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Em defesa da teoria – ou ‘A ignorância nunca ajudou ninguém’

Em 1846, o comunista utópico alemão Wilhelm Weitling se queixava que os ‘intelectuais’ Marx e Engels só escreviam sobre temas que não interessavam aos trabalhadores. Marx respondeu furioso: ‘A ignorância nunca ajudou a ninguém’. Como isso é atual!

A publicação da série “A luta de classes na República romana” [em inglês, em breve haverá versão em português] suscitou um grande interesse entre os leitores do site In Defense of Marxism. De acordo com a informação que me foi passada pelo comitê de redação, houve um número recorde de visitas individuais nestes artigos, cerca de 2.200, que é consideravelmente mais alta que a média de visitas por cada texto.

Este fato confirma a correção da política do site da CMI, que estabeleceu uma sólida reputação pela qualidade de seus textos teóricos. Em um momento em que as idéias do marxismo encontram-se sob ataque de todas as partes, nosso site na internet se destaca por sua defesa firme e coerente da teoria marxista em toda sua múltipla riqueza. Isto demonstra que muitas pessoas, em todo o mundo, estão interessadas na teoria e se mostram entusiasmadas em aprofundar seus conhecimentos sobre o marxismo.

Marxist.com tem seus críticos, entretanto. Alguns de nossos críticos se queixam de que estamos escrevendo artigos sobre a antiga Roma em meio à maior crise do capitalismo desde a década de 1930. Para fazermos justiça a nós mesmos, devemos dizer que o Marxist.com publicou muito sobre a crise e o continuará fazendo. Mas também temos o dever de escrever sobre outras questões, para elevar o nível de compreensão teórica de nossos leitores, para proporcionar uma análise marxista, não só da economia, mas também da história, da ciência, da arte, da música e as demais esferas da atividade humana.

Como respondemos àqueles que nos exigem restringir o alcance do marxismo para que encaixe em seu esquema mental limitado? Não temos nada a responder, porque já foram contestados há muito tempo por Lênin, que escreveu: sem teoria revolucionária não pode haver nenhum movimento revolucionário. Essa é uma verdade fundamental sobre a qual todos os grandes marxistas sempre insistiram. Recordemos esse fato elementar com exemplos significativos.

Não há revolução sem teoria

Inclusive antes de escrever “O Manifesto Comunista”, Marx e Engels (que, devemos lembrar, começaram sua vida revolucionária como estudantes de filosofia hegeliana) levaram a cabo uma luta contra esses dirigentes “proletários” que veneravam o atraso e os métodos primitivos de luta, e que resistiam obstinadamente à introdução da teoria científica.

O crítico russo, Annenkov, que encontrava-se em Bruxelas durante a primavera de 1846, nos deixou um informe muito curioso de uma reunião na qual se produziu uma querela furiosa entre Marx e Weitling, o comunista utópico alemão. Em um dado momento, Weitling, que era um trabalhador, se queixou que os “intelectuais” Marx e Engels escreviam sobre temas obscuros, que não interessavam aos trabalhadores. Acusou Marx de escrever “análises e doutrinas sentados em cadeiras distantes do mundo das pessoas que sofrem e padecem”. Nesse momento, Marx, que era geralmente muito paciente, ficou indignado. Annenkov escreveu:

“Em suas últimas palavras, Marx finalmente perdeu o controle de si mesmo e golpeou tão forte com seu punho sobre a mesa que a lâmpada que estava acima dela caiu com estrépito. E saltou dizendo: A ignorância nunca ajudou ninguém!” (Recuerdos de Marx y Engels, p. 272, Ed. Inglesa. Ênfase minha, AW – Tradução livre).

Weitling se opunha à teoria e ao trabalho propagandístico paciente. Como Bakunin, sustentava que os pobres sempre estavam dispostos para a revolta. Este defensor da “ação revolucionária” em oposição à teoria acreditava que, sempre e quando haja dirigentes resolutos, se poderia impulsionar uma revolução em qualquer momento. Inclusive hoje em dia encontramos ecos destas ideias pré-marxistas primitivas nas fileiras dos marxistas.

Marx compreendeu que o movimento comunista só podia avançar com uma ruptura radical com estas noções primitivas e com uma limpeza exaustiva em suas fileiras. A ruptura com Weitling era inevitável e chegou em maio de 1846. Depois, Weitling se instalou nos Estados Unidos e deixou de jogar qualquer papel digno de menção. Só com a ruptura com a noção de “trabalhador-ativista” de Weitling foi possível estabelecer a Liga Comunista sobre uma base sólida. Entretanto, a tendência primitiva representada por Weitling se reproduziu constantemente no movimento, em primeiro lugar nas ideias de Bakunin, e mais adiante nas variadas formas de ultra-esquerdismo que ainda praga o movimento marxista até os dias de hoje.

Nas Obras Escolhidas de Marx e Engels encontramos uma verdadeira mina de ouro de ideias. Aqui encontramos os escritos de Engels sobre a guerra camponesa na Alemanha, sobre a história prematura dos alemães, eslavos e irlandeses, sua história do cristianismo primitivo, etc. Em seu texto sobre a morte de Engels, Lênin escreveu:

“Marx trabalhou na análise dos fenômenos complexos da economia capitalista. Engels, em seus trabalhos, escritos em uma linguagem muito amena, minimamente de caráter polêmico, enfocou os problemas científicos mais gerais e os diversos fenômenos do passado e do presente no espírito da concepção materialista da História e da doutrina econômica de Marx.”

Uma breve lista das obras de Engels revela imediatamente a amplitude de visão de sua pessoa. Contamos com seu magnífico trabalho polêmico contra Dühring, que trata da filosofia, e as ciências naturais e sociais com grande profundidade. A origem da família, da propriedade privada e do Estado se ocupa das origens primitivas da sociedade humana. O que tem isso tudo a ver com a classe trabalhadora e a luta de classes, perguntaram nossos críticos “práticos”. Só isto: que esse foi o trabalho que estabeleceu a base da teoria marxista do Estado, que Lênin desenvolveu mais tarde em O Estado e a Revolução, o livro que assentou as bases teóricas para a revolução bolchevique.

E o que vamos dizer sobre Ludwig Feuerbach e o fim da filosofia clássica alemã? Neste livro, Engels não só aborda as ideias “abstratas e abstrusas” de Hegel, senão também as idéias obscuras de filósofos alemães menores do movimento da esquerda hegeliana. Especialmente, na Correspondência de Marx e Engels encontra-se um tesouro oculto de ideias de uma envergadura surpreendente. Os dois amigos trocaram opiniões sobre todo tipo de temas, não só de economia e política, mas de filosofia, história, ciência, arte, literatura e cultura.

Aqui temos uma resposta esmagadora a todos os críticos burgueses de Marx que apresentam uma caricatura de marxismo como uma doutrina seca e estreita, que reduz todo o pensamento humano à Economia e ao desenvolvimento das forças produtivas. Entretanto, ainda hoje há pessoas que gostam de se chamar de marxistas e que defendem, não as verdadeiras ideias de Marx e Engels em toda sua riqueza, amplitude e profundidade, mas a mesma caricatura “economicista” dos críticos burgueses do marxismo. Isso não é marxismo de forma alguma, senão, para utilizar a expressão de Hegel, “die leblosen Knochen eines Skeletts” (os ossos sem vida de um esqueleto), e sobre o que Lênin comentou: “o que se necessita não é leblose Knochen, mas a vida vivida.” (Lênin, Notas Filosóficas, Obras Escolhidas, vol. 38. Edição Inglesa).

Lênin e a teoria

Lênin sempre destacou a importância da teoria. Inclusive na fase inicial e embrionária do partido, levou a cabo uma luta implacável contra os “economicistas”, que tinham a mentalidade estreita “prático-proletária” e que depreciavam a teoria como assunto de intelectuais, e não dos trabalhadores. Respondendo a esse absurdo, Lênin escreveu:

“A declaração de Marx: ‘Um passo adiante real do movimento é mais importante que uma dúzia de programas’. Repetir estas palavras em um período de transtorno teórico é exatamente o mesmo que gritar ao passar de um enterro: ‘Oxalá tenham sempre algo a levar!’. Além do mais, essas palavras de Marx são tiradas de sua carta sobre o Programa de Gotha, na que ele condena duramente o ecletismo na formulação dos princípios, não façam ‘concessões’ teóricas. Essa foi a idéia de Marx e, todavia, há pessoas entre nós que buscam em seu nome menosprezar a importância da teoria!

Sem teoria revolucionária não pode haver nenhum movimento revolucionário. Nunca se insistirá o bastante sobre essa idéia em um momento em que a pregação de moda do oportunismo vá de mãos dadas com um capricho pelas formas mais restritas de atividade prática. Entretanto, para os social-democratas russos a importância da teoria se vê reforçada por outras três circunstâncias, que são muitas vezes esquecidas: primeiro, pelo fato de que nosso partido só está no processo de formação, apenas começou a definir suas características, e ainda está muito longe de haver ajustado as contas com as outras tendências do pensamento revolucionário que ameaçam desviar o movimento da rota correta.” (Que Fazer, Dogmatismo e ‘Liberdade de crítica’).

A tendência “economicista”, como as de Weitling e Bakunin, se apresentava como uma tendência “proletária genuína”, que combatia contra a influência perniciosa dos “teóricos intelectuais”. Uma forte ruptura com essa tendência, que combinava a demagogia “proletária” com o reformismo sindicalista na prática, foi a condição prévia para a formação do bolchevismo. Mas a luta pela teoria, contra os “práticos” foi uma característica constante durante muito tempo depois.

Lênin escreveu em 1908:

“A luta ideológica travada pelo marxismo revolucionário contra o revisionismo, ao final do século XIX, não é, senão, o prelúdio das grandes batalhas revolucionárias do proletariado, que está marchando adiante para a vitória completa de sua causa, apesar de todas as oscilações e debilidades da pequena burguesia”. (Marxismo e Revisionismo)

Em seu livro Stalin, Trotsky descreve detalhadamente a psicologia dos “homens do comitê”, bolcheviques que também tinham a mentalidade “prática”. Cometeram toda uma série de erros por sua incapacidade em compreender o movimento real dos trabalhadores em 1905-6. A razão de seus erros (geralmente de caráter ultra-esquerdista) foi sua falta de compreensão da dialética. Tinham uma idéia completamente abstrata e formalista da construção do partido, que não estava relacionada com o movimento real dos trabalhadores. Por isso, em 1905, para horror de Lênin, os bolcheviques de São Petersburgo abandonaram a primeira reunião do Soviet, porque este se negou a aceitar o programa do partido.

Em 1908, quando Lênin se encontrou em minoria de um na direção da corrente bolchevique, que estava dirigida pelos ultra-esquerdistas Bogdanov e Lunacharsky, ele esteve disposto a cindir sobre a base de uma diferença sobre a filosofia marxista. Não foi casual que, nesse momento difícil, quando a própria existência da tendência revolucionária estava em perigo, ele passara muito tempo escrevendo um livro sobre filosofia: Materialismo e empiriocriticismo.

Alguém poderia perguntar o que estava fazendo Vladmir Ilich escrevendo livros sobre tais assuntos. Que possível relevância podia ter o estudo dos escritos do bispo Berkeley para os trabalhadores russos? Também se pode perguntar por que Lênin considerou necessário romper com a maioria dos líderes bolcheviques sobre a questão da filosofia. Mas Lênin compreendeu muito bem o nexo causal entre a recusa de Bogdanov ao materialismo dialético e as políticas ultra-esquerdistas adotadas pela maioria.

Durante a primeira guerra mundial, Lênin regressou à filosofia, e fez um estudo profundo sobre Hegel, que foi publicado muitos anos mais tarde sob o título de Notas filosóficas. Uma de suas últimas obras foi O significado do materialismo militante, em que uma vez mais sublinhava a necessidade de estudar Hegel:

“Supostamente, este estudo, esta interpretação, esta propaganda da dialética hegeliana é extremamente difícil, e as primeiras experiências nesse sentido, sem dúvida, virão acompanhadas de erros. Mas só quem nunca faz nada nunca se equivoca. Tomando como base o método de Marx de aplicar de maneira materialista a forma de conceber a dialética hegeliana, podemos e deveríamos elaborar esta dialética desde todos os aspectos, imprimir nos diários extratos das principais obras de Hegel, interpretá-los de maneira materialista e comentá-los com a ajuda de exemplos da forma em que Marx aplica a dialética, assim como de exemplos de dialética da esfera das relações econômicas e políticas, que a história recente, especialmente a guerra imperialista moderna e a revolução, proporciona com abundância incomum”.

Trotsky e a teoria

Trotsky, como Lênin, dedicou toda a sua vida a uma defesa intransigente da teoria marxista. Em um excelente texto sobre Engels, sublinha a atitude escrupulosa deste em relação à teoria:

“Ao mesmo tempo, a magnitude intelectual do mestre a seu pupilo era verdadeiramente inesgotável. Eu costumava ler os textos mais importantes do prolífico Kautsky em sua forma de manuscrito, e cada uma de suas cartas de crítica contêm sugestões preciosas, o fruto de uma reflexão séria, às vezes, de investigação. A obra bem conhecida de Kautsky, Antagonismos de classe na Revolução Francesa, que foi traduzida para quase todos os idiomas da humanidade civilizada, também parece que passou através do laboratório intelectual de Engels. Sua longa carta sobre as agrupações sociais na época da grande revolução do século XVIII – assim como sobre a aplicação do método materialista dos acontecimentos históricos – é um dos documentos mais impressionantes da mente humana. Por sua grande concisão, cada uma de suas fórmulas pressupõe um acúmulo demasiado grande de conhecimentos para que possa entrar na circulação da leitura geral; mas esse documento, apesar de ter permanecido por um longo tempo oculto, permanecerá para sempre não só como uma fonte de instrução teórica, mas também como um pedaço de gozo estético para toda pessoa que tenha refletido seriamente sobre a dinâmica das relações de classe em uma época revolucionária, bem como sobre os problemas gerais envolvidos na interpretação materialista dos acontecimentos históricos.” (Trotsky, Cartas de Engels a Kautsky, 1935).

Em todas as obras de Trotsky vemos uma amplitude de visão e um amplo interesse, não só sobre história, mas também na arte e literatura e a cultura em geral. Antes da primeira guerra mundial, escreveu textos sobre arte e sobre escritores como Tolstoi e Gogol. Depois da Revolução de Outubro, escreveu extensamente sobre arte e literatura. Seu livro Literatura e Revolução é produto desse período.

Em 1923 escreveu: “A literatura, cujos métodos e processos têm suas raízes no passado mais longínquo e representa a experiência acumulada de artesanato verbal, expressa os pensamentos, sentimentos, estados de ânimo, pontos de vista e as esperanças de cada nova época e de sua nova classe.” (Trotsky, Las raíces sociales y la función social de la literatura). No centro do tormentoso período da revolução e contra-revolução na década de 1930, encontrou tempo para escrever sobre literatura e arte. Em 1934, pouco depois da catástrofe alemã, escreveu um comentário sobre a novela de Ignazio Silone, Fontamara. Em 1938, escreveu o Manifesto por uma Arte Revolucionária Independente, junto com o escritor surrealista André Breton.

Só podemos imaginar a indignação dos filisteus pseudo-marxistas: “Que é isto? O camarada Trotsky está perdendo seu tempo neste momento revolucionário da história escrevendo sobre arte? Que tem a ver a arte com o proletariado e a luta de classes?” O filisteu sacode a cabeça amargamente e conclui que o camarada Trotsky não é o homem que era. “Este não é o Trotsky de O Programa de Transição! O Velho deve estar perdendo suas faculdades mentais!” Sim, podemos imaginar isso!

Em um momento em que a Europa estava sacudida pela revolução e contra-revolução, quando seus partidários estavam sendo assassinados e a Quarta Internacional lutava por sua sobrevivência, por que Trotsky encontrava tempo para se dedicar a questões tais como a arte e a literatura? Quando tivermos respondido essa pergunta seremos capazes de ver a diferença entre o marxismo genuíno, o revolucionário proletário genuíno, e a caricatura superficial que passa por marxismo em alguns círculos.

“Meros teóricos”

Durante a luta fracional que conduziu à cisão da Tendência Militant, a fração da maioria disse que Ted Grant e Alan Woods eram “meros teóricos”. Essa simples frase diz o suficiente para caracterizar essa tendência. Durante décadas dedicamos nossas vidas à construção da tendência que resultou ser a mais exitosa do movimento trotskysta desde a época da Oposição de Esquerda russa, no final dos anos 1920. Partindo de um punhado de companheiros ao início dos anos 1960, conseguimos construir uma grande organização com raízes sólidas no movimento dos trabalhadores da Grã-Bretanha.

Todos esses êxitos foram o resultado de anos de trabalho paciente. Em última instância, foram o resultado das ideias, os métodos e as perspectivas corretas elaboradas por Ted Grant, esse grande pensador marxista. Ted sobressaía cabeça e ombros por cima de qualquer de seus contemporâneos. Estava bem fundamentado na teoria marxista e conhecia as obras de Marx, Engels, Lênin e Trotsky como a palma de sua mão.

Quando Ted Grant e eu fomos expulsos da Tendência Militant, nos encontramos em uma situação difícil. A maioria tinha um enorme aparato, muito dinheiro e uma equipe de liberados de cerca de 200 pessoas. Nós não tínhamos nem sequer uma máquina de escrever. Entretanto, nem Ted nem eu estávamos nem um pouco preocupados. Tínhamos as ideias do marxismo, e isso era o importante. Toda minha experiência me convenceu de que se se tem as ideias corretas, sempre se poderá construir um aparato. Mas o contrário não é verdade. Pode-se ter o aparato maior do mundo, mas se se trabalha sobre a base de teorias e métodos incorretos, fracassará.

Nós consideramos a situação e chegamos à conclusão de que na [então] presente situação, especialmente após o colapso da União Soviética, nossa tarefa mais urgente era defender as ideias básicas e as teorias do marxismo. O primeiro resultado foi o livro Razão e Revolução: Filosofia marxista e ciência moderna. Nossos ex-companheiros lançaram grandes gargalhadas sobre esse livro. Seu comentário sarcástico foi: “Vejam! Ted e Alan abandonaram a política para escrever livros sobre filosofia!” Essa foi sua atitude em relação à teoria marxista – uma atitude na verdadeira tradição de Weitling e dos “homens do comitê” bolcheviques, mas absolutamente não de Marx, Engels, Lênin e Trotsky.

Cedo ou tarde, os erros na teoria se traduzem em um desastre na prática. A ex-maioria pagou o preço por seus erros. O que antes era uma tendência potente, com raízes sérias no movimento dos trabalhadores, foi reduzida a uma sombra do que foi. Por outro lado, Razão e Revolução jogou um papel-chave no estabelecimento da Corrente Marxista Internacional. Foi traduzido para muitos idiomas e foi elogiado por muitos trabalhadores, socialistas, comunistas, sindicalistas e bolivarianos (incluindo Hugo Chávez).

Como pode se explicar isso? Os trabalhadores e jovens avançados têm sede pelas ideias e a teoria. Querem compreender o que está sucedendo na sociedade. Não se sentem atraídos pelas tendências que simplesmente lhes dizem o que já sabem: que o capitalismo está em crise, que há desemprego, que vivem em péssimas habitações, que ganham salários baixos, e assim sucessivamente. As pessoas sérias querem saber por que as coisas são como são, o que sucedeu na Rússia, o que é o marxismo e outras questões de caráter teórico. Por isso, a teoria não é uma opção extra, como imaginavam os “práticos”, senão uma ferramenta essencial da luta revolucionária.

Os trabalhadores e a cultura

É uma calúnia contra o proletariado dizer que os trabalhadores não estão interessados nos grandes assuntos da cultura, da história, da filosofia, etc. Na minha experiência de muitos anos, eu encontrei que, entre os trabalhadores há um interesse muito mais autêntico pelas ideias que em muitas pessoas procedentes das chamadas classes médias cultas. Recordo que há muito tempo, quando estava dando conferências a trabalhadores no sul de Gales, de onde sou originário, que uma vez encontrei um trabalhador metalúrgico que havia aprendido por si só o português para ler as obras de um poeta brasileiro do qual eu nunca havia ouvido falar antes.

A ideias de que os trabalhadores não estão interessados na cultura provém quase invariavelmente dos pequeno-burgueses intelectuais que não têm nenhum conhecimento da classe trabalhadora e que confundem os trabalhadores com o lúmpem-proletariado. Portanto, mostram seu desprezo pela classe trabalhadora e seu próprio esnobismo de classe média aos trabalhadores. Este é o tipo de pessoa que tenta agradar os trabalhadores se vestindo de maneira descuidada e tratando de imitar um sotaque da “classe trabalhadora”. Empregam uma linguagem mal falada, pensando que isso melhora suas credenciais proletárias.

Tenho visto muitos casos de supostos marxistas educados que pensam que é inteligente imitar a linguagem e os hábitos do lúmpem-proletariado, imaginando que isto lhes dará mais credibilidade como “verdadeiros trabalhadores”. Na realidade, os trabalhadores não utilizam normalmente esse tipo de linguagem em suas casas ou em seu círculo mais próximo. Imitar a conduta dos extratos mais baixos e degradados dos trabalhadores e da juventude não é digno de um marxista e muito menos de alguém que aspira ser um dirigente. Em um texto maravilhoso, A luta por uma linguagem culta, Trotsky descreveu essa linguagem como a marca de uma mentalidade de escravos, que os revolucionários não devem imitar, mas deveriam se esforçar para eliminar.

Neste texto, escrito em 1923, Trotsky elogia os trabalhadores da fábrica de calçados La Comuna de Paris que aprovaram uma resolução na qual se abstinham de empregar uma linguagem blasfema (más palavras) e impunham multas por empregar uma linguagem grosseira. O dirigente da Revolução de Outubro não considerou isto como um detalhe insignificante, mas como uma manifestação muito importante do esforço da classe trabalhadora em se liberar da mentalidade escrava e aspirar a um nível superior de cultura. “A linguagem blasfema e as más palavras são um legado da escravidão, da humilhação e do desprezo pela dignidade humana: da própria e dos demais”. Isso foi o que escreveu o dirigente da Revolução de Outubro.

Há muitos níveis diferentes na classe trabalhadora, que refletem diferentes condições e experiências. As camadas mais avançadas do proletariado estão ativas nos sindicatos e nos partidos dos trabalhadores. Eles aspiram uma vida melhor. Tomam um vivo interesse pelas ideias e a teoria, e se esforçam em se educar. Esses esforços são uma garantia do futuro Socialista, quando os homens e mulheres tenham quebrado, não só as correntes físicas que os atam, mas as correntes psicológicas que os mantém escravizados a um passado bárbaro.

Trotsky sublinhou a importância da luta por uma linguagem culta: “A luta pela educação e a cultura proporcionará aos elementos avançados da classe trabalhadora todos os recursos do idioma russo em sua riqueza extrema, sutileza e refinamento”.

E explica que a revolução é “em primeiro lugar um despertar da personalidade humana nas massas, que se supõe que não possuem personalidade”. É, “antes e sobretudo, o despertar da humanidade, sua marcha ascendente, e se caracteriza por um respeito crescente à dignidade pessoal de cada indivíduo e por um interesses cada vez maior pelos débeis”. (ibid.)

A transformação Socialista significa não só a conquista do poder: que é só o primeiro passo. A verdadeira revolução – o salto da humanidade desde o reino da necessidade ao reino da liberdade – ainda tem que ser levada a cabo. Engels destacou que, em qualquer sociedade onde a arte, a ciência e o Governo são o monopólio de uma minoria, essa minoria utilizará e abusará de sua posição para manter a sociedade em condições de servidão.

Fazer concessões ao baixo nível de consciência das camadas mais atrasadas e menos instruídas da classe trabalhadora, não ajuda a elevar sua consciência ao nível das tarefas que coloca a história. Pelo contrário, ajuda a reduzi-la, e isso sempre terá conseqüências retrógradas e reacionárias. Podemos resumir a discussão da seguinte maneira: é progressivo e revolucionário o que serve para elevar o nível de consciência do proletariado. É reacionário tudo o que tende a reduzi-lo.

Os marxistas devem estar na primeira linha de batalha da classe trabalhadora que está lutando para transformar a sociedade. Nosso dever é educar e formar os quadros da futura revolução socialista. Para poder realizar essa tarefa, devemos defender o que é positivo, progressivo e revolucionário, e recusar decisivamente tudo o que é atrasado, ignorante e primitivo. Temos nosso objetivo fixado em um horizonte muito nobre. Devemos elevar a visão da classe trabalhadora, começando com os elementos mais avançados, para o horizonte do que falava Trotsky em Literatura e Revolução.

“É difícil predizer o grau de domínio sobre si mesmo que alcançará o homem do futuro ou as alturas às quais elevará sua técnica. A edificação social e a auto-educação psico-física serão dois aspectos do mesmo processo. Todas as artes: a literatura, o teatro, a pintura, a música e a arquitetura prestarão a esse processo uma forma bela. Mais corretamente, o processo da edificação da cultura e a auto-educação do homem comunista desenvolverá até o ponto mais elevado todos os elementos vitais da arte contemporânea. O homem será incomparavelmente mais forte, mais prudente e inteligente, e mais refinado. Seu corpo se fará mais harmônico, seus movimentos mais rítmicos e sua voz mais musical; as formas de seu modo de ser adquirirão uma representatividade dinâmica. O fim médio do intelecto humano ascenderá à altura de um Aristóteles, de um Goethe ou de um Marx. E por cima deste topo se elevarão outros novos”.

Quarta-feira, 21 Outubro de 2009.

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