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Eleição no AM: abstenções, brancos e nulos ocupam o vácuo deixado pela esquerda socialista

O primeiro turno da eleição suplementar para governador do Amazonas aconteceu no último domingo (6/8) e terminou com um segundo turno disputado por dois antigos caciques políticos do estado.

Amazonino Mendes (PDT) e Eduardo Braga (PMDB), velhos aliados que agora se colocam como adversários, obtiveram respectivamente 38,77% e 25,36% dos votos válidos. Rebecca Garcia (PP) ficou em terceiro lugar com 18,06% e José Ricardo (PT) terminou em quarto com 12,17%, sendo o segundo mais votado em Manaus.

O candidato Luís Castro (REDE), com quem o PSOL Amazonas se coligou com o vice-candidato João Victor Tayah, obteve 2,63% dos votos válidos e terminou a disputa em quinto lugar.

Assim como vem acontecendo nos últimos pleitos por todo o Brasil, chama atenção a imensa quantidade de abstenções, brancos e nulos (36% dos eleitores). O número (849.528) foi superior ao do primeiro colocado, Amazonino Mendes (577.397), e ao do segundo colocado, Eduardo Braga (377.680).

Esse é um dado que demonstra a forte rejeição ao sistema político por parte da população e a ausência de uma candidatura capaz de refletir os desejos e necessidades mais profundas da classe trabalhadora a ponto de mobilizá-la conscientemente ao voto.

Para que serve uma candidatura socialista?

O papel fundamental de um partido socialista é organizar as massas em seu combate cotidiano contra a opressão capitalista. Nas palavras de Marx, é tornar consciente seu desejo inconsciente. Acreditar que um partido como o PSOL deva se resumir a uma legenda destinada a disputar e eventualmente vencer eleições demonstra não apenas excessiva e inocente confiança no sistema político burguês – projetado de uma ponta a outra para manter o status quo e suprimir qualquer dissidência –, mas também que não se está à altura do papel histórico de dirigir as massas.

No cenário em que nos encontramos, de ataques sistemáticos por parte da burguesia, uma candidatura socialista deveria se revestir da missão de elevar a consciência de classe dos trabalhadores e utilizar o apoio conquistado no contato direto com a massas durante a campanha para construir e organizar um partido que se preste a ser uma ferramenta de luta desses trabalhadores.

Uma candidatura socialista não pode simplesmente ter como tarefa oferecer uma “boa opção” a ser votada no pleito. Ela precisa se diferenciar justamente denunciando e desmascarando a podridão do sistema capitalista, que só gera pobreza, exploração e destruição por todo o mundo. É inútil apresentar uma candidatura que em seu programa não dá um único passo à frente na superação do sistema e se resume apenas a louvar a retidão moral dos nomes que a compõem. Palavras bonitas que não se diferenciam em essência das pronunciadas pelos candidatos da burguesia são incapazes de superar a imensa máquina de propaganda e a gigantesca quantidade de dinheiro disponíveis aos representantes do sistema.

Vimos isso de maneira bastante clara na campanha de Bernie Sanders à presidência dos EUA. Embora tenha capitulado às pressões do Partido Democrata, suas palavras contra o que chamava de “classe dos bilionários” e a favor de uma “revolução democrática” calaram fundo nos corações dos trabalhadores americanos, que o seguiam em gigantescos comícios a despeito do boicote da mídia e de seu próprio partido. Tivesse ele a coragem de romper com os democratas e organizar seus apoiadores para lançar uma candidatura independente, hoje o coração do capitalismo mundial teria um partido de trabalhadores forte e capaz de estremecer as estruturas do sistema.

Na eleição suplementar no Amazonas, o PSOL não apenas se absteve de cumprir sua missão enquanto partido socialista como também aceitou vir a reboque de uma candidatura pequeno-burguesa encabeçada pela REDE, um partido muito menor e que não tem uma única linha sobre socialismo em seu manifesto. Sob o pretexto de lançar uma candidatura “viável”, o PSOL aceitou ser vice decorativo em um processo que seria capaz de lançar as bases para o crescimento e o fortalecimento do partido no estado, mas que só serviu de plataforma política para o candidato cabeça de chapa.

Construir o PSOL como partido de massas

Qual o resultado político da candidatura REDE-PSOL? Para onde vão os quase 40 mil votos obtidos pela chapa? Ao menos 1% desse número aumentou sua compreensão acerca da luta de classes e do socialismo? Alguma parte desses votantes irá compor as fileiras do partido no estado? Não se trata simplesmente de ganhar ou perder, tampouco de obter tantos ou mais votos, mas de utilizar a candidatura nas eleições burguesas para a construção e o fortalecimento do PSOL no Amazonas. Isso certamente não foi feito.

Enquanto corrente do PSOL, nós da Esquerda Marxista rejeitamos alianças e coligações com partidos sem qualquer base na luta de classes ou no movimento dos trabalhadores. O PSOL precisa ter como estratégia de construção partidária o lançamento de candidaturas próprias com programas que sejam capazes de atrair as camadas mais avançadas da classe trabalhadora para o socialismo.

O sistema político burguês está em ruínas e busca legitimidade de todas as formas que pode. Cabe a um partido socialista lançar-se à denúncia do sistema e organizar as massas para a luta em cada oportunidade. Somente assim o PSOL poderá fincar raízes nos sindicatos, nas entidades estudantis e nas associações de bairro e fortalecer suas fileiras a ponto de se tornar uma ferramenta poderosa da classe trabalhadora.

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