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Egito: Morsi foi derrubado pelo movimento revolucionário


Nenhuma confiança nos generais e políticos burgueses! Todo poder ao povo! Após quatro dias de mobilizações revolucionárias de massas do povo egípcio e depois do começo de uma greve geral nacional, finalmente o presidente Morsi foi removido do poder. O que assistimos foi mais um exemplo do poder das massas de trabalhadores e jovens, camponeses e dos pobres quando começam a se mover.


Nenhuma confiança nos generais e políticos burgueses! Todo poder ao povo! Após quatro dias de mobilizações revolucionárias de massas do povo egípcio e depois do começo de uma greve geral nacional, finalmente o presidente Morsi foi removido do poder. O que assistimos foi mais um exemplo do poder das massas de trabalhadores e jovens, camponeses e dos pobres quando começam a se mover.

Apesar de todo o falatório sobre um “golpe militar”, a verdade é que os generais do exército apenas intervieram no último minuto para prevenir uma derrubada revolucionária que teria comprometido não apenas a posição do presidente e da Irmandade Muçulmana (uma seção da classe capitalista), mas o estado capitalista e o sistema capitalista como um todo. Nisso podemos ver a imensa força das massas revolucionárias, mas também suas principais fraquezas, a falta de uma direção clara que poderia tê-las levado a finalizar o trabalho por seus próprios meios.

Devemos insistir neste ponto: não foram os generais do exército que removeram Morsi, foi o povo revolucionário através de mobilizações de massa que superaram até mesmo aqueles que derrubaram Mubarak em Janeiro de 2011. A única maneira de se dizer que o que aconteceu ontem foi um “golpe” é se olharmos apenas para os poucos minutos que duraram os eventos, quando o chefe das Forças Armadas do Egito al-Sisi deu sua declaração e Morsi foi colocado em prisão domiciliar, e esquecer tudo o que aconteceu no Egito desde Janeiro de 2011, e particularmente, desde domingo, 30 de junho de 2013.

Vamos recordar. Primeiro de tudo, o movimento revolucionário de massas do povo (liderado pela juventude e inspirado pela revolução Tunisiana) tomou as ruas e derrubou Mubarak que tinha governado com punho de ferro por décadas e tinha à sua disposição um numeroso, refinado e aparentemente todo poderoso aparelho repressivo. Os momentos de virada crucial da revolução foram: 1) o início da entrada da classe trabalhadora em cena com uma onda de greves se movendo rapidamente dos trabalhadores têxteis de Mahalla até os trabalhadores da indústria militar Helwan e do Canal de Suez; 2) o aparecimento de divisões dentro do exército em linhas de classe, com oficiais de baixo escalão e soldados confraternizando com os revolucionários nas ruas. Foi aí que, recordemos, os generais do exército, o Conselho Supremo das Forças Armadas (SCAF), interveio para remover Mubarak. Isso foi corretamente visto pelas massas como uma vitória, mas foi uma vitória apenas parcial e incompleta, porque deixou o aparato do estado e o poder da burguesia sobre a economia, intocado.

O segundo ato foi o movimento contra o Conselho Supremo das Forças Armadas (CSFA, em inglês: SCAF) e a tentativa dos generais de continuar com o velho poder, mas sem Mubarak. No período em que vai de janeiro de 2011 até junho de 2012 houve constantes manifestações de massa e confrontos do povo contra o SCAF, defendendo os objetivos básicos da revolução. Finalmente o SCAF decidiu que não poderia mais continuar governando diretamente mediante a enorme pressão das massas revolucionárias e fez um acordo com a Irmandade Muçulmana. A Irmandade representa um segmento da classe capitalista egípcia que se enriqueceu imensamente durante o último período do regime de Mubarak beneficiando-se de suas políticas de privatização e liberalização da economia. O que faltava para a Irmandade era o total acesso ao poder político. Ela não era, de maneira alguma, uma ameaça ao poder, às riqueza e privilégios dos generais nem ao sistema capitalista que eles representam. Por isso um acordo foi possível.

O acordo consistia em deixar os militares basicamente intocados, enquanto Morsi usaria sua imagem de “representante da revolução” para manter as massas sob controle enquanto executava as políticas exigidas pelo capitalismo egípcio. Stratfor descreveu desta maneira: “o que os militares precisavam era de um governo que pudesse gerenciar a política econômica do país de tal maneira que o estado de agitação permanecesse limitado.”

As eleições presidenciais de junho de 2012 de fato mostraram o quão pequeno era o apoio que a Irmandade Muçulmana gozava, até mesmo há um ano. No primeiro turno, 5,7 milhões votaram em Morsi (24%), 5 milhões (23%) em Shafiq (o candidato do SCAF), mas outro 4,8 milhões (20%) votaram para Hamdeen Sabbahi, o candidato de esquerda do Nasserite, e 4 milhões (17%) em Fotouh, o candidato populista islâmico. O candidato abertamente burguês liberal Amr Moussa mal conseguiu 2.5 milhões de votos. O número de abstenções foi um massivo 53%, com uma grande parcela da população pensando que nenhum dos candidatos realmente representava os objetivos da revolução.

Vale ressaltar que Sabbahi, o candidato que aos olhos das massas representava mais claramente a revolução, ganhou nas principais cidades, em Cairo e Alexandria (com Morsi terminando em um pobre terceiro lugar em ambas as cidades) e Port Said (onde Sabbahi conseguiu um impressionante 40% dos votos).

Há muitas alegações de fraude e armação nos votos. De qualquer maneira, como Sabbahi não conseguiu chegar ao segundo turno, apenas dois candidatos sobraram, Morsi e Shafiq. Nestas condições, muitos sentiram que não podiam permitir ao candidato direto dos generais vencer e votaram com Morsi. Quando o resultado final do segundo turno foi anunciado (mais uma vez no meio de muitas denúncias de fraude eleitoral) Morsi foi declarado o vencedor com 13 milhões de votos (de um total de 51 milhões de eleitores registrados). Muitos não deram seu voto para ele, mas contra Shafiq. A bolsa de valores teve seu maior aumento em 9 anos, revelando a opinião da classe capitalista.

Entre algumas parcelas das massas havia uma expectativa de que Morsi ao menos tentaria resolver algumas das principais demandas da revolução: pão, emprego e justiça. Ele não o fez. Ele não podia e não queria fazê-lo. A crise aguda do capitalismo egípcio, agravada pela crise mundial, significou que a situação econômica das massas foi de mal a pior. Houve um colapso de 50% no valor da libra egípcia, um aumento no desemprego e no nível de pobreza, e 63% da população sentem que estão piores do que antes dele subir o poder.

Em relação aos direitos democráticos usou a repressão contra aqueles que protestavam contra ele, permitiu a absolvição dos oficiais do antigo regime, os responsáveis pela morte dos mártires da batalha dos camelos, ele presidiu as sentenças de morte dos fãs do futebol de Port Said, ele deu a si mesmo amplos poderes no referendo constitucional, etc. Isso foi tudo parte do acordo que ele fez com o exército, onde seu papel era manter a lei e a ordem. Durante este período os generais do exército o apoiavam……

Regularmente havia explosões de protestos massivos contra Morsi no Cairo, Alexandria, no Canal Suez, com centenas de milhares de envolvidos em movimentos de massa em novembro/dezembro de 2012, e então em janeiro de 2013. Em sua última declaração à nação, na terça-feira, 2 de julho, ele repetiu dezenas de vezes a palavra “legitimidade”, mas a verdade é que ele tinha perdido qualquer uma que ele poderia ter tido originalmente, pela experiência das massas com seu governo.

O movimento Tamarrod que começou em abril deste ano providenciou um canal para a raiva acumulada contra Morsi e o profundo sentimento enraizado nas massas que fizeram a revolução, mas viram suas vitórias serem roubadas e nada ter sido alcançado. Trabalhadores comuns e pobres não podem viver apenas de promessas. Eles fizeram uma revolução para ter empregos, pão e justiça, e o que eles ganharam foi mais desemprego, apagões de combustível e eletricidade, repressão e nenhuma justiça para os mártires da revolução. Esta é a base real da derrubada de Morsi, e não alguma conspiração militar. Tinha muito pouco a ver com secular x islâmico, e tudo a ver com os trabalhadores e pobres levantando-se por justiça social.

Tamarrod recebeu 22 milhões de assinaturas para sua petição (ultrapassando a meta original de 15 milhões) exigindo a demissão imediata do presidente. Isso é muito mais do que os 5,7 milhões que Morsi ganhou no primeiro turno das eleições presidenciais e maior até mesmo do que os 13 milhões que ganhou no segundo turno (e muitos desses não eram realmente votos dele). Agora fala ele fala de “legitimidade”!

O movimento dos últimos dias foi um genuíno movimento de massas. As manifestações de 30 de junho foram imensas, muito maiores e espalhadas do que qualquer uma que vimos em janeiro de 2011. Dados do Ministério do Interior (MoI) diz que haviam 17 milhões nas ruas contra Morsi. Claro, neste caso o MoI pode ter razão para exagerar o tamanho do movimento, mas mesmo se estes dados estão inflados, teria muito mais pessoas nas ruas do que os que votaram em Morsi em 2012. Na verdade muitos dos que votaram nele estavam agora nas ruas. As manifestações anti-Morsi eram certamente 10 ou 20 vezes maiores do que aqueles em sua defesa.

O movimento, no entanto, não esteve limitado às manifestações de massas. Comitês Revolucionários se espalharam pelo país. Uma greve geral convocada. Houve muitos relatos, particularmente na manhã de 3 de julho, de grupos de trabalhadores nas principais indústrias e instituições de estado que saíam do trabalho e se juntavam aos protestos e manifestações pacíficas, seguido de uma convocação do movimento revolucionário para uma desobediência civil em massa. O poder estava efetivamente nas mãos do povo. Os prédios governamentais do país foram ocupados ou bloqueados e fechados com cadeados por 

trabalhadores comuns, em muitos lugares com a participação conjunta de trabalhadores e oficiais.

Foi neste contexto que os generais do exército intervieram. Como Morsi não estava preparado pra sair e se agarrou ao poder, o perigo era de um confronto com o povo revolucionário que poderia ter acabado com uma derrubada revolucionária e com as massas arrastando não somente o presidente, mas também todo o edifício do estado capitalista. Isso, os generais não podiam permitir.

A maneira como eles forjaram a intervenção revelou a real situação. Eles não interviram para “restaurar a lei e a ordem”, mas sim “para garantir que a vontade do povo fosse satisfeita”! Na verdade Tamarrod tinha convocado as massas em 3 de juhlo para cercar o quartel da Guarda Republicana para exigir que o exército interviesse e removesse Morsi! Por outro lado isso revela a deficiência da direção do movimento, um movimento que era perfeitamente capaz de derrubar Morsi sem a necessidade de apelar para os generais do exército, mas também mostra o quanto o espaço para manobra é limitado para os generais.

O ultimato dos generais torna um ponto muito claro. O que eles querem é um novo governo de unidade nacional “incluindo elementos da juventude revolucionária” para assumir, e para que as massas voltem para suas casas. A última coisa que os generais querem é impor um regime militar sobre o desperto movimento revolucionário de milhões! Eles seriam incapazes de fazer isso e provocariam o rompimento do exército em linhas de classes. Eles estão montando em um tigre selvagem, o que uma coisa muito perigosa de se fazer.

Houve, claro, cenas de júbilo selvagens nas ruas quando o afastamento de Morsi foi anunciado. Muitos serão apreciadores do papel que os generais do exército jogaram. Mas eles apreciam o Exército na medida em que é visto executando a vontade do povo. Qualquer tentativa dos generais do exército de reprimir o povo receberia uma explosão similar à do movimento revolucionário.

No entanto, não devemos exagerar no nível de apoio que o Exército tem do povo. Em 3 de julho, refletindo o amplo sentimento de que todos estavam negociando a solução pelas costas do povo mobilizado, Tamarrod emitiu a seguinte mensagem: “O regime, o exército e a oposição deveriam parar suas ligações telefônicas com os EUA, escutar a nação e fazer o que a nação quer”. O que o povo quer é pão, trabalho e justiça. E eles derrubaram Mubarak, removeram o SCAF e agora derrubaram Morsi para conseguir isso. No curso destas lutas tumultuosas eles tiraram lições muito importantes. Eles não estão dispostos a confiar muito em ninguém e eles julgarão quem quer que chegue ao poder agora com os critérios de suas próprias demandas. Estão determinados e confiantes.

Os analistas mais visionários da classe governante entendem os perigos envolvidos. Eles sabem que isso não é um “golpe”. Stratfor coloca desta maneira: “a remoção forçada do governo de Morsi tornará difícil criar um novo governo civil porque o ambiente político será ainda mais polarizado”. O que eles veem como o elemento mais perigoso da equação é que “as forças armadas estabeleceram um precedente, cedendo à violência popular”. Traduzido para a linguagem dos oprimidos, isso significa que o perigo é que o povo pense que pelo método da “violência popular” (leia-se: métodos revolucionários), eles podem alcançar o que eles querem, e que é certamente um “precedente” perigoso… do ponto de vista da classe governante.

A manobra na cúpula é clara. Quando anunciando a retirada de Morsi, o chefe das forças oarmadas al-Sisi cercou-se do Grande Imam, o Patriarca Copta Ortodoxo, com o liberal burguês ElBaradei, com um representante do Partido Salafista Nour, com representantes do judiciário e da polícia, e sim, um representante da campanha Tamarrod. O chefe do Supremo Tribunal Constitucional, Adly Mansour, um juiz que vem direto da era de Mubarak, foi apontado como o novo presidente. Um novo “amplo” conselho pela reconciliação nacional será formado e em algum ponto haverá uma nova constituição e novas eleições presidenciais e parlamentares.

A ideia é canalizar o movimento revolucionário, mais uma vez, em direção a águas seguras da democracia burguesa e do constitucionalismo. Eles tentarão envolver, o máximo possível, figuras que estão próximas das massas, incluindo Tamarrod, para dar ao processo o máximo de legitimidade possível.

As massas revolucionárias estão agora jubilantes. Mas além da celebração elas devem permanecer vigilantes porque sua vitória, novamente já está em processo de ser delas roubada.

Os Comitês Revolucionários que surgiram (em um nível mais alto mesmo que em janeiro de 2011), devem ser mantidos, fortalecidos e ampliados para incluir todos os setores do povo oprimido: trabalhadores, soldados, camponeses e os pobres. Eles deveriam tomar a autoridade – como já fizeram parcialmente – em suas próprias mãos pela ocupação das províncias e municípios para começar a governar. Eles deveriam fortalecer suas posições convocando assembleias de massa para decidir sobre as matérias mais importantes. As estruturas dos comitês deveriam ser formalizadas com eleições e revogações de delegados de todos os locais de trabalho, dos bairros de trabalhadores e pobres e também com eleições de delegados entre soldados do exército. Confrontados com o perigo dos islâmicos radicais travarem uma resistência armada, a autodefesa deveria ser organizada pelos Comitês Revolucionários.

Acima de tudo, o povo revolucionário não deve esperar pelo novo presidente, ou conselho interino, para tomar decisões. Onde estavam eles quando as massas tomaram as ruas e arriscaram suas vidas? Estava Adly Mansour na Praça Tahir? Será que ElBaradei lutou contra os bandidos de Mubarak na Batalha dos Camelos? Onde estava o Grande Imam quando a polícia organizou uma cilada para os simpatizantes do Al-Ahly em Port Said? E mais importante de tudo, onde estavam os generais do exército quando as massas derrubaram Mubarak e então lutaram contra Morsi? Eles vieram apenas no último minuto. A nenhum deles pode ser confiada a tarefa de executar a vontade do povo revolucionário. Apenas o povo com a classe trabalhadora à sua frente pode fazê-lo.

O Comitê Revolucionário deveria tomar uma iniciativa imediata. Cortes revolucionárias sob autoridade dos comitês deveriam ser estabelecidas para trazer justiça para os mártires da revolução. Comitês de controle dos trabalhadores deveria ser estabelecido em todas as fábricas para garantir o direito dos trabalhadores e a produção para satisfazer a necessidade do povo. Comitês revolucionários provisórios deveriam ser estabelecidos em todos os bairros da classe trabalhadora com autoridade para garantir que seja produzido pão suficiente e distribuído para o povo.

A questão crucial de quem detém o poder, se é o povo revolucionário ou a coalizão dos políticos da burguesia e dos generais do exército, está ligado à questão ainda mais importante de quem controla a riqueza. As necessidades urgentes das massas não podem ser resolvidas pela mais democráticas das constituições. Votar uma assembleia constituinte, um presidente e uma assembleia nacional, não dará às massas pão nem trabalho. Isso só pode ser feito se uma contínua revolução política é acompanhada por uma revolução econômica e social. Apenas se os trabalhadores egípcios expropriarem os poucos indivíduos ricos que controlam as riquezas do país, uma grande parte deles ligadas ao velho regime, muitas diretamente com o alto comando do exército, e também finalmente àqueles capitalistas que se escondem por detrás de barbas piedosas.

O povo revolucionário do Egito mais uma vez foi a fonte de inspiração para os oprimidos do mundo. A tarefa chave é construir uma direção revolucionária que esteja à altura das tarefas colocadas.

Todo o poder aos comitês revolucionários!

Nenhuma confiança nos generais, políticos burgueses e líderes religiosos – confiem apenas em suas próprias forças!

Expropriem os capitalistas – toda a riqueza àqueles que a produzem!

 

 

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