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Egito: A revolta continua

As manifestações de massa exigindo a renúncia do presidente Hosni Mubarak continuam intensamente desde terça-feira em várias cidades, incluindo Cairo e Suez.

Fontes do Debkafile* informam que a situação do Cairo na quarta-feira foi extremamente tensa após milhares de manifestantes saírem às ruas e percorrerem o caminho da Praça Tel Talat Harb até a Praça da Libertação no centro da cidade, onde 30 mil manifestantes haviam protestado na terça-feira.

Violentos confrontos continuam em várias partes do país, particularmente em Suez, onde manifestantes anti-governo incendiaram a sede local do partido NDP e continuam em confronto com forças de segurança. Há relatos de que trabalhadores estão aderindo. Houve um protesto em frente da estação de metrô em Helwan, ao sul do Cairo, em que os trabalhadores das fábricas Helwan e de outras também participaram. Os operários da Helwan organizaram greves em defesa da saúde e segurança no último período, e alguns estão sendo julgados por tribunais militares.

Todos os três manifestantes mortos em protestos até agora o foram em Suez, onde o movimento parece ter ido mais longe. Há relatos de outras manifestações em Ismailia e Alexandria, ontem e hoje. Cerca de 600 manifestantes confrontaram a polícia hoje em manifestações por toda a cidade do leste do Egito, Ismailia, segundo testemunhas. Estas disseram que a polícia dispersou a multidão usando gás lacrimogêneo.

Relatos no Twitter, apesar de seu caráter incompleto e fragmentado, dão definitivamente a impressão de que está se desenvolvendo um levante nacional. O presidente, que não tinha sido visto em público desde que o movimento eclodiu na terça-feira, suspendeu o direito de folga de quatro divisões blindadas e as colocou em estado de alerta – duas em treinamento operacional fora do Cairo e duas perto de cidades às margens do Canal de Suez. Oficiais e soldados de folga foram chamados de volta às suas bases.

Mubarak está claramente desesperado. Depois da sua vacilação inicial, ele decidiu agarrar-se ao poder e se apoiar no Exército para esmagar a rebelião. A situação no Exército é contraditória. As forças de segurança fizeram cerca de 2.500 detenções de ativistas da oposição até o momento. Mas tudo isso não foi capaz de esmagar a rebelião.

O apelo à força veio tarde demais. Nas ruas, os manifestantes têm aprendido o quanto possuem força coletivamente. A polícia não consegue conter o avanço da maré. A credibilidade do exército é cada vez mais duvidosa. Em Suez há relatos de que os soldados estão se recusando a reprimir o povo.

O crescente desespero do regime é demonstrado pelo tratamento dado aos jornalistas, cerca de 500 dos quais estão presos no prédio da associação de imprensa na capital, incluindo muitos correspondentes estrangeiros. Agentes de segurança invadiram o prédio, recolheram os jornalistas aos andares inferiores e os impediram de fazer a cobertura dos eventos, elaborar matérias ou tirar fotos.

A situação em Suez

Na cidade de Suez, a situação é particularmente explosiva. Na noite de quarta-feira, o site Debkafile relatou:

“O nível de protestos contra o governo e a violência aumentaram nas ruas das cidades egípcias na noite de quarta-feira do dia 26 de janeiro, mesmo depois que o presidente Hosni Mubarak encaminhou um milhão de agentes de segurança para ajudar a polícia e pela primeira vez atirar contra manifestantes na cidade de Suez, deixando dezenas de mortos e feridos. Fontes ocidentais disseram ao Debkafile que as forças de segurança perderam o controle da situação no principal porto do Canal de Suez depois que os manifestantes conseguiram romper o cordão policial que protegia as instalações de instituições do governo e as incendiaram.”

O mesmo relatório afirma que os manifestantes incendiaram a sede da polícia e as instalações regionais do NDP. Um relato no Twitter acrescenta:

“Grandes protestos em Mahalla agora. Suez está fervendo. Nosso povo diz que isso não é mais um protesto, é uma típica zona de guerra entre manifestantes de mãos vazias e policiais armados. Estes vão se cansar em breve. Manifestantes vêm e vão, mas a polícia não pode fazer o mesmo. Eu creio e espero que isso esteja acontecendo.”

Uma testemunha da Reuters disse que a polícia fugiu do posto que foi queimado na quinta-feira, quando os manifestantes atiraram coquetéis molotov em represália ao assassinato de manifestantes no protesto anti-governo do começo da semana.

Na quarta-feira, eles atearam fogo em um prédio do governo e em outro posto de polícia, e também tentaram queimar um escritório local do partido do governo. O fogo foi apagado antes de alcançar os prédios. Mas dezenas de manifestantes se reuniram em frente do segundo posto policial depois, na manhã de quinta-feira, exigindo a libertação de seus parentes que foram detidos em protestos.

O mais importante de tudo é que houve relatos de que algumas unidades do Exército em Suez se recusaram a apoiar a polícia no confronto com os manifestantes, e não intervieram até agora. De acordo com informes, os policiais foram forçados a se retirar da cidade de Suez, que diziam estar “em chamas, mas nas mãos dos manifestantes”. Mais uma vez: “Os protestos foram renovados também em Ismailliyya (outra cidade ao longo do Canal de Suez), para aliviar a pressão dos manifestantes em Suez.”

O dilema de Obama

Em Washington todos os alarmes estão soando. O falso otimismo inicial deu lugar a algo próximo ao pânico. Um senador dos EUA chamou o Egito de “um aliado extremamente importante” na quarta-feira, mas manteve silêncio sobre o apoio ao presidente Hosni Mubarak. “Tudo o que eu poderia dizer esta manhã é que o Egito tem sido um aliado extremamente importante para nós desde Anwar Sadat, e todos nós estamos assistindo a esses acontecimentos no Cairo com muito cuidado”, disse o senador líder da minoria republicana Mitch McConnell.

“O porta-voz da Casa Branca, Robert Gibbs, disse aos repórteres a bordo do Air Force One que era importante para o governo egípcio do presidente Hosni Mubarak demonstrar ‘receptividade’ ao seu povo. Questionado se a proibição do Ministério do Interior egípcio às manifestações deve ser retirada, Gibbs disse: ‘Mais uma vez, sim. Somos favoráveis à universalização dos direitos de reunião e de expressão. Esses são valores universais. O Egito é um aliado próximo e importante que temos, e continuará sendo’, disse Gibbs.” (Al Arabiya)

Em mais um sinal de desespero, Mubarak enviou o seu ministro da Defesa, marechal Mohamed Hussein Tantawi a Washington com um pedido urgente de apoio dos EUA para o seu regime em apuros. Relatos de Washington no Debkafile dizem que, em reuniões secretas, o Ministro da Defesa egípcio coloca a situação para o presidente Barack Obama e altos funcionários políticos dos EUA, oficiais militares e da inteligência.

Segundo o The Independent: “Ele avisou-os que, ao defender uma atitude moderada com os manifestantes e receptividade às suas exigências, as autoridades americanas estavam fazendo mais mal do que bem. Sem fazer uso de repressão, disse ele, o regime estaria condenado.”

Tantawi tentou assustar os americanos advertindo que a Irmandade Muçulmana, que inicialmente se mantivera à margem dos protestos da oposição, estava apenas aguardando o momento certo para entrar e assumir. Ele pediu ao governo Obama uma ponte aérea urgente com equipamentos avançados para controle de manifestações.

Nós não sabemos qual foi a resposta americana. Provavelmente, ele foi saudado com os habituais sorrisos e apertos de mão e mandado embora com palavras de encorajamento. Como sabemos, as palavras são baratas e sorrisos não custam nada. Mas quando virou as costas seus anfitriões devem ter balançado a cabeça e se perguntado se era mesmo sensato apoiar um homem de 82 anos que mostra todos os sinais de que está caindo. Pergunta: O que você faz quando você vê um homem caindo? Resposta: Dá-lhe um empurrão!

Despachando seu agente para Washington no primeiro vôo, Mubarak estava mostrando a todos onde o real poder se encontra. Estava também fazendo uma confissão pública de sua própria impotência. Essas coisas não passaram despercebidas tanto na Casa Branca como nas ruas do Cairo e Suez. Isso também coloca Washington em uma posição muito desconfortável. Eles não querem que seus fiéis fantoches sejam derrubados. Mas se forem vistos abertamente socorrendo-os, isso irá adicionar combustível às chamas do descontentamento que incendeiam as cidades de todo o Egito.

Os manifestantes estão orgulhosos de sua identidade árabe e egípcia. Parte do ódio ao regime de Mubarak é precisamente a sua colaboração servil com o imperialismo. Qualquer sinal de que uma potência estrangeira o está apoiando só fará aumentar a determinação em lutar contra o regime até a morte. Palavras de ordem de “Fora EUA” e “Morte para os EUA” já começaram a aparecer em cartazes anti-Mubarak.

Revolução palaciana?

A burguesia está cada vez mais preocupada. O Mercado de Ações do Egito cancelou a negociação de ações às 11h30min (9h30min no horário de Londres) na quinta-feira depois que o índice de referência caiu mais de 6% pelo segundo dia consecutivo após os protestos. O índice da EGX30 caiu 6,2% antes da suspensão, juntando-se a uma queda de 6,1% na quarta-feira. Hoje (27/01), até 11h33min (no horário de Londres), o mercado de ações caiu 11%, para 5648 pontos. O frenesi de vendas continuou, apesar da breve interrupção do comércio para acalmar os nervos.

Algo tem que ser feito! Mas o quê? Rachid M. Rachid, o Ministro do Comércio de Mubarak, teve que se retirar de Davos e correr de volta para o Cairo. Rachid tem sido um dos engenheiros das chamadas reformas “neo-liberais”, que têm contribuído com a miséria das massas: preços elevados, crescentes desemprego e pobreza.

Nada de bom pode ser esperado de seu retorno. Há também rumores de uma remodelação do gabinete. Mas isso significa apenas um rearranjo dos mesmos velhos ministros. Isso não resolverá nada. Novas caras são necessárias para acalmar a situação e abrandar os nervos dos investidores!

Nos velhos tempos, quando o autor de uma peça precisava de uma mudança radical em sua trama, ele criava um deus ex machina ou, como popularmente se diz, tirava um coelho da cartola. Em meio a essas turbulências titânicas, um cavalheiro modesto, bem vestido, de repente faz uma aparição no palco sem prévio aviso. Parecendo um professor universitário ancião, Mohamed Al-Baradei, o ex-chefe de armas nucleares da ONU que está retornando ao Egito, anunciou sua intenção de graciosamente colocar-se à frente da oposição democrática.

Se não fosse tão sério, seria cômico. As milhares de pessoas que tomaram as ruas nos últimos dois dias arriscaram suas vidas, enquanto Al-Baradei sentou-se confortavelmente no exterior, tendo bonitos pensamentos sobre a democracia. O auto-proclamado “salvador da nação” ofereceu apenas um tímido apoio aos protestos antes de começarem. Agora, que há uma perspectiva realista de conseguirem derrubar Mubarak, de repente ele anuncia que está preparado para desempenhar um papel.

Não surpreendentemente, alguns dos manifestantes estão com raiva. Eles suspeitam – e não sem razão – que esse senhor está atuando em colaboração com o Departamento de Estado dos EUA. Os americanos estão agora profundamente preocupados com a situação e temem que Mubarak não vá durar. Eles precisam de um substituto adequado, e o Sr. Al-Baradei se encaixa perfeitamente. Como sua reputação é de um dissidente rival do presidente Mubarak, ele possivelmente terá algum apoio entre a respeitável classe média do Egito, e sua ideologia não é nada “extrema”. É segura, respeitável, confiável, liberal. Em outras palavras, é burguesa.

Al-Baradei não perdeu tempo em apelar para o seu futuro eleitorado. Esse, contudo, não é o povo do Egito, mas as pessoas importantes: os da Casa Branca, Wall Street e do Pentágono. Ele fala com eles em termos de carinho, como um suposto amante a cortejar uma moça tímida:

“É claro, a vocês no Ocidente foi vendida a ideia de que as únicas opções para o mundo árabe estão entre os regimes autoritários e os jihadistas islâmicos. Isso é obviamente falso. Se estamos falando sobre o Egito, como nas cores do arco-íris há uma imensa variedade de pessoas que são seculares, liberais, orientadas para o mercado, e se você lhes der uma chance, eles irão se organizar para eleger um governo que é moderno e moderado. Querem desesperadamente alcançar o resto do mundo.”

Al-Baradei, então, é um político arco-íris: um homem cujas ideias são tão variáveis e indefiníveis quanto as cores do arco-íris. Lançar mão desse ponto de vista é realmente como tentar abraçar um arco-íris, por ser igualmente insubstancial. Mas isso é exatamente o que é necessário! A fim de iludir as massas revolucionárias, para acalmar sua raiva, para pacificá-los, para embalar o seu sono, o que é necessário não é um programa claro, mas uma vaga expressão sobre direitos humanos, liberdade e democracia.

Tais “discursos democráticos” são eficazes porque são todas as coisas a todos os homens e mulheres. Eles despertam a esperança de melhorias num nebuloso e longínquo futuro, sem fazer nada para mudar a ordem atual das coisas e resolver os problemas imediatos das massas no aqui e agora. Nas lendas dos povos antigos, imaginava-se que havia um pote de ouro no fim do arco-íris. Mas como todos sabem, na verdade, chegar ao fim do arco-íris é uma tarefa impossível. Não existe pote de ouro no fim do arco-íris, e não há absolutamente nada nas frases “democráticas” vazias de Al-Baradei.

Washington está observando muito atentamente a situação. Eles vão esperar para ver se Mubarak pode suprimir o movimento pela força. Se conseguir, eles vão continuar a apoiá-lo. Se falhar – o que é o resultado mais provável – vão conspirar com os chefes do exército egípcio e as forças de segurança (que estão infiltradas pela CIA) para organizar algum tipo de golpe palaciano. Mubarak será colocado no próximo conveniente vôo para a Arábia Saudita, onde pode passar o resto de seus dias relembrando com o seu colega tunisiano sobre os bons velhos tempos, quando eles eram os reis da cocada preta.

Agora mesmo intrigas estão sendo tramadas. Conspirações estão sendo armadas. O propósito de uma revolução palaciana será mudar a aparência das coisas de modo a deixar os fundamentos exatamente como antes. No entanto, a situação não é decidida pelo que está sendo planejado nos bastidores do poder. O elemento decisivo para a equação não são as intrigas de cúpula, mas o que acontece nas ruas. Foi anunciado que haverá protestos massivos depois das orações de sexta-feira. Isso poderia muito bem representar uma virada crucial em toda a situação. Os próximos dias serão decisivos.

Londres, 27 de janeiro de 2011.

* Debkafile é um site árabe que publica análises sobre terrorismo, inteligência militar, segurança e assuntos políticos do Oriente Médio.

Vídeo de delegacia em chamas em Suez na noite de 26/01:

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