para um “café da manhã” e lhes pediu “apoio no enfrentamento da crise internacional”. Ou seja, apoio às medidas econômicas e sociais do governo.
 
Na extraordinária crise de representação que sofre hoje a burguesia e em seu esforço por constituir um partido que tenha verdadeiras raízes sociais se inserem as iniciativas de FHC declarando defender uma “revisão profunda da estratégia do PSDB e da oposição para voltar ao poder” e que “enquanto o PSDB e seus aliados persistirem em disputar com o PT influência sobre os “movimentos sociais” ou o “povão”, isto é, sobre as massas carentes e pouco informadas, falarão sozinhos”. O que ele está aqui dizendo é que a oposição deve tentar encontrar uma política que expresse as aspirações das classes médias junto com a burguesia. O que será uma dificuldade real para quem defende a política econômica capitalista no mundo de hoje, mas pode se tornar possível com o fracasso do PT.
 
O objetivo de FHC é “cercar” o PT através das classes médias (pequena-burguesia) e depois promover seu progressivo estrangulamento político. É neste sentido que ele se dispõe a uma “política de frente única” declarando que é possível uma “convergência, mas sem adesão” ao governo de Dilma Rousseff. Ele avaliou que o apoio ao Executivo “depende um pouco da atitude do próprio governo, de querer realmente fazer a faxina“(O Estado de S. Paulo, 30/08/2011). E Aécio Neves acrescenta: “Falta ao governo, na minha avaliação, a coragem necessária para chamar as oposições e acertar conosco um pacto de governabilidade que impeça que aqueles que querem se locupletar, aqueles que queiram se aproveitar do Estado para objetivos menos nobres tenham o status que estão tendo hoje“. (OESP, 30/08/2011)
 
O caminho necessário para enfrentar a crise, do ponto de vista dos trabalhadores, é exatamente o caminho inverso. Nenhuma “união nacional”, ruptura com o capital. Luta de classes para vencer o inimigo. E isto exige do PT a ruptura com o imperialismo, a burguesia nativa e seus partidos, com a política de colaboração de classe, expulsão dos ministros capitalistas do governo e a constituição de um governo socialista dos trabalhadores, apoiado na CUT, no MST e nas organizações populares.
 
Esta é a única saída para poder tomar medidas de defesa das condições de vida e trabalho da classe trabalhadora e abrir caminho para o fim do regime da propriedade privada dos grandes meios de produção, organizando coletiva, democrática e planificadamente o controle da economia e da sociedade em direção ao socialismo.
 
Fim da 4ª Parte