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Eu, Daniel Blake — Crítica

O novo filme de Ken Loach poderia ser descrito como uma obra dedicada a relatar o drama do trabalhador contemporâneo diante da austeridade.

Uma crônica sobre as consequências da austeridade para classe trabalhadora

Muitas vezes a arte possui a capacidade de perceber as contradições de uma época de forma muito mais clara e sensível. Economistas, jornalistas e sociólogos acabam ficando atentos aos números e não percebem a vida nos processos de crise — Karl Marx dizia ter aprendido muito com Balzac sobre economia. O novo filme de Ken Loach poderia ser descrito como uma obra dedicada a relatar o drama do trabalhador contemporâneo diante da austeridade. Indiferente do filme se passar na Inglaterra, a narrativa transcende fronteiras.

Daniel Blake (Dave Johns), personagem principal, é um idoso impedido de trabalhar pelos médicos por ter sofrido um ataque cardíaco. Não tendo como se manter, ele busca receber o seguro — algo semelhante ao encosto no Brasil—, mas acaba esbarrando na burocracia estatal. Blake inicia então uma jornada de longas filas e idas e vindas, em uma espécie de INSS inglês. Em uma dessas “incursões”, ele conhece Katie (Hayley Squires), uma mãe solteira de duas crianças, passando por situações parecidas com a dele. Os dois acabam ficando próximos e tem uma relação semelhante de pai e filha.

A escolha de uma mãe solteira e de um trabalhador idoso mostra a sensibilidade do cineasta para um setor vulnerável dos explorados. Blake é um trabalhador prático, um peão, como costumam dizer no chão de fábrica, que não consegue lidar com tecnologia, mas faz tudo com um prego e um martelo. Enquanto Katie engravidou cedo, e como o pai das crianças as abandonou, ela largou os estudos para trabalhar e cuidar dos filhos.

Katie e Blake não são militantes, nem possuem nenhum engajamento político. Na história do período seriam chamados de anônimos. Com personagens “comuns”, o cineasta consegue criar uma identificação com os explorados do mundo todo. Ao assistirem o filme, trabalhadores brasileiros enxergarão a si mesmos nas diversas situação pela qual passam os atores. As filas, procura de emprego, mau atendimento de serviço público, profissionais mal preparados para atendê-los. A miséria e voracidade do capital desconhecem fronteiras.

A obra de loach é uma crônica sobre as dificuldades dos trabalhadores diante da austeridade. Não é feita de grandes personagens históricos, como líderes de sindicatos ou partidos, muito menos de uma grande produção. A crônica é uma narrativa “miúda”, ocupa colunas de jornais e trata muitas vezes de anônimos de um ponto de vista pessoal.  “Eu, Dainel Blake” é assim um filme-crônica, a trama caberia perfeitamente em uma coluna, mas devido às particularidades do cinema, ela acaba sendo transformada em um longa.

O roteirista Paul Laverty disse ter lido muito sobre o drama das pessoas nos jornais para escrever o filme. Isso reforça a ideia de crônica, pois a base são as histórias reais, dramas do cotidiano.

A narrativa possui um tom pessoal e o estilo de documentário, vemos isso na cena da pichação e nas ruas. A forma de enquadramento, no qual a câmera parece registra as cenas à distância, sem interferir, lembra o documentário. Não há trilha também, ouvimos ruídos e só. Não tendo música, nossa atenção fica voltada toda para os diálogos e atores.

A direção de elenco é sempre um elemento marcante da obra do cineasta, não há grande atuação no filme, mas os diálogos são sempre bons. Loach dirige os atores como se eles estivessem em um documentário, são pessoas reais em cena. O enquadramento da câmera, em certa distância, como um observador e a montagem lenta, sem muitos planos ajudam nessa percepção.

Ken Loach

Autor de mais de 40 longas, o diretor tem uma grande trajetória no cinema político. O estilo sociorrealista, do qual ele é um dos fundadores, tem a características de abordar a relação capital, trabalho e classe. Entre suas obras mais importantes estão Terra e Liberdade e Ventos da Liberdade. Loach não é apenas um cineasta, mas um militante para o qual a arte serve para desnudar as contradições de nosso tempo.

É absurdo quando críticos de cinema falam sobre o filme, como “apesar dos ísmos”, “olhando para além da política”. Parecem querer encontrar uma neutralidade no olhar, quando Loach faz do cinema uma obra declaradamente de protesto. Além disso, eles parecem buscar na arte uma imagem desprovida de paixão, um absurdo completo.

Outro equivoco são os jornais verem o filme “apenas” como uma resposta aos pacotes de austeridade europeus, como se a obra quisesse provocar as elites e os governos. Não acredito em apenas esse motivo. Além de uma provocação, Loach quer passar uma mensagem de resistência. Quando perguntado por um jornalista do El País como queria ser lembrado, ele responde: como alguém que não se rendeu. Aos 80 anos, o artista marxista diz: “não se render é importante, porque a luta continua. E as pessoas tendem a se render quando ficam velhas”.

Sim camarada, nós não nos rendemos.

* João Diego é jornalista e crítico de cinema.

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