Início / Artigos / EUA: Wall Street sacudida pelos protestos anticapitalistas. É preciso um partido operário – Parte 1

EUA: Wall Street sacudida pelos protestos anticapitalistas. É preciso um partido operário – Parte 1

Enquanto no Chile e na Grécia manifestantes se enfrentam com a repressão, nos EUA o Movimento Ocupar Wall Street realiza grande marcha com mais de 15 mil pessoas em Nova Iorque e já chegou até Washington, começando a se unir aos trabalhadores e sindicatos

Ontem (5 de outubro), dezenas de milhares de manifestantes voltaram a marchar pelas ruas de Nova Iorque, ao mesmo tempo em que manifestações similares ocorriam em outros lugares dos EUA, no âmbito de um movimento que está às vésperas de adquirir caráter de massa. Estamos publicando a primeira parte de um artigo de Alan Woods que analisa as mobilizações da última semana.

Ontem, (dia 5) a Wall Street foi sacudida por uma manifestação massiva de mais de 15 mil pessoas que protestavam contra a “cobiça corporativa”. As pessoas se concentravam na praça e se espalhavam pelas ruas entre os prédios ao longo da Brodway. Este protesto foi uma manifestação sem precedentes do estado de ânimo, de raiva, amargura e frustração que se acumulou durante anos na sociedade estadunidense, e que já tinha aparecido anteriormente nas grandes manifestações e greves de Madison (Wisconsin), que culminaram com a ocupação de seu Capitólio, a sede governamental.

Isto faz parte de uma agitação geral que se estende por todo o mundo e cuja expressão mais luminosa foi a revolução árabe. Estes explosivos acontecimentos produziram profundo impacto na consciência dos trabalhadores e da juventude em todos os lugares. Isto ficou comprovado na declaração feita por Bob Masters do Communications Workers of America (Sindicato dos Trabalhadores em empresas de comunicação). Ele disse que o levantamento espontâneo se alinha às revoltas populares que explodiram em todo o mundo neste ano: “ocupar Wall Street capturou o espírito de nosso tempo”, disse ele. “Isto é Madison. Isto é o Cairo. Isto é Túnis”.

O papel dos estudantes

As manifestações começaram no baixo (periferia) Manhattan há vinte dias. A maioria dos manifestantes era formada por estudantes. Este é um desenvolvimento natural. Embora os estudantes não possam desempenhar um papel independente na luta de classes, sempre constituem um barômetro sensível que reflete as tensões e contradições que se acumulam silenciosamente nas profundezas da sociedade. Historicamente, os estudantes sempre tendem a se mover em primeiro lugar. E podem antecipar um movimento de massas.

O importante é o conteúdo de classe das palavras de ordem gritadas pelos manifestantes. Este é um movimento dos pobres contra os ricos, dos explorados contra os exploradores. Estadunidenses comuns e correntes que tiveram de suportar o peso da crise viram dizimadas suas condições de vida, enquanto os banqueiros, que se beneficiaram com bilhões de dólares de dinheiro público, se outorgam bonificações luxuosas.

O cineasta Michael Moore atacou os banqueiros milionários entrincheirados em seus luxuosos escritórios no alto dos edifícios. “Eles são os responsáveis pela ruína de milhões de pessoas”, disse ele. “Eles não estavam satisfeitos em ser somente obscenamente ricos”.

Todas as camadas da classe operária viram seus níveis de vida serem erodidos, incluindo os que sempre se consideravam como “classe média”.

“O meu sentimento é que a classe média está sendo atacada já há algum tempo. Sempre me perguntei se isto ia acontecer”, disse Jimmy Shea, de 45 anos, um carpinteiro sindicalista do Hospital Lincoln, no Bronx:

“Os estudantes tomaram a iniciativa de ocupar Wall Street e os sindicatos os seguiram porque se encontram com os mesmos problemas dos garotos”, ele acrescentou.

O estado de ânimo de muitos foi resumido por Alex Ponton, um vendedor jubilado de 67 anos de idade que nunca antes havia comparecido a um protesto:

“Quero que os ricos paguem a boa parte que lhes corresponde. Se, de alguma forma, posso envergonhá-los ao apoiar o protesto e marchar junto, vou fazer o que puder para ajudar as pessoas comuns”.

O papel dos sindicatos

Os meios de comunicação trataram, de início, de retratar os manifestantes como um grupo de hippies e de excêntricos, destacando a presença de pessoas vestidas de palhaço e de zumbis. Mas esta atitude cínica foi abandonada de imediato quando milhares de trabalhadores e de sindicalistas se uniram aos manifestantes para marchar através do distrito financeiro de Nova Iorque.

Inicialmente, os sindicatos, em sua maioria, observavam, à distância, os protestos encabeçados pelo movimento Ocupar Wall Street, que passou de uma barulhenta e colorida agrupação de ativistas que acampavam em um parque próximo, para um movimento que crescia em força e extensão por todo o país.

Os membros dos maiores sindicatos da cidade marcharam em solidariedade aos estudantes que tinham começado a acampar há três semanas para protestar contra os excessos da parcela de 1% mais rica da população. “Somos os restantes 99%. Vocês estão tendo o que queriam!”, gritavam os manifestantes enquanto marchavam pela Foley Square, ao norte de City Hall. “Esta marcha é épica”, disse John Samuelson, presidente da Transport Workers Union Local 100 (União dos Trabalhadores do Transporte Local 100), que exortou os 35 mil trabalhadores rodoviários e do Metrô a marcharem também.

Entre estes sindicatos, está o sindicato de professores do Estado de Nova Iorque (NYSUT), o maior sindicato de Empire State, que representa 600 mil professores. Numa entrevista na terça-feira, o porta-voz Carl Korn ofereceu publicamente o apoio do NYSUT ao movimento Ocupar Wall Street e deu a sua mensagem sobre a redução da desigualdade de renda, os investimentos em educação pública e a taxação dos ricos. “Os professores e os empregados na educação pública estão incluídos nos 99%, não se encontram entre os 1% mais ricos”, disse Korn, ecoando o tema da ocupação.

A participação dos trabalhadores organizados neste protesto representa um desenvolvimento muito importante e, também, um ponto de virada. Os sindicatos imprimiram nova energia à campanha, trazendo coerência organizativa e maior participação às manifestações. A intervenção dos sindicatos serviu para tornar mais clara e aperfeiçoar a mensagem muito mais amorfa e confusa dos primeiros protestos, concentrando-se mais nos temas econômicos. Um manifestante deu as boas-vindas à participação dos sindicatos ao dar estes substâncias aos protestos: “assim, não parece mais com um show de palhaços”.

A violência policial

Agora se tornou impossível para os meios de comunicação apresentar os protestos como um espetáculo circense. Ficou óbvio que a maioria dos manifestantes é formada por estadunidenses comuns e simples, que estão fartos do papel opressivo das grandes empresas e do establishment político republicano-democrata que o defende, se omitindo diante da difícil situação de milhões de trabalhadores, dos pobres e das famílias de classe média.

A marcha foi totalmente pacífica, com um estado de ânimo festivo. Mas, ao cair da noite o estado de ânimo mudou, já que alguns dos manifestantes mais jovens trataram de ir além das barreiras que os impediam de chegar a Wall Street e ao prédio da Bolsa. Neste ponto, a polícia adotou uma atitude violenta, desnudando a verdadeira face repressiva do Estado a serviço das grandes empresas.

Depois de uma rodada de discursos, os manifestantes se dirigiram ao parque Zucotti. Então, segundo testemunhos, em torno de 200 pessoas trataram de derrubar as barreiras e a polícia os envolveu. Dezenas de pessoas foram detidas, maltratadas e cegadas com gás pimenta.

Um vídeo publicado na conta de Twitter de Ocupar Wall Street ontem à noite mostrava a polícia agredindo um manifestante com cassetetes. Em poucas horas, os manifestantes, muitos dos quais provavelmente eram pessoas ingênuas e sem experiência, receberam uma valiosa lição sobre o verdadeiro significado da “democracia” e do direito de protestar pacificamente.

Os protestos se espalham

Os protestos não se limitam à Nova Iorque. Estão se espalhando por todo o país, como um rastilho de pólvora, com um explosivo estado de ânimo que vem após a frustração. Em Boston, começou uma ocupação em solidariedade à Nova Iorque. Uma testemunha relata sobre uma reunião de massa celebrada na sexta-feira passada:

“O sentimento geral era de repulsa contra o sistema atual, em que o dinheiro domina a política; contra o fato de que a maioria das pessoas foi ignorada pelo atual processo político e porque a desigualdade social e econômica não foi abordada. Também há muita raiva contra os bancos, contra os resgates financeiros e contra o sistema financeiro.” (Impressões registradas pelo grupo Ocupar Boston).

Há uma variada sinalização por parte dos ocupantes que vai desde “Somos os 99%” a “O capitalismo é criminoso”. Os transeuntes, às vezes, os saúdam. Os que tocam suas buzinas de forma mais consistente em sinal de apoio são os camioneiros e taxistas.

As mensagens de apoio estão chegando dos lugares mais distantes, como Londres e Egito. Um detalhe muito interessante é a atitude da polícia de Boston:

“Alguns agentes de polícia saudaram os manifestantes e mais de um se propôs ajudar a carregar o que chega para abastecer os manifestantes”.

Há, agora, o questionamento do sistema capitalista, que antes não se encontrava presente. Esta é também uma mudança importante. A testemunha de Boston menciona o tipo de questões que estão sendo debatidas pelas pessoas:

“Estas são algumas das questões que foram colocadas: o que está ruim? Como chegamos neste ponto? Por que esta cultura gera a corrupção? Quem cria a riqueza? Por que a riqueza não é distribuída igualmente? Por que os estudantes vão à escola para ganhar títulos inúteis e dívidas que não podem pagar? Temos todos o direito de suprir as necessidades da vida? E se a temos, o que falta para suprirmos essas necessidades? O sistema pode ser reformado? Se não pode, que mudança fundamental se necessita fazer? É o capitalismo o melhor dos mundos possíveis? Ou é o comunismo?”.

Marx explicou que, para as massas, um passo real à frente do movimento vale mais que cem programas corretos. O companheiro de Boston prossegue:

“Contudo, quando os movimentos de massas fervem, eles unem as pessoas. Os átomos aparentemente isolados da sociedade se juntam e falam. Um coro ensurdecedor de vozes diferentes, e que tocam melodias diferentes, se funde e mescla uma nova sinfonia. De repente, já não se está só. Você pode falar com liberdade e outros o escutarão. Podem-se lançar no ar nossas preocupações. Novas visões surgem da mistura de idades e se cristalizam às conexões latentes na mente. Através de debates, de marchas e da expressão de nossos anseios pode-se conseguir o tipo de formação que, normalmente, pode levar toda uma vida para se obter.”

“Para dar um exemplo, alguns companheiros e eu fomos a uma esquina para falar sobre quais deveriam ser as demandas do movimento. Éramos apenas cinco no começo. Contudo, os que estavam por perto e escutavam nossas conversas se aproximaram. Começaram a expressar suas próprias queixas e exigências ao Estado e a colocar suas opiniões. O ambiente era de liberdade. Todos escutavam com respeito e com os ouvidos atentos. Como se fosse de um festival, cada voz ecoava em outra voz. Às vezes uma voz pode encontrar um ouvido em desacordo”.

Isto demonstra que há uma fermentação de ideias e de debates, onde as ideias socialistas claras e revolucionárias surgirão gradualmente.

(continuará).

Este texto foi redigido no dia 5 de outubro.

Tradução: Fabiano Adalberto

Deixe seu comentário

Leia também...

Seminário sobre Liberdade e Independência Sindical

Joinville-SC, de 24 a 26 de novembro de 2017 Inscrições até 10/11/2017 A Esquerda Marxista …

Deixe uma resposta