Início / Artigos / Brasil / Eleições 2016: A crise do capital e o segundo turno

Eleições 2016: A crise do capital e o segundo turno

Burguesia busca esconder de seu balanço eleitoral as fragilidades expostas do regime político, enquanto resultados entre a esquerda oferecem lições importantes sobre como preparar uma alternativa socialista para o futuro.

Foto: Mesmo após derrota eleitoral do segundo turno no Rio de Janeiro, milhares de ativistas dão o recado nas ruas de que querem continuar a luta para mudar suas vidas

Confira a nota política da Esquerda Marxista com o balanço do primeiro turno das eleições 2016

A burguesia comemora nas capas dos jornais e revistas o resultado eleitoral. De fato, os partidos de direita levaram a maioria das prefeituras. No entanto, nas páginas de economia, o que segue rondando é a preocupação com a crise e as perspectivas econômicas.

Já são mais de 12 milhões de desempregados. A dívida pública segue crescendo. De janeiro a setembro, foram pagos 388 bilhões de reais só de juros da dívida. Mas, é claro, o que a grande imprensa destaca como problema é o suposto “déficit” da previdência. Na verdade, déficit criado artificialmente com o desvio de verbas da seguridade social para outras finalidades.

Hoje a revolta atinge os estudantes a partir da MP 746, a Reforma do Ensino Médio, e dos cortes de verbas para educação. Assembleias estudantis e as manifestações crescem. O governo Temer vê que a resistência pode aumentar se colocar em marcha a principal medida exigida pelo mercado: a Reforma da Previdência. Este é o pano de fundo do balanço eleitoral.

Neste segundo turno, os analistas burgueses destacaram várias questões. A principal delas foi o fato de que o PSDB ganhou na maioria das grandes cidades e o PT sofreu uma queda brutal, quase desaparecendo nos principais centros políticos. O outro ponto destacado foi o aumento de brancos, nulos e abstenções. Mas esses elementos representam uma parte do resultado e precisam ser compreendidos mais a fundo.

O “convênio” Michel Temer procurou destacar que o conjunto dos seus partidos aliados ganhou as eleições. Mas será isto toda a verdade? A grande questão que tentam apagar é que a maioria dos brasileiros está insatisfeita com a situação e olha com desconfiança a política, os políticos e os governos. Prova disso é a alta recusa da população em votar em qualquer candidato, no primeiro e no segundo turno.

No Rio de Janeiro, brancos, nulos e abstenções somaram 42% dos eleitores. Já Marcelo Crivella, o candidato eleito do PRB, conseguiu o voto de 35% dos eleitores. Relembremos que em São Paulo, no primeiro turno, o eleito João Doria (PSDB), obteve cerca de 11 mil votos a menos do que a soma de brancos, nulos e abstenções.

Na vida cotidiana, a saúde e a educação estão em situação cada vez pior. Trabalhadores, que com o desemprego perderam seus planos de saúde, agora não encontram no serviço público um mínimo de atendimento razoável. Faltam médicos, remédios, estrutura. Já as escolas estão caindo aos pedaços. Professores têm o salário rebaixado e estão desestimulados. Como expressão da decadência social geral, a criminalidade aumenta. No Rio de Janeiro, escolas não têm aulas por causa de tiroteios.

O governo e seus aliados fazem uma proposta de emenda constitucional para afagar o mercado e garantir o pagamento da dívida, cortando mais fundo na educação e na saúde. O governo propõe uma reforma da previdência que vai cortar diversos direitos e, mais do que isso, vai criar condições tais que, dificilmente, um trabalhador conseguirá se aposentar.

Esta situação toda não foi discutida durante a campanha eleitoral. Aos candidatos da direita, interessava o tempo inteiro esconder a situação real. Por outro lado, o partido que poderia colocar amplamente e claramente estes problemas seria o PSOL. Entretanto, as principais campanhas do partido se limitaram a uma pauta municipal. Faltou a ligação entre as propostas para a cidade com uma explicação dos problemas gerais da sociedade.

A única forma de oferecer uma alternativa viável na situação atual seria explicar claramente que os problemas pelos quais passam os municípios são resultado dos problemas gerais deste sistema. A crise na saúde, a crise na educação, os problemas de segurança, o problema do desemprego, tudo isto é resultado da situação nacional e da crise do capitalismo. Em outras palavras, o PSOL deveria explicar a necessidade da luta, da independência de classe, do socialismo em contraposição às saídas capitalistas.

Mas também é um fato que o PSOL enfrentou uma situação difícil. O partido foi prejudicado pelas novas regras eleitorais que reduziram o seu tempo de TV no primeiro turno, tendo sido excluído de debates em diferentes cidades. Além disso, o período eleitoral foi reduzido, o que reduziu também o tempo a explicação das propostas, em especial de candidaturas com menos recursos. Ainda assim, o PSOL conseguiu resultados positivos. Elegeu vereadores em um grande número de cidades, particularmente em grandes cidades, e conseguiu chegar no segundo turno em três municípios importantes (Belém, Rio de Janeiro e Sorocaba).

A burguesia vai fazer de tudo para tentar impedir o crescimento de uma alternativa de esquerda. As novas regras eleitorais em gestação são ainda piores. Mas como disse um espartano na Batalha das Termópilas contra os persas “se as flechas do inimigo são tantas que cobrem o sol, então combateremos na sombra”. É a militância dos jovens estudantes, a militância dos jovens operários e trabalhadores, a ligação do partido com as lutas populares, em cada município, em cada bairro, em cada fábrica e escola, que vai modificar a situação e pode fazer o PSOL se desenvolver, de fato, como uma alternativa de esquerda.

O verdadeiro balanço das eleições pode ser explicitado pelo comportamento de Michel Temer. No mesmo dia em que se declara que os partidos aliados do governo foram os principais vitoriosos, Temer manda reforçar a segurança do Palácio do Planalto, com medo das manifestações que virão.

O número de eleitores que votou branco, nulo ou se absteve mostra a falta de credibilidade de todo o sistema, e a própria falta de base social para o governo federal e seus aliados nos Estados e municípios. Não há, portanto, uma onda conservadora na base da sociedade como defendem certos analistas de esquerda. O fato dos partidos burgueses retomarem diretamente o controle do conjunto das instituições burguesas porque o PT faliu e uma imensa base social recusa inclusive a participação neste processo podre apenas significa que é o próprio sistema, o regime político que está em ruínas. A vitória burguesa nestas eleições é uma vitória de Pirro.

O PT, quando estava no poder, preferiu fazer acordos com a direita e atacar os trabalhadores. Por isso foi abandonado pela sua base. O resultado da falência política do PT é o afastamento dos eleitores das eleições e a destruição do chamado “cinturão vermelho” de São Paulo. O PT perdeu as eleições nas cidades operárias da Grande São Paulo e nos bairros proletários da capital. Sendo varrido das prefeituras do ABC paulista.

O conjunto da situação pode permitir uma reorganização dos que querem seguir o combate por uma nova sociedade, sem explorados e exploradores. A situação está aberta para desenvolvimentos à esquerda no próximo período. Há diversos balanços sobre o resultado eleitoral. Mas, um fato é que o PSOL apareceu mais no cenário nacional como uma alternativa. No acompanhamento da apuração do segundo turno no Rio de Janeiro, milhares de jovens se reuniram para dizer que continuam na luta.

E essa juventude pode dar um novo ritmo, um novo impulso para o desenvolvimento da situação política. A Esquerda Marxista quer contribuir neste debate, neste novo impulso para ganhar as massas para uma alternativa de esquerda e socialista. Na construção/reconstrução de uma opção para a organização da luta política da classe trabalhadora.

Isto significa manter a linha de combate à PEC 241 (atual PEC 55 do Senado), à Reforma do Ensino Médio (MP746), de combate à reforma da previdência, contra a repressão e pela defesa dos direitos dos trabalhadores. Nesta direção teremos as condições de reconstruir uma aliança dos trabalhadores e do operariado com a juventude estudantil, num combate pelo socialismo.

Novas alternativas são necessárias. O combate dos trabalhadores contra os ataques vai determinar o próximo período. Todos os nossos esforços estão concentrados nessa luta, buscando a unidade e apontando a necessidade da luta de massas e da independência de classe para enterrarmos esse sistema moribundo.

Deixe seu comentário

Leia também...

Reforma e contrarreforma trabalhista

Normalmente, quando falamos em reforma, pensamos que seja algo para melhorar, arrumar, solucionar algum problema. …