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Empresas batem recordes de rentabilidade sobre o lombo dos trabalhadores

“Claro, afinal, de onde vem esse incremento da riqueza que os patrões tanto comemoram? Da força de trabalho humana aplicada à produção. Não há fórmulas mágicas no processo de produção capitalista. É exploração nua e crua!”

Uma matéria do jornal O Estado de São Paulo destaca:

“As empresas de capital aberto (exceto bancos) alcançaram no primeiro semestre de 2010 a maior rentabilidade dos últimos 15 anos. Na média, o retorno sobre o patrimônio líquido que mede quanto os acionistas ganharam em relação ao capital investido, ficou em 13% – ante 2,7% de 1995. Os dados constam de um levantamento feito pela empresa de informações financeiras Economática, com todas as companhias listadas na Bovespa.

O movimento de melhora nos indicadores teve início em 2002 e só foi interrompido em 2008, com a explosão da crise que afetou a economia mundial. A média foi influenciada especialmente pelas empresas que estavam expostas às operações cambiais no mercado de derivativos. Mas a queda na rentabilidade, de 12,6% para 8,7%, foi momentânea. No ano passado, o indicador já havia subido para 12,3% e agora, para 13%, destaca o presidente da Economática, Fernando Exel.

(…)

Com a taxa básica de juros (Selic) no menor patamar da história, hoje em 10,75% ao ano, o credito cresceu de forma acelerada. Até julho, o volume de empréstimos e financiamentos concedidos pelos bancos atingiu o recorde de R$ 1,54 trilhão”. O professor Paschoaleri do Instituto INSPER avalia que “as empresas que hoje estão focadas no mercado interno não têm do que reclamar. Um exemplo é a AmBev, cuja rentabilidade calculada pela Economática atingiu 27,2% do patrimônio líquido. A empresa lucrou no primeiro semestre deste ano R$ 3,242 bilhões, um crescimento de 17,4% em relação aos seis meses do ano anterior”.

Evidentemente os patrões e os economistas burgueses comemoram e tentam explicar o fenômeno defendendo seus próprios pontos de vista e interesses de classe. Creditam o resultado positivo às privatizações dos últimos 20 anos, ao aumento do crédito como meio para garantir o consumo, ao aumento no preço das commodities no mercado mundial – que potencializou, sobretudo, o lucro da Petrobrás e da Vale – o maior grau de autonomia do Banco Central em relação ao governo federal na adoção de medidas monetárias e cambiais, etc.

Aumenta o grau de exploração

Sim, é verdade que tais medidas melhoraram o desempenho das empresas, mas os trabalhadores só conseguiram arrancar reajustes maiores quando se mobilizaram. Mas ainda assim aumenta a sobrecarga de trabalho com o aumento de produtividade, esfolando os trabalhadores.

Os economistas burgueses simplesmente ignoram o fato de que, ao mesmo tempo em que a rentabilidade aumenta, também aumenta o grau de exploração sobre a classe trabalhadora.

Claro, afinal, de onde vem esse incremento da riqueza que os patrões tanto comemoram? Da força de trabalho humana aplicada à produção. Não há fórmulas mágicas no processo de produção capitalista. É exploração nua e crua!

É o aumento na produtividade das empresas que garantem a elas a possibilidade de auferirem maior rentabilidade no mercado. E há várias razões para o aumento dessa produtividade.

O que mais temos visto é a produção aumentando, sem, no entanto, estar acompanhada de um aumento, em proporções semelhantes, no número de trabalhadores ou de uma diminuição da jornada de trabalho. Isso significa que mesmo com o atual nível de geração de empregos, o ritmo da jornada de trabalho se tornou mais intenso e/ou que a jornada foi estendida para além da sua duração normal, através de horas-extras, banco de horas e outros expedientes. O resultado é mais produção para o patrão e mais exploração para o peão.

As empresas também usam e abusam da rotatividade da mão-de-obra empregada. Ao mesmo tempo em que trabalhadores com mais tempo de casa são demitidos ou se aposentam, outros são contratados por um salário menor. E assim, as empresas reduzem o gasto com salários ou diluem a mesma quantia que pagavam para um número maior de trabalhadores. O resultado é mais lucro para o patrão e menos dinheiro para o peão.

Paz social sobre um barril de pólvora

Mesmo em linhas gerais, é possível afirmar que a rápida recuperação da economia brasileira frente à crise mundial de 2008 se deve, sobretudo, a esse aumento do grau de exploração da classe trabalhadora. Os trabalhadores, no entanto, percebem à sua própria maneira a situação. Fazem comparações com o passado, refletem sobre suas condições de vida e tiram suas próprias conclusões.

Se há emprego e salário, se é possível financiar um bem, um carro e até mesmo uma casa, então, estamos indo bem. E, assim, o que transparece no Brasil é o clima de paz social e não o da guerra de classes. Aparentemente, todos estão ganhando: os patrões como nunca, mas os trabalhadores também. E a propaganda do governo Lula e da candidata Dilma reforça essa aparência de bem-estar econômico. Mas, no coração do capitalismo, na morada oculta da produção, a luta de classes continua e, mesmo não sendo possível prever quando, haverá um acirramento na disputa entre os interesses antagônicos de burgueses e trabalhadores no Brasil.

Aliás, já estamos vendo os burgueses cerrando os dentes por trás da candidatura Serra para tentar apear o PT do governo e abrir uma era de profundos ataques às conquistas. Por isso, desde já, é preciso preparar a classe trabalhadora, em particular, os militantes e ativistas que se destacam, com as armas necessárias para enfrentarmos esse combate, seja agora, no terreno eleitoral, fortalecendo os músculos para as futuras batalhas que virão quando a bolha esvaziar e a crise estremecer os alicerces da economia capitalista.

* Rafael Prata é funcionário do Banco do Brasil e membro do Diretório Municipal do PT de Campinas.

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