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Espanha: Por que necessitamos de uma aliança entre Podemos e Izquierda Unida

A convocação de eleições para 26 de junho já é uma realidade. As direções de Podemos e Izquierda Unida (IU – Esquerda Unida), juntamente com as coligações na Catalunha e na Galícia (En Comú Podem e En Marea, respectivamente), além de Compromís na Comunidade Valenciana, estão em tratativas para alcançar um pacto geral à esquerda do Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE) em toda a Espanha. Nós, da tendência Lucha de Clases (Luta de Classes), estamos totalmente favoráveis a alcançar tal aliança.

OBSERVAÇÃO PRELIMINAR: Este artigo foi publicado pela seção espanhola da Corrente Marxista Internacional (CMI) em 3 de maio, portanto antes de se concretizar a aliança entre Podemos e UI que ela defende. Um artigo já traduzido avaliando a composição já consumada pode ser lido aqui.

A convocação de eleições para 26 de junho já é uma realidade. As direções de Podemos e Izquierda Unida (IU – Esquerda Unida), juntamente com as coligações na Catalunha e na Galícia (En Comú Podem e En Marea, respectivamente), além de Compromís na Comunidade Valenciana, estão em tratativas para alcançar um pacto geral à esquerda do Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE) em toda a Espanha. Nós, da tendência Lucha de Clases (Luta de Classes), estamos totalmente favoráveis a alcançar tal aliança.

Por uma campanha unitária e animadora do Podemos, da IU e suas concertações políticas

A mídia dos grandes empresários e banqueiros, que é a detentora da audiência de massas, está preparada a favorecer a vitória dos partidos políticos que mais podem seguir beneficiando seu domínio: Partido Popular (PP), Ciudadanos e PSOE. Em contrapartida, temos que nos preparar para a demonização de todas as forças políticas que, de uma maneira ou de outra, representam uma esperança de mudança substancial para todos aqueles que, desde 2011, participam conosco do período de mobilizações mais importante gerado na Espanha desde a transição do regime fascista de Franco ao restabelecimento da democracia e da monarquia.

O resultado que viveremos na segunda-feira, 27 de junho, o dia posterior ao das eleições, não será em vão: em cada bar, à frente do televisor, em cada lugar de trabalho, conversando com os colegas, poderemos ver na face de nosso patrão, de seus amigos, dos indivíduos mais reacionários da vizinhança… A  confiança de nossa classe será reforçada e veremos o temor de nossos inimigos ou, ao contrário, assistiremos à “guinada à direita” que tentam proclamar diariamente os principais meios de comunicação? O melhor ou pior resultado da esquerda transformadora será implacável ou não com relação às lutas que virão como consequência da aplicação dos planos que demandam a Comissão Europeia e a Patronal espanhola?

Nesse sentido, a indagação que se impõe é: o que é mais benéfico para a classe trabalhadora e para os demais setores mais humildes, que conformam a imensa maioria da sociedade, aqueles que padecem conosco dos ajustes sociais e contrarreformas trabalhistas?

A experiência durante 2015

As eleições de maio e dezembro do ano passado foram muito ilustrativas a esse respeito: nas municipais, vivemos sonoras vitórias das candidaturas situadas à esquerda da socialdemocracia tradicional, o que constitui um feito jamais alcançado na história da Espanha – ser a força dominante da esquerda nas três principais cidades do país.

Naquelas cidades onde se conformaram candidaturas à esquerda do PSOE, chegaram a alcançar cifras eleitorais mais importantes, superiores, em alguns casos, a 30% dos votos. O camarada Íñigo Errejón declarou a pouco tempo que, considerando as próximas eleições de junho, as candidaturas do Podemos podiam se “fortalecer” com “pessoas e propostas, não com siglas”. Mas a realidade é que, por exemplo, Manuela Carmena era pouco conhecida perante as massas madrilenhas seis meses antes das eleições municipais.

Foi o apoio dos partidos (das siglas) da esquerda transformadora às candidaturas que manejavam as Mareas e outros movimentos sociais o que forjou e solidificou a esta e outras candidaturas, mobilizando no conjunto do país a dezenas de milhares de ativistas numa campanha bairro a bairro.

Não por acaso, naqueles lugares onde a união da esquerda vinha sendo construída desde mais tempo, foram obtidos nas eleições municipais de maio os resultados mais expressivos, como nos casos de Santiago de Compostela e La Coruña (Galícia), graças ao processo de concertação das Mareas galegas, que seguiam atrás.

Esta experiência foi igualmente significativa nas eleições gerais: a unidade alcançada na Galícia, Catalunha e Comunidade Valenciana (juntamente com a defesa do direito de autodeterminação), gerou um processo de concertação entorno das candidaturas do Podemos em outras comunidades. Esse processo foi mais acelerado nas regiões com maior tradição de esquerdas, com maior sensibilidade para a questão das comunidades regionais e com uma maior composição da classe trabalhadora, sobre tudo onde o Podemos aparecia como a única realidade séria à esquerda do PSOE.

Qual dúvida há que se, em comunidades com uma tradição forte da IU, como Andaluzia, Madrid ou Astúrias, houvesse ocorrido uma coligação eleitoral, os resultados teriam sido esmagadores, os quais ultrapassariam aos do PSOE. Dizemos mais, um acordo nacional entre a IU e o Podemos haveria tido (e terá!) uma força de arraste muito superior à mera soma aritmética eleitoral obtida por ambas as organizações nas eleições de 20 de dezembro. É um caso claro onde a soma de 1+1 é superior a 2. Inclusive os sociólogos burgueses da Demoscopia e do Centro de Pesquisas Sociológicas (CIS, em sua sigla espanhola), ainda com dados distorcidos e em parte falsificados, têm que reconhecer com muito pesar a verdade deste raciocínio.

Pôr os interesses particulares a serviço dos gerais

Há de se reconhecer o papel atual de Pablo Iglesias, ao corrigir nos feitos os erros passados, estendendo a mão à IU, apesar das fortes pressões no sentido contrário de outros companheiros da direção. Igualmente, Alberto Garzón, sua eleição como cartaz eleitoral da IU e sua orientação positiva de concertação com o Podemos “não caem do céu”, mas são frutos do processo de amadurecimento político coletivo que se deu neste país posteriormente à eclosão do Podemos.

Desde a Lucha de Clases apoiamos o processo atual de negociações entre ambas direções que, desde nosso ponto de vista, devem se converter na conformação de uma coalisão eleitoral, independentemente do posto eleitoral que tenha que ocupar tal ou qual dirigente, sem vetos nem condições que não se possam assumir. Pensamos que a coalisão eleitoral é a melhor maneira de garantir a unidade que agora necessitamos, que fica mais bem explicada pela expressão que, acertadamente, Alberto Garzón resgatou da tradicional Frente Única: “marchar separados, golpear juntos”.

Se conseguimos a unidade, haverá mais deputados da IU e mais do Podemos. Mas o que queremos e precisamos vai além da maioria, antes e depois das eleições. Como se anteviu nos meses prévios das eleições municipais de 2015, a unidade entre Podemos e IU provocará uma animadora onda de mobilização eleitoral de dezenas de milhares de pessoas que estarão dispostas a participar ativamente nesta luta política caminhando pelas ruas, de porta em porta. Tratando agora de eleições gerais, isto terá alguns efeitos muito maiores que há um ano. Neste sentido, há que se favorecer a campanha que possibilite a maior mobilização possível das forças progressistas da sociedade que, certamente, não são as que, exatamente, expressam-se agora nas reuniões internas do Podemos ou da IU.

Por uma campanha unitária e animadora Podemos-IU

Em alguns meios da imprensa burguesa, provavelmente de maneira bastante intencionada, pronuncia-se que, inclusive no caso de chegar a um acordo final, Podemos e IU vão levar duas campanhas separadas.

Independentemente do que há de correto ou não nessas informações, devemos propor devidamente as seguintes perguntas: o feito da participação conjunta de Alberto Garzón e de Pablo Iglesias no maior número possível de comícios, não multiplicará a atenção do público a níveis nunca vistos em eleições passadas? Que fórum, palácio de eventos ou praça de touros não poderão encher… juntos? Evidentemente não podem ir a todas as cidades. Portanto, não é necessário, por acaso, que o maior número possível de dirigentes de ambas as organizações, juntamente com outros dirigentes conhecidos, como Ada Colau, Julio Anguita ou Beiras, favoreçam este processo unitário que contrarie a campanha venenosa que vão lançar os principais meios de comunicação da direita? Não é necessário replicar este processo em cada povoado ou bairro?

Podemos e IU podem conseguir os comícios mais expressivos em décadas. Esta pode ser uma campanha muito mais participativa e vibrante que a que, intencionalmente, estão tratando de promover os meios burgueses. Eles querem fomentar a abstenção, querem que nos bairros proletários as pessoas fiquem em casa. Não há nenhuma dúvida de que uma campanha unitária deste tipo geraria certezas e confiança numa parte do eleitorado socialista e, também, de antigos abstêmios e indecisos.

Inclusive no país mais influenciado pelas técnicas de marketing e pelos gastos exorbitantes em anúncios de TV das campanhas eleitorais, como é o caso dos Estados Unidos, os partidos recorrem ao porta a porta de simpatizantes como um elemento fundamental. Uma campanha como a do socialista Bernie Sanders não poderia se por em pé se não pela esperança de uma grande e gigantesca mudança, “uma revolução”, que prometia Bernie Sanders: uma revolução contra os poderosos.

Aqui precisamos gerar a mesma ilusão. Acreditamos firmemente que a imensa maioria dos militantes e dirigentes do Podemos e da IU empurrará conosco nessa direção no próximo período. Temos que colocar todas as medidas possíveis para garantir a máxima mobilização diária de nossa classe, começando pelos elementos mais avançados. E, logicamente, devemos maximizar nossas forças, não desperdiçá-las nem anulá-las.

Podemos entender que, dada a urgência motivada pelos poucos dias que antecedem o fechamento das candidaturas eleitorais, pode não ser possível o necessário processo que garanta que o conjunto das bases de toda a esquerda participe conosco na elaboração do programa eleitoral. Não duvidamos que os camaradas que negociam este aspecto (por parte da IU, do Podemos e das outras confluências eleitorais de esquerda) chegarão ao acordo de estabelecer reformas sociais consideravelmente progressistas, as quais nós apoiaremos. Agora, devemos sim advertir acerca das pressões que haverá para rebaixar o alcance das ditas melhoras. Na hora da verdade, sem o controle nas mãos do Estado das alavancas econômicas fundamentais, que hoje estão nas mãos das 200 famílias da oligarquia espanhola (como os bancos, as empresas do IBEX35[1] e os grandes latifúndios), sob o controle democrático dos trabalhadores que as fazem funcionarem; e sem repudiar a dívida pública usurária que enriquece aos bancos e aos fundos de investimento especulativos, será impossível reverter todos os ataques acumulados desde o início da crise e planificar a economia sob o interesse da maioria da sociedade. Somente assim poderemos terminar com a precariedade crescente do trabalho, outorgar moradia a quem dela necessita, garantir as aposentadorias a nossos idosos, aumentar os salários e reduzir a jornada de trabalho para distribuir o trabalho e terminar com o desemprego.

Nós, da Lucha de Clases, nos comprometemos em participar desta onda popular na medida de nossas forças, favorecendo a unidade política da esquerda transformadora, debatendo amigavelmente acerca do melhor programa e estratégia possíveis que necessitam a classe trabalhadora, agora e depois das eleições, para alcançar uma sociedade que supere todos os flagelos gerados pelo sistema capitalista.

A burguesia e todos seus representantes em cada povoado e bairro podem levar uma grande paulada em 26 de junho. Em 27, podemos amanhecer como a principal força eleitoral. Essa é a verdade. E o seremos enquanto mais contundente clarificarmos nossa vontade de acabar com o poder que exercem no dia a dia os ricos e poderosos.

Com muitos mais votos e munidos de autoridade moral como força majoritária, exigiremos do PSOE, cujos dirigentes voltam a dizer que nunca apoiarão ao PP, que nos respaldem. Estamos seguros de que esse processo será instrutivo a milhões de eleitores socialistas tradicionais que nunca compreenderão que seus dirigentes apoiem, em seguida, ao PP.

Dezenas de milhares de pessoas entrarão na política ativa, darão oxigênio ao conjunto de organizações populares. Amadurecerão ainda mais no debate posterior, quando a Comissão Europeia, o FMI, a Patronal espanhola, pressionarem para conseguir seu governo. Se eles conseguirem, milhões de pessoas (e não somente os que respaldaram nossa lista eleitoral) se sentirão roubadas e enganadas. Como consequência, reagirão perante os primeiros ataques sociais. Aconteça o que acontecer, os próximos meses e anos significarão a intensificação do processo político que vimos nascer depois das mobilizações populares de 2011. Promovamos a unidade de todos os militantes e lutadores que chamamos a combater, de uma maneira ou de outra, lado a lado.



[1] Principal índice das Bolsas de Valores espanholas (Madrid, Barcelona, Bilbao e Valência), composto pelas 35 empresas com maior liquidez que participam do Sistema de Interconexão de Estoque Eletrônico (SIBE, em sua sigla espanhola).

Artigo publicado originalmente em 3 de maio de 2016, no site Lucha de Clases, da seção da CMI na Espanha, sob o título “Por qué necesitamos una alianza entre Podemos e Izquierda Unida.

Tradução de Nathan Belcavello.

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