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Entrevista com Flávio de Almeida Reis (*) sobre a redução da área da Floresta Nacional Jamanxin

 

Esta entrevista foi originalmente publicada no Jornal Luta de Classes número 47 que já está sendo vendido pelos militantes da Esquerda Marxista, não deixe de fazer sua assinatura, contribua para a manutenção da imprensa operária.

Esta entrevista foi originalmente publicada no Jornal Luta de Classes número 47 que já está sendo vendido pelos militantes da Esquerda Marxista, não deixe de fazer sua assinatura, contribua para a manutenção da imprensa operária.

Jornal Luta de Classes- Conte-nos sobre os conflitos na Floresta Nacional Jamanxim?

Flávio Almeida Reis– Sua criação foi resultado da mobilização dos movimentos sociais pela proteção das florestas ameaçadas com a expansão do agronegócio na Amazônia. Fenômeno que substitui paisagens naturais por paisagens tecnificadas por onde chega a fronteira agrícola corporativa.

Em 2006, Lula criou oito unidades de conservação no sul do Pará. Num total de 6,4 milhões de hectares no entorno da BR-163 (Cuiabá-Santarém). Essa área corresponde a duas vezes o tamanho da Bélgica ou à soma dos estados do Rio de Janeiro e Sergipe. Dentre as unidades criadas temos a Flona Jamanxim, com 1,3 milhões de ha.

Hoje os movimentos sociais denunciam que Jamanxim está sob pressão do agronegócio do tipo mais mafioso (grilagem, pecuária ilegal, extração de madeira ilegal, queimadas, etc.). O Estadão (15/07) anunciou que o Governo estuda tirar um pedaço da Flona de até 1/3 da sua área, ou seja, três vezes a cidade de São Paulo. E ninguém do Governo desmentiu a reportagem. Apenas anunciaram formalmente que outras unidades próximas perderão áreas devido a inundação por lagos de hidrelétricas.

Essa situação evidencia a pressão dos ruralistas ao Governo Dilma em reação ao sucesso dessas áreas protegidas. E o problema é que Dilma está cedendo às pressões, assim como no recente episódio em que se recusou a vetar integralmente a famigerada reforma do Código Florestal.

JLC- Qual é a importância da pavimentação da BR-163 e do PAC para os interesses do agronegócio?

Flávio- Precisamos lembrar que este é o principal projeto do PAC na malha rodoviária brasileira. Seu objetivo é viabilizar um corredor para o escoamento da soja produzida nos chapadões mato-grossenses em ligação direta com o Porto da Cargill em Santarém. Um projeto que pretende inverter o fluxo de transporte destas commodities que hoje precisa descer até o porto de Paranaguá ou Santos para depois seguir para a Europa. Estas empresas valorizariam mais seu capital com a redução do tempo de transporte de suas mercadorias. Além do fato da BR-163 abrir novas frentes para instalação de seus empreendimentos.

Vejo que esta e outras intervenções do PAC na Amazônia reforçam a condição agroexportadora da economia brasileira. O que é muito perigoso, pois significa dizer que o Governo atende as demandas de um modelo agrícola excludente, predador do meio ambiente e concentrador de terra e de renda. Assim como as políticas agrícolas do Brasil-Colônia atendiam aos interesses das plantations, hoje o PAC moderniza a infraestrutura para expansão e consolidação do agronegócio no Cerrado e na Amazônia. E destaco ainda que as principais empresas do setor são multinacionais.

JLC- Como você avalia a posição de Marina Silva?

Flávio- Por um lado Marina foi protagonista da criação do mosaico de unidades de conservação que blindaram o entorno da BR-163. Mas, por outro lado, ela prestou enorme desserviço criando o Instituto Chico Mendes, o que fez com que as Unidades de Conservação saíssem da gestão do IBAMA. Também foi responsável por privatizar as Florestas Nacionais, através da Lei de Gestão de Florestas Públicas. E, hoje, Marina defende que o governo deve implantar “projetos de desenvolvimento sustentável” em Jamanxim através do Serviço Florestal Brasileiro (Folha 20/07). Isso quer dizer que ela defende o modelo da Flona Jamari (RO) onde um consórcio de empresas madeireiras explora a floresta para a “sustentabilidade” dos seus lucros privados. Ou seja, contra a exploração ilegal da Amazônia Marina só tem a oferecer a privatização do nosso patrimônio.

JLC- Quais medidas podem ser cobradas de Dilma para garantir a integridade dessas áreas e solução dos conflitos?

Flávio- Precisamos compreender que a agropecuária capitalizada na Amazônia não avança em terras “vazias” e “sem homens”. Estas são terras de índios e camponeses onde há séculos, sem prejuízo à Floresta, praticam pecuária extensiva, lavoura de sustento ou ditas agriculturas “tradicionais”. As decisões sobre áreas protegidas precisam incluir estas comunidades no processo decisório e excluir os grileiros, e não o contrário. Passa também por punir rigorosamente os crimes ambientais e garantir o direito aos ocupantes legítimos.

JLC- Alguma consideração final?

Flávio- Deixo aqui algumas sugestões para as lutas presentes e futuras: seguir com nossa incansável luta pela reforma agrária, que está paralisada. Dilma deve romper com os modelos que privilegiam o agronegócio e os latifúndios, estes apenas aprofundam a transformação do país em uma imensa plataforma de produção de matérias primas em benefício do imperialismo. Devemos exigir que a presidente se alie aos camponeses pobres, aos trabalhadores da cidade e rompa com os capitalistas. A planificação e a sustentabilidade apenas poderão se realizar quando a sociedade for dirigida por aqueles que produzem toda a riqueza, os trabalhadores das cidades e do campo, em uma sociedade socialista.

*Flávio é militante da Esquerda Marxista, mestrando em geografia pela UFF. Sua pesquisa conta com a orientação do professor Carlos Alberto Franco da Silva que possui extensa contribuição sobre agronegócio no Cerrado e na Amazônia. 

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