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“Esse é o cara! Eu amo esse cara!”

Declaração de Obama para Lula no final da reunião do G-20 em Londres.

Quando o presidente dos EUA, James Monroe, em 1823 enunciou o que ficou conhecido como a Doutrina Monroe, de que a América seria para os americanos, os EUA não tinham ainda condições de sustentar tal afirmação. O crescimento econômico destes e, posteriormente a 1ª Guerra Mundial (1914-1918), a sua afirmação como principal potência imperialista, levou a que a doutrina fosse aplicada na prática. Em termos gerais, os financiamentos em Libras, Francos e Marcos alemães eram substituídos por financiamentos em dólar e o principal comércio dos países americanos se fazia entre os EUA e o restante.

É esta situação que permitiu durante os anos 60, quando Cuba realizou sua revolução, que os EUA conseguissem o isolamento diplomático e comercial de Cuba com o restante do continente. Hoje a situação não é exatamente a mesma, as crises econômicas e políticas que continuaram a sacudir o mundo e os países latino-americanos em particular, levam a que somente os EUA continuem com o bloqueio econômico e sem relações diplomáticas com Cuba. Então, porque Cuba sofre com o bloqueio? Principalmente porque os produtos de alta tecnologia têm patentes ou são dominados por empresas americanas que são proibidas de comercializar com Cuba. Isto significa que as empresas americanas com filiais no Brasil ou outras empresas brasileiras que utilizem peças ou patentes dos EUA em seus componentes não podem vender para Cuba.

Esta situação mostra que, de fato, a dependência dos países latino-americanos com os EUA é muito maior que alardeiam os seus discursos. E os EUA, embora já não sejam o único destinatário nem o único fornecedor de produtos para os outros países, tem uma importância tanto econômica como política, sustentada por suas armas (a reativação de uma frota para “cuidar” do Atlântico Sul é a demonstração cabal do uso deste poderio – lembremos que esta foi uma decisão de Bush que Obama manteve, embora tenha revogado muitas decisões de Bush).

A burguesia – e particularmente a burguesia imperialista – sabe, entretanto, que não pode dominar sem o auxílio de outros segmentos e classes sociais. Para enfrentar o proletariado ela tem a todo momento que cooptar a média burguesia, setores da pequena burguesia e, particularmente, manter sobre estrito controle os segmentos sociais do funcionalismo. No caso da relação entre nações, ela tem que cultivar com cuidado as relações com os governantes – sejam eles representantes diretos da burguesia local ou não.

É interessante como os jornais tratam a relação de Lula com os dois últimos presidentes dos EUA: rolou “química”. Um termo que costuma ser empregado em relações amorosas é trazido para a política para dizer que o presidente do Brasil se adaptou perfeitamente às condições impostas pelo presidente dos EUA.

Alguns haverão de gritar: calúnia! Entretanto, olhando precisamente do lado comercial, enquanto que os EUA pressionaram e conseguiram do Brasil a mudança da lei das patentes (que tornou os medicamentos mais caros), exigem continuamente através de vários relatórios que se persigam os “piratas” de produtos tecnológicos, exigem que as leis brasileiras de proteção ao meio-ambiente e as leis trabalhistas sejam flexibilizadas, que o ambiente para negócios no Brasil “não é tão livre”, etc. Já uma simples reivindicação brasileira, de que o álcool de cana não seja sobretaxado nos EUA é ignorada ou respondida com um “vamos ver” (A sobretaxa imposta ao álcool exportado pelo Brasil aos EUA é de US$ 0,54 por galão – um galão tem 3,785 litros), ou de cerca de US$ 150,00 por metro cúbico).

A política de Bush de intervenção brutal apesar de toda “química” e de toda a boa vontade de Lula com o “companheiro Bush” impedia que o Brasil pudesse cumprir o papel de ser o aplicador até o fim da política do imperialismo dos EUA – embora cumprisse esse papel inclusive militarmente ao gerir a ocupação militar do Haiti.

Obama tem mais flexibilidade e, portanto, ao invés de tentar se equilibrar em vários pés (incluindo os governos reacionários da Colômbia e México) deixa explícito para todos os países qual a sua opção – “Esse é o cara”! E, assim, por delegação de competência, o Brasil passa a gerir os interesses dos EUA na América do Sul e, quiçá, em toda a América Latina; Passa a ser o “defensor” de Cuba e da Venezuela junto aos EUA; Passa a ser o construtor de uma “política contra as drogas sul-americanas” que visa substituir a DEA (órgão dos EUA encarregado do combate as drogas que foi expulso da Venezuela e da Bolívia); Passa a ser o encarregado de construir uma “política de segurança” na América do Sul.

Ah – podem dizer alguns – “isso é natural pela proeminência econômica do Brasil e pela integração econômica do Cone Sul que o MERCOSUL prenuncia”. Um dado apenas – enquanto que a corrente comercial (soma das importações e exportações) do Brasil como um todo caiu 20%, na Argentina, principal economia do Mercosul depois do Brasil, a corrente caiu 47%. Ou seja, a tal integração comercial é um mito que os primeiros momentos da crise atual derrubaram.

O que sobrou? Sobrou que “Lula é o cara” certo para implementar a política dos EUA, agora com Obama, uma face mais sorridente e morena, ao invés dos “brancos de olhos azuis”. Sobra a IV frota americana e os embargos que os EUA mantém à Cuba e as sobretaxas sobre o álcool. A “química”, como se vê, não alcança as armas e o comércio.

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