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Entrevista com Alessandro Giardiello: crise e instabilidade na Itália

Resultado do referendo italiano de dezembro, consequências para a política italiana, resultados da crise econômica no país, e situação nos sindicatos e partidos políticos.

Foto: Alessandro Giardiello em discussão sobre as perspectivas italianas. Foto: Giann Antonio/Facebook

Durante reunião da Corrente Marxista Internacional (CMI) na Itália, realizamos entrevista com Alessandro Giardiello, dirigente da Internacional e de “Sinistra Classe Rivoluzione”, seção da CMI no país.

Alex Minoru – O que estava em discussão no referendo realizado em 4 de dezembro e quais as razões para a vitória do “Não” neste referendo?

Alessandro Giardiello – O que formalmente estava em jogo, no referendo, eram mudanças constitucionais, fundamentalmente para revogar poderes do Senado. A Itália tem um sistema bicameral e a proposta era ter um Senado que não fosse eleito pelo povo, mas que fosse escolhido pelos conselhos regionais, ou seja, pelos aparatos dos partidos. Essa proposta foi apresentada pelo governo, pois a burguesia desejava aplicar o seu programa sem ter muitos filtros. As mudanças propostas no referendo eram, em geral, um ataque à Constituição aprovada após a 2ª Guerra Mundial, após a vitória da resistência contra o nazifascismo.

No entanto, a razão fundamental que determinou uma resposta tão massiva pelo “Não”, mais do que as mudanças na Constituição, foi a raiva acumulada contra o governo Matteo Renzi e sua política de austeridade. Um fenômeno similar com o que se passou com o “Brexit”, na Grã-Bretanha. Ambos os fenômenos são expressões do descontentamento popular pela via eleitoral, rechaçando as propostas defendidas pelos governantes nas oportunidades em que as massas foram chamadas a votar. Por isso, o significado do resultado foi um “Não” a esse governo, à sua política burguesa, e a tudo o que tem representado a crise econômica e os ataques brutais contra os trabalhadores.

O que vale ressaltar é que o voto foi massivo particularmente entre os jovens. Segundo pesquisas, 82% dos jovens com menos de 34 anos votaram pelo “Não”. A participação também foi massiva entre o proletariado. Em todas as grandes cidades, o voto pelo “Não” foi maior nas periferias, assim como no Sul do país, região mais atingida pela crise nos últimos anos.

A.M. – Após a divulgação do resultado, o primeiro ministro Matteo Renzi renunciou. O que muda na situação política na Itália após o referendo?

A.G. – Renzi teve que renunciar, pois o resultado foi muito claro: 60% dos votos contra o governo. Ele mesmo declarou que não pensava que as massas o odiavam tanto. Nós (Sinistra Classe Rivoluzione), apresentamos ao movimento operário e à esquerda a proposta de que fossem convocadas manifestações contra o Partido Democrático para impedir a formação de um novo governo. A proposta foi rechaçada pelas direções reformistas e, ao final, a manobra institucional de Sergio Marttarella (o presidente da república) conseguiu reconstruir outro governo que não tem Renzi a frente, Paolo Gentiloni é o novo primeiro ministro, mas é uma forma de “renzismo” sem Renzi. Um governo exatamente igual, composto por ministros controlados diretamente pelo Partido Democrático e por Renzi. A extrema direita aproveitou o vazio deixado pela esquerda e tem convocado mobilizações contra o governo e por eleições antecipadas.

No atual contexto, a burguesia quer evitar novas eleições e, por isso, tentará utilizar de manobras burocráticas para jogar as eleições para 2018, que é o limite para se convocar as eleições gerais no país.

A.M. – A crise econômica internacional, como tem atingido os trabalhadores italianos?

A.G – A crise na Itália tem sido particularmente dura, calcula-se que 90% da população tenha tido perdas econômicas. Em toda a Europa, esse número é em média de 70%. Desde o início da crise, em 2008, houve perda de 27% da capacidade produtiva. Isso quer dizer que ¼ das indústrias foi destruída, com consequente fechamento de postos de trabalho.

Um dos ataques a direitos trabalhistas foi a supressão do artigo 18 do Estatuto dos Trabalhadores, que impedia a livre demissão. Uma conquista dos anos 70, do movimento que ficou conhecido como “outono quente” (autunno caldo). Também estão em curso ataques à previdência e a elevação dos impostos sobre os trabalhadores. Ou seja, o que foi aplicado e segue se desenvolvendo é uma política de ataques permanentes aos direitos e conquistas da juventude e da classe trabalhadora.

A.M – Como toda essa situação tem se expressado nos sindicatos e nos partidos políticos?

A.G. – Os sindicatos, majoritariamente, fazem uma política contrária aos interesses dos trabalhadores que deveriam representar. Quando o governo já estava em crise, os sindicatos não convocaram mobilizações e greves para defender os direitos trabalhistas. Ao contrário, fizeram acordos com o governo, aceitando os ataques. O mesmo se passou com os dirigentes metalúrgicos, que antes eram considerados os dirigentes mais à esquerda, mas que no último período tem ido à direita, até chegar à assinatura de um acordo que, pela primeira vez, não tem um reajuste fixo do salário, mas um reajuste vinculado ao crescimento da economia, o que significa, na atual situação, o rebaixamento dos salários. A direção dos metalúrgicos também aceitou diferentes recuos que nunca havia aceitado antes em sua história, incluindo retirada de direitos de organização sindical dos trabalhadores.

Sobre os partidos, fundamentalmente existem três blocos. Um composto pelo Partido Democrático, que representa mais diretamente os interesses da burguesia, apesar deste partido ter sua origem no velho Partido Comunista. Há também o bloco da direita, constituído por um setor menos extremista, dirigido por Berlusconi, e pela Liga do Norte, que tem referência em Marine Le Penn, da França, e que tem uma atitude agressiva e demagógica contra o Euro, para tentar ganhar apoio entre as massas que estão completamente descontentes com a política aplicada pelos dirigentes que se apresentam como de esquerda. Por fim, aparece o Movimento Cinco Estrelas, que não tem raízes de massas, é um movimento novo, tem um caráter populista, alternando palavras de ordem progressistas com reacionárias, mas que tem expressado a raiva acumulada, na falta de um partido operário.

Para além destes três blocos principais, há a esquerda reformista, que tem entre 2% e 3% de apoio, tendo uma linha política absolutamente subordinada ao Partido Democrático, e é composta pelos piores setores burocráticos, responsáveis por diversos ataques aos trabalhadores, tendo participado do antigo governo Prodi. Esta esquerda reformista é composta pela Esquerda Italiana, originada a partir do velho partido Esquerda, Ecologia e Liberdade, que está se dissolvendo na Esquerda Italiana e por cisões do Partido Democrático. A essa frente se une o que sobra da Refundação Comunista, um partido que teve um papel importante na década de 90, chegando a ter 100 mil filiados e uma influência importante no movimento operário, mas este partido foi destruído por sua participação no governo Prodi de 2006 a 2008, e agora não tem mais do que 5 mil filiados no país.

A.M. – Por fim, que mensagem gostaria de enviar aos revolucionários no Brasil?

A.G. – Temos acompanhado a luta dos jovens e trabalhadores brasileiros contra o governo de Michel Temer. É uma inspiração para nós o combate levado pela Esquerda Marxista e pela Liberdade e Luta no Brasil. Sabemos que a classe trabalhadora brasileira tem grandes tradições de luta, e que construiu um grande partido de esquerda na luta contra a Ditadura, o PT. Mas que, assim como ocorre com os antigos partidos de esquerda na Itália, o PT tem sido um dos protagonistas dos ataques a direitos e conquistas da juventude e dos trabalhadores. O que se passa no Brasil confirma nossa perspectiva geral de que se prepara um movimento internacional contra as medidas capitalistas e por uma saída socialista. Saúdo nossos irmãos, nossos camaradas no Brasil. Hasta la victoria, siempre!

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