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Ela está chegando

Diante do cenário cada vez mais ameaçador da crise a política de colaboração de classes tem como objetivo real desarmar e desorganizar a classe trabalhadora para atrelá-la e domesticá-la e destruir suas organizações sob o manto do pacto social.

Uma greve de três dias parou toda a linha de montagem da Volvo no estado do Paraná. Foram 120 caminhões leves e 204 pesados que deixaram de ser produzidos pelos 4.100 trabalhadores em greve. Esta greve demonstra que a classe trabalhadora, apesar da linha conciliadora das direções, está disposta a defender seus direitos e suas reivindicações. Frente à crise que não pára de se aprofundar a burguesia nada tem a oferecer a não ser atacar mais e mais a classe trabalhadora.

O governo faz propaganda de suas medidas para baixar os juros, mas não diz uma palavra quando os bancos imediatamente aumentam as taxas dos serviços prestados aos correntistas.

No primeiro quadrimestre deste ano os gastos com obras públicas, com as compras de equipamentos e bens permanentes, foram reduzidos em 5,5% (Folha de São Paulo), caindo de R$ 11,1 bilhões para R$ 10,5 bilhões. No governo, nos bastidores e nos meios empresariais fala-se que a redução de juros e a alavancagem do crédito não conseguirão manter o crescimento, o que significa que mais medidas de austeridade serão aplicadas e isso só pode ser realizado atacando conquistas da classe trabalhadora.

Ainda segundo a Folha de São Paulo: “A projeção para o PIB (a soma de todas as riquezas produzidas por um país) de 2012 foi reduzida de 3,20%, na semana passada, para 3,09% hoje. Para 2013, foi elevada de 4,30% para 4,50%. A estimativa para inflação oficial (medida pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo, o IPCA) caiu levemente neste ano, de 5,22%, na semana passada, para 5,21%. Para 2013, a projeção foi elevada de 5,53% para 5,60%. O centro da meta do governo para este ano é de 4,5% e o teto, 6,5%”. Como sempre tenta-se esconder a queda bem real do crescimento do PIB com promessas de crescimento nos anos vindouros.

Divisão e medo internacional

Na reunião G-8, ocorrida na Europa, a grande burguesia não conseguiu chegar a nenhum acordo exceto marcar nova reunião para junho. A declaração emitida é um animal de duas caras que combina austeridade com crescimento econômico, o que não é possível. De fato, a divergência entre Merkel e Hollande é se o dinheiro público deve continuar jorrando para as mãos dos especuladores e aumentando a Dívida Pública ou se está na hora de arrancar a pele da classe trabalhadora para pagar uma parte desta Dívida.

A divergência diz respeito, também ao medo da reação da classe trabalhadora. O resultado eleitoral na Grécia com a provável próxima vitória de Syriza, nas novas eleições em junho (as pesquisas já o colocam na frente com 28% dos votos) é um fator de desconcerto e confusão entre a burguesia. O resultado das eleições parciais na Itália onde os partidos que apoiam o governo nomeado pela Troika foram esmagados, particularmente Berlusconi, mostra o mesmo movimento de resistência da classe. Foi o que aconteceu na Renânia do Norte-Vestfália, onde o partido de Merkel, o CDU, fez apenas 26% dos votos e o SPD, o partido tradicional da classe operária fez 40%. O resultado já se expressou no parlamento onde a coalizão SPD-Verdes derrubaram a reforma tributária e mudanças nos subsídios à energia solar propostas pelo gabinete de Merkel.

Os dois partidos de oposição já anunciaram que o Parlamento não ratificará o pacto fiscal da União Europeia, que prevê medidas de austeridade antes de qualquer medida de incentivo ao crescimento e ao emprego nos países em crise da zona do euro. E que só votarão qualquer coisa no final de junho. De fato, a burguesia está dividida, em crise, e espera o resultado das urnas em junho na Grécia.

Na reunião da DNPT, Zé Dirceu declarou entusiasmado que Obama iria ao G-8 defender crescimento e investimentos, o que seria a mesma posição do governo brasileiro. O que evidentemente é uma mescla de incompreensão e de ilusões no imperialismo norte-americano. Afinal, o remédio de Obama não resolve a situação de crise nem em sua casa.

A angústia da burguesia se expressa no debate público entre Paul Krugman, premio Nobel de economia entusiástico apoiador de Obama e o presidente do FED, Bem Bernanke, nomeado por Obama.

Para Krugman, o FED deve executar o que Bernanke preconizara para os japoneses: um fulminante aumento dos preços ao consumidor, quer dizer, “criar uma inflação de pelo menos 4 por cento” para reanimar a economia e “colocar os americanos de volta ao trabalho”. Ele justifica sua proposta afirmando que “A expectativa de uma elevada inflação ajudaria a economia, pois convenceria investidores e homens de negócio que ficar sentado em cima do dinheiro é uma péssima ideia” (Bloomberg News – “Krugman Says Fed ‘Reckless’ to Allow High Jobless Rate” [Krugman declara que Fed é ‘Irresponsável ’ ao Permitir Alta Taxa de Desemprego] – http://www.bloomberg.com/news/2012-04-30/krugman-says-fed-should-allow-inflation-to-rise-above-2-goal.html)

Bernanke responde: “Existe essa visão circulando de que as opiniões que exprimi há 15 anos sobre o Banco do Japão são contrárias a nossas políticas atuais. Isso é absolutamente incorreto. Minha opinião e nossa política atual são completamente consistentes com as opiniões que eu sustentava naquela época. A questão é se faz algum sentido incentivar uma elevada taxa inflacionária para conseguir uma levíssima queda da taxa de desemprego. O ponto de vista do comitê do Fed é que isso seria muito irresponsável” (Bloomberg News – Bernanke Takes On Krugman’s Criticism Ignoring Own Advice – [Bernanke rebate crítica de Krugman de que ele ignora sua própria recomendação] http://www.bloomberg.com/news/2012-04-25/bernanke-rejects-criticism-he-ignores-his-own-policy-advice.html).

Este é o dilema e é por isso que o G-8 terminou como começou. Sem nada.

Os governos estarão mais e mais confrontados às crescentes mobilizações de massas. O resultado das urnas na Grécia vai dar um impulso na luta de classes em toda a Europa. E quando o poderoso proletariado alemão entrar em cena, a terra vai tremer. Cada vez mais é evidente a necessidade da ruptura com a União Europeia do capital e a luta pelos Estados Unidos Socialistas da Europa.

A propaganda não pode substituir a realidade

Reunida em 18 de maio em Porto Alegre a DNPT diz em sua resolução política: “Ao vergastar a lógica perversa do capital financeiro, com o intuito de baratear o crédito para a produção, o consumo, o investimento e a redução do tamanho da dívida pública, nosso governo prossegue na linha de enfrentar a crise internacional no rumo oposto dos países que originaram o descalabro da economia global”.

A verdade é que o governo segue pagando a dívida externa e interna. Ataca a previdência social dos trabalhadores federais, através do BNDES dá dinheiro aos bancos e empresas imperialistas e nacionais, arrocha os salários dos funcionários públicos federais, isenta empresas de pagarem o INSS e outros impostos. Relatório do TCU explica que as renúncias fiscais (impostos que o governo deixa de recolher para “incentivar” as indústrias e a “produção”) chegaram a 187 bilhões de reais no ano passado, mais que os gastos somados de educação, saúde e assistência social. Seria isso chicotear a lógica do capital financeiro?

O Ministro Mantega anuncia que vai liberar um valor maior do que a necessidade estimada para o BNDES em 2012. Sua intenção com isso é de sinalizar aos empresários e investidores, especuladores, que o governo não deixará faltar recursos para o setor “produtivo”. Aumenta o valor inicial de 30 para 45 bilhões e todas as linhas de financiamentos operadas pelo Tesouro trabalham com taxas de juros subsidiadas, supostamente destinadas para capital de giro e investimentos nas empresas. Mas, estas seguem dizendo que querem mais. E a última prova da chegada da crise é o dólar chegando a R$2,10 e a saída (fuga) de 5 bilhões de dólares do Brasil em um mês.

A política de colaboração de classes em todos os seus aspectos (Conselhos e Câmaras tripartites, Atos conjuntos entre patrões e operários, busca do “bem comum” entre duas classes antagônicas, etc.) tem como objetivo real desarmar e desorganizar a classe trabalhadora de maneira preventiva diante do cenário cada vez mais ameaçador da crise, para que quando ela aqui chegar a classe operária, os trabalhadores, estejam manietados e atrelados ao estado e à burguesia por meio de um tipo de pacto social.

A luta de classes é mais forte que os aparatos

Não há outra saída! O que ocorre na Grécia é o exemplo mais claro. O Partido Socialista sofreu uma amarga derrota na Grécia por defender o capital na linha da colaboração de classes. Ou se avança em direção ao socialismo e rompe-se com o imperialismo ou o PT acabará por cair em descrédito diante das massas.

A classe trabalhadora, entretanto, não pode esperar. Por isso vai a luta e vimos a multiplicação de greves nas últimas semanas. Greve na Volvo no Paraná. Greve nas universidades federais (já são 43 em todo o país). Greve no metrô de SP. Greve de ferroviários em SP. Greve de motoristas de ônibus em Salvador, São Luís, Osasco, e muitos outros. Em todo o país diferentes setores da classe trabalhadora se mobilizam.

Este é o caminho. Só a mobilização e organização da classe pode resolver sua situação. Os congressos estaduais da CUT, e seu Congresso Nacional, em julho, têm a responsabilidade de preparar estas batalhas em nível nacional. Em primeiro lugar a defesa da Previdência Pública e Solidária. O que começa com a exigência de revogação de todas as reformas adotadas por FHC, Lula e Dilma.

Comissão Executiva da Esquerda Marxista
23 de maio de 2012

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