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Eleições em São Paulo, o vazio dos candidatos do sistema e a pressão para o PSOL abandonar a disputa

O primeiro turno das eleições chega na reta final e em São Paulo fica evidente que os candidatos dos partidos tradicionais não falam nada do que interessa para a melhoria das condições de vida do povo trabalhador, ou, quando falam, são promessas de campanha.

O primeiro turno das eleições chega na reta final e, na principal cidade do país, São Paulo, o que fica evidente é que os candidatos dos partidos tradicionais não falam nada do que interessa para a melhoria das condições de vida do povo trabalhador, ou, quando falam, são promessas de campanha, ou seja, palavras que serão esquecidas assim que as urnas se fecharem.

Mas as pesquisas de primeiro turno apontam um interessante cenário. Celso Russomanno (PRB) aparece em primeiro com 30%, Marta (PMDB) com 20%, João Doria (PSDB) 17%, Fernando Haddad (PT) 9%, Erundina (PSOL) 5%. Russomanno bateria todos no segundo turno. (pesquisa IBOPE de 14/9) 

Em 2012, na última eleição municipal, escrevi um texto analisando a disputa na cidade quando Celso Russomanno ainda estava na primeira posição. (Ver: “Eleições em São Paulo: o que significa a liderança de Russomanno nas pesquisas?”)

Naquele texto apresentava quem era Russomanno e seu partido, o PRB, considerando sua ascensão mais um fruto da política de colaboração de classes do PT. O PRB, um partido burguês ligado à igreja Universal do Reino de Deus, foi da base aliada dos governos Lula e Dilma e, não podemos esquecer, é daquela eleição a vergonhosa foto de Lula apertando a mão de Maluf para selar a aliança entre PT e PP para a candidatura de Haddad. O que apresentávamos como uma possibilidade, de a classe trabalhadora se reagrupar na candidatura petista para derrotar Serra do PSDB e Russomano, se concretizou ao final. Seria possível isso hoje?

Em junho de 2013, Haddad anunciou junto com Alckmin o aumento da passagem do transporte público de R$ 3,00 para R$ 3,20. Também junto com o governador tucano, orquestrou a repressão às manifestações contra o aumento das tarifas. O resultado todos se recordam, as grandiosas manifestações que, a partir de São Paulo, irradiaram para o Brasil, abalaram todo o regime e abriram uma nova situação política. Obrigando Alckmin e Haddad, juntos mais uma vez, a revogarem o aumento, assim como outros governantes que tinha seguido o mesmo caminho.

De 2012 pra cá tivemos também a eleição presidencial de 2014, na qual, mais uma vez, os trabalhadores, para derrotar Aécio do PSDB, votaram em Dilma. E depois… o estelionato eleitoral e a ruptura do PT com sua base social.

Resumindo. As seguidas traições do PT e seus governos fazem com que seja altamente improvável a reação da candidatura petista em São Paulo. Aliás, o que se prepara para o PT nessas eleições, pelo Brasil, é um grande fiasco.

O que está em ação é uma pressão sobre Erundina, do PSOL, para abrir mão da sua candidatura e apoiar Haddad para tornar viável uma alternativa “de esquerda” no segundo turno. Tal pressão pode ser vista na coluna da Folha de São Paulo publicada em 21/9 com o título “PSOL deveria mirar o exemplo europeu ao tentar fragilizar o PT”.

O texto apresenta uma visão confusa e distorcida sobre a queda de Syriza, na Grécia, e Podemos, na Espanha, além de tentativas de apresentar partidos da ordem, como o PRI do México e o Partido Democrático na Itália, como exemplos de ressurgimento de partidos tradicionais, argumentos utilizados para defender, no final, que “Ao pretender cravar o último prego no caixão do PT, o PSOL realiza o sonho da direita: um segundo turno dominado por candidatos conservadores, e uma esquerda confinada à temática das minorias”. Ou seja, o autor defende que o PSOL apóie Haddad já no primeiro turno.

Isso não tem nada a ver com a tática revolucionária da Frente Única. Seria um abandono da base que está tentando construir uma alternativa aos partidos adaptados ao sistema, o PT entre eles, que segue aliado com partidos burgueses (PR, Pros e PDT em São Paulo, com PMDB, PSDB e DEM em centenas de municípios). O PT falido não pode servir de barreira para construir o novo.

Dos que estão no “G3” da pesquisa, além de Russomano, está Marta, que trocou o PT pelo PMDB pra ir para um partido sem corrupção e o novato João Doria, do PSDB, que se apresenta como João trabalhador para fugir da imagem de empresário.

As disputas nas prévias do PSDB, aliás, causaram fissuras no partido. Doria foi apoiado por Alckmin. O principal oponente era Andrea Matarazzo, apoiado por Serra. Com a derrota no primeiro turno das prévias do partido, apontando irregularidades, Matarazzo saiu do PSDB e foi para o PSD. Hoje é vice de Marta. Isso criou uma situação em que núcleos do PSDB em São Paulo tem feito campanha para Marta, não para o candidato de seu partido.

A conclusão lógica é a de que no topo da pesquisa não há nenhuma alternativa para os trabalhadores.

A candidatura de Erundina, que começou em terceiro lugar nas pesquisas, com 9% das intenções de voto, caiu para a 5ª posição. Joga um peso importante nesse processo as limitações impostas pela legislação eleitoral, com tempo reduzido de TV e rádio, além da não participação nos debates, o que só foi revertido, após pressão, no STF, em meio à campanha eleitoral. Além da máquina eleitoral do PMDB, PSDB e PT frente um partido que começa a ganhar força, o PSOL. 

De qualquer forma, é preciso mirar no futuro e na luta de classes. Para o PSOL se construir como uma alternativa de esquerda, diferente da podridão que domina os partidos políticos e as instituições burguesas, é fundamental olhar para além do pragmatismo eleitoral. Mantendo firme a candidatura de Erundina para que aqueles que buscam algo novo tenham onde depositar o seu voto. Apresentando-se cada vez mais como uma candidatura que vai lutar pelo Fora Temer e os ataques, que vai defender as lutas, as conquistas e os direitos da classe trabalhadora e da juventude.

Os marxistas, por sua vez, apoiam Erundina e seguem com a campanha contra o sistema do camarada Caio Dezorzi em São Paulo, lançada em coligação com o PSOL, que defende os mesmos objetivos das outras 20 candidaturas contra o sistema que a Esquerda Marxista lança pelo Brasil, apontando a necessidade de abolir a ordem existente e construir o socialismo. 

As eleições são um terreno distorcido, o terreno do inimigo, e devem ser utilizadas para construirmos as nossas forças para virarmos o jogo em outro campo. Nas ruas, nas fábricas, nas escolas, nas ocupações por terra e moradia, nas lutas da classe trabalhadora e da juventude. É aí que o campeonato será decidido.

PS: em nova pesquisa DataFolha divulgada hoje (22/09), após a publicação deste texto, Doria aparece em primeiro, com 25%, Russomanno com 22%, Marta com 20%, Haddad com 10% e Erundina com 5%. 

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