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EUA: Revolução no Horizonte

Entusiasmo e interesse das massas pela candidatura de Bernie Sanders varreu o mundo inteiro. À medida que sua viabilidade como candidato elegível ganhou força, o apoio à sua campanha se desencadeou como um efeito cascata por todo o país.

Entusiasmo e interesse das massas pela candidatura de Bernie Sanders varreu o mundo inteiro. À medida que sua viabilidade como candidato elegível ganhou força, o apoio à sua campanha se desencadeou como um efeito cascata por todo o país.

A vitória de Sanders por 20 pontos percentuais em New Hampshire, em particular, tornou-se um marco do crescimento de ilusões sinceras e entusiasmo por sua candidatura, fazendo-o passar de patinho feio a adversário em potencial.

De qualquer maneira, nós estamos apenas no início do início de um longo processo que se desenrolará durante vários ciclos eleitorais. Assim como qualquer fenômeno social complexo e contraditório, a política americana exige senso de proporção para ser compreendida.

Como nós previmos há vários anos, o pêndulo político, que já pendeu tanto à direita, começa a balançar drasticamente para o lado oposto. Os anos de crise e instabilidade inexoravelmente surtiram efeito nas consciências e a candidatura rebelde de Sanders – pela qual ninguém apostava um centavo alguns meses atrás – é evidência clara disto. Dezenas de milhares compareceram a comícios públicos para ouvir sua mensagem de “revolução política contra a classe bilionária” e ele colocou o socialismo nas manchetes de uma maneira jamais vista, revelando um descontentamento profundamente arraigado que veio crescendo lentamente até chegar à superfície.

Seguindo os passos de Wisconsin, Occupy e o movimento Black Lives Matter, Sanders tem dado expressão política consciente ao até então inconsciente processo de radicalização que vem se instalando na sociedade americana. Uma resposta a décadas de crise, austeridade, cortes sociais, ataques e traições por parte do status quo político, Sanders expressa exatamente o mesmo processo fundamental que levou à ascensão do Podemos na Espanha e de Jeremy Corbyn no Reino Unido. No entanto, semelhante não é igual e não há uma única fórmula para entender ou intervir no processo político. O fato de que o descontentamento está sendo canalizado neste momento pelo partido burguês dominante torna as coisas ainda mais complicadas.

Por décadas, o sistema bipartidário foi um peso para os trabalhadores americanos. Agora, com a quintessência da energia americana, as antigas normas e expectativas foram jogadas pela janela. Com o domínio de Trump no lado Republicano e com Sanders quase vencendo em Iowa e vencendo em New Hampshire, preparou-se o cenário para um confronto na “Super Terça” de 01 de março (neste dia 15 estados americanos realizaram eleições primárias). Clinton e Trump, cada um com sete vitórias no dia, sentiram-se cada vez mais confiantes e passaram a mirar suas armas políticas um no outro. Apesar de Sanders ter obtido vitórias contundentes em Vermont, Minnesota, Colorado e Oklahoma, ele perdeu por pouco no estado de Massachusetts e ficou atrás de Hilary Clinton no número de delegados locais. Não importa o espetáculo dado por Bill Clinton, que pessoalmente e de forma ilegal discursou e impediu eleitores de votar na eleição de Massachusetts – uma vitória é uma vitória. Com vários estados do Sul em disputa no início das prévias, a popularidade de Clinton entre eleitores negros e latinos lhe deu uma vantagem inicial. Mas as prévias ainda não terminaram e Sanders se comprometeu a persistir mesmo enfrentando uma máquina partidária hostil e as poucas chances de realizar a virada política do século.

Partido Republicano em crise

Enquanto isso, sem a clara liderança de um partido socialista operário expressivo, milhões de trabalhadores estão desorientados e se deixaram levar pela demagogia populista de direita de Donald Trump. Um público expressivo o recebeu em diversas cidades pelo país. Seu apelo persistente confundiu muitos, mas tem uma clara explicação. Apesar de suas frases de efeito reacionárias e sem sentido, Trump não é um conservador tradicional. Ele não é um evangélico fundamentalista como Ted Cruz, ou um latino reacionário cubano-americano como Marco Rubio. No fundo, ele é apenas um empresário mauricinho medíocre, estrela de reality show e oportunista por excelência. Ex-democrata que decidiu concorrer como republicano por conveniência, ele já esteve ao lado do aborto legal e já apoiou a proposta de um sistema de saúde socializado. Apesar de seus ataques contra imigrantes e a China, ele emprega diversos imigrantes e contrata fábricas de roupas chinesas. Mesmo tendo dado inicialmente uma resposta ambígua sobre se aprovava ou não o apoio do Grão-Mago da Klu Klux Klan, David Duke, ele dificilmente pode ser considerado um fascista.

O segredo de Trump é sua autoconfiança impetuosa e determinada, que joga com os temores e frustrações do americano médio insatisfeito tanto com o partido no poder quanto com a ala tradicional do Partido Republicano. Dada a crise do capitalismo, e do capitalismo americano em particular, sua promessa de “tornar a América grande novamente” é uma utopia a-histórica. No entanto, para a mentalidade pragmática americana, “emprego e segurança” soa bem após décadas de crise, austeridade e terrorismo. O fato de que ele já é rico e mesmo assim afirma que “não é mandado por ninguém” também apela para aqueles que suspeitam, acertadamente, que Wall Street manda na maioria dos políticos. E, apesar de mentir sem parar, quando ele fala a verdade – por exemplo, sobre o caráter político de seus adversários ou da pressão de grandes corporações sobre a política – ele é tido como alguém que “fala o que pensa”.

Como explicamos em nosso último editorial, as eleições de 2016 forçaram ao máximo os limites do sistema bipartidário vigente. O monótono vai e volta entre políticos cuidadosamente controlados que dominou a política americana nas últimas décadas chegou a um ponto sem volta. Como evidência podemos citar o caso do ex-governador da Florida, Jeb Bush, que aspirava a se tornar o Presidente Bush III. Fortemente financiado e favorecido pela elite republicana, ele lançou uma campanha tradicional em um ano em que o tradicional é a última coisa que os eleitores querem. Ele vergonhosamente acabou abandonando a candidatura depois de um desempenho patético na Carolina do Sul.

Muitos pesos pesados do establishment republicano já estão vendo o roteiro que se apresenta. As escolhas diante deles são árduas: se entregar a Trump ou arriscar uma divisão no partido mais cedo ou mais tarde. Alguns oficiais eleitos já anunciaram que vão abandonar o partido se Trump for escolhido candidato. O presidente da Câmara, Paul Ryan, queridinho do Tea Party, já está tentando se distanciar de Trump ao mesmo tempo em que tenta conter o magnata de Nova Iorque.

Tim Pawlenty, ex-governador de Minnesota, fez uma declaração dura: “O partido está fraturado, o que não é incomum para partidos políticos, uma vez que eles quase sempre voltam a se unir. Mas isso poderia testar os limites mais profundos desta tradição. Se o Partido Republicano fosse um avião e você estivesse olhando pela janela, veria algumas peças se desprendendo da fuselagem e estaria se perguntando se a próxima será uma asa ou o motor. ”

O ex-líder da maioria no Senado, Trent Lott, foi ainda menos otimista quando explicou à CNN que em meados de março os republicanos saberiam se era ou não hora de “levantar as mãos em desespero e pânico”. Conforme ele concluiu, “Nós estamos acuados em um canto e isso não é muito bom. [A Super Terça] não é o golpe final, mas nós saberemos nas próximas semanas se o caso está encerrado ou não.”

O patriarca conservador e malsucedido candidato à presidência, Newt Gingrich, também tem uma visão ruim do futuro de seu partido. Em suas palavras, “Trump está formando uma coalizão muito específica que atingiu diversas pessoas que se tornaram profissionais em tentar vencer dentro de uma estrutura republicana que se mostra cada vez mais obsoleta… É uma encruzilhada para o Partido Republicano e uma encruzilhada para os Estados Unidos.”

As tensões internas alcançaram um nível tão sério que há uma discussão sobre lançar um terceiro candidato “republicano independente” caso Trump vença as primárias. William Kristol, editor do conservador Weekly Standard, explica que uma atitude como essa “seria apenas um ajuste emergencial momentâneo para a infeliz circunstância (se acontecer) de Trump vencer as prévias… Isto daria apoio a outros republicanos concorrendo para o Congresso e outros cargos e permitiria aos eleitores corrigirem o erro temporário (se eles o fizerem) de votar em Trump nas eleições primárias. ”

Há ainda rumores de republicanos apoiarem um candidato de um partido minoritário já existente, como o Partido Liberal ou o Partido Constitucional. Max Boot, conselheiro de política externa de Marco Rubio, declarou abertamente que prefere votar em Josef Stalin do que em Trump. “Não existe a menor chance de eu votar nele. Eu iria prontamente apoiar Hilary Clinton ou Bloomberg, se ele concorresse. ”

Mas se o Partido Republicano se dividir, quem vai levar a maioria? Iria a divisão provocar uma inclinação à direita para o lado de Trump, o que pode muito bem tornar uma formação com essa inelegível em escala nacional? Trump poderá assumir o partido formando um monólogo sem base significativa na estrutura partidária? Ou ele próprio irá se desligar ganhando ou não as prévias e estabelecer uma nova formação populista de direita? Estas e outras questões só poderão ser respondidas pelos acontecimentos. O que está claro é que a montanha russa do Partido Republicano está apenas começando.

De todo modo, apesar do significado que tudo isso tem para o futuro da política americana, o processo que está acontecendo do outro lado do espectro político é ainda mais interessante para os marxistas revolucionários. Apesar das coisas ainda não terem atingido um patamar de tensão tão alto quanto o que há entre os republicanos, algumas figuras do alto escalão já saíram do Comitê Nacional do Partido Democrata para se alinhar a Sanders.

Em 2008, as inspiradoras porém vazias abstrações de “esperança” e “mudança” trazidas por Obama foram suficientes para levar o povo às urnas. Naquela época, acusar um candidato de “socialista” era uma boa maneira de desacreditá-lo. Hoje a palavra “socialismo” é vista positivamente por milhões de pessoas, especialmente os mais jovens, e até mesmo entre alguns que se consideram republicanos. Oito anos atrás a possibilidade de eleger o primeiro homem negro ou a primeira mulher presidente era o mais importante na mente da maioria das pessoas. Hoje, um judeu idoso que se declara socialista está dando trabalho à experiente Hilary Clinton. Como explicar o fato de milhões de americanos agora se considerarem socialistas?

O grande compromisso americano

Já foi dito que o povo americano tem uma forte inclinação a compromissos e que a Constituição Americana é sua mais sublime expressão legal. Por décadas após sua promulgação, os escravocratas sulistas e os nascentes industriários do Norte foram capazes de manter o compromisso apesar dos muitos incidentes que ameaçavam destruir a jovem república. No entanto, acabou chegando o momento em que não havia mais espaço para compromissos e a antiga estrutura foi despedaçada em uma conflagração explosiva e revolucionária.

Após a Guerra Civil Americana, uma nova era de compromissos foi iniciada, desta vez entre capitalistas e trabalhadores. Essa sempre foi uma relação tumultuosa, com muitas ofensivas realizadas pela classe trabalhadora contra seus patrões, mas as coisas finalmente atingiram um aparente equilíbrio.

Trotsky descreveu esta época em “A nossa moral e a deles” assim: “Para garantir o triunfo de seus interesses nas questões maiores, a classe dominante é forçada a fazer concessões em questões secundárias, naturalmente apenas se estas concessões são recompensadas nos lucros. Durante os tempos do surgimento do capitalismo, especialmente as décadas anteriores à I Guerra Mundial, estas concessões, ao menos no que se refere aos estratos mais elevados do proletariado, eram de natureza completamente genuína. A indústria na época se expandia quase ininterruptamente assim como, parcialmente, a prosperidade das nações civilizadas e das massas trabalhadoras. A democracia parecia sólida e as organizações de trabalhadores cresciam.

“Ao mesmo tempo as tendências reformistas se aprofundaram. As relações entre as classes se tornaram mais calmas, ao menos superficialmente. Alguns preceitos morais elementares nas relações sociais foram estabelecidos juntamente com as normas democráticas e de colaboração entre classes. Foi criada a impressão de uma sociedade ainda mais livre, justa e humana. A linha ascendente do progresso parecia infinita para o ‘senso comum. ’

“No entanto, ao invés disso explodiu a guerra com um comboio de convulsões, crises, catástrofes, epidemias e desumanidades. A economia da humanidade se viu diante de um impasse, os antagonismos de classe se tornaram mais claros e graves. As válvulas de escape da democracia começaram a explodir uma atrás da outra. ”

A I Guerra Mundial foi seguida por um boom econômico – Os Loucos Anos Vinte – e as ilusões sobre o reformismo gradual voltaram a ser reforçadas. O sonho foi violentamente interrompido pelo pesadelo da Grande Depressão. Após o caos dos anos 1930 e da II Guerra Mundial, o capitalismo voltou a se estabilizar temporariamente, desta vez com a ajuda das traições stalinistas, e uma nova era de compromissos se iniciou. O capitalismo americano estava em uma posição invejável, respondendo por 50% do PIB mundial. Desta maneira, uma nova era de relativa paz social – ao menos para alguns estratos da população – se tornou possível através do boom econômico pós-guerra, que permitiu que migalhas sem precedentes fossem datas aos trabalhadores. No passado distante estavam os líderes trabalhistas das lutas de classe, substituídos agora por colaboracionistas que viam a si mesmos como “parceiros” dos patrões e cujo trabalho era mediar a luta de classes em benefício da classe dominante.

No entanto, compromisso implica em dar e receber. Em troca de um emprego estável, benefícios modestos e uma aposentadoria razoavelmente confortável, milhões de trabalhadores estavam dispostas a sacrificar seus sonhos e aspirações por uma existência mais interessante. O trabalho na linha de montagem de uma fábrica automotiva não era exatamente fácil ou divertido, mas proporcionava uma vida de qualidade relativamente alta, mesmo sem um diploma universitário. Mas entre os anos 1970 e 1980, à medida que o boom do pós-guerra se pulverizou, esta era de harmonia também veio abaixo. No entanto, com poucos líderes militantes capazes de liderar a luta, o trabalhador americano entrou em um longo declínio acompanhado por uma queda íngreme no padrão de vida dos trabalhadores.

Pulando algumas décadas à frente, hoje não há mais nenhuma relação de “dar” por parte dos patrões – somente “receber”. Ressarcimentos, concessões e parcos benefícios são a norma no que diz respeito a contratos sindicais, enquanto aqueles sem um sindicato afundam cada vez mais rápido. Baseados em uma amarga experiência pessoal, milhões de americanos estão começando a entender que este é o melhor que se pode ter no capitalismo – e estão procurando por uma saída.

2008: Um ponto de inflexão

Oito anos atrás, em meio a uma eleição presidencial, o país entrou em uma crise econômica sem precedentes. Ela definiu um “antes e depois” na consciência e na história econômica, política e social dos Estados Unidos. Cerca de 800 mil empregos desapareciam a cada mês, os anos da Guerra ao Terror de Bush esvaziaram o tesouro nacional e levaram o país à exaustão. Há gerações que Wall Street e os capitalistas não eram tão mal vistos, a classe dominante precisava tirar um coelho da cartola, e eles o fizeram na foram de Barack Obama. Bonito, eloquente e oferecendo uma visão de “esperança” e “mudança”, ele atraiu milhões de pessoas que elegeram o primeiro presidente negro do país. Apesar das ilusões sentimentais de alguns, nós explicamos que Obama seria em suma “mais do mesmo” e que os trabalhadores americanos teriam que passar pela “Escola dos Democratas”.

A desilusão rapidamente tomou conta. O presidente Obama ignorou a vasta rede de militantes que o fizeram ser eleito e, mesmo controlando tanto a Câmara quanto o Senado durante os dois primeiros anos de seu mandato, continuou a política econômica e militar de Bush. O projeto de lei que tornaria mais fácil aos trabalhadores se juntarem a sindicatos foi jogado fora, Obamacare não tem mais nada do sistema de cliente único apoiado pela maioria dos americanos e até mesmo a prisão de Guantánamo, estabelecida após os atentados de 11 de Setembro, continua em operação. Em 2012 ele foi reeleito sem grande entusiasmo e na época nós explicamos que “quanto mais as coisas permanecem como estão, mais elas mudam Abaixo da superfície social, o processo molecular da revolução estava se formando.

Agora, à medida que nos aproximamos do final do último mandato de Obama, os EUA são um país bem diferente. Nós passamos pela experiência das revoltas de Wisconsin, do movimento Occupy, do reconhecimento federal do casamento homoafetivo, da retirada da bandeira Confederada na Carolina do Sul, do movimento Black Lives Matter e muito mais. A aparente apatia política da juventude se tornou em seu oposto. Assim como os antipolíticos espanhóis do movimento Indignados acabaram encontrado expressão política na ascensão meteórica do Podemos, os jovens americanos em particular começaram a despertar fortemente para a política.

O mundo em que eles vivem não é mais o dos seus pais ou avós e suas atitudes políticas refletem isso. Eles não conheceram e jamais conhecerão a relativa estabilidade do mundo pós-guerra. Não há garantia de emprego, hipoteca, financiamento para automóvel ou aposentadoria para mantê-los atrelados ao sistema. O mundo deles é um mundo de crise, revolução e mudança combinado com comunicação e trocas culturais instantâneas por todo o mundo. Eles não têm fidelidade a nenhum partido ou político e os pilares da sociedade burguesa têm pouca autoridade a seus olhos. Como Marx explicou, eles vivem em um mundo em que “tudo o que é sólido se desmancha no ar, tudo o que era sagrado é profanado, e por fim o homem é obrigado a encarar com serenidade suas verdadeiras condições de vida e suas relações com a espécie.”

Nestas condições, milhões de americanos – e não apenas os jovens – estão jogando fora o antigo livro de regras políticas e estão prontos e abertos para algo dramático e novo. Apesar de estarem concorrendo nos partidos tradicionais da classe dominante, tanto Trump quanto Sanders são vistos como figuras independentes tomando os poderes constituídos. Isso pode parecer contraditório, mas na verdade é perfeitamente compreensível, dado o contexto e a história americana, que tantos eleitores estejam divididos entre Sanders e Trump.

Sistema político em crise

O imenso peso institucional dos partidos Democrata e Republicano torna extremamente difícil para partidos fora do sistema se tornarem uma força expressiva. Sem um partido popular de trabalhadores estabelecido, a pressão e polarização social estão sendo expressas através dos dois partidos da classe dominante. Estatísticas de salário e riqueza mostram que a tão falada “classe média” – fundamento do sonho americano e da estabilidade do pós-guerra – foi reduzida à quase inexistência. A zona cinzenta que havia entre os muito pobres e os muito ricos (i.e. a classe média) está se tornando cada vez mais tênue, fazendo desmoronar o antigo equilíbrio político.

Por tempo demais os americanos foram mantidos sob rédea curta no que diz respeito ao que é política e economicamente “realista”. A rédea irá se partir mais cedo ou mais tarde à medida em que a juventude e os trabalhadores lutam para se livrar das artificiais amarras do passado.

O período em que estamos entrando será muito mais parecido com os anos 1850 do que com os anos 1950. Os anos antes da Guerra Civil testemunharam a ascensão e queda, separação e união de diversos partidos políticos à medida que o equilíbrio de forças entre as classes e o equilíbrio de estratos dentro das classes se deslocou de um lado para o outro. A grande disputa política daquela época incluía os agora esquecidos partidos “Whig”, Liberdade, Solo Livre, Americano, União Constitucional e “Know-Nothing”. Os democratas se dividiram e se transformaram, e desse caos emergiu o Partido Republicano, aparentemente do nada. Em 1860, Abraham Lincoln, inicialmente um azarão ao vencer as prévias de seu próprio partido, foi eleito presidente com apenas 39.8% dos votos em disputa entre quatro candidatos , apenas seis anos após a formação do partido. Em tempo, um novo equilíbrio foi alcançado ao passo que os capitalistas do Norte reafirmaram sua dominação econômica sobre o país – mas não sem a agitação destrutiva da Guerra Civil e a posterior Reconstrução.

Em tempos como estes, mudanças repentinas e transformações inesperadas são a norma, não a exceção. Nós também precisamos estar prontos para seguir as reviravoltas da história conforme o equilíbrio de forças entre as classes muda e busca por um novo ponto de estabilidade à medida que o anterior é superado. No entanto, dada a crise orgânica do sistema, não há outro equilíbrio possível dentro das bases do capitalismo. Somente a revolução socialista pode cortar o nó górdio das contradições capitalistas e libertar a humanidade dos absurdos de um sistema em que crises recorrentes de superprodução, fome, falta de moradia e desemprego afetam bilhões de pessoas em meio à abundância sem precedentes.

Infelizmente, porém, apesar da classe trabalhadora ter a quantidade de pessoas e o potencial necessário para transformar a situação da noite para o dia, a falta de liderança faz com que os confrontos entre classes novamente envolvam um período prolongado de turbulências acompanhado de um largo espectro de manifestações políticas imprevisíveis. Como nós já havíamos notado, os capitalistas se arrependerão por não ter permitido a formação de um partido popular de trabalhadores no período pós-guerra. Em países como Reino Unido e França, os líderes desses partidos desempenharam o papel histórico de controlar a classe trabalhadora e barrar a revolução. Sem um partido como esse nos Estados Unidos tudo pode acontecer e muitas transmutações são possíveis, a começar pelo fenômeno Sanders.

Perspectivas

A arte de desenvolver perspectivas é parte integrante do socialismo científico. O propósito destes prognósticos condicionados não é o de prover um roteiro absoluto, imutável e 100% acurado do futuro – o que seria impossível – mas o de listar os processos e variáveis mais prováveis. Isto permite a nossos camaradas e simpatizantes antecipar e, portanto, orientar de maneira mais eficiente diante dos eventos e movimentos conforme eles surgem. Aproximadamente dois anos atrás, em um tempo em que a candidatura de Bernie Sanders era apenas um rumor, nós explicamos em nosso documento Perspectivas para 2014:

“A decadência do capitalismo é manifesta em diversas formas. Muitas pessoas estão se voltando para dentro e explodindo em frustração de maneira individual. No presente há uma sensação de tensão resignada e revolta. Há uma epidemia de heroína por todo o país em estados como Vermont. Nacionalmente, as overdoses por drogas triplicaram desde 1990 e hoje são responsáveis por mais mortes que os acidentes de carro. Massacres armados, explosões de bombas e assassinatos por motivos banais como usar o celular em um cinema ou ouvir música alta demais no carro estão nas manchetes regularmente. Nós vivemos em uma sociedade em declínio econômico, político e social.

“Mas tudo isso eventualmente se tornará o seu oposto. Os trabalhadores e a juventude estão apenas esperando por alguma coisa, uma liderança, alguém que aponte o caminho para o futuro. É possível sentir isso no ar, nos ônibus, nos locais de trabalho e nos caixas de supermercado.

“No período que está por vir, a ausência de uma saída política fará com que as aspirações dos trabalhadores a melhorarem sua condição tenda a ser canalizada para lutas econômicas. Nós podemos antecipar um aumento em greves, revoltas e tendências militantes e de luta de classes nos sindicatos. Mas como as lutas econômicas e greves não chegarão nem perto para a austeridade e a queda dos padrões de vida para a maioria, essa energia será voltada para a construção de um partido de trabalhadores. Juntamente com estes desenvolvimentos, o interesse no socialismo vai continuar a crescer e haverá um entendimento cada vez maior do que ele realmente é. Eventos internacionais e o ciclo econômico também desempenharão um papel importante na lapidação da visão de mundo dos trabalhadores.

“Como temos sempre o cuidado de explicar, mudanças de consciência não acontecem de maneira linear. No entanto, a história não perdoa nada e as contradições continuam a se acumular e vão eventualmente atingir um ponto limite. A conscientização não só pode como vai chegar estrondosamente.

“A tarefa das perspectivas marxistas não é olhar em uma bola de cristal, mas desenhar as tendências mais abrangentes. Utilizando uma analogia científica, a sociedade americana é um sistema não-linear “com tendência ao caos”. Qualquer tentativa de reestabelecer o equilíbrio econômico só poderá produzir mais instabilidade política e social, e vice-versa. Todas essas dinâmicas se alimentam e condicionam umas às outras em maneira que são impossíveis de prever com precisão. Nós podemos esperar por diversas reviravoltas inesperadas, mesmo que elas próprias estejam profundamente enraizadas nas condições objetivas e subjetivas. Como um aprendiz de feiticeiro, a instabilidade do sistema liberou forças que são impossíveis de prever – e, para as classes dominantes, mais difíceis ainda de controlar.

“Quanto mais tempo a pressão durar, mais explosivo será quando ela finalmente emergir à superfície. Eventos pequenos e acidentais podem expressar uma necessidade profundamente histórica e ter um efeito altamente desproporcional em relação a seu significado imediato. É por isso que, enquanto desenvolvemos a abrangência de nossas perspectivas, temos que manter nosso olhar no comportamento diário da classe trabalhadora e da juventude. Em uma época como essa, não há qualquer espaço para se cair na rotina!

“É uma contradição dialética que tenhamos que construir nossas forças exatamente agora quando o movimento está em uma maré baixa. Mas a história mostra que, uma vez que a revolução começa, é tarde demais para lapidar a liderança necessária. Exemplos recentes, como a Tunísia e o Egito ou até mesmo Winsconsin e o movimento Occupy, demonstram isso sem sombra de dúvidas. Nossas forças diminutas podem desenvolver análises excelentes, mas nós ainda não temos uma influência decisiva nos eventos. Se nós não construirmos a liderança que a classe trabalhadora exige e merece, ninguém mais irá fazer. É por isso que, apesar de entendermos que não há atalhos mágicos para a construção do partido revolucionário, nós devemos ter um saudável senso de urgência.

“Nós vivemos no momento histórico mais excitante que a humanidade já testemunhou: o momento da revolução socialista mundial. Como Trotsky explicou em seu clássico de 1938, A Nossa Moral e a Deles, os marxistas estudaram e aprenderam ‘o ritmo da história, ou seja, a dialética da luta de classes. Ao que parece, eles também aprenderam até certo ponto com sucesso como subordinar seus planos subjetivos a este ritmo objetivo. Eles aprenderam a não entrar em desespero diante do fato que de que as leis históricas não dependem de seu gosto pessoal e não estão subordinadas ao seu próprio critério moral. Eles aprenderam a subordinar seus próprios desejos às leis históricas…

“’Eles sabem como nadar contra a corrente com a firme convicção de que as novas correntezas históricas o levarão à outra margem. Nem todos atingirão aquela margem, muitos se afogarão. Mas somente o ato de participar deste movimento de olhos abertos e com um desejo intenso é capaz de dar a mais alta satisfação moral a um ser pensante! ’

“Nós temos lutado contra a corrente desde que a WIL foi fundada em 2002. Mas neste curto espaço de tempo que passou desde então nossas ideias já não parecem mais tão radicais ou “malucas” quanto no início. A diferença entre as condições enfrentadas pela maioria e o potencial humano para atingir níveis cada vez maiores nunca foi tão evidente. Nossas ideias refletem a realidade, enquanto as dos líderes trabalhistas e políticos burgueses estão cada vez mais em desacordo com a situação que ameaça trabalhadores e jovens. Nunca houve tantas possibilidades para nossa organização ou para a luta da classe trabalhadora em direção ao socialismo. Para tornar este potencial realidade, nós precisamos treinar a vanguarda revolucionária e construir a Corrente Marxista Internacional nos EUA e no restante do mundo. ”

O processo acima descrito se acelerou desde que estas palavras foram escritas e a maré quase que certamente começou a virar. Apesar da luta de classes ainda não ter se expressado na frente sindical – houve apenas um pequeno aumento no número de greves e dias perdidos em greves e paralisações de 2014 para 2015 – está claro que o sistema está beirando o caos. Um imenso reservatório de mudanças bruscas e repentinas ainda está disponível. No momento, a frustração reprimida está sendo expressa de maneira contraditória através da candidatura de Bernie Sanders pelo Partido Democrata. Mas em algum momento, de uma forma ou de outra, esta energia pode e vai ser canalizada para os sindicatos, para parcelas mais amplas dos trabalhadores e para a necessidade objetiva da classe operária de uma representação política independente.

O Partido Democrata

Como apontamos em um artigo recente sobre as prévias em Iowa, “o Partido Democrata não é nem democrata nem um partido no sentido usual do termo. Ele é uma máquina eleitoral capitalista altamente corrupta sem programa unificado e sem estruturas internas de organização democrática capazes de fazer a militância controlar as lideranças. A imensa maioria dos eleitores simplesmente se autodeclaram como democratas ou republicanos e não há qualquer critério objetivo para se tornar membro. Apesar de muitos trabalhadores votarem nos democratas e serem encorajados a isso pelos líderes sindicais (na maioria das vezes como um “mal menor”), os sindicatos são vistos meramente como mais um ‘grupo de interesse’, quase como os lobistas, e não há qualquer conexão formal ou orgânica entre eles e o partido. ”

Como o mais antigo partido político eleitoral do mundo, os democratas trocaram de lado muitas vezes nos últimos dois séculos: de partido dos pequenos agricultores da Democracia Jacksoniana, dos escravocratas do Sul e da corrupta sociedade de Tammary Hall à base de apoio das leis segregacionistas de Jim Crow, ao New Deal e a supostos “amigos dos trabalhadores”. Originalmente baseados em princípios liberais de estado e governo enxutos e direitos dos donos de escravos, eles agora são percebidos como defensores do progressismo social e dos gastos estatais. Intimamente ligados a Wall Street e ao estado capitalista, o partido é um dos pilares fundamentais da dominação burguesa nos EUA e no mundo.

“O processo de eleições primárias tem como objetivo dar a ilusão de democracia intrapartidária. No entanto, a existência de superdelegados não-eleitos e outras regras e regulamentações partidárias significam em última análise que, mantidas inalteradas todas as outras coisas (Ceteris Paribus), são os líderes e grandes doadores partidários que dão as últimas ordens. No entanto, nas últimas semanas todas as outras coisas não têm se mantido inalteradas e a cuidadosamente planejada campanha de Hillary Clinton está à beira do colapso. Era esperado que Bernie Sanders apenas colocasse um módico verniz de esquerda à sua inevitável coroação, mas o eleitorado levou a sério a ideia de democracia e votou massivamente na proposta irrealista de Sanders ao invés da desinspiradora “política do possível” de Hillary.

Apesar do impulso que Sanders recebeu nas primeiras votações, a Super Terça representou um recuo e a máquina do partido ainda pode jogar muitas outras cartas para pará-lo – muito antes que a drástica opção de usar os superdelegados precise ser levada a cabo. Não esqueçamos também que New Hampshire é um pequeno estado rural muito próximo a Vermont, estado natal de Sanders, e que apesar do entusiasmo que sua vitória gerou, ela dará a ele apenas alguns poucos delegados que o Partido Democrata alocará de maneira mais ou menos proporcional.

Mesmo que Sanders ganhe mais delegados para a Convenção Democrática Nacional, não parece nada provável que os Democratas arrisquem uma divisão radical no partido poucos meses antes da eleição geral ao eleger Clinton através dos superdelegados. Até agora nada foi previamente decidido. Clinton também tinha a maioria dos superdelegados na convenção de 2008 e mesmo assim eles mudaram seus votos e apoiaram Obama, vencedor majoritário das votações primárias. O New York Times – porta-voz da ala mais sensata da classe capitalista americana ligada à Wall Street – conclamou os superdelegados a seguir a vontade da maioria. A classe dominante pode até ter sentimentos diferentes em relação a Sanders do que por Obama – acima de tudo por causa das forças que ele começou a movimentar – mas eles ainda não perderam a cabeça completamente. Apesar de estarem assustados, seria exagero dizer que eles estejam completamente em pânico neste momento.

A máquina partidária democrata já neutralizou ou cooptou com sucesso diversas tentativas de mover o partido para a esquerda. Eles sempre tiveram sucesso, mas estes são tempos diferentes e dessa vez seria mais complicado repetir o processo. Em grande parte, isso vai depender do que Sanders fará. De qualquer maneira, sem uma oposição popular organizada e preparada para liderar o ataque contra o aparato partidário, principalmente nos sindicatos, até mesmo a explosão mais destrutiva acabará apenas fazendo fumaça se não for canalizada para algo útil.

Longe de enfrentar Sanders abertamente neste momento, a burguesia séria está tratando ele com luvas de pelica. Eles preferem mil vezes tirar proveito da situação e manter Sanders como um agregador dentro do partido do que deixar ele sair completamente de seu controle e concorrer independentemente, com milhares de eleitores o seguindo para fora do Partido Democrata. Uma disputa entre Sanders concorrendo de maneira independente, Clinton concorrendo pelo partido Democrata, Trump pelo Partido Republicano e possivelmente Bloomberg também como independente é o tipo de imprevisibilidade política que a classe dominante preferiria fortemente evitar – apesar de que eles não poderão evitar isso  indefinidamente. E se, por exemplo, o próximo debacle econômico ocorrer daqui para novembro ou uma incontrolada onda de greves de trabalhadores irromper, eles vão depender dos serviços de Sanders para manter as coisas dentro dos canais seguros.

O outro lado da questão dos delegados e superdelegados é que se Hillary tiver uma vitória justa e limpa haverá uma grande pressão sobre Sanders e seus apoiadores para dar suporte a ela e aos democratas. É certo que teoricamente há a possibilidade de que Sanders tenha um plano secreto esse tempo todo, que ele tenha escolhido concorrer pelo Partido Democrata como parte de uma estratégia a longo prazo de utilizar a infraestrutura do partido como veículo para propagar seu nome e suas ideias e que ele tenha planejado tudo para romper com eles se não for escolhido como candidato. Porém, Sanders não é novo em Washington, tendo atuado na Câmara e no Senado desde 1991. Ele é um político extremamente maduro e experiente que votou com os democratas a maior parte de sua carreira. Sua decisão de concorrer como candidato deles foi pensada cuidadosamente e até agora ele tem jogado de acordo com as regras do jogo, apesar das cartas estarem embaralhadas contra ele.

Ataques maiores de muitos lados possíveis ainda podem sabotar a campanha de Clinton e tornar Sanders o candidato de fato. Ele pode ir muito bem nas próximas votações e no fim das contas acabar arrancando da Convenção Nacional do Partido Democrata sua nomeação como candidato. Se por um lado há uma crescente pressão para que Sanders concorra de forma independente – quer ganhe as primárias democratas quer não – só o tempo dirá que rumo ele vai tomar. Apesar de que milhões de seus apoiadores ficariam desapontados, ele ainda pode desempenhar o papel de “flautista mágico” que levará os eleitores esquerdistas para o pântano dos democratas – tudo em nome de combate o “mal maior”. Ele já disse, apesar de tudo, que “não deseja acabar como Ralph Nader. ”

É sempre melhor evitar fazer declarações categóricas sobre o que um político vai ou não fazer, ou sobre que resultado uma eleição pode ou não ter, uma vez que há muitas possibilidades imprevisíveis em um sistema caótico como este. No entanto, o ponteiro do relógio está andando e em um futuro não muito distante Sanders terá que fazer uma decisão que determinará seu legado político e poderá mudar o curso da história americana. Cumprirá ele sua palavra de apoiar Clinton se ela for a candidata escolhida? Descartará ele o apoio que recebeu e irá para casa em silêncio? Ou ajudará a construir as bases para algo novo e necessário na história política dos EUA? Conclamará ele os sindicatos a romperem com os democratas e construir um partido trabalhista socialista independente? Se ele de fato escolher este caminho, em que bases poderia um partido como esse ser erguido?

Base de apoio desgastada

Os republicanos têm visto comparecimentos recordes nas votações primárias durante toda esta temporada de escolha do candidato que representará o partido. Embora a cúpula do partido não morra de amores por Trump, ele deu energia a milhões de republicanos e independentes de uma forma que um Jeb Bush simplesmente não poderia fazer. No campo dos democratas, porém, o interesse no processo de escolha do candidato caiu drasticamente. Apesar do entusiasmo gerado por Sanders, três milhões de eleitores democratas deixaram de comparecer na Super Terça em relação a 2008. No Sul, as urnas tiveram entre 25% e 50% menos votantes. Talvez isso possa ser explicado pelo menor entusiasmo dos eleitores negros agora que Obama não está concorrendo. Porém, Iowa também teve uma queda de 40% na participação de eleitores com menos de 30 anos e, apesar de votar em peso em Clinton, os eleitores latinos de Nevada também compareceram em números significativamente menores.

A conclusão é que o comparecimento de 2008 foi resultante do entusiasmo pela figura de Obama, ao que se pode acrescentar os oito anos de G. W. Bush e uma crise econômica assustadora. Por ser o partido no poder, qualquer um associado à pecha do Partido Democrata vai sofrer, não importa quanta pressão exista neste momento por parar os republicanos ou eleger a primeira mulher presidente. Os eleitores estão votando, acima de tudo, por Sanders ou por Clinton – não necessariamente pelo Partido Democrata. Muitos eleitores de Sanders declararam veementemente que preferem ficar em casa ou até mesmo votar em Trump se Clinton for a candidata. Uma vez que a máquina contra o “mal menor” for acionada eles podem mudar de ideia, mas o sentimento é claro: estes eleitores não vão dar à candidatura de Clinton um mar de rosas.

A lealdade aos dois partidos dominantes está se desintegrando, uma vez que é fundamentada na promessa ou até mesmo garantia de um certo padrão de vida. Milhões de republicanos e independentes seguiriam Trump sem hesitação se ele saísse do partido e ele próprio já deixou claro que é mais fiel à sua própria imagem que à abstração do Partido Republicano. Como ele recentemente explicou no programa “Morning Joe” da MSNBC, “Eu assisto televisão e vejo propaganda atrás de propaganda feita pelo establishment batendo em mim e isso não é justo. Mas se eu sair, se eu for, independente ou não, o que é algo que eu posso fazer – quer dizer, posso ou não. Se eu for, eu te digo, esses milhões de pessoas que se juntaram a mim irão todas me seguir. “

De acordo com pesquisa do Gallup, um número recorde de americanos – cerca de 43% – considera-se “independente” em comparação com os que se declararam “democratas” ou “republicanos”, um aumento substancial em relação aos 35% de 2008. Tanto Sanders quanto Trump se aproveitaram deste descontentamento, mas um número maior de eleitores deixou de apoiar os democratas (de 36% para 30%) do que sua contrapartida republicana (de 28% para 26%). De acordo com Jocelyn Kiley, do Pew Research Center, “Pessoas mais jovens tendem a ser menos dispostas a se afiliarem a partidos que pessoas mais velhas. Isso está mais acentuado do que nunca… as pessoas deram algumas das piores notas que nós já vimos nos últimos 20 anos para ambos os partidos. “

Por trás do minguante apoio aos principais partidos e candidatos está uma realidade ainda mais perigosa e cheia de implicações para o futuro: o apoio ao capitalismo em si está diminuindo drasticamente.

Voto feminino

Por décadas, os Democratas desfrutaram do quase certo apoio de uma imensa maioria de eleitores sindicalistas, negros, latinos e LGBTQ+, assim como uma saudável maioria entre mulheres jovens. Essa deveria ser a base da vitória de Hillary nas prévias de sua eventual eleição para a Casa Branca. No entanto, estas camadas da população – as mais oprimidas e afetadas pela crise econômica – não se juntaram a ela como era esperado. Pelo contrário, muitos responderam a Sanders com entusiasmo. Apesar dela ter conseguido uma vitória na Super Terça, sua caminhada para a coroação não tem sido nem um pouco tranquilacomo ela imaginou.

Gail Sheehy analisou o que está acontecendo em um artigo de opinião para o New York Times: “Kathryn Levy, uma poeta e arte-educadora contemporânea de Clinton, disse: ‘Entre a quase vitória de Hillary nas prévias de 2008 e a vitória de um homem afro-americano nas eleições, aquele estereótipo restrito de quem poderia ser presidente foi quebrado… Uma editora de uma prestigiosa revista de circulação nacional me confidenciou: Eu deveria estar pulando de entusiasmo pela candidatura de Hillary, mas não estou’ Eu perguntei se ela votaria em Hillary no fim das contas. ‘Eu estou esperando para ver se Bernie vence em Iowa, ela sussurrou. Se vencer, eu estou com ele! ’

“Nas eleições presidenciais de 2008, muitas mulheres na faixa dos 60 anos, especialmente as autodeclaradas ‘feministas natas’, começaram como devotas exclusivas de Hillary. Este foi o caso de Lorraine Dusky, uma escritora e ativista residente em Long Island. Quando um jovem e impetuoso senador afro-americano roubou a cena, ‘muitas mulheres democratas que eu conheço se voltaram para Obama’, diz ela… Dessa vez, Dusky, que já passou dos setenta, disse: ‘Estou me sentindo cansada de Clinton, até mesmo exausta. ’

“A Rev. Katrina Foster, pastora luterana há 21 anos, me disse: ‘Eu não me interesso mais pela embalagem física desses candidatos. ’ A pastora Foster, que é gay, reconhece que a família Clinton finalmente tomou uma posição sobre os direitos homossexuais. “Mas agora nós já conquistamos direitos, estou mais interessada com o que nós perdemos – o que significa ser um americano. ’ Ela está inclinada a apoiar Bernie Sanders.

Um imenso número de mulheres jovens têm apoiado com entusiasmo a campanha de Sanders. A afirmação presunçosa de Gloria Steinem de que essas mulheres foram em direção a ele porque “é o que todos estão fazendo” é apenas um exemplo da crescente falta de conexão ente a velha guarda e a juventude. Há também o comentário infame de Madeleine Albright de que “há um lugar especial no inferno para mulheres que não ajudam umas às outras”, o que oferece uma lição valiosa sobre dialética. Por 25 anos esses argumentos aparentemente funcionaram bem com o público, mas agora as coisas são completamente diferentes. O discurso não apenas deu errado como teve efeito contrário. A própria Clinton repreendeu as mulheres jovens como uma mãe desapontada por não apoiarem sua candidatura, incluindo esta jovem mulher negra (link).

Um artigo recente no New York Times oferece reflexões valiosas sobre este crescente choque de gerações, baseado em debates com estudantes da Penn Sate University:

[inicia citação]

Ela e seus amigos destacam que o país já tem um presidente negro; eles se veem em um mundo pós-gênero. Como disse a também afro-americana Srta. Sandidge, “Eu não acho gênero tão importante. ”…

É como se a campanha de Clinton, parcialmente baseada em revelar o poder do voto feminino, tivesse ao invés disso revelado outra coisa: um abismo de geração que ameaça miná-la. Separado por idade, os resultados são ainda mais impressionantes: Ela venceu por 19 pontos percentuais entre mulheres com mais de 65 anos, mas perdeu por uma margem enorme, 59 pontos, entre os eleitores mais jovens com idades entre 18 e 29 anos…

“Muitas mulheres jovens têm como garantidas algumas das conquistas pelas quais suas antecessoras lutaram e se identificam fortemente com os problemas comuns de sua geração – débito estudantil, conseguir um emprego em um país pós-recessão e a luta pelos direitos dos homossexuais e uma visão mais flexível de gênero do que aquela aceita por seus pais…

Pesquisas sugerem que americanos de ambos os partidos há muito se tornaram abertos a uma figura feminina ocupando a Sala Oval. Em 1999, quando Elizabeth Dole sugeriu concorrer nas prévias republicanas de 2000 (o que ela fez, sem sucesso), a organização de pesquisas Gallup descobriu que 92% dos americanos votariam em uma mulher. A Sra. Lake disse que esse número era exagerado, uma vez que os eleitores tendem a não ser completamente honestos com os pesquisadores. Mesmo assim, quando a Gallup fez a pesquisa pela primeira vez em 1937, o resultado foi de 33%.

Como diz Kellyanne Conway, estrategista do comitê de campanha do senador texano Ted Cruz, é impossível dissociar a questão teórica das mulheres da realidade de um candidato específico. Se as mulheres jovens não estão animadas com Clinton, diz Conway, é porque rejeitaram seu discurso ou não se identificaram com ela.

“A pessoas se perguntam mais ‘Você quer uma mulher como presidente? ’”, diz ela. “Agora elas se perguntam ‘você quer essa mulher? ’”

Eleitores negros

E quanto ao tão falado “voto negro”, que supostamente era garantido à Hillary? No início das prévias, Sanders foi confrontado por ativistas do movimento Black Lives Matter (Vidas Negras São Importantes) que chamaram sua atenção publicamente por não fazer da violência policial parte central de sua campanha. Para muitos, este conflito pareceu a confirmação de que um “cara branco e velho” não poderia se conectar com os eleitores negros. A resposta de Sanders foi levantar a questão da violência policial em seus discursos e trazer diversos ativistas do Black Lives Matter para sua equipe, muitos dos quais tiveram papel essencial conseguindo apoio em estados como a Carolina do Sul.

Hillary perdeu este estado chave para Obama em 2008 e dessa vez havia um sentimento de que os negros da Carolina do Sul estavam “em dívida” com os Clintons. Esta opinião foi levantada pelo ex-assessor democrata no senado e nativo da Carolina do Sul, Jimmy Williams, em um artigo anterior às primárias publicado na MSNBC: “A liderança de Hillary na Carolina do Sul é simplesmente insuperável graças especificamente ao voto dos negros e esta visão de que ele [Sanders] está arrancando eleitores negros dela é um mito. O que os eleitores negros da Carolina do Sul querem é simples, eles querem alguém que ame a Deus, não minta para eles, proteja a América e lute contra o racismo. Além disso os Clintons estão literalmente em casa com os negros da Carolina do Sul. ”

No entanto, essa atitude paternalista que enxerga os eleitores negros como mero capital político, uma amálgama de favores enganosos a serem evocados durante as eleições, teve efeito contrário entre a juventude. Apesar de Hillary ter obtido sucesso em manter o apoio da maioria dos eleitores negros, há um claro abismo de gerações à medida que os jovens se deslocam em direção a Sanders. Sanders se mostra como sincero e honesto e isso provoca identificação com aqueles que estão fartos da máquina eleitoral artificialmente coreografada de Clinton, baseada em pesquisas de intenção de voto. Mais importante, isso desmente o mito de que os eleitores negros só se importam com “temas da comunidade negra. ”

Questões como a violência policial mexem profundamente com os negros americanos, mas a realidade é que este grupo muitas vezes mais oprimido da classe trabalhadora tem pouco a perder e muito a ganhar se o capitalismo for substituído por socialismo genuíno. Historicamente, há um profundo sentimento pró-radicalismo, pró-socialista, anti-imperialista e pró-sindicatos entre a população negra. Trabalhadores negros são mais propensos a estarem sindicalizados que qualquer outro grupo demográfico. A grande maioria dos negros americanos são trabalhadores, muitas vezes aqueles com piores salários, e são os problemas da classe trabalhadora que mexem mais com eles.

Novamente, a realidade é concreta. O apelo de Sanders por socialismo, aumento do salário mínimo e educação e saúde universais provocam identificação muito maior entre o trabalhador negro médio, principalmente os mais jovens, do que qualquer coisa que Bill Clinton tenha feito “pelos negros” há 20 anos. Mesmo assim, Sanders enfrentou uma luta difícil para superar décadas de preparação política para estas eleições. Os Clintons são um nome familiar e estão efetivamente em constante campanha presidencial desde os anos 1970 – prometendo “oito anos de Bill, oito anos de Hill. ” Mas novamente o choque de gerações está vindo à tona.

Quanto aos eleitores LGBTQ+, Sanders tem apoiado o casamento igualitário por décadas, enquanto Clinton de maneira oportunista só recentemente mudou sua posição para se alinhar à opinião da maioria. É difícil encontrar estatísticas sólidas, mas as declarações no New York Times citadas acima parecem indicar que não há mais nenhum grupo cujo voto seja garantido ao candidato do establishment do Partido Democrata. Os eleitores latinos, ainda que em grande maioria apoiadores de Clinton, estão menos entusiasmados com o Partido Democrata do que no passado, como ficou evidente em Nevada. Certamente há um abismo de gerações se aprofundando entre eles também.

O movimento trabalhista

Isso nos leva à tão importante e decisiva questão: a classe trabalhadora organizada. Embora numericamente enfraquecidos por décadas de ataques e traições de lideranças colaboracionistas, os trabalhadores sindicalizados representam uma força poderosa na sociedade. Em 2015, a taxa média de sindicalização era de apenas 11.1%. No entanto, isso representa 14.8 milhões de trabalhadores sindicalizados, além de outros 1.6 milhão que declaram não fazer parte de um sindicato, mas cujas profissões estavam cobertas por acordos sindicais. No setor público, 35.2% dos trabalhadores são sindicalizados, principalmente professores e servidores federais, estaduais e municipais. Enquanto apenas 6.7% dos trabalhadores do setor privado são sindicalizados, os que são estão em setores chave da economia: Serviços essenciais como água e eletricidade (21.4%), transportes e armazenagem (18.9%), serviços educacionais (13.7%), telecomunicações (13.3%) e construção civil (13.2%).

Houve tensões entre diversos sindicatos sobre apoiar Clinton ou Sanders. Alguns dos maiores sindicatos correram para endossar a candidatura de Clinton logo no início da campanha para evitar esse tipo de problema. Apesar da pressão de cima por “não trocar o certo pelo duvidoso”, muitos sindicatos foram em frente e declararam apoio a Sanders mesmo assim, incluindo os influentes União Nacional de Enfermeiros, Sindicato Americano dos Trabalhadores Postais e o Trabalhadores Americanos da Comunicação. Em um claro aceno à pressão contra um presumível apoio a Clinton, o AFL-CIO (Federação Americana do Trabalho e Congresso de Organizações Industriais) decidiu se abster de apoiar um ou outro candidato por enquanto.

Muitos trabalhadores estão animados com Sanders mesmo ele concorrendo como democrata. Outros milhões ainda não estão convencidos justamente por sua associação com o partido no poder. Apesar do programa de Sanders ser puro reformismo de esquerda, ambos os grupos mostram que existe sim uma base natural para um partido trabalhista baseado em sindicatos e que consiga apoio para ideias socialistas.

A ampla base de financiamento da campanha de Sanders destaca esse potencial. Ele recebeu doações de mais de quatro milhões de indivíduos e superou o financiamento de Clinton em fevereiro (US$43 milhões contra os US$30 milhões dela). Sua recusa em receber dinheiro de Wall Street é sua principal fonte de apoio. Os sindicatos têm recursos ainda maiores, além de toda a rede de contatos e infraestrutura que, se for mobilizado em todo o seu potencial, poderia organizar uma campanha massiva voltada para conseguir os votos dos membros para uma campanha independente. Em muitos estados, se não fosse pelos sindicatos, Clinton teria de enfrentar uma luta severa. Se essa fonte fosse cortada e canalizada para uma campanha presidencial independente em apoio a Sanders, seria efetivamente o fim do Partido Democrata como é conhecido.

Como um partido trabalhista será constituído?

É possível que a divisão entre os democratas possa levar à formação de um partido trabalhista? É claro que sim. Por anos nós temos falado que uma cisão entre os democratas, que eventualmente levaria à quebra dos maiores sindicatos, é uma possibilidade. No Brasil, o Partido dos Trabalhadores (PT) foi formado com base em diversos pequenos sindicatos e na classe trabalhadora de maneira geral antes de eventualmente superar os grandes sindicatos através da Central Única dos Trabalhadores (CUT). Nós até mesmo mencionamos potenciais democratas, como Dennis Kucinich, que em determinado momento poderia ter rompido com o partido por causa do apoio às guerras do Iraque e Afeganistão. Destacamos também o potencial apoio de sindicatos como a União Nacional de Enfermeiros, cujos líderes deram suporte aos breves esforços para a formação de um partido trabalhista nos anos 1990.

Os marxistas americanos nunca tiveram uma abordagem rígida, nem afirmaram mecanicamente que o processo seria exatamente como foi no Reino Unido, onde os sindicatos tomaram a iniciativa de construir o partido político, apesar de que nem mesmo lá o processo aconteceu de forma linear. Essa foi nossa hipótese básica de trabalho, baseada nas condições dos EUA, mas nós sempre deixamos aberta a possibilidade para outras variantes. Dado o estado das lideranças sindicais, nós acreditamos que este não é o cenário mais provável e que deveria ser algo muito mais indefinido nos estágios iniciais. Mas a necessidade objetiva permanece a mesma: um partido classista independente com o apoio de diversos sindicatos, mesmo que nem todos rompam com os democratas de uma vez.

Claramente não há nenhum roteiro preconcebido que possa ser imposto, uma vez que seria impossível delimitar com antecedência o caminho exato para um partido trabalhista. O que podemos dizer é que, seja qual for a forma que ele tomar, sua consolidação seria um processo político e econômico com muitas camadas de lutas, tanto dentro quanto fora da estrutura sindical existente, que se reuniriam ao longo do tempo. Dependendo de como os eventos se desenrolassem, é até possível que o futuro partido trabalhista seja chamado “O Partido Democrático”. Se for esse o caso, estaremos lá junto com nossa classe. O que nos preocupa acima de tudo é o conteúdo de um partido como esse e não a aparência ou nome. Quaisquer que sejam os caminhos tortuosos que a história tome, nós manteremos nossa afinidade com a classe trabalhadora e suas organizações, lutando por nosso programa e pela revolução socialista.

Infelizmente, a atual safra de líderes trabalhistas pró-capitalismo não tem qualquer interesse em balançar o barco. Na verdade, eles se tornaram o maior obstáculo objetivo no caminho de uma organização independente da classe trabalhadora, tanto política quando econômica. Mas a luta de classes que está por vir estremecerá violentamente a liderança trabalhista. Eles não mais poderão se arrastar em promessas vazias de que coisas melhores virão se  estes males menores forem suportados. Esse discurso funcionou em 2008 e 2012, mas literalmente sem nenhuma compensação dada por Obama esta será uma ideia cada vez mais difícil de vender.

Quem quer que termine como candidato democrata, a pressão do discurso de aceitar o “mal menor” para “derrotar a direita” atacará sem misericórdia nas eleições gerais. Para nos ajudar a ter fundamentos para resistir a essa investida, nós precisamos ter claro que o discurso sobre o “mal menor” representa a pressão das classes alienadas: tanto aquelas que não querem que os trabalhadores tomem o poder político e econômico quanto aquelas que não têm qualquer confiança de que isso seja possível.

Apesar das pesquisas não deixarem claro se Trump pode ser derrotado por um democrata, resta ver se o mantra acerca do “mal menor” terá o mesmo efeito que teve no passado. As pessoas param de acreditar quando se toca o alarme muitas vezes e nada acontece. A lição amarga que os trabalhadores americanos serão forçados a aprender em algum momento é que sem construir uma alternativa viável ao “mal menor”, o “mal maior” mais cedo ou mais tarde dará um jeito de voltar ao poder. Não é necessário dizer que um mandato de Trump como presidente rapidamente desenganaria aqueles iludidos por sua demagogia populista, posteriormente minando o apoio ao sistema bipartidário e criando ainda mais apoiadores para um partido trabalhista. A onda de protestos e mobilizações que a eleição de Trump despertaria traria ainda mais instabilidade para essa equação.

Qual caminho seguir?

As contradições e disparidades do capitalismo estão, em várias maneiras, mais agudas e intratáveis nos EUA que em qualquer outra parte do planeta. A camada protetora de gordura adquirida durante os anos do pós-guerra está sendo queimada rapidamente. Praticamente todas as instituições chaves do poder capitalista estão desacreditadas. A velha guarda de ambos os partidos está rapidamente queimando seu capital político, o que significa que haverá ainda menos espaço para manobras no futuro. A classe capitalista não tem mais certeza de como manter seu poder. Essa é a explicação para a incrível variedade de candidatos que se apresentaram para as eleições deste ano.

Uma enorme quantidade de energia está se formando nos EUA e assim que ela encontrar uma saída irá colocar o mundo inteiro em uma nova direção. Se Sanders perder as prévias, escolher não apoiar Clinton e ao invés disso concorrer por conta própria, isso terá consequências de longo alcance. Mesmo que ele perca as eleições para presidente em 2016, isso poderia assentar as bases para uma alternativa popular da classe trabalhadora em todos os níveis da política americana. Isso forçaria as lideranças sindicais para fora de sua indolência e renovar a energia da militância, alargando o abismo que existe entre os interesses das duas partes. No entanto, nada disso é garantido neste ciclo eleitoral e nós teremos que observar atentamente como as coisas se desenrolam.

Uma coisa é certa: a questão sobre como o socialismo é visto nos EUA nunca mais será a mesma. Nós marxistas podemos nos fortalecer como resultado, mas é crucial que tenhamos parcimônia e nos posicionemos em direção ao futuro. Há uma grande diferença entre ter perspectivas e pensar positivo, assim como há uma grande diferença entre o primeiro e o nono mês de gestação. Não há atalhos para a construção do partido revolucionário. Nós estamos nos primeiros dias deste processo e não podemos nos deixar levar. Os próximos meses serão extremamente interessantes e importantes, mas os anos futuros serão ainda mais históricos e nós precisamos nos preparar para isso.

Nós não podemos tomar qualquer responsabilidade em relação aos democratas em sua forma atual. Sanders é um acidente histórico, uma vez que preencheu um vácuo que naturalmente não poderia existir por muito tempo. O mais importante não é Sanders ou sua candidatura em si, mas as forças sociais que ele despertou para a vida e a atividade política. Aqueles mais interessados em aderir a uma organização marxista revolucionária como a Corrente Marxista Internacional podem ser vistos entre os democratas. Como nós já explicamos, eles estão animados com Sanders a despeito dos democratas e não por causa deles. Eles podem ver que o apoio à sua campanha representa uma mudança nas marés da opinião pública e podem sentir a oportunidade que isso representa para espalhar as ideias socialistas.

Mesmo que Sanders consiga ser eleito como democrata, nenhum dos problemas fundamentais dos trabalhadores americanos pode ser resolvido dentro dos limites do capitalismo. Da mesma maneira, se ele romper com os democratas e concorrer como independente, a necessidade fundamental de romper com o capitalismo permaneceria. Não há direção a seguir dentro desse sistema. Nós precisamos explicar que mesmo as mais modestas reformas seriam difíceis, senão impossíveis de implementar em meio à crise capitalista e que mesmo se algumas reformas positivas possam ser arrancadas dos patrões, a exploração e a opressão capitalistas continuarão. Será preciso muito mais que um voto na urna, a aprovação de algumas leis ou uma modesta taxação dos ricos para mudar a sociedade. Nós precisamos explicar pacientemente que o que é realmente necessário é a nacionalização dos grandes bancos e das maiores fortunas sob controle democrático dos trabalhadores para que sejam usados pelo em prol do interesse da maioria, não do 1%.

Sanders costuma dizer que sua campanha “não se trata apenas de eleger um presidente, mas de transformar a América”. Ele também declarou diversas vezes que uma única pessoa não é capaz de produzir o nível de mudança que é necessário. Milhões de pessoas podem se conectar com essas afirmações e querer fazer algo sobre isso. Até agora Sanders tem se reservado a atuar dentro do sistema político e econômico vigente. Ele pediu de maneira abstrata por um movimento popular em apoio à sua candidatura, mas não iniciou o processo através do qual as estruturas organizacionais necessárias podem de fato ser construídas, estruturas essas que simplesmente não existem e não podem existir dentro dos parâmetros da máquina do Partido Democrata.

A Super Terça expôs graficamente as limitações de se tentar mudanças através do Partido Democrata e o potencial existente para a criação de algo viável fora dessa máquina eleitoral. É por isso que dizemos: se você quiser lutar pelas ideias progressistas de Bernie Sanders e contra os bilionários, você precisa romper com os democratas, romper com o capitalismo, construir um partido trabalhista e lutar pela revolução socialista! Embora para muitos isto soe “radical demais”, aqueles que estão procurando por soluções sérias para uma crise séria estão bastante abertos a essas ideias. E, como temos observado, opiniões podem mudar rapidamente. Milhões dos que rejeitam esta perspectiva hoje irão abraçá-la no futuro.

Através de uma série de tentativas, a classe trabalhadora americana testará um partido e líder após o outro. Em algum momento, os trabalhadores americanos chegarão à conclusão de que é necessário nada menos que uma revolução socialista. Como Leon Trotsky explicou em “Se a América do Norte fosse comunista”, “No entanto, o comunismo só poderá ser instalado na América através de uma revolução, assim como foi com a independência e a democracia. O temperamento americano é enérgico e violento e aceitará quebrar uma boa quantidade de ovos até que o comunismo seja firmemente estabelecido. Os americanos sãoentusiasmados e têm espírito esportivo, além de se pensarem como especialistas e terem visão de estadistas, e seria contrário à tradição americana realizar uma grande mudança sem que se tome partidos ou entre em conflitos. ”

Dentro da realidade americana, esse processo se desenrolará em diversos episódios dramáticos. Haverá vitórias animadoras e derrotas desmoralizantes, mas os trabalhadores aprenderam com a experiência. O que dá mais coragem para o futuro é a atitude dos jovens. Essa é a real garantia de transformações fundamentais nos EUA e em todo o mundo durante o período histórico em que entramos.

A crise do capitalismo não terminará até que o capitalismo tenha terminado e antes que a necessária liderança revolucionária seja forjada, acabar com o capitalismo será impossível. Se os marxistas não estiverem presentes em números suficientes quando a revolução atingir o rompante, a enxurrada revolucionária acabará estancando. Isso deve nos imbuir de senso de urgência.

Engels sobre a classe trabalhadora americana

Frederick Engels, que colaborou com Karl Marx a vida inteira, fez a seguinte acusação contundente sobre a política americana em 1892, o que oferece reflexões úteis sobre o apoio a Donald Trump 124 anos depois: “O pequeno agricultor e o pequeno-burguês dificilmente obterão sucesso em formar um partido forte; eles consistem em elementos que mudam muito rapidamente – o agricultor é normalmente um nômade que cultiva duas, três ou quatro fazendas sucessivamente em diferentes estados e territórios, a imigração e a falência promovem mudanças de pessoal e a dependência econômica em relação ao credor também dificulta a independência – mas em compensação são um esplêndido elemento para os políticos, que especulam com  seu descontentamento para no fim das contas entregá-los nas mãos de um dos grandes partidos.

“A tenacidade dos ianques, que estão até mesmo refazendo a farsa do papel-moeda, é resultado de seu atraso teórico e seu desprezo anglo-saxão por qualquer teoria. A punição por esse pensamento vem em forma de uma crença supersticiosa em qualquer absurdo econômico ou filosófico, de sectarismo religioso e de experiências econômicas estúpidas, mas das quais alguns burgueses tiram lucro. ”

Mas o mesmo Engels fez as seguintes observações em 1886 sobre o processo de formação de um partido trabalhista:

“O primeiro grande passo relevante para qualquer país que esteja entrando no movimento é sempre a organização dos trabalhadores em um partido político independente, não importa como, desde que seja um partido distinto e que represente os trabalhadores. Esse passo já foi tomado, bem mais rápido do que nós poderíamos esperar, e isso é o mais importante. Que o primeiro programa deste partido ainda seja confuso e altamente deficiente e que ele tenha levantado a bandeira de Henry George são males inevitáveis, mas também transitórios. As massas precisam de tempo e oportunidade para se desenvolverem e elas só podem fazer isso se tiverem seu próprio movimento – não importa em que forma, desde que seja seu próprio movimento – no qual eles irão avançar e aprender através de seus próprios erros e conflitos.

“O movimento na América está na mesma posição em que estávamos antes [das revoluções] de 1848; as pessoas realmente inteligentes de lá terão, antes de tudo, o mesmo papel que desempenhou a Liga dos Comunistas entre as associações de trabalhadores antes de 1848, com a exceção de que na América as coisas acontecerão infinitamente mais rápido… Se nós europeus não nos apressarmos, os americanos rapidamente estarão à nossa frente. Mas é justamente agora que se faz duplamente necessário ter lá algumas pessoas do nosso lado com uma posição firme quando teoria e táticas já consagradas forem necessárias. ”

Com um atraso de mais de um século, a classe trabalhadora americana está novamente espanando a poeira de uma longa hibernação e procurando alternativas para o existente estado de coisas. Em um mundo de distrações, estímulos sensoriais e informações sem fim, a necessidade de claridade teórica, perspectivas e paciência é maior do que nunca. Águas turbulentas são sempre turvas e confusas, e as coisas devem ficar ainda mais complicadas antes que se clareiem. Mas nós estudamos o materialismo dialético por um motivo: aplica-lo a processos complexos como esse.

É dito que a hora mais escura vem sempre antes do amanhecer. Os marxistas atravessaram um difícil período em que as ideias socialistas foram marginalizadas na sociedade americana e prevaleceu a indisposição e a apatia política. Nós tivemos relativamente poucas oportunidades de nos conectar com camadas mais amplas dos trabalhadores e da juventude, mas isso está começando a mudar. Embora ainda haja muitas nuvens cinzentas no céu, os primeiros raios de sol começam a brilhar sobre o horizonte. À medida que a curva dos desenvolvimentos históricos se acelera, nós conseguimos olhar adiante com grande otimismo em um futuro socialista revolucionário.

Artigo publicado originalmente em 4 de março de 2016, no site da Corrente Marxista Internacional, sob o título “USA: Revolution on the Horizon”

Tradução de Felipe Libório.

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