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Em 23 de setembro, há 38 anos passados, morria Neruda

Hoje quando a juventude e os trabalhadores se erguem na Primavera Árabe e no Chile começaram a jornada pela derrubada de Piñera e construção do socialismo, o camarada Mario Conte trás aos leitores nossa homenagem ao lutador, escritor e poeta Pablo Neruda.


Pablo Neruda

Mario Conte

Pablo Neruda foi o nome artístico de Neftalí Ricardo Reyes Basoalto, que nasceu em Parral, no Chile, no dia12 de julho de 1904, filho de um operário ferroviário e de uma professora primária. Seu pseudônimo é uma dupla homenagem aos poetas Paul Verlaine, francês, e Jan Neruda, tcheco.

Grande artista e poeta, internacionalmente reconhecido, recebeu o Prêmio Nobel de Literatura no ano de 1971, através de uma obra que se inicia através de poesia uma lírica e romântica, passa por um breve flerte com o surrealismo, influenciado por André Breton, e desenvolve-se através de poemas densos e metafísicos. Mesmo em suas obras mais engajadas, não abdicou da qualidade artística por mero panfletarismo ou propaganda, como em “Canto General”, uma longa ode à América Latina, seu povo e suas riquezas naturais.
Um revolucionário que inicia seu salto de consciência política ao tornar-se republicano durante a Guerra Civil Espanhola, impressionado com o covarde assassinato do poeta García Lorca.
Indicado para a presidência do Chile no ano de 1969 abdica à indicação em favor de Salvador Allende, que eleito, o tornaria embaixador chileno na França. Retornou ao Chile no ano de 1972, por conta do avanço de sua doença, câncer na próstata, da qual viria a falecer no dia 23 de setembro de 1973, doze dias após o golpe financiado pelo imperialismo norte-americano, que depôs o governo de Allende, assassinando-o no cerco militar que foi desfechado com o bombardeio aéreo ao Palácio de La Moneda, no dia 11 de setembro daquele ano.
Seu funeral atraiu milhares de pessoas e é retratado no final do filme “It Pleut Sur Santiago” (“Chove Sobre Santiago”), de Hevio Soto, que mostra uma cena que realmente ocorreu com uma senhora que no funeral grita “Compañero Pablo Neruda, Presente! Ahora y siempre!”, e a seguir “Compañero Salvador Allende, Presente! Ahora y siempre!”, em um gesto, ainda que simbólico, de coragem e enfrentamento à brutal e sangrenta ditadura que se instalava naquele país e se estenderia por um longo inverno de 17 anos, a congelar a primavera do povo chileno e a democracia dos povos austrais até o recente e grandioso levante dos estudantes e trabalhadores que culminou na greve geral de agosto passado.
Nessa data, 23 de setembro, 38 anos após a morte de Pablo Neruda, prestamos nossa homenagem a esse artista e revolucionário, Neftalí Ricardo Reyes Basoalto, ou apenas Pablo Neruda.

Nossas homenagens aos combatentes, trabalhadores e jovens, que se erguem no Chile e em todo mundo para acabar com o imperialismo e abrir a via para a construção do socialismo.
Companheiro Pablo Neruda, Presente! Agora e sempre!

Abaixo reproduzimos um trecho de sua autobiografia, “Confesso que Vivi”, publicada no ano de 1978, em tradução da poeta Olga Savary :
“… Sim Senhor, tudo o que queira, mas são as palavras as que cantam, as que sobem e baixam … Prosterno-me diante delas… Amo-as, uno-me a elas, persigo-as, mordo-as, derreto-as … Amo tanto as palavras … As inesperadas … As que avidamente a gente espera, espreita até que de repente caem … Vocábulos amados … Brilham como pedras coloridas, saltam como peixes de prata, são espuma, fio, metal, orvalho … Persigo algumas palavras … São tão belas que quero colocá-las todas em meu poema … Agarro-as no vôo, quando vão zumbindo, e capturo-as, limpo-as, aparo-as, preparo-me diante do prato, sinto-as cristalinas, vibrantes, ebúrneas, vegetais, oleosas, como frutas, como algas, como ágatas, como azeitonas … E então as revolvo, agito-as, bebo-as, sugo-as, trituro-as, adorno-as, liberto-as … Deixo-as como estalactites em meu poema; como pedacinhos de madeira polida, como carvão, como restos de naufrágio, presentes da onda … Tudo está na palavra … Uma idéia inteira muda porque uma palavra mudou de lugar ou porque outra se sentou como uma rainha dentro de uma frase que não a esperava e que a obedeceu … Têm sombra, transparência, peso, plumas, pêlos, têm tudo o que ,se lhes foi agregando de tanto vagar pelo rio, de tanto transmigrar de pátria, de tanto ser raízes … São antiqüíssimas e recentíssimas. Vivem no féretro escondido e na flor apenas desabrochada … Que bom idioma o meu, que boa língua herdamos dos conquistadores torvos … Estes andavam a passos largos pelas tremendas cordilheiras, pelas .Américas encrespadas, buscando batatas, butifarras*, feijõezinhos, tabaco negro, ouro, milho, ovos fritos, com aquele apetite voraz que nunca. mais, se viu no mundo … Tragavam tudo: religiões, pirâmides, tribos, idolatrias iguais às que eles traziam em suas grandes bolsas… Por onde passavam a terra ficava arrasada… Mas caíam das botas dos bárbaros, das barbas, dos elmos, das ferraduras. Como pedrinhas, as palavras luminosas que permaneceram aqui resplandecentes… o idioma. Saímos perdendo… Saímos ganhando… Levaram o ouro e nos deixaram o ouro… Levaram tudo e nos deixaram tudo… Deixaram-nos as palavras.”
*butifarras é uma espécie de chouriço de lingüiça espanhola, típico das regiões de Catalunha, Valência e Baleares.

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