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Egito: Por qual caminho devem avançar os socialistas revolucionários? – Parte 1

Mais de dois anos se passaram desde os primeiros passos da revolução egípcia. No início, o movimento estava em estado de euforia indo de vitória em vitória, varrendo todos os obstáculos em seu caminho. O clima era intenso e até mesmo festivo. Milhões de pessoas, oprimidas durante décadas, reuniram-se na Praça Tahrir imbuídas do sentido de seu próprio poder. Elas sentiram que todos os problemas poderiam ser superados com a mesma facilidade com a qual elas derrubaram Mubarak. Elas sentiram que nenhuma força podia detê-las, e elas tinham razão para se sentir assim. Mas a experiência está ensinando a elas que as coisas não são assim tão fáceis.

Logo após a queda de Mubarak a revolução deu-se conta de que nem tudo estava bem. Tendo travado a luta e suportado todo o seu peso, logo tornou-se claro para o povo do Egito que o poder tinha escapado de suas próprias mãos e retornado para as mãos do velho Estado na figura do alto escalão do exército. A revolução virou o Egito de cabeça para baixo. Tudo mudou, mas tudo ainda continuava a ser o mesmo. As alavancas mais importantes do poder, o Estado e a economia, permaneceram nas mãos da burguesia.

Assim, uma nova fase da luta começou. Uma fase em que a burguesia, que foi severamente enfraquecida, está tentando manobrar para se manter no poder, mas é constantemente forçada pela crise de seu próprio sistema, a atacar a revolução e suas conquistas. Por outro lado, as massas trabalhadoras são forçadas a tomar as ruas seguidamente, apenas para descobrir que não há liderança que mereça este nome.

A falta de uma direção revolucionária é o obstáculo mais importante para o avanço das massas que mostraram mais uma vez que estão dispostas e são capazes de responder aos ataques da burguesia. Mas a falta de uma liderança é a razão pela qual o movimento estanca, hesita e acaba em um impasse que é insustentável.

Para as massas nas ruas isso é frustrante. “Tudo mudou, mas nada mudou”, dizem. “Toda vez que derrubamos um ditador vem outro, embora em roupas diferentes, e toma o seu lugar”. Desde Mubarak, passando por Tantawi até Morsi há pouca diferença no cotidiano dos trabalhadores e dos pobres.

Mas, para os marxistas, não há tempo a perder com desespero. Nossa tarefa não é nem chorar, nem rir, e sim compreender. Temos que colocar as questões com toda clareza: quais são os principais problemas da revolução e quais são nossas tarefas como marxistas?

Por uma posição de classe

Durante as eleições presidenciais escrevemos sobre a natureza contrarrevolucionária da Irmandade Muçulmana (IM) e da posição equivocada dos líderes dos Socialistas Revolucionários (SR) – um grupo ligado ao Partido Socialista dos Trabalhadores britânicos (SWP) – que estavam dando apoio ao candidato do grupo islâmico.

Naquela época, a resolução oficial da organização SR dizia:

Nós também estamos convencidos de que a vitória de Shafiq [candidato dos militares] no segundo turno das eleições será uma grande perda para a revolução e um poderoso golpe contra suas conquistas democráticas e sociais. Isso daria uma oportunidade de ouro para a contrarrevolução preparar a vingança com um ataque brutal e massivo sob o slogan ‘restaurar a segurança nas ruas em poucos dias’ “. (Revolutionary Socialists’ statement on Egypt’s presidential elections, “Declaração dos Socialistas Revolucionários sobre as eleições presidenciais no Egito”).

Ao que respondemos:

Ninguém pode ter ilusões quanto à natureza de Shafiq e o papel que ele está desempenhando. Mas esta é uma justificativa suficiente para chamar pelo voto na Irmandade Muçulmana? Para justificar isso, o documento apela para o velho argumento sobre o ‘mal menor’ “.

“Nós ouvimos esse argumento muitas vezes antes. Todas as vezes, o que supostamente seria o mal menor acabou sendo um mal muito grande “(The Revolutionary Socialists and the Egyptian elections: Marxism or opportunism?, “Os Socialistas Revolucionários e as eleições no Egito: Marxismo ou oportunismo?”).

E como podemos comprovar hoje a verdade dessas palavras? Menos de um ano depois de sua eleição, Mohammed Morsi [eleito pela IM] é hoje o homem mais odiado no Egito. Depois de ter feito um acordo com os mesmos generais do exército que antes apoiavam Shafiq, Morsi voltou-se contra a revolução em uma campanha destinada a arrancar tudo o que a revolução tinha conquistado.

Por meio do seu decreto ditatorial, pela imposição da constituição odiada pelo povo, atacando os trabalhadores e suas organizações, mandando seus capangas para as ruas, assassinando centenas de combatentes e por milhares de outras injustiças e meios corruptos, ele desencadeou uma guerra total contra a revolução desde o primeiro dia de sua presidência.

Na verdade, fazendo-se passar por um homem da revolução contra o antigo regime, Morsi estava apenas usando uma oportunidade “de ouro para a contrarrevolução preparar a vingança com um ataque brutal e massivo sob o slogan ‘restaurar a segurança nas ruas em poucos dias’ “.

Ao apoiar a Irmandade – um ato que recebeu os agradecimentos oficiais da campanha de Morsi depois de sua vitória eleitoral – os líderes dos Socialistas Revolucionários estavam alimentando a idéia de que a IM é uma parte da revolução. De fato, um camarada SR, Mostafa Bassiouny, escreveu em junho de 2012, que “a Irmandade Muçulmana representa a ala direita da revolução” e “não a contra-revolução”. (Unity against generals’ attempted coup in Egypt , “Unidade contra a tentativa de golpe dos generais no Egito”).

Não somente essa é uma ideia errada, o que podemos claramente ver nos desenvolvimentos posteriores, mas também uma ideia que desarma os trabalhadores e os jovens – especialmente as suas camadas mais avançadas – e os deixa despreparados para os acontecimentos futuros.

Curiosamente, aquele camarada não teve dificuldade para constatar o erro de outras forças de esquerda que aderiram ao campo “secular”. O partido Taggammu, por exemplo, acabou por apoiar Shafiq, o que não foi nenhuma surpresa já que este partido também tinha apoiado Mubarak contra a Irmandade. No entanto, esse erro não é corrigido pelo erro oposto ao apoiar Morsi.

Trotsky explicou uma situação semelhante ao falar sobre a Alemanha nazista:

“… Nós, marxistas, consideramos Brüning [político burguês alemão nas décadas de 1920 e 1930] e Hitler, incluindo Braun, como partes componentes de um mesmo sistema. A questão de saber qual deles é o “mal menor” não tem nenhum sentido, pois o sistema que estamos combatendo precisa de todos esses elementos. Mas esses elementos estão momentaneamente envolvidos em conflitos uns com os outros e o partido do proletariado deve aproveitar esses conflitos no interesse da revolução. (…)”

“Quando um dos meus inimigos me coloca diante de pequenas porções diárias de veneno, e um segundo inimigo, por outro lado, está prestes a atirar diretamente contra mim, então eu vou arrancar primeiro o revólver da mão do meu segundo inimigo, já que isso me dá a oportunidade de me livrar do meu primeiro inimigo. Mas isso não significa de modo algum que o veneno é um “mal menor” em comparação com o revólver.”

“A desgraça consiste precisamente no fato de que os líderes do Partido Comunista Alemão se colocaram no mesmo terreno da social-democracia, apenas com prefixos invertidos: a social-democracia vota em Brüning, reconhecendo nele o mal menor. Os comunistas, por outro lado, que se recusam a confiar tanto em Braun quanto em Brüning em qualquer caso (o que é absolutamente a maneira certa de agir), vão para as ruas para apoiar o referendo de Hitler, isto é, a tentativa dos fascistas para derrubar Brüning. Mas, com isso, eles próprios reconheceram em Hitler um mal menor, pois a vitória do referendo não teria levado o proletariado ao poder, mas sim Hitler “.

Os interesses da burguesia são diretamente opostos aos interesses das massas. Esta não é uma questão de vontade ou escolha, mas uma questão de condições materiais. Explicar isso, esclarecer a divisão de classes na sociedade e, assim, aumentar a consciência de classe, é a principal tarefa de qualquer revolucionário.

Mas, apoiando um grupo que é essencialmente burguês em seu caráter, os SR não só não ajudaram no esclarecimento da divisão de classes na sociedade, eles realmente contribuíram para diluir as diferenças de classe. Como veremos adiante, isso tem implicações para todo o curso da revolução.

Revolução ou Contrarrevolução

Anteriormente, em julho de 2012, quando a Irmandade estava fazendo um acordo com o SCAF (comando do exército), o camarada Sameh Naguib, um dos principais líderes dos Socialistas Revolucionários, afirmou, em conferência:

“A vitória de Morsi, o candidato da Irmandade Muçulmana, é uma grande conquista para deter a contra-revolução e derrotar o golpe de Estado. Por enquanto, esta é uma verdadeira vitória para as massas egípcias e uma vitória para a revolução egípcia.”

“Isto pode não parecer claro na superfície das coisas. Muitas pessoas, especialmente no Ocidente, e também aqui, tem uma atitude islamofóbica que não lhes permite ver a natureza da Irmandade Muçulmana …

E então, o camarada passou a explicar-nos que:

Sempre que há a ameaça da contrarrevolução, os islamistas vão correr em direção às massas, vão mobilizar as massas de centenas de milhares contra o regime militar. Sempre que há uma ameaça de baixo, sempre que as massas parecem estar rompendo o controle da Irmandade Muçulmana, então eles colocam-se ao lado do regime militar, com os generais, na tentativa de conter as massas. “(From the eye of the storm in Egypt , “Do olho do furacão no Egito”)

Hoje, para quem vive no Egito isto deve parecer pura ficção, porque tem muito pouco a ver com a dura realidade que a revolução tem enfrentado ao longo dos últimos 6 a 7 meses. Para um revolucionário, o maior erro é confundir revolução e contrarrevolução, mas isto parece ser exatamente o que esses camaradas estão fazendo.

Como demonstramos acima, não era uma tarefa difícil descobrir em que direção a IM iria se mover. Mas, para dar ao camarada o benefício da dúvida, poderíamos dizer que a natureza contrarrevolucionária do regime não tinha emergido totalmente na prática antes do outono de 2012, quando Morsi, com seu famoso decreto presidencial, declarou guerra a todas as conquistas da revolução (ver: Egypt: The New Pharaoh Ignites Wrath Amongst The Masses, “Egito: O novo faraó desencadeia a fúria das massas”, e também: Egypt: Morsi Humiliated as Revolution raises its head once again, “Egito: Morsi humilhado e a Revolução ergue a cabeça mais uma vez”).

Desde então, e temos a certeza de que o camarada Naguib está ciente deste fato, uma luta amarga está sendo travada quase ininterruptamente nas ruas do Egito. Na verdade, como muitos ativistas corretamente percebem, há uma “ameaça de contrarrevolução”, mas ao contrário do que o camarada previa a Irmandade Muçulmana não tratou de “mobilizar as massas de centenas de milhares contra o regime militar.” Ao contrário, a Irmandade tem direcionado o exército e mobilizado suas próprias forças contra a revolução. E sempre que as massas voltam a mover-se a Irmandade não tem apenas ficado “ao lado do regime militar, com os generais, na tentativa de conter as massas”, mas sim tentaram esmagar o movimento atacando-o violentamente, operando não só com o exército, mas com a polícia, os salafistas e todas as outras forças reacionárias no Egito.

Todos estes acontecimentos da vida real deveriam ter esclarecido a natureza reacionária da IM para o companheiro Naguib e para os outros líderes dos Socialistas Revolucionários – e devemos agregar ainda os líderes do SWP britânico.

A resposta decepcionante apareceu na última edição da revista Socialist Review, onde o camarada Naguib nos dá a sua análise da situação que, supomos, seja também a análise do conjunto da liderança do SR. Lendo isto ficamos chocados ao ver Sameh escrever o seguinte:

“O problema da Irmandade é que ela atualmente [!?!, nossa ênfase] representa os interesses das grandes empresas e do aparelho de Estado de Mubarak. Vimos recentemente declarações risíveis da Irmandade atacando os liberais por trabalhar com elementos do antigo regime, enquanto eles próprios estão em aliança aberta com o exército e a polícia de Mubarak. A seção sobre o exército da nova constituição não apenas mantém todos os poderes do exército, mas aprofunda e aumenta esses poderes “(Egypt: the Muslim brotherhood under pressure , “Egito: a Irmandade Muçulmana sob pressão”).

Apesar dos acontecimentos do ano passado, quando a Irmandade seguidamente atacou a revolução, e apesar do reconhecimento de que a IM “está em aliança aberta com o exército e a polícia de Mubarak” nosso estimado camarada ainda insiste que este é apenas um fenômeno temporário (! ) e que em algum momento no futuro ou no passado a Irmandade teria representado outros interesses que não os das “grandes empresas e do aparelho de Estado de Mubarak.”

Assim, para ele “a Irmandade Muçulmana representa a ala direita da revolução” e “não a contrarrevolução”. Mas claro “atualmente”, ou seja, temporariamente, ela está representando “os interesses das grandes empresas e do Estado de Mubarak.”

Estas palavras devem parecer absurdas para os revolucionários que tomam as ruas do Egito hoje arriscando suas vidas ao lutar contra a Irmandade. A Irmandade era contra a revolução desde o início. Somente depois que o movimento já era um fato estabelecido foi que finalmente ela deu suas bênçãos de modo hesitante. Embora, mesmo então, ela basicamente tentava agir como um freio do movimento. Depois da revolução, em todas as ocasiões a Irmandade manteve suas mãos sob o controle dos generais, mesmo quando eles estavam matando manifestantes nas ruas durante o outono de 2011.

Após as eleições presidenciais, como o próprio camarada Naguib admite, a Irmandade fechou um acordo com os mesmos generais do exército que tinham até então apoiado Shafiq. Isso deveria servir para mostrar que, do ponto de vista do comando do exército, a Irmandade era vista como pessoas que poderiam defender suas posições e privilégios e não como pessoas que poderiam se voltar contra eles em um determinado ponto.

Desde a queda de Mubarak a política da Irmandade tem sido decisivamente pró-capitalista. Quando várias empresas anteriormente privatizadas foram renacionalizadas pelos tribunais, devido à pressão dos trabalhadores, a Irmandade embarcou em uma campanha para estancar o processo.  Em que classe social a Irmandade estava apoiada ao agir deste modo ou quando introduziu a legislação massivamente anti-operária durante o curto período de poder absoluto de Morsi?

Há muitos exemplos que poderiam ser dados e temos certeza de que nosso camarada entende perfeitamente que “A Irmandade … representa os interesses das grandes empresas”. Não é nenhum segredo que a Irmandade joga – e também jogou durante a era Mubarak – um papel importante no capitalismo egípcio. Sua liderança é composta de milionários e empresários, como os Kamal, o El-Shaters, e seus recursos financeiros são completamente ligados aos xeques reacionários do Golfo.

Na verdade, a natureza da Irmandade Muçulmana é mais que evidente. Ficamos terrivelmente consternados diante do leitor cuja paciência será testada, mas temos de citar longamente um dos textos dos Socialistas Revolucionários de 26 de Janeiro, durante as batalhas sangrentas que eclodiram no aniversário da revolução:

“O sucesso eleitoral da Irmandade reflete o fato de que a disputa era com Ahmad Shafiq e os remanescentes do antigo regime, e das suas falsas alegações de apoio aos objetivos da revolução.”

“Menos de um ano depois, as máscaras caíram, e a verdadeira face do regime da Irmandade apareceu. Eles começaram o seu reinado honrando os assassinos do Conselho Militar, e fizeram uma aliança com os militares para proteger suas novas posições de poder em troca da permissão para que o militares mantivessem o seu incalculável império econômico.”

“O regime da Irmandade se apressou a fazer a paz com os empresários que saquearam a riqueza do Egito durante os anos sob o regime de Hosni Mubarak. Ele atirou-se nos braços do FMI para implementar os mesmos programas de privatização e colocou o país à venda. Desta vez Khairat al-Shater substituiu Ahmed Ezz e ‘títulos islâmicos’ são oferecidos em vez de títulos Gamal Mubarak. Há investidores do Catar substituindo os investidores ocidentais, enquanto as milícias da Irmandade tomam o lugar dos bandidos do Partido Nacional Democrático.”

“Ambos os governos tem como objetivo privar milhões de egípcios pobres e de baixa renda da riqueza de seu país. Os pobres estão sendo esmagados pela alta dos preços e o desaparecimento de seus direitos à saúde, educação, habitação e trabalho. Pior, eles estão sendo obrigados a pagar com suas vidas para o fracasso da Irmandade Muçulmana. Eles encontram o seu destino em acidentes ferroviários fatais, desabamento de casas, naufrágio de barcos de pesca e nas filas de gasolina, pão e gás de cozinha.”

“As mentiras de Morsi sobre justiça para os mártires foram reveladas. Ele disse que vingar o seu sangue era sua responsabilidade, mas isso não era nada, só um slogan eleitoral. Enquanto isso, a limpeza e reestruturação do Ministério do Interior foi ignorada e ela voltou ao seu papel de proteger o regime e oprimir seus opositores.”

“Os militares ainda mantém o controle sobre o país. As pessoas que vivem na Ilha Qursaya cujas terras foram ocupadas pelo exército estão sendo enviadas para os tribunais militares.”

“Os jornais do governo e meios de comunicação tornaram-se novamente porta-vozes da glória do regime e suas realizações. O regime está tentando restringir os juízes em uma luta de poder para garantir a lealdade do Procurador Geral. Enquanto isso, as milícias da Irmandade matam manifestantes no Palácio Presidencial Al-Ittihadiyya “(The year the masks fell: Egyptians against the alliance of the Brotherhood, military and capital , “O ano em que as máscaras caíram: Os egípcios contra a aliança da Irmandade, dos militares e do capital”).

Nós não poderíamos ter colocado isso mais claramente. Mas esses fatos aparentemente significam muito pouco para os camaradas da liderança. Em vez de reconhecer o erro eles teimosamente recaem de volta para a velha fórmula.

Todo mundo pode cometer erros, até mesmo os revolucionários. Marx, Engels, Lênin e Trotsky, todos cometeram erros, mas o que os separava dos outros era que eles percebiam seus erros em tempo e tomavam todas as medidas necessárias para corrigi-los.

Mas se não se reconhece o erro e o corrige, ele se tornará uma tendência orgânica. O que é chocante, porém, é que o camarada e toda a liderança do SR, não só não reconhecem ou corrigem seu erro, embora ele seja visível para eles mesmos, mas ainda tentam “dobrar” a realidade ao máximo a fim de justificar o seu erro.

E, assim, o camarada chega à conclusão de que a IM está só “atualmente” representando “o grande empresariado”, ou seja, ele está a tentar incutir a noção completamente infundada em nós que talvez em outros períodos ela tenha servido aos interesses do povo e que pode até fazê-lo novamente no futuro. Ele está tentando encobrir o erro, tentando convencer a revolução que a IM pode voltar para o lado da revolução, que representa a sua direita, tal como os reformistas de esquerda. Isto é, ele ainda mantém a mesma posição de antes.

No mesmo artigo acima, no entanto, Naguib – tornando seu apoio à Irmandade “crítico” – afirma que “não há lugar para a frustração”, porque “aqueles que imaginaram que ter a Irmandade no poder iria melhorar as coisas estão em um estado de profunda frustração e desapontamento e estão à procura de alternativas.”

Desnecessário dizer que pensamos que as pessoas mais frustradas são aquelas em que o camarada Naguib instilou as ilusões de que a IM seria o mal menor em comparação com Shafiq e aquelas a quem ele convenceu de que a Irmandade, diante da ameaça da contrarrevolução, mobilizaria “as massas de centenas de milhares contra o regime militar.”

Uma base reacionária desde o início

A Irmandade Muçulmana foi sempre uma força conservadora e contrarrevolucionária que se apoiava na demagogia islâmica a fim de ganhar uma base entre as camadas mais pobres e atrasadas. Este foi o caso durante a monarquia e, posteriormente, durante o governo de Nasser. Não é uma coincidência que o então secretário de Estado dos EUA, John Foster Dulles, viu um grande potencial no uso da Irmandade (cujo líder a CIA caracterizava como “fascista, interessado no agrupamento de indivíduos tendo em vista o poder”) e de outras organizações políticas islamitas – e da sua capacidade, por meio do uso da religião, para reunir as camadas mais baixas da sociedade – como um contrapeso aos movimentos comunistas e de esquerda no mundo árabe.

Apesar de toda a conversa de seu anti-imperialismo e defesa da Palestina, a Irmandade não teve qualquer problema, em momentos diferentes, quando se viu em condições de se envolver em relações estreitas com os americanos, os britânicos ou alemães.

Durante a era Sadat, a Irmandade foi tolerada e sua influência religiosa usada para justificar as políticas de liberalização e a evidente guinada para a direita do regime. Mais tarde, é verdade que Mubarak atacou a organização, mas nunca de maneira tão grave que não permitisse a ela manter uma presença significativa no simulacro de parlamento.

O principal conflito dos líderes da Irmandade com o regime de Mubarak era sobre o quanto seria grande a parte do bolo que poderiam ter. Como o líder da Irmandade Hassan Malek declarou para a revista Businessweek, “Eles me permitiram chegar a um certo nível, mas havia um teto”, (The Economic Vision of Egypt’s Muslim Brotherhood Millionaires , “A Visão Econômica dos Milionários da Irmandade Muçulmana do Egito”)

Para o regime de Mubarak, o papel da organização era o de uma válvula de segurança, uma oposição tolerada, mas leal, pronta para desviar as frustrações das massas por canais seguros. Neste sentido, a organização era a última linha de defesa para o capitalismo egípcio e para os interesses do imperialismo dos EUA no Egito – um papel que, poderíamos acrescentar, está jogando em seu máximo grau hoje.

De fato, hoje ela ‘de facto’ tornou-se o mais importante defensor dos interesses americanos no Oriente Médio. Os americanos estão claramente usando a Irmandade para salvaguardar os seus interesses, não só no Egito, mas também na Tunísia e em todo o mundo árabe. E, quanto ao inimigo mais amargo de Israel, é claro que a animosidade não é tão forte ao ponto da Irmandade deixar de apoiar o cerco de Gaza ao não abrir as fronteiras para a Palestina.

A Irmandade e as massas

Sim, contra argumentaram esses camaradas, tudo que você diz é verdade, mas “a Irmandade Muçulmana, porque tem uma base de massa, porque tem muito do seu apoio na classe trabalhadora egípcia e também entre os mais pobres, tem que se curvar à vontade das massas até certo ponto.”(“Do olho do furacão no Egito”.

Vejamos a primeira alegação que o camarada Naguib apresenta: que a Irmandade Muçulmana tem uma base de massa. Claro que é inegável que a Irmandade, devido a sua força financeira e ao fato de ter sido tolerada pelo antigo regime, foi capaz de desempenhar um papel importante, especialmente entre as camadas mais pobres e atrasadas ​​da sociedade.

Antes de tudo, era a única organização que poderia ter uma rede nacional e, dispondo de bilhões de dólares, dos quais alguns foram canalizados para instituições de caridade, poderia se conectar com os egípcios pobres. Em segundo lugar, como a única “oposição” realmente visível a Irmandade poderia atrair muitos ativistas, especialmente aqueles que estavam tomando seus primeiros passos no campo da política. Assim como a maioria dos partidos burgueses, ela não é simplesmente uma organização composta por um círculo restrito de ricos e poderosos.

No entanto, com o desenvolvimento da revolução, esta base provou ser muito frágil. Na verdade, é um fato conhecido que a Irmandade dividiu-se várias vezes durante a revolução e nos meses anteriores a ela. É claro que há uma divisão entre, de um lado, a elite de empresários e capitalistas na liderança da organização, que, basicamente, se enxergam como um setor da classe dominante egípcia, e, de outro lado, os pobres e os jovens na base.

No entanto, dizer que um partido tem uma massa de seguidores não diz nada sobre o caráter da organização. O Partido Democrata nos Estados Unidos tem uma massa de seguidores. Mesmo os sindicatos apoiam os democratas, mas nós nunca sonharíamos em defini-lo como qualquer coisa a não ser um partido burguês.

Mesmo o grande ídolo da Irmandade Recep Tayyip Erdogan e seu partido AKP [Partido da Justiça e Desenvolvimento, da Turquia] tem um apoio de massa, mas isso não muda o fato de que é um partido populista conservador. O SCAF tinha uma base de massa imediatamente após a revolução, e que até tinha tradições históricas já que muitos viam esses militares como verdadeiros revolucionários e anti-imperialistas que carregavam a tradição de Nasser. Mesmo Hitler tinha uma base de massa, mas acreditamos que isso é o suficiente para os camaradas começarem a entender onde isso vai dar.

A base real da Irmandade Muçulmana está dentro da burguesia árabe, do clero e das classes médias superiores. É exatamente esta base burguesa a qual a IM adere em todas as questões importantes e que não permite a esta organização “se curvar à vontade das massas” – pelo menos não mais do que qualquer outro partido burguês iria “curvar-se” (ou rachar) durante uma revolução. É exatamente essa característica que está rapidamente desacreditando a IM entre as massas.

Durante as eleições parlamentares, as organizações islâmicas, apesar da fraude eleitoral, dos subornos e de ter o aparelho do Estado todo e da lei eleitoral recentemente instituída por trás deles, só conseguiu reunir cerca de 10 milhões de votos. Comparado com os 15-20 milhões de pessoas que estavam nas ruas durante o auge da revolução, nós começamos a perceber a verdadeira correlação de forças.

Isso significa que a votação para a Irmandade é de apenas dois terços das camadas ativas da revolução, no melhor dos casos. No entanto, este cenário se desfez completamente durante as eleições presidenciais – apenas 6 meses mais tarde – quando a votação dos candidatos islâmicos caiu mais ou menos pela metade. Em todas as grandes áreas industriais e eixos mais importantes da revolução, incluindo Cairo e Alexandria, os islâmicos sofreram uma derrota humilhante.

Na verdade, se não tivesse havido fraude eleitoral maciça, a vitória provavelmente teria ido para Hamdeen Sabahi que foi claramente visto como o real candidato da revolução. Mas ainda assim o camarada explica-nos que as massas estão realmente com a Irmandade. É uma pena que ninguém falou para as massas sobre isso quando elas estavam nas ruas aos milhões nos últimos dois meses desafiando os poucos milhares de membros da Irmandade que ousaram defender os decretos dos Morsis, dos El-Shaters, dos Kamals , os generais e todos os senhores da velha e podre escória.

Mas há mais lições a aprender com as eleições presidenciais. Como Sabahi consegue ganhar a sua base? Podemos concordar que Sabahi representa um movimento muito confuso, cujo caráter não temos que discutir aqui. Mas o que distinguiu Sabahi de todos os outros candidatos era que ele tinha, além de chamar a si mesmo de socialista, deixado claro que ele não iria apoiar nem Morsi nem Shafiq e que ele estaria apenas do lado da revolução. Em vez de limitar-se ao mal menor entre os candidatos burgueses, ele escolheu inclinar-se às ruas.

Independentemente das deficiências de Sabahi, foi esta posição de princípio contra as forças burguesas que lhe valeu o título de candidato da revolução. A linha assumida pelos socialistas revolucionários só conseguiu afastá-los das camadas mais avançadas da revolução que viram claramente a Irmandade como uma força contrarrevolucionária.

Tivesse a organização (SR) tomado uma posição de princípio, desde o início, as coisas poderiam ter sido diferentes. Se tivessem, em cada ocasião, exposto o caráter de classe da Irmandade e a necessidade de uma posição de classe independente, eles poderiam ter crescido significativamente com base nas experiências das massas. A organização sem dúvida inclui alguns dos jovens mais talentosos no Egito e, portanto, tem alguma autoridade dentro da revolução. Com uma abordagem correta eles poderiam ter transformado essa autoridade em crescimento real, e teriam sido capazes de levar as ideias do socialismo revolucionário para um público de massa muito mais amplo. Mas a primeira condição para ganhar qualquer autoridade real é ser capaz de diferenciar entre revolução e contrarrevolução.

É claro que a Irmandade, e também as outras organizações islâmicas, devido à falta de um partido de massas revolucionário, têm algum apoio entre algumas camadas, especialmente a pequena-burguesia e os pobres. Também é claro que a certa altura a revolução terá de conquistar seções desta base. Nós nunca negamos isso, mas como se conquista a pequena burguesia?

Nunca foi o método de Marx, Engels, Lênin ou Trotsky fazer concessões políticas para os líderes burgueses, independentemente de quão grande fosse a base de massa que eles tivessem. Trotsky explica isso em sua obra-prima, A Revolução Permanente:

“Não só a questão agrária, mas também a questão nacional atribui ao campesinato – a esmagadora maioria da população nos países atrasados ​​- um lugar excepcional na revolução democrática. Sem uma aliança entre o proletariado e o campesinato, as tarefas da revolução democrática não podem ser resolvidas, e nem mesmo podem seriamente ser colocadas. Mas a aliança dessas duas classes não pode ser realizada em qualquer outra forma que não seja por meio de uma luta implacável contra a influência da burguesia nacional-liberal”.

Somente por desenhar as linhas de classe tão nitidamente quanto possível pode o proletariado romper as camadas inferiores da pequena burguesia das garras da grande burguesia – e isso só pode ser feito se for mantida uma absoluta independência de classe.

O camarada Naguib menciona as evidentes semelhanças entre a revolução egípcia e a revolução espanhola. Mas o que ele se esquece de acrescentar é que a principal luta que os marxistas travaram na Espanha foi precisamente contra a colaboração de classes dos socialistas, dos stalinistas e dos anarquistas, que um após o outro capitularam diante do governo da Frente Popular com os democratas burgueses.

O historiador Pierre Broue escreve sobre a revolução espanhola e a posição de Trotsky:

“[Trotsky escreveu:] ‘Quando a burguesia é forçada a realizar uma aliança com as organizações de trabalhadores, por intermédio de sua ala esquerda, então ela tem ainda mais necessidade dos corpos de oficiais como um contrapeso.” A política do governo da Frente Popular Republicana para o exército, que permitiu que este preparasse abertamente a sua derrubada, não foi o resultado de sua “cegueira” ou de qualquer erro, mas simplesmente a política da burguesia espanhola. Aos olhos de Trotsky, é claro, os principais culpados foram os líderes dos trabalhadores que permitiram que a fraude da Frente Popular fosse praticada. Ele escreveu: “Agora podemos ver muito mais claramente o crime que os líderes do POUM, Maurin e Nin, cometeram no início deste ano. Todo trabalhador pensante pode perguntar-lhes – e o fará: – “vocês não previram nada disso? Como vocês puderam assinar o programa da Frente Popular, fazendo-nos dar confiança a Azana e companhia, em vez de encher-nos com a maior desconfiança da burguesia radical? Agora, vamos ter que pagar por seus erros com o nosso sangue.” Ele acrescentou: “A raiva desses trabalhadores contra Nin e seus amigos deve ser de um tipo especialmente intensa, pois eles pertenciam a uma tendência que há alguns anos atrás ofereceu uma análise exata da política da Frente Popular, e que repetiu esta análise em cada etapa, concretizando-a e tornando-a mais precisa. “Nin não pode alegar ignorância (uma desculpa fraca para um líder), pois ele deve ter lido os documentos que ele tinha assinado”.Trotsky and the Spanish Revolution , “Trotsky e a Revolução Espanhola”) (ênfase nossa)

Este será o mesmo destino dos líderes dos Socialistas Revolucionários se não corrigirem seus erros.

Obviamente, devemos ter uma abordagem amigável e paciente para com os milhares de trabalhadores e membros pobres da Irmandade que, sem dúvida, existem na sua base. Isso vale não só para os trabalhadores e os pobres que apoiam a Irmandade Muçulmana, mas para todos os trabalhadores e todos os pobres. O que é inadmissível é esconder a verdade. Pelo contrário, devemos criticar e expor a verdadeira natureza de classe da Irmandade e de todas as outras correntes populistas burguesas em todas as nossas publicações e em cada ocasião.

A Revolução Russa

Um rápido olhar para a forma como a Revolução Russa desdobrou-se só irá ressaltar os pontos delineados acima. Considerando que os mencheviques e social-revolucionários reformistas imediatamente após a Revolução de Fevereiro expressaram seu apoio ao governo provisório democrático, Lênin levantou o slogan de uma ruptura completa com os liberais burgueses. Um dos principais slogans dos bolcheviques foi o “Abaixo os 10 ministros capitalistas”. Isto é, eles exigiram que os trabalhadores e líderes camponeses, isto é, os mencheviques e os social-revolucionários, rompessem com a burguesia.

Desde o retorno de Lênin à Rússia em Abril de 1917, os bolcheviques assumiram uma posição de princípio e baseada na classe, alertando os trabalhadores sobre qualquer cooperação com a burguesia e dizendo-lhes que só uma revolução socialista, na qual os trabalhadores tomassem o poder em suas próprias mãos, poderia resolver os principais problemas da revolução. No início essa postura não era popular e foi recebida com ceticismo pelos trabalhadores que, imediatamente após a primeira revolução, pressionavam pela maior unidade possível.

Mas na medida em que começou a ficar claro para as massas que não poderia haver nenhuma unidade do proletariado com as forças burguesas, os bolcheviques começaram a crescer rapidamente. Em nenhum momento Lenin sequer considerou a possibilidade de uma aliança ou até mesmo de apoio crítico às forças liberais burguesas, embora tenhamos a certeza de que isso teria algum apoio entre alguns trabalhadores e soldados nos dias após a revolução de Fevereiro.

Os mencheviques, ao contrário, sustentaram que a revolução russa era uma revolução democrática e, portanto, os trabalhadores deveriam apoiar os liberais burgueses e ajudá-los a concluir a revolução.

Os bolcheviques, por outro lado, sustentaram que os liberais burgueses, devido à sua natureza de classe e do impasse geral do capitalismo, seriam obrigados a trair a revolução e que os trabalhadores tinham de tomar uma posição completamente independente em relação a eles desde o início.

Tradutor: Ruy Penna

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