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Espanha: na rua e no parlamento temos que derrubá-los!

A situação política espanhola deu uma guinada radical com a eleição de Pedro Sánchez como novo Secretário-Geral do Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE), derrotando a candidata do aparato, Susana Díaz, respaldada pelo status quo político, econômico e midiático. Isto coincide com o agravamento dos escândalos de corrupção no Partido Popular (PP) – revelados pela “Operação Lezo” e pela “Operação Púnica” – e a apresentação da moção de censura de Unidos Podemos (UP) contra o governo de Rajoy. O governo do PP, que há alguns meses se encontrava feliz, entra em uma fase de instabilidade crescente que pode levar, em determinado momento, a uma crise aberta de governabilidade.

A direção socialista, sob a inspiração direta de Felipe González e do Ibex35[1], pensava que a eleição de Susana Díaz como secretária-geral do PSOE seria um mero trâmite, o mesmo que sua vitória no congresso do partido agora em junho. Tinha o objetivo de se manter como uma oposição “responsável” ao governo de Rajoy e dar um tempo para recompor o partido, com a esperança de subir novamente nas pesquisas uma vez transmitida uma imagem de normalidade.

Entretanto, a vitória incontestável de Sánchez como Secretário-Geral mandou todos esses sonhos para o lixo. Ainda que até o momento de lançamento do número 41 da revista Lucha de Clases ainda não tenha sido celebrado o congresso do PSOE, o mais provável é que Sánchez também tome o controle do aparato central e do Comitê Federal, o órgão diretivo máximo.

Não é possível entender a vitória de Sánchez sem considerar o ambiente de radicalização e de guinada à esquerda dos setores mais vivos e dinâmicos da sociedade, na classe trabalhadora e na juventude. Como no Podemos há 4 meses, o mesmo ambiente é que empurrou à vitória Pablo Iglesias na Assembleia Cidadã de Vistalegre[2]. Por outro lado, os candidatos da ala de direita de ambos partidos (Íñigo Errejón e Susana Díaz), apoiados pelo status quo, sofreram duras derrotas.

A vitória de Sánchez particularmente se destacou e foi mais difícil de prever, devido ao papel central que o PSOE assumiu nas últimas décadas na estabilidade do capitalismo espanhol e à firmeza com que a classe dominante dominou a direção do partido durante cerca de 40 anos. O partido está flagelado de pessoas com cargos eletivos e carreiristas com anos de imersão nas instituições do sistema. Portanto, a vitória Sánchez mostra quão poderoso e profundo é o processo de indignação e cansaço da classe trabalhadora com a crise do sistema capitalista e seus efeitos, que permeou até os aparatos mais burocráticos.

Objetivamente tudo isso é muito positivo. O triunfo de Sánchez foi visto com entusiasmo por amplas camadas da classe operária, da juventude e da classe média, que o comparam com uma derrota da direita. Enfraquece ao PP, ao Ciudadanos e ao status quo, que temem que um eventual eixo UP-PSOE se transforme numa bola de neve que acelere uma crise de governo no PP e abra diante dos olhos dos trabalhadores e da juventude a possibilidade real de um governo de esquerda UP-PSOE.

A vitória de Sánchez também terá um efeito muito positivo na chamada questão das nacionalidades das comunidades autônomas. Sua defesa, ainda que ambígua e confusa, da plurinacionalidade da Espanha é um golpe ao nacionalismo espanholista e cria condições mais favoráveis para que a defesa dos direitos democrático-nacionais da Catalunha, País Basco e Galícia, incluído o direito à autodeterminação, encontre eco de apoio crescente no resto do Estado. Ao mesmo tempo, isto debilita ao nacionalismo burguês catalão e basco que, cada vez mais, está se envolvendo na política reacionária da direita espanhola, como se viu no apoio ao orçamento do Estado e ao decreto reacionário da estiva[3].

Há os que se surpreenderam com esta guinada à esquerda no discurso de Pedro Sánchez. Mas tem uma explicação. O envolvimento dos partidos socialistas nas políticas de ajuste e austeridade em toda a Europa é o que explica a crise histórica da socialdemocracia. Na Grécia, na França e na Holanda se converteram em organizações residuais, lutando para conseguir 6% a 7% dos votos, ultrapassados por sua esquerda por organizações como Syriza[4] (antes de sua hesitação perante a Troika), a França Insubmissa[5] e o Partido Socialista (ex-maoísta), respectivamente. Não por acaso que a fonte de apoio a Sánchez, além do que há de vivo na militância do partido, veio dos setores médios e baixos do aparato que temiam com razão uma “pasokização”[6] do PSOE. A próxima etapa será uma profunda luta interna para derrubar a direita do partido do controle que ainda mantém nos diferentes territórios e a resistência dela para manutenção em suas posições.

O que fará Sánchez?

Enquanto saudamos a eleição de Pedro Sánchez como secretário-geral do PSOE, atemo-nos a pôr a mão no fogo por ele e sua equipe que, temerosos dos desafios que têm adiante e sem nenhuma alternativa real à crise do capitalismo espanhol, poderiam recuar e tratar de se congraçar com o status quo, que atualmente lhes odeia e despreza, e manter o plano de garantir a estabilidade política do país. Contudo, os “sanchistas” colocaram um alto preço em sua vitória: ergueram a bandeira da Esquerda, comprometeram-se com a derrubada do governo do PP e cantaram “A Internacional” em todos os eventos de campanha. Despertaram uma enorme ilusão e expectativas nas bases socialistas e em milhões de eleitores e não será fácil retroceder sem provocar uma funda desilusão e fúria entre suas bases pela ruptura da palavra dada.

É provável que se Sánchez consolidar sua vitória no congresso socialista, não faça nada de relevante antes de setembro, quando se retomará o ciclo político. A partir desse mês, acontecerão os congressos regionais para renovação das diretorias do partido nas comunidades autônomas. Ao claramente ter ganhado nas primárias de 15 das 17 comunidades autônomas, tem tudo a seu favor para alcançar o controle na maioria delas, também facilitado pelo fato de que não poucos burocratas e carreiristas que apoiaram a Patxi López e Susana Díaz tratarão de ficar sob suas asas.

Sánchez estará submetido a uma dupla pressão. Por um lado, suas bases de apoio demandarão que efetivamente cumpra o tipo de oposição e programa que defendeu nas primárias. Por outro lado, a ala de direita “susanista” permanecerá trepada nas estruturas do partido esperando a ocasião de miná-lo e a classe dominante utilizará seus meios de comunicação para fustigá-lo sem piedade em cada arroubo “Esquerdista” que demonstre. A primeira prova séria de suas intenções será a atitude que irá tomar diante de seu concorrente direto na esquerda, a UP: se estenderá a mão ou manterá a hostilidade que exibiu o partido desde o surgimento do Podemos.

Tarefas de Unidos Podemos

Contra a pretensão dos dirigentes do Podemos e de suas três correntes principais, de que o eixo esquerda-direita perdera significado político, a campanha vitoriosa de Sánchez deu-lhes uma retumbante negativa. Longe de ser um eixo arbitrário, tem um conteúdo ancorado na realidade social, um eixo da classe trabalhadora contra o grande capital, que está profundamente enraizado na consciência das massas trabalhadoras da Espanha. Se UP quer contrapor o poderoso impulso que recebeu momentaneamente o PSOE deverá – entre outras coisas – reforçar seu perfil de classe e abandonar, particularmente a direção do Podemos, sua confusa e pedante fraseologia patriótica.

No que se refere à reação inicial da direção da UP ao acontecimento no PSOE, acreditamos que agiu corretamente, felicitando a Sánchez por sua vitória e o exortando a se juntar para derrubar ao PP. Este é o caminho. UP deveria pedir a Sánchez de maneira amistosa que passe das palavras aos fatos na luta contra o PP, como muito corretamente tem feito, propondo ao PSOE que encabece a moção de censura que fizeram contra Rajoy. UP deve solicitar a Sánchez que o PSOE rompa suas relações políticas com Ciudadanos na “oposição” parlamentar e que avance com a UP numa frente comum. Essa será a melhor maneira de provar perante a base e os eleitores do PSOE a seriedade e sinceridade da oposição de Sánchez ao governo de Rajoy. Esta será a melhor maneira para que UP tenha um eco amistoso maior nas bases socialistas.

Se UP explorar com êxito as deficiências e debilidades de Sánchez e sua equipe, com uma atitude amistosa e fugindo da crítica esganiçada, poderá demonstrar nas ações que é o melhor e mais consequente opositor da direita e poderá sair muito fortalecido na atual situação, ainda que, em curto prazo, as expectativas eleitorais do PSOE tenham crescido significativamente.

A moção de censura

Superficialmente parece que a UP ficou temporariamente isolada. Seu adversário na esquerda saiu momentaneamente reforçado e rejeitou se unir na moção de censura ao governo. Os sempre vacilantes dirigentes de Compromís, que querem conservar seu acordo de governo com o PSOE em Valência, propõem agora adiar a moção depois de incialmente apoiá-la. Em um estúpido ato arrogante e depreciativo, Rajoy anunciou que não participará do debate da moção e designou seu número 2, a vice-presidente Soraya Sáenz de Santamaría, para que o represente. Inclusive se permitiu ironizar sem pudores a decisão da presidente do Parlamento, Ana Pastor, de fixar o dia para debater a moção na terça-feira, 13 de junho[7].

A direita espanhola vive fora da realidade, não consegue ver como segue acumulando o mal estar e a indignação social; como está aumentando a confiança das massas trabalhadoras em suas próprias forças; que o período de resignação e fatalismo pelos efeitos da crise econômica e a ausência de uma mudança política significativa em cinco anos está chegando a seu fim. Os casos de corrupção acumulados estão cavando sensivelmente pela primeira vez o apoio ao PP nas pesquisas. Este tipo de atitudes insultantes não faz outra coisa que incrementar a ira de milhões e fortalecer as bases de apoio à UP, aparecendo como a oposição mais consequente à direita e ao status quo.

UP faz o correto em manter a proposição de sua monção de censura. Sua posição nada tem a ver com a hipocrisia parlamentar, mas com usar o Parlamento para mostrar sua limitada utilidade para resolver os problemas sociais e expor perante milhões a podridão do governo e de seu partido, e a alternativa política que representa a UP. Ela também deve aproveitar sua moção de censura para mostrar a inconsistência do papel opositor do PSOE e o caráter subsidiário da direita que representa Ciudadanos.

No sábado, 20 de maio, UP organizou um grande ato massivo na Puerta del Sol de Madrid com aproximadamente 25 mil pessoas em apoio à proposta da moção de censura. Uma semana depois, desfilou juntamente com milhares mais por Madrid na Marcha da Dignidade. Isto revela as fundas raízes sociais que UP tem no movimento.

É fundamental que UP, enquanto estende sua mão ao PSOE, avance em radicalizar seu programa político e seu caráter anti-status quo para aparecer nitidamente como uma alternativa de esquerda combativa perante a confusão ideológica e política em que andam Sánchez e sua equipe.

Temos que derrubá-los!

A situação que se abre no panorama político espanhol é apaixonante. UP é o principal opositor ao regime e a classe dominante declarou-lhe guerra aberta desde o início. Agora, a classe dominante perdeu, a princípio e aguardando o desenrolar do congresso do PSOE, o controle direto da direção deste partido, que fica mais exposto à influência da pressão da classe trabalhadora e da inclinação à esquerda que lhe faça UP. Por outro lado, a direita começou seu caminho descendente e começa a se depreciar rapidamente, A muleta de Ciudadanos ficou exposta como o é, sustentando incondicionalmente ao governo reacionário do PP. A esquerda em seu conjunto sai fortalecida e a direita enfraquecida.

Esta situação coincide com o começo de uma reanimação da mobilização social e o início, pela primeira vez em oito anos, da entrada em ação da classe trabalhadora com reivindicações ofensivas por questões salariais, contra a precariedade laboral, entre outras, como demonstram as estatísticas de aumento de jornadas perdidas por greves e de trabalhadores envolvidos nas mesmas.

Tudo está preparado para novas guinadas e mudanças bruscas e repentinas na situação, incluída a possibilidade de uma crise de governo nos próximos meses e a convocação de eleições antecipadas que poderia levar ao triunfo claro da esquerda nas mesmas, uma vez superados a passividade e o desencanto de uma camada ampla de trabalhadores que optou pela abstenção nas últimas eleições.

[1] Principal índice das Bolsas de Valores espanholas (Madrid, Barcelona, Bilbao e Valência), composto pelas 35 empresas com maior liquidez que participam do Sistema de Interconexão de Estoque Eletrônico (SIBE, em sua sigla espanhola) (N.T.).

[2] Para mais informações, leia o artigo Assembleia Cidadã do Podemos: vitória contundente da esquerda <http://www.marxismo.org.br/content/assembleia-cidada-de-podemos-vitoria-contundente-da-esquerda/> (N.T.).

[3] Acerca do referido decreto, leia mais no artigo Greve dos estivadores espanhóis: O Partido Popular destrói os direitos dos trabalhadores portuários para beneficiar as grandes empresas <http://www.marxismo.org.br/content/greve-dos-estivadores-espanhois-o-partido-popular-destroi-os-direitos-dos-trabalhadores-portuarios-para-beneficiar-as-grandes-empresas/>, publicado em 6 de março de 2017.

[4] Coligação da Esquerda Radical (N.T.).

[5] Coligação de esquerda que teve Jean-Luc Mélechon como candidato a presidência da França. Acerca das eleições presidenciais na França, leia o artigo França: A bruta e o banqueiro passaram ao segundo turno <http://www.marxismo.org.br/content/eleicoes-presidenciais-na-franca-a-bruta-e-o-banqueiro-passaram-ao-segundo-turno-mobilizacao-na-rua-para-as-eleicoes-legislativas-em-junho/>. Acerca do fenômeno da França Insubmissa, leia mais no artigo Ascensão meteórica de Melenchon nas eleições presidenciais francesas – a classe dominante em pânico <http://www.marxismo.org.br/content/ascensao-meteorica-de-melenchon-nas-eleicoes-presidenciais-francesas-a-classe-dominante-em-panico/> (N.T.).

[6] Processo de total decadência e descrédito por que passou o PASOK (Movimento Socialista Pan-Helênico) da Grécia que, em 2012, diante de anos de uma política de austeridade empreendida por seus sucessivos governos, fazendo com que sua posição de principal partido de “esquerda” fosse completamente perdida para o Syriza (Coligação da Esquerda Radical) (N.T.).

[7] A ironia de Rajoy recai sobre o dia que, em espanhol, é “Martes y 13”, nome de um trio humorístico espanhol, formado por Josema Yuste, Millán Salcedo e Fernando Conde, que faziam esquetes e caricaturas de personalidades famosas na televisão (N.T.).

Editorial da Lucha de Clases, revista da sessão espanhola da Corrente Marxista Internacional, sob o título “En la calle y en el parlamento ¡Hay que echarlos!, publicado em 1º de junho de 2017.

Tradução de Nathan Belcavello

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