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Jessica Dominguez Delgado (à esquerda), estudante da Faculdade de Comunicação da Universidade de Havana e membro do projeto Escaramujo.

“Esta luta não é de um só país”: entrevista com uma jovem cubana

Entre os dias 31 de julho e 6 de agosto, na cidade de Havana, a “Escola Política Hugo Chavez”, organizada pelo Proyecto Nuestra América, reuniu diversas organizações e movimentos sociais de dentro e de fora de Cuba para discutir economia e poder popular. Entre os pontos em comum dos grupos presentes na escola estão: crítica e combate à burocracia cubana e às medidas de abertura econômica, defesa da necessidade de um verdadeiro controle popular da sociedade e a importância do internacionalismo (solidariedade à Cuba e necessidade de lutar pelo socialismo no mundo).

Entrevistamos Jessica Dominguez Delgado, estudante da Faculdade de Comunicação da Universidade de Havana e membro do projeto Escaramujo, que coorganizou a escola. Apesar das pequenas diferenças (indicamos a leitura de nossos textos sobre Cuba), entendemos a importância da opinião dessa jovem por apresentar um panorama do país hoje e como setores críticos do regime combatem para salvar e aprofundar a revolução iniciada há quase 60 anos.

EVANDRO COLZANI: O que é o Escaramujo e quando foi criado?

JESSICA DELGADO: O projeto [Escaramujo] surgiu em 2010 como parte da tese de licenciatura de um estudante de Jornalismo da Universidade de Havana e, desde a data de criação até o presente momento, tem continuado trabalhando e atraindo jovens da faculdade, mas não somente da Faculdade de Comunicação e Jornalismo, também de Psicologia e Ciências Médicas e já se estende por outras zonas do território nacional, como por exemplo Santiago de Cuba, Camaguey.

O que queremos e como o fazemos? Basicamente o que nos direciona é a transformação social e contribuir a partir da “educomunicação”, ou seja, uma educação juntamente com a comunicação.

Agora trabalhamos fundamentalmente com crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade social. O projeto começou quando criaram as Escolas de Educação Integral em Cuba, escolas destinadas a crianças e jovens que cometeram crimes reconhecidos pelo Estado. As crianças não vão para a cadeia e sim para essas escolas, onde possuem um processo educativo diferenciado e podem superar os problemas.

Dentro do sistema docente cubano essas escola em particular possuem muita relação com a família e com a comunidade. Nelas há um “isolamento” do menor de idade de maneira temporária dentro da escola, e ali será desenvolvido um processo de evolução de sua conduta e comportamento.

A maioria dos adolescentes que chegam a essas escolas vem de um contexto social muito desfavorável, onde a família e o bairro são realmente focos de problemas em suas vidas.

Nós fazemos o seguinte: uma vez por ano, no período de 15 dias, ficamos com eles e fazemos oficinas durante esse período sobre vários temas, desde a comunicação para formar valores a maneiras de enfrentar essa realidade social através de “ferramentas”. O objetivo é que possam superar-se, entender a comunicação e o contexto que os rodeiam. E cada sessão desses encontros são especiais de acordo com a necessidade e a realidade de cada grupo.

A maioria desses garotos vieram de um contexto familiar que não puderam ter, desde sua infância, meios de ter um desenvolvimento maduro, de brincar e de viver a plenitude desse período da vida.

E é nesse contexto que surge esse projeto e não apenas para adolescentes que cometeram crimes, mas também para adolescentes que vivem em situação de vulnerabilidade.

E.C.: Você fala de valores que são transmitidos, quais valores são esses?

J.D.: Nós fomentamos a solidariedade e a amizade como valor. Tratamos temas de gênero, justiça etc. e o foco principal é sobretudo o contexto familiar e os valores humanos.

A comunicação sempre foi o pretexto num sentido amplo, desde a comunicação interpessoal, grupal, até a comunicação social. Como sujeitos atuantes e pensantes num contexto de meios de comunicação massivos, onde nem sempre estão recebendo valores positivos. Falamos também sobre Cuba, do seu sentido de país, a partir da necessidade do grupo.

O objetivo do projeto é bem similar aos objetivos das Escolas de Educação Integral, embora os métodos que a escola utiliza nem sempre sejam os mais acertados. É diferente.

Nós trabalhamos entendendo que esses jovens têm saberes e podem e têm um critério que está em construção. A educação em Cuba, não somente nessas escolas mas em um sentido geral, compartilha um regime educativo tradicional e militar flexível, porém militar. Então quando o projeto chega, não há recursos suficientes para atender o propósito do sistema que é  considerado educativo para eles.

Nós não substituímos a escola, apenas acreditamos que podemos ajudar e contribuir para o processo de amadurecimento. A ideia do projeto é criar mais oportunidades para tirar os jovens desse contexto.

E.C.: De onde vem o nome Escaramujo? Quais as evoluções dos projetos desde a sua criação?

J.D.: O projeto se chama assim por conta de uma música do cantor cubano Silvio Rodriguez. Nessa música há uma frase que diz “Yo vine para preguntar/Soy de la rosa y de la mar”.

Nós somos jovens universitários em sua maioria e acreditamos que viemos de um contexto e vamos para outro, todos somos cubanos e estudantes e vivemos de perguntar.

Dentre as conquistas do projeto, ampliamos para o Ensino Médio, trabalhamos para um concurso que é feito no país com crianças e trabalhamos também com crianças que não estão em vulnerabilidade social. Desenvolvemos um evento chamado “adolecer” para tratar as dificuldades e também para inquirir a nós mesmos ao tratar desses casos e, para nós que somos comunicadores, aprender mais sobre eles também é importante.

Dentro desse projeto, foram desenvolvidas várias teses para a universidade dentro desses próprios temas envolvidos com esses jovens.

Lembro-me especialmente de um caso muito bonito, de um jovem que conhecemos na escola e depois que saiu nos encontrou e o convidamos para coordenar com nós o projeto dentro da escola. Há vários outros casos de jovens que nos procuram, nos escrevem, ou seja, cria-se uma relação de confiança que se mantém muito tempo depois do período que o jovem tem que ficar na escola.

Outra coisa é a organização do projeto, pois ela em si é muito democrática. Nós nos reunimos uma vez por mês e todas as decisões são levadas para esse espaço e ali mesmo são decididas. Se há alguma decisão que deva ser tomada de maneira imediata, existe uma coordenação, são feitas reuniões extraordinárias. E assim são tomadas as decisões, coletivamente. E todos os que passaram pelo projeto consideramos como parte dele, pois as pessoas têm momentos que estão mais ou menos ativas e, dessa forma, podem entrar e sair quando querem.

E.C.: Qual a relação do Escaramujo e o Proyecto Nuestra América?

J.D.: Esses são dois projetos voltados para jovens cubanos preocupados com sua realidade social. Embora sejam um pouco distintos, ambos possuem uma preocupação política com uma educação popular e política que busque a transformação. E temos o desejo de uma Cuba justa e com mais igualdade social. Temos um objetivo em comum, fazer uma Cuba melhor para todos.

E.C.: Durante a escola discutimos sobre o risco de restauração do capitalismo em Cuba. O que você pensa sobre isso? Qual a situação de Cuba hoje?

J.D.: Analisar Cuba é complicado, porque há muitas dimensões que atravessam a realidade social onde apenas um só sujeito não tem alcance. Acredito que Cuba realizou uma série de transformações sociais. A Revolução Cubana significou uma mudança, uma ruptura social, uma erupção revolucionária que transformou a sociedade cubana. A revolução passou por etapas diferentes em relação ao âmbito político da organização que foi dado. Desde a transformação simbólica, ou seja, desde o momento em que foi dada a revolução, há muitas contradições evidentes na sociedade. Desde a teoria até a prática do ideal dos primeiros anos [da revolução], onde evidentemente os acontecimentos internacionais deixaram marcas na sociedade cubana. Como o período especial, por exemplo.

A Escola Política Hugo Chavez debateu, principalmente, sobre o futuro da Revolução Cuba.

O Estado cubano, conscientemente acredito, tenta tomar medidas econômicas e sociais para sair dessas crises pelo próprio statu quo. Em Cuba há uma economia deformada, não deformada pelo processo revolucionário mas sim pelo processo de colonização, o período republicano de 1902 até 1959 que respondia diretamente aos interesses norte-americanos e que minou a economia cubana e também gerou distorções que perduram até agora. A economia é algo ainda não resolvido dentro do sistema de transição socialista da revolução cubana, é o que determina nesse momento grandes disputas de como aprofundar o processo da revolução cubana.  Acredito, como a maioria dos jovens, que a revolução deverá aprofundar-se, e as decisões tomadas até o presente momento são extremamente necessárias para a nossa sociedade subdesenvolvida. Porém a revolução é algo que não pode estancar-se e deve aprofundar ainda mais o processo revolucionário. Como aprofundar esse processo revolucionário é onde há desacordo entre as gerações, entre as pessoas que estão no poder, entre a burocracia que às vezes não permite as transformações necessárias.

É muito difícil dizer o que acontecerá com Cuba daqui a cinco anos, daqui a um ano. Há muitos ruídos na informação e muitas das informações que são necessárias para a sociedade não são acessíveis.

Para mim, particularmente, o tema econômico é preocupante porque sinto que as medidas que foram tomadas para tratar de tirar a revolução da crise econômica constituem um retrocesso dentro do processo socialista e que pode minar o processo revolucionário. Está claríssimo que Cuba quer mais socialismo na prática, mas cada uns dos meios levam a uma capitalização da sociedade, eu acredito.

Além do mais há certa ineficiência do Estado no controle econômico dessas medidas e já se percebe a instabilidade. Também há problemas sociais acumulados, que hoje são difíceis de resolver e constituem uma pressão forte dentro da sociedade cubana. Muitos jovens hoje, e também os não tão jovens, decidiram resolver seus problemas sociais fora de Cuba. Também sinto que há uma despolitização da sociedade cubana que tem a ver com os problemas econômicos acumulados.

Outra questão é que as oportunidades de participação dentro do contexto cubano são limitadas e há uma estrutura institucional que tem definido as pautas de participação geral do povo a partir do sistema do poder popular que também se encontra em aperfeiçoamento neste momento. Estamos às portas, embora não saibamos quando, de uma reforma eleitoral e constitucional. Entretanto, esse sistema institucional gerado pela revolução não conseguiu reproduzir-se simbolicamente e muita gente não o entende. Muitas pessoas podem saber das instituições do Estado, do Partido e até mesmo conhecer algum funcionário do Partido, mas entender como funciona todo o sistema institucional em sua complexidade como sistema, saber quem toma as decisões, para quem deve dirigir-se, isso não está claro para a maioria das pessoas.

Por exemplo: em nível local, os municípios continuam sem autonomia e as decisões são tomadas de maneira vertical, vindo da Assembleia e do Conselho de Estado, passando pelos ministros e, em última instância, pelo poder local da Assembleia Popular através da figura do delegado do Poder Popular. No entanto, esse delegado não possui uma autoridade real.

Num sentido geral, não há uma claridade do funcionamento do sistema, de sua estrutura e da legitimidade que podem ter os cargos. Nesse contexto, os jovens não se sentem parte dessa estrutura, que para eles não possui legitimidade.

Os jovens são acusados de não participarem da sociedade. Isso ocorre porque eles  sentem que há todo um aparato muito grande que é enorme e impossível de mudar. Portanto são necessários projetos que mudem essa estrutura econômica e política.

Acredito que a história de Cuba é um exemplo de rebeldia e conquista de sonhos. A revolução propiciou a liberdade e os benefícios que hoje a sociedade cubana possui. Porém a luta que se segue há 58 anos não foi capaz de solucionar os problemas contemporâneos. Estamos vivendo grandes contradições econômicas, políticas e simbólicas.

Em minha opinião, as decisões econômicas do último período foram feitas dentro das estruturas capitalistas. Como diria Che, “Com las mismas armas melladas del capitalismo”. Sem a superação das estruturas econômicas capitalistas, não há a possibilidade de construção de uma economia com políticas socialistas, nem mesmo dentro do contexto revolucionário cubano.

Acredito que é ilusório pensar que com medidas e formas de gestão privadas cada vez mais crescentes se pode construir um melhor socialismo. Essa forma de gestão diminui cada vez mais a forma de gestão social e coletiva.

E.C.: O que você espera do futuro da Revolução Cubana?

J.D.: Eu acredito que cada vez mais se percebe a disputa dentro da realidade cubana. Tem diminuído o entendimento do que é socialismo. As ideias que se tem de socialismo são baseadas nas experiências dos países socialistas da Europa, da URSS em particular, e em Cuba, que reproduziu muitos dos erros que continuam hoje.

A construção filosófica do socialismo é algo que socialmente não se debate, as pessoas não estão pensando nisso e estão desgastados pela luta de 58 anos da conquista do projeto.

Dentro da sociedade, o socialismo que estamos falando para as pessoas comuns, que enfrentam vários problemas e cuja prioridade não está no campo teórico, é o que busca resolver suas necessidades mais imediatas: comida, vestuário, higiene e coisas básicas.

Agora, tampouco creio que seja desanimador no sentido de “tudo está perdido”. Acredito que a sociedade cubana possui grandes desafios. Em primeiro lugar, é preciso aprofundar a revolução para resolver necessidades imediatas e básicas. Aumentar a participação social para que haja poder político mais amplo e transformação econômica. Num contexto de aparente tranquilidade, onde as pessoas tentam resolver cada vez mais seus problemas de maneira individual, isso será cada vez mais difícil. Estamos perdendo cada vez mais espaços, perdendo cada vez mais pessoas.

Insisto, não acho que tudo está perdido, há muita gente e muitos jovens dentro do processo revolucionário cubano que lhes interessam viver em Cuba, tomar parte da vida social e política do país. Essas pessoas se interessam pela transformação social e tentam fazer coisas para transformar a realidade dentro de seus pequenos espaços cotidianos. E dessas pequenas experiências poderão emergir novos sentidos, pessoas que poderão criar uma nova mobilização, criar uma nova força com a capacidade mobilizadora que foi perdida, que permita manter e levar adiante um futuro socialista.

E.C.: Você quer deixar um recado para os jovens brasileiros que lutam pela revolução?

J.D.: Acredito que Escaramujo, Nuestra America e os outros projetos que você conheceu e que compartilhamos neste espaço são um exemplo da resistência e da possibilidade do sonho de uma Cuba melhor. A mensagem para os jovens brasileiros é: estamos aqui, estamos fazendo coisas e acreditamos em uma Cuba melhor, e por isso lutamos. A solidariedade, a unidade, a luta de Cuba não é apenas a luta de Cuba. É da América. Cuba não mudou nunca a condição continental da luta, não é apenas a realidade social vivida por um só país, mas estamos lutando contra a hegemonia capitalista mundial. Essa luta não é de um só país, Cuba é um exemplo de que sozinho não é possível lutar. Em grande medida, os problemas que vivemos hoje são parte de uma resistência e uma luta desigual de 58 anos, portanto é preciso unidade!

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