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Entrevista com Alan Woods sobre o lançamento do livro “Stálin”, de Leon Trotsky

Obra tem lançamento neste sábado (20/8), com transmissão ao vivo da Cidade do México, com Alan Woods e Esteban Volkov, neto de Leon Trotsky.

Depois de um dia cansativo de debates no Congresso Mundial da Corrente Marxista Internacional (CMI), Alan Woods sentou em uma cadeira em seu quarto e concedeu a entrevista abaixo. No dia seguinte, seria o momento de lançar o livro “Stálin”, que ele classificou como a tarefa mais difícil de sua vida. Dia 20 de agosto (com transmissão ao vivo), Alan apresenta o livro na Cidade do México, ao lado de Esteban Volkov, neto de Leon Trotsky. Esse escreveu uma dedicatória para a edição, a qual aguardava ansiosamente e definiu como a vingança definitiva do trotskysmo sobre o estalinismo.

Esquerda Marxista – Qual a relevância de lançar o livro “Stalin”, de Leon Trotsky, depois do fim da União Soviética e do fim das grandes organizações estalinistas em todo o mundo?

Alan Woods – Em primeiro lugar, estamos em vésperas de um aniversário muito importante, que são os 100 anos depois da grande Revolução de Outubro. Claro, muita gente pergunta: por que publicar agora, depois da queda da URSS, já que as coisas mudaram e isso não tem mais relevância? Essa forma de pensar me parece um grande erro de raciocínio. O que falhou com a queda da União Soviética não foi, como os burgueses dizem, o socialismo, mas sim sua caricatura burocrática e autoritária, que é o estalinismo. Muita gente não entende isso. E esse grande livro, um dos mais importantes livros que escreveu este grande marxista russo Leon Trotsky, serve muito para explicar ao público em geral, e aos socialistas, comunistas e operários em especial, as origens de o que é o estalinismo, esse sistema que é, em minha opinião, o contrário de todas as ideias de Lênin e do bolchevismo. O livro “Stálin” explica suas origens de muitos pontos de vista. Não somente político e sociológico, mas também de uma visão psicológica. Faz uma análise em profundidade do homem que foi Joseph Stálin, suas origens e porque terminou como terminou. Essa obra é muito interessante, porque explica de maneira muito concreta e muito profunda a relação entre o indivíduo e a sociedade, ou seja, o papel do indivíduo na história. Claro, isso não é um tema novo, porque já tratava disso [Gueorgui] Plekanov, e mesmo [Karl] Marx em sua obra O 18 Brumário de Luís Bonaparte. Mas aqui, em minha opinião, Trotsky dá uma nova dimensão ao pensamento marxista. E isso não somente de um ponto de vista sociológico, mas também psicológico, de que condições particulares objetivas e subjetivas fazem que um homem como Stálin, que começou sendo um revolucionário na Rússia antes da Primeira Guerra Mundial, ao fim e ao cabo termina como um autêntico monstro, à cabeça de um regime absolutamente horrível de totalitarismo, de opressão e de escravidão da classe trabalhadora. Por todas essas razões, parece-me um livro que é não somente relevante agora, mas torna-se mais relevante hoje do que quando foi escrito.

Esquerda Marxista – Como surgiu a ideia de publicar este livro agora em 2016?

Alan Woods – O livro “Stálin” não foi finalizado por Leon Trotsky, porque o assassinaram em 21 de agosto de 1940. Enquanto ainda vivia, foram publicados seus primeiros oito ou nove capítulos. Mas havia uma massa de material que estava sem conclusão. Antes de sua morte, um senhor chamado Charles Malamuth, um norte-americano tradutor, foi contratado para trabalhar a obra do russo ao inglês. Mas ele não era um marxista, mas sim um elemento oportunista e, em minha opinião, bastante desonesto e desagradável, que decidiu por sua própria conta e risco acabar o livro após a morte do autor. Essa decisão causou um conflito muito grave com a viúva de Trotsky, Natália Sedova, que inclusive realizou uma ação legal nos tribunais para impedir a publicação desse livro. Ela tinha razão, pois não somente Malamuth censurou partes do livro, deixando de lado uma massa de material muito interessante, que ele decidiu simplesmente omitir, mas, o mais grave, incluiu seus próprios pensamentos, interpretações e ideias, que não tinham nada a ver com as ideias de Trotsky, totalmente alheias ao marxismo. Mas Natália não conseguiu impedir sua publicação.

Mas Malamuth não teve muita sorte, porque logo depois Hitler invadiu a União Soviética, e a Rússia estalinista apareceu como uma aliada dos Estados Unidos, e o livro não foi publicado, pois isso não era interessante para o imperialismo naquelas condições. Mas, ao começar a Guerra Fria, com o imperialismo norte-americano contra a URSS, nesse momento sim pareceu oportuno para publicar esse livro, que veio à luz em 1946.

Faz mais ou menos 10 anos que o camarada Rob Sewell foi aos EUA, à Universidade de Harvard, onde estão os arquivos de Trotsky, e encontrou uma grande quantidade de material que Malamuth havia excluído do livro. Ele retirou o mesmo mediante o pagamento de uma quantia de dinheiro para o privilégio e levou esse conteúdo a Londres, onde decidimos refazer o livro Stálin, colocando todo o material que Malamuth havia deixado de fora. Mas depois encontramos mais material, inclusive material em russo que estava na Rússia, quando eu já estava traduzindo aquele material ao inglês.

O resultado é que agora temos um livro pelo menos 30% maior que o livro publicado por Malamuth. E se falamos da segunda parte, a parte que não estava acabada, são uns 90% a mais de material. Realmente, estamos falando de um livro inédito que agora lançamos na Inglaterra e na Europa.

Esquerda Marxista – Por que as obras de Leon Trotsky podem ser interessantes para os leitores da nova geração depois de 76 anos de sua morte?

Alan Woods – A pergunta deveria ser outra, deveria ser: “Por que as ideias de Marx e [Friedrich] Engels devem ser interessantes 160 anos depois de sua publicação?”. O capitalismo está em uma crise muito profunda. Particularmente no Brasil as pessoas sabem bem disso, porque vivem em sua própria pele. Há um questionamento geral do sistema, inclusive nos Estados Unidos, como vimos na campanha de [Bernie] Sanders, que despertou um enorme interesse no socialismo em um grande número de pessoas, não somente em jovens. Em geral, isso é um fenômeno internacional. Há uma busca das ideias adequadas para derrubar esse sistema totalmente caduco, degenerado, reacionário, senil e injusto que é o capitalismo. Estou plenamente convencido de que as únicas capazes de realmente explicar essa crise da sociedade e de propor uma alternativa são as do marxismo. Realmente, as ideias de Marx e Engels estão mais relevantes hoje do que quando foi lançado o Manifesto Comunista. E, entre os grandes intérpretes modernos do marxismo no século 20, há dois gigantes, que são Vladimir Ilitch Lenin e Leon Trotsky. Nos escritos de Trotsky, o leitor brasileiro vai encontrar muitas coisas que servem para explicar e analisar a realidade atual, e não os acontecimentos da vida de Trotsky, porque não são documentos históricos ou fósseis de museus, mas sim os escritos mais modernos, mais contemporâneos que se pode encontrar. E aí consiste sua relevância.

Esquerda Marxista – A seção brasileira da CMI está trabalhando em uma tradução do livro “Stálin”, para difusão entre o público brasileiro. O que você diria sobre esse livro com um olhar voltado para a América Latina?

Alan Woods – A América Latina é uma região muito importante de um ponto de vista da revolução socialista internacional. É um continente que na última década vivenciou grandes mudanças, e grandes acontecimentos revolucionários. Concretamente na Venezuela, onde pessoalmente participei junto com Hugo Chávez, que foi um amigo meu. É verdade que, ao passo que as coisas mudam, ocorrem reações violentas, em particular na Venezuela. Não obstante, a América Latina segue sendo um continente vital para a revolução mundial. E dentro dela o seu gigante é o Brasil, sem dúvida. O proletariado brasileiro é o mais potente, poderoso e numeroso, e com grandes tradições revolucionárias e militantes. E esse grande proletariado, como em todas as vezes, tem falta de algo. E o que falta são as ideias necessárias para que esse movimento tão grande e tão importante tenha um êxito final. E, nesse contexto, as ideias do marxismo são fundamentais e a publicação de “Stálin” em português e em espanhol, que estamos trabalhando também, parece-me ser de grande ajuda e merece ser felicitada.

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