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Egito: A calmaria antes da tempestade

Uma tensa calma paira sobre o Cairo após os atos de ontem. Mas a trégua não durará. À noite, em protesto à violência policial, cerca de 15 mil pessoas permaneceram na Praça da Libertação. A mídia fala de 3 mortos, 1 policial. O número real pode ser maior.

Fontes do Cairo informam que os organizadores planejam continuar os protestos até a queda de Mubarak. Esse momento pode não estar tão distante. Sites da internet árabe estavam relatando hoje (26/01) que o filho de Hosni Mubarak – escolhido sucessor para presidente egípcio – secretamente saiu do país com sua família ontem (25/01), através do aeroporto militar no oeste do Cairo, no auge dos protestos anti-governo. No Twitter também corre um relato não confirmado de que Suzanne Mubarak, a primeira-dama do Egito, foi identificada por funcionários do aeroporto de Heathrow, ao chegar em Londres.

Nesta manhã o Twitter foi bloqueado no Egito. Isso mostra que o governo está em pânico. Mas essa medida não impediu a oposição de fazer chamados para que as manifestações continuem. Ficaram entusiasmados com o sucesso na terça-feira de centenas de milhares de pessoas nas ruas exigindo a renúncia do presidente e foram mais encorajados ainda pela informação da deserção de Gemal.

No entanto, como nenhuma fonte foi citada, essa informação deve ser tratada com cautela. Neste tipo de situação sempre há uma proliferação de boatos, a maioria sem fundamento. Mas se a deserção de Gemal Mubarak é confirmada, seria um sinal de profundas fissuras no regime do velho presidente de 82 anos.

Isso é precisamente o oposto das opiniões otimistas que têm sido constantemente repetidas no Ocidente: “Estamos certos de que o Egito não é a Tunísia”; “O regime não está em perigo de ser derrubado pelo movimento de protesto”, e assim por diante.

Um bom exemplo disso foi o artigo de um “expert” da BBC em 17 de janeiro, que disse que não iria acontecer revolta no Egito, porque as pessoas lá são apáticas: “Ao contrário da Tunísia, a população tem um nível muito mais baixo de educação, o analfabetismo é elevado, a penetração da internet é baixa”. O artigo, assinado por Jon Leyene no Cairo, foi intitulado: Nenhum sinal de que o Egito vá tomar o caminho da Tunísia. Inacreditavelmente as mesmas palavras foram escritas na reportagem de ontem sobre as manifestações de massa no site da BBC.

Ontem mesmo, quando o povo do Egito já tinha saído às ruas, Hillary Clinton disse que acreditava que o governo continuava estável: “Nossa avaliação é que o governo egípcio é estável e está procurando maneiras de responder às necessidades e interesses legítimos do povo egípcio”, disse a Sra. Clinton.

Mas sua visão otimista evidentemente não é compartilhada em Wall Street. Hoje, a libra egípcia caiu fortemente em relação ao dólar dos EUA e o mercado egípcio de ações caiu mais de 4%. É evidente que os homens bitolados nos negócios estão mais bem informados que a Secretária de Estado dos EUA. O editorial de hoje do Washington Post mostra uma compreensão muito mais séria da situação. Vale a pena citar na íntegra:

“As palavras da Secretária indicaram que a administração continua perigosamente atrasada em relação ao ritmo dos acontecimentos no Oriente Médio. Foi uma falha não antecipar a revolução da Tunísia; dias antes do presidente Zine el-Abidine Ben Ali ser expulso do país a Sra. Clinton disse que os Estados Unidos “não tomariam partido” entre o ditador e o seu povo a protestar. Na semana passada o presidente Obama telefonou para o Sr. Mubarak, mas não disse nada sobre a situação política no Egito – inclusive sobre o plano do regime de realizar “eleições” presidenciais com um candidato único neste outono, o que prorrogaria o mandato de Mubarak para mais seis anos.

Os acontecimentos de terça-feira indicam que o governo do Cairo não é nada estável. Três pessoas foram mortas nas manifestações ocasionalmente violentas, e milhares de manifestantes permaneceram acampados no centro do Cairo, na Praça Tahrir durante a noite. Eles não vão se satisfazer com pouco – porque Mubarak, de fato, não está ‘procurando maneiras de responder às necessidades e interesses legítimos do povo’. Em vez disso o governo pretende se perpetuar no poder pela força e pavimentar o caminho para uma eventual sucessão dinástica de poder do filho do Sr. Mubarak.”

Aqui temos a voz autêntica dos estrategistas sérios do Capital, em oposição aos políticos superficiais de Washington e aos “especialistas em Oriente Médio” da BBC, cuja especialidade consiste principalmente em beber gin com tônica num hotel do Cairo e ouvir fofocas e propagandas feitas pelo regime para acalmar os nervos dos governos ocidentais e os investidores.

Os estrategistas sérios do Capital tendem a chegar às mesmas conclusões que os marxistas, apesar de um ligeiro atraso e, naturalmente, a partir do ponto de vista de classe deles. Neste caso, eles entenderam o que nós vínhamos apontando há muito tempo: que os regimes reacionários árabes, como os do Egito e da Jordânia estão por um fio e podem ser derrubados a qualquer momento.

O Washington Post entende que há um grave perigo de uma revolução no Egito, que terá conseqüências muito mais graves para os interesses econômicos e estratégicos dos EUA do que a revolta da Tunísia:

“O Egito tem sido um aliado vital dos Estados Unidos, e uma eventual mudança de regime é assustador para muitos em Washington, especialmente dada a força do movimento islâmico do país. Essas preocupações são legítimas. Mas o apoio cego dos EUA ao Sr. Mubarak torna um desastre político no Egito mais e não menos provável. Em vez de salientar a estabilidade do governo, Hillary Clinton e Obama precisam começar a falar sobre como ele deve mudar.”

Essas são pessoas sérias. Ao contrário da Sra. Clinton, eles percebem que Mubarak está acabado, e qualquer tentativa de sustentá-lo só vai piorar as coisas. A mudança é necessária, e Washington deve tentar controlá-la e conduzi-la em canais seguros. O primeiro passo deve ser para se livrar de Mubarak, mas aqui eles encontram uma série de problemas. Em primeiro lugar, Mubarak e sua família têm seus próprios interesses e não querem entregar o poder.

O segundo problema é ainda mais grave. Se Mubarak é removido, quem o substituirá? Eles expressam preocupação em relação aos islamitas. Mas a sua verdadeira preocupação é o que eles chamam de “rua árabe”, isto é, as massas árabes. Notavelmente os islamitas têm se ausentado até agora. Na Tunísia eles jogaram pouco ou nenhum papel. No Egito, a verdadeira face reacionária dos fundamentalistas é demonstrada pela sua atitude em relação ao movimento de protestos. Os partidos islâmicos liderados pela Irmandade Muçulmana, não desempenharam qualquer papel na organização dessas ações e, inclusive, a princípio se opuseram a elas. Só numa fase posterior é que, de maneira forçada, permitiram seus membros de participar. Isso é devastador para os ditos “marxistas” na Europa que ficaram a reboque dos islamistas e deram apoio incondicional para a Irmandade Muçulmana.

O regime de Mubarak tem perdido seu ímpeto. Graves problemas internos e dificuldades econômicas vêm se acumulando há 30 anos. Agora, o dia do julgamento se aproxima. A faísca de Túnis foi suficiente para incendiar um barril de pólvora que foi preparado com antecedência. O Egito não tem visto essas manifestações tempestuosas por mais de um quarto de século: desde 1977, quando tumultos de massa, forçaram Anwar Sadat a recuar nos aumentos do preço do pão. E os protestos não serão silenciados por cassetetes e gás lacrimogêneo. A tensão está nas alturas no Cairo. Novas explosões se preparam.

Na terça-feira, as autoridades anunciaram que os apoiadores de Mubarak iriam realizar uma contra-manifestação no dia seguinte. Isso é brincar com fogo. Uma colisão entre os dois campos pode conduzir a mais distúrbios e terminar em guerra civil – uma guerra civil cuja vitória de Mubarak seria improvável. O dia de ontem já expôs rachaduras no aparato de Estado. Essas fissuras vão crescer e comprometer todo o edifício.

O movimento mal começou e mesmo assim já adquiriu um caráter nacional. Houve protestos em massa, não apenas no Cairo, mas também em Alexandria, com milhares mais nas cidades da região do Delta e ao longo do Canal de Suez. E este é apenas o começo. A força motriz real do movimento que se desenvolve não são os islamitas, mas os ativistas de esquerda – e as massas: os trabalhadores, os desempregados, os pobres das cidades, os camponeses e a juventude revolucionária. Nós recebemos este breve relato sobre a situação esta manhã:

“A polícia evacuou a Praça Tahrir, com um verdadeiro bombardeio gás lacrimogêneo. Os manifestantes fugiram para as ruas vizinhas. Agora tudo vai depender se nos próximos dias: 1) os manifestantes voltam em massa às ruas, 2) fazem isso em cidades diferentes, 3) os trabalhadores dos transportes e da indústria das cidades de Mahalla, Suez, Tanta, Helwan, etc. são convencidos a organizar uma greve geral. Se este for o caso, o regime não vai durar muito. (Este era o problema durante a chamada ‘revolução verde’ no Irã em 2009). Embora a espontaneidade seja muito grande, a organização do protesto é fraca e, mais importante, ainda ‘virtual’.”

Essas poucas linhas vão direto ao coração do problema. As massas demonstram tremenda coragem e ímpeto. Mas falta-lhes boa organização e liderança. Isso pode complicar todo o processo e dar-lhe um caráter convulsivo e prolongado. Já em relação ao movimento revolucionário de massas no Irã após a eleição fraudada, ressaltamos que o caráter espontâneo do movimento foi tanto sua força quanto sua fraqueza. Apesar de todos os esforços heróicos das massas iranianas, o regime foi capaz de se manter no poder – pelo menos por um tempo.

É inevitável que o movimento no Egito (que tem muitas características em comum com o movimento no Irã) passe por uma série de fases. Haverá altos e baixos, derrotas assim como vitórias. Mas, no curso da luta, as massas vão aprender muitas lições. Elas vão aprender quais líderes devem ter sua confiança e quais devem ser rejeitados. Elas irão desenvolver a tática adequada e buscarão o programa e as idéias que poderão assegurar a vitória.

Essa tarefa seria imensamente mais fácil se existisse um genuíno partido revolucionário, como o Partido Bolchevique russo sob a direção de Lênin e Trotsky. Infelizmente, tal partido ainda não existe. Terá que ser construído no curso da própria luta. Mas as massas – e especialmente os seus elementos mais avançados e a juventude – irão aprender rapidamente sobre a base dos acontecimentos.

O elemento determinante na equação, como o nosso correspondente aponta, é o poderoso proletariado egípcio, que nos últimos anos demonstrou seu espírito de luta em uma onda de greves. Essas greves foram uma escola preparatória para o movimento revolucionário atual. A tarefa agora é generalizar o movimento grevista, sob o lema de uma greve geral nacional totalmente política. Esta deve ser preparada por comitês de ação em cada localidade. A ausência de uma organização representativa pode ser compensada pela formação de comissões em cada bairro de trabalhadores, cada fábrica, cada vilarejo. Uma vez que as comissões estejam ligadas em nível local, regional e nacional, formariam um poder paralelo que poderia desafiar o podre e corrupto Estado de Mubarak.

No estágio atual as principais reivindicações são de um caráter democrático-revolucionário. “Abaixo o governo! Não às eleições fraudulentas! Por uma Assembléia Constituinte para elaborar uma nova constituição democrática! Por plenos direitos democráticos já!” Entretanto, para os trabalhadores e camponeses, desempregados e sem-teto, a democracia não é um fim em si mesmo, mas um meio para um fim.

Um regime verdadeiramente democrático varreria os políticos corruptos e bandidos. Prenderia e puniria os culpados de oprimir e roubar o povo. Confiscaria as fortunas dos ricos e expropriaria a propriedade dos imperialistas que têm saqueado as riquezas do Egito por muitos anos. Essa política só pode ser realizada por um governo de operários e camponeses. Esse deve ser o nosso objetivo.

Os imperialistas estão preocupados porque a derrubada de Mubarak poderá privá-los de um “aliado” chave no Oriente Médio. Claro que irá! O povo do Egito colocará um fim à política vergonhosa de Mubarak, que subordina a admirável nação egípcia ao interesse dos ladrões em Washington e seus capangas israelenses.

Os alicerces de todo o mundo árabe estão estremecendo. Manifestações anti-governo têm ocorrido nas ruas da Tunísia, Argélia, Iêmen e Jordânia. Pela primeira vez em décadas, as massas árabes estão tomando as ruas para lutar contra os regimes corruptos e impopulares e derrubá-los. A Tunísia mostrou que isso é possível. A próxima – a Revolução do Egito – será um evento muito mais importante.

Um governo revolucionário terá uma política exterior revolucionária. Este será o momento em que a imensa riqueza dos países árabes será usada em benefício do povo e não para o enriquecimento de um punhado de ricos parasitas e os seus apoiadores ocidentais. A derrubada desses lacaios do imperialismo irá lançar as bases para uma Federação Socialista do Oriente Médio e uma Federação Socialista do Magreb. Essa é a única forma de avançar!

Londres, 26 de janeiro de 2011.

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