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Foto: Antonio Cruz/Agência Brasil

Entrevista com um caminhoneiro

Entrevistamos um caminhoneiro autônomo que está na paralisação desde o início do movimento. Ele trabalhou como empregado por 17 anos, é autônomo desde 2011 e está na paralisação reivindicando o piso nacional do frete vinculado ao aumento do diesel e do pedágio, diminuição do preço do óleo diesel, entre outras demandas.

Para saber mais sobre a posição da Esquerda Marxista, leia a nota “Paralisação dos caminhoneiros: crise do regime e manipulações burguesas“.

Quais são as reivindicações dos caminhoneiros paralisados?

A nossa reivindicação na verdade… Nós temos o preço do óleo diesel muito caro. [Queremos] um preço digno do pedágio, né? Parar de cobrar o eixo erguido, como as rodovias estaduais e algumas federais cobram, e a regulamentação do frete, um valor mínimo do frete, né? Para acabar com o frete de retorno. Isso quebra as pernas de qualquer motorista autônomo. Porque você vai do Sul pro Nordeste por 12 mil [reais] e de lá pro Sul eles querem pagar seis mil. Sendo que seis mil não paga nem o pedágio, nem o óleo diesel para voltar. Essa é a nossa reivindicação, do autônomo.

Já o empregado depende do patrão que tá lutando pelo preço do óleo diesel, né?

Há quanto tempo se discute a necessidade de realizar essa paralisação? Como foi organizada?

Essa paralisação é discutida [entre os autônomos] desde o ano passado. Quando entrou o Temer realmente a gente já esperava que as coisas iriam piorar. Hoje essa paralisação ocorreu também por causa das empresas e também o povo está descontente com o governo.

Quem dirige o movimento?

O nosso movimento, dos autônomos, tem representantes da Associação dos Autônomos que eu não conheço. Eu quero conhecer quem são eles para cobrar também das empresas depois. Segundo a associação, a nossa paralisação acaba quando o governo aceitar as nossas reivindicações.

Alguns vídeos que circulam pela internet mostram donos de empresas envolvidos (organizando os locautes). Há patrões nos piquetes?

Sim, claro que sim. Há patrões. Assim como tem a favor, tem contra, né? Só que pra eles é mais viável ficar parado do que chegar num bloqueio e [correr o risco de alguém] apedrejar o caminhão deles. Nós autônomos não somos maioria, porque o governo não deixa a gente ter a liberdade de pegar o frete direto nas empresas. Se fosse assim, o movimento seria mais forte.

Como o piquete se mantém? Vocês recebem ajuda?

Aqui, onde estamos, a população se movimentou e está com a gente no dia-a-dia. Nós estamos ganhando almoço, janta, café da manhã.  Estamos recebendo ajuda de moradores. É uma ajuda do povo mesmo. Não houve rejeição nenhuma. A gente saindo daqui, sempre vai lembrar desse dia. Eu mesmo não vou esquecer deles. Fui muito bem tratado.

Como a categoria recebeu os pronunciamentos realizados por Temer?

O governo se pronunciou distorcidamente, né? Foram pronunciamentos sem cabimento. [Temer] diz que a Petrobras vai dar 60 dias, depois volta ao normal. O que é voltar ao normal? Subir o preço igual estava fazendo antes? Um dos maiores motivos de segurar essa greve que tá hoje, que a população tá abraçando, é a corrupção também. É muito roubo, muita mordomia, pra essa cambada vir tirar sarro da gente e dizer que a gente é culpado. Eles que são culpados de tudo o que está aí.

O governo enviou ao Congresso, na manhã de ontem (28), três medidas provisórias (MPs), além de anunciar a redução de R$ 0,46 no preço do litro do diesel por 60 dias. Esses projetos atendem as reivindicações dos caminhoneiros?

Realmente eles não atendem. Porque R$ 0,46 por 60 dias… daqui a dois meses volta a folia outra vez. Moral da história, não ganhamos nada com isso, simplesmente o governo é que ganha, vai ganhar, né? Que ele só deu uma freada naquilo que poderia derrubar ele. E essas medidas provisórias não podem ser assim dessa forma, elas precisam entrar e já serem aprovadas e publicadas no Diário Oficial. Chega de mentira, chega de sofrimento nas rodovias, com custo altíssimo do pedágio, com falta de segurança. Não temos áreas de descanso, que foram prometidas desde o tempo do Lula, quando privatizou, que as empresas de pedágio deveriam fazer uma área de descanso para os motoristas. Isso não existe, não existe segurança nas estradas e nos postos de gasolina e, onde existe, tem que pagar e o custo é alto. Muitas coisas precisam ser resolvidas e eles nem estão comentando. Eles são sem vergonha, mentirosos.

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