Início / Artigos / Egito: O Nêmesis do Faraó

Egito: O Nêmesis do Faraó

O marxista paquistanês Lal Khan analisa as relações de Mubarak com a revolução em curso no Egito, bem como as relações das massas com as Forças Armadas e as perspectivas para a atual situação em todo o mundo árabe.

Uma das características marcantes de uma revolução é que as massas perdem o medo do Estado e da repressão. Isso tem sido demonstrado graficamente nas ruas do Egito. Ao mesmo tempo, o levante das massas quebra os tabus na psicologia dos soldados e o Exército começa a rachar de acordo com as classes que o compõem. Uma rara fraternidade entre as forças de segurança e as massas, a quem elas supostamente devem esmagar, aumenta com o florescer da revolução.

Pudemos testemunhar cenas surpreendentes no Cairo, a maior capital do mundo árabe, durante a atual rebelião. Além de manifestantes abraçando soldados em cima dos tanques, em 31 de Janeiro de 2011, um Gazelle (avião de combate fabricado na França), da Força Aérea Egípcia, voou baixo sobre as multidões, provavelmente para intimidar as massas nas ruas e deixá-las com medo da elite militar. Mas as pessoas gostaram, acenando ao jato de combate e o piloto pôde ser visto dentro de sua cabine acenando de volta.

Esse ascenso revolucionário desafiou todos os céticos e cínicos de esquerda e de direita que haviam riscado da agenda política qualquer possibilidade revolucionária. Eles entraram em choque. A onda da revolta transpassou a configuração política prevalecente do pró-imperialista, liberal, secular e despótico regime de Mubarak e da oposição fundamentalista Islâmica da Akhwan ul Muslimeen [Irmandade Muçulmana]. Assim como na Tunísia, as massas rejeitaram o conceito propagado pela grande mídia de que a única oposição aos déspotas pró-imperialistas do Oriente Médio é a dos Islamitas. A presença de um grande número de bandeiras vermelhas com a foice e o martelo nas manifestações da Tunísia, Jordânia, Iêmen e Egito simbolizou as correntes de esquerda nesses movimentos.

O atual levante revolucionário no Egito foi desencadeado depois de 59 anos. Em 1952 a monarquia corrupta e despótica do Rei Farouq foi derrubada por oficiais radicais de esquerda apoiados por uma revolta similar das massas. Jamal Abdul Nasser, um socialista pan-árabe, se tornou o presidente e iniciou reformas radicais. Isso estimulou uma série de mudanças revolucionárias por todo o mundo árabe. Do Iêmen à Síria e da Argélia ao Iraque e Sudão, os regimes despóticos de direita foram derrubados por esses movimentos.

Depois da Primeira Guerra Mundial, os imperialistas vitoriosos dividiram a nação única Árabe criando Estados artificiais e fronteiras para perpetuar seus saques. Por exemplo, através do acordo Sykes-Picot de 1916, os britânicos e franceses dividiram entre si o controle do Iraque, Síria, Jordânia e Líbano. Da mesma forma, através da Declaração de Balfour, foi concedido aos britânicos o mandato para estabelecer um Estado judeu na Palestina.

Os levantes que ocorreram na esteira da 2ª Guerra Mundial levaram a revoltas contra a exploração imperialista do Oriente Médio. Mas, com o colapso da União Soviética e a degeneração capitalista da burocracia chinesa, a maioria dos regimes proletários-bonapartistas também começou a degenerar e o imperialismo conseguiu impor um domínio maior na região nos anos 80 e 90.

As atuais revoltas são um marco de mudança na história da região. No Egito e em outros lugares, a causa desses movimentos é a crise sócio-econômica que rapidamente se intensifica, com profundo aumento dos níveis de pobreza, alta dos preços, desemprego e corrupção. O ódio fervilhante das massas contra Mubarak e outros déspotas da região decorre dessa crescente exploração e opressão.

A intelectualidade ocidental e a mídia estão tentando subverter as causas reais atribuindo uma fórmula política para um conteúdo social. Isso não resolverá nada. Os imperialistas estão aterrorizados por essa explosão espontânea das massas árabes oprimidas. Um importante jornal americano comentou: “Os EUA apoiavam Mubarak por dois medos: o medo de outro Khomeini e o medo de outro Nasser. Ambos temores permanecem inteiramente legítimos hoje.” [Khomeini foi o líder da Revolução Iraniana de 1979 e Nasser foi um militar egípcio que nos anos 50 conduziu o movimento que aboliu a monarquia – Nota da tradutora]

Mas, os fundamentalistas Islâmicos e os imperialistas são velhos amigos. Afinal de contas, a Ikhwan [Irmandade Muçulmana] foi apoiada e financiada pelos EUA nos anos 50 para combater a ameaça de abolição do capitalismo no Egito. El-Baradei é uma peça de transição e pode ser usada pelos interesses ocidentais por um curto período. É provável que a CIA já esteja em negociações secretas com a Irmandade para um futuro acordo. Mas com a iminente crise do capitalismo, isso não será suficiente para uma solução de qualquer tipo de estabilidade no Egito.

Os governantes liberais e os Islâmicos fundamentalistas têm acordo sobre o sistema econômico: Capitalismo. A crise capitalista, em escala mundial ou no Egito, não vai desvanecer tão cedo. Portanto, a possibilidade de uma reforma séria para as massas não existe.

No entanto, revoluções dessa intensidade e dimensão não podem durar pra sempre. A possibilidade de descarrilhar e o esgotamento da primeira onda do levante não podem ser descartados. Até Mubarak poderia dar uma guinada por algum tempo depois desse maravilhoso movimento que foi seu nêmesis. [Nemesis era uma deusa grega que representava o castigo e a vingança divina. Neste contexto o autor se refere a nêmesis como um conceito que significa “castigo merecido” – Nota da tradutora]

A maior tragédia que um regime ditatorial ou autocrático causa é que provoca o retraso da consciência das massas e cria ilusão em figuras acidentais e na democracia burguesa. Isso é mais pertinente em uma situação onde um movimento revolucionário irrompe sem a presença de um partido revolucionário com uma sólida base de fundamentos ideológicos, flexibilidade estratégica e tática e uma organização de quadros bem preparados, que pode substituir o Estado burguês.

Infelizmente esse é o caso do Egito no presente momento. O fermento revolucionário está varrendo todo o país, mas ainda há a trágica ausência do fator subjetivo que poderia liderar esta revolução para uma vitória socialista. Trotsky ressaltou em 1938: “A crise histórica da humanidade está reduzida hoje à crise da direção revolucionária.” Isso cai como uma luva para a situação no Oriente Médio hoje, especialmente no Egito.

Isso significa que o processo se tornará mais prolongado e de alguma maneira mais complicado. Mas esta revolução levou a situação a um ponto sem volta. Não vai levar outros 59 anos para a insurreição das massas eclodir. É o começo e não o fim de um novo período de luta de classes e revoluções. A história é muito econômica. Nas últimas três décadas de relativa calmaria na luta de classes, as influências do reformismo e do stalinismo têm sido varridas do movimento dos trabalhadores pela história. Uma transformação socialista segue sendo o único caminho para salvação hoje.

Lahore, 3 de fevereiro de 2011.

Deixe seu comentário

Leia também...

Reforma política: Nosso dinheiro para Bolsonaro, iscas para a esquerda e barreira para as organizações de trabalhadores

Michel Temer sancionou na sexta-feira (6/10) a reforma política, que, entre outros absurdos, desvia um …

Deixe uma resposta