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Ebola, ONGs e sindicalistas pelegos: impacto previsível sobre os trabalhadores da África Ocidental

Já são mais de 2.400 mortes resultantes da epidemia de Ebola na Libéria, Serra Leoa e Guiné, Nigéria e Senegal. O impacto econômico do Ebola na região será devastador e os trabalhadores estão desafiados a enfrentar a situação. Mas, este não é um problema africano. É um problema da classe trabalhadora internacional e suas organizações.

Já são mais de 2.400 mortes resultantes da epidemia de Ebola na Libéria, Serra Leoa e Guiné, Nigéria e Senegal. O impacto econômico do Ebola na região será devastador e os trabalhadores estão desafiados a enfrentar a situação. Mas, este não é um problema africano. É um problema da classe trabalhadora internacional e suas organizações.

Um surto de Ebola na Europa ou Estados Unidos poderia ser facilmente superado, mas os países da África Ocidental afetados são incapaz de conter a doença, que está em curso há vários meses, por causa dos serviços de saúde pública miseráveis, assim como são o conjunto dos serviços públicos, quando existem.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) afirmou que a epidemia de ebola é uma crise “sem paralelos em tempos modernos” e afirmou que é necessário US$ 1 bilhão ou mais para conter a crise que atinge a África Ocidental.

Segundo a agência das Nações Unidas, 2.461 pessoas morreram pela doença e há 4.985 contaminados. De acordo com Bruce Aylward, da OMS, a expectativa inicial é que 20 mil pessoas sejam atingidas pela doença se ocorrer uma resposta rápida para isso. “Essa crise de saúde que estamos enfrentando é incomparável”, afirmou.

O Ebola está tendo um efeito devastador também sobre o que existe de serviços de saúde e sobre a própria estrutura dos serviços. Já tirou a vida de inúmeros trabalhadores de saúde que não possuem equipamento de proteção adequado para trabalhar com pacientes infectados e demonstrou assim que os recursos humanos, financeiros, materiais, são completamente insuficientes para responder às necessidades de saúde nesses países. Foi isso que causou o fechamento das unidades de saúde que não conseguem lidar com pacientes de Ebola e que deixou milhares de pessoas sem atendimento para esta e outras doenças. Em diversos locais os trabalhadores da saúde locais simplesmente entraram em greve por não receber nenhum equipamento de proteção e meios de tratar as pessoas. Para salvar-se apelaram para a greve.

A economia já tão frágil já começa a sentir os efeitos desta catástrofe. Companhias aéreas estão suspendendo viagens para África e entre os países afetados, as fronteiras com os países vizinhos foram fechadas. As empresas multinacionais estão reduzindo e repatriando funcionários estrangeiros nos países afetados. Nos outros países da região o medo do surto se espalhar já afeta a vida comercial e econômica.

O fato é que já há um impacto direto sobre a classe trabalhadora como um todo por causa da desaceleração ou paralisação da produção pelas multinacionais. Alguns dos trabalhadores mais atingidos por estas medidas, que incluem demissões, são os do setor de mineração e os trabalhadores migrantes. O resultado da epidemia é mais pobreza e mais sofrimento para os trabalhadores, a juventude e a população pobre.

O absurdo da situação é que frente à inexistência ou falência dos serviços de saúde quem acaba tendo a melhor estrutura para combater o Ebola é a ONG Médicos Sem Fronteiras (MSF). Estes médicos voluntários vindos da Europa e das Américas durante anos foram objetivamente um entrave ao desenvolvimento e à luta por verdadeiros serviços públicos de saúde porque substituíam ou tomavam o lugar do serviço público e muitas vezes com grande vantagem por ter financiamento internacional e profissionais altamente qualificados. Eles sempre deram o peixe, nunca ensinaram a pescar. Seu objetivo político é ajudar a impedir as explosões sociais e não resolver o problema de base.

A abnegação e o desprendimento pessoal dos médicos que vão à África através do MSF dificilmente pode ser negado ou contestado. Entretanto nenhuma atitude individual, por mais corajosa que seja, vai resolver um problema que é coletivo e que só se agrava com a substituição regular dos serviços médicos públicos e gratuitos por organizações espetacularmente financiadas pelos próprios países imperialistas que conduziram a África a esta situação terrível.

Com o alastramento da epidemia o pessoal do MSF que é infectado é removido e levado de volta para casa onde é tratado em hospitais decentes. Vários já foram salvos assim. Mas, os africanos não tem essa opção. Devem ficar para morrer.

Enquanto a França ajuda a financiar os Médicos Sem Fronteiras para fazer o trabalho midiático de país humanitário, despeja por dia 2,5 milhões de Euros em homens, bombas e balas no Mali. E podemos repetir isso sobre quase toda a África.

Industrial Global Union

Os sindicalistas canalhas das grandes organizações sindicais europeias e norte americanas também fazem sua parte na caridade com os miseráveis, em vez de organizar a luta e reivindicar direitos, sindicatos e serviços públicos.

Os dirigentes do Industrial Global Union (Sindicato Industrial Global) anunciaram que “O Fundo Humanidade Metalúrgicos contribuiu US $ 25.000 para apoio à luta contra o Ebola na África Ocidental, fornecendo fundos para tanto MSF como para uma ONG local com ligações com o movimento trabalhista que vai realizar uma campanha de educação em saúde pública”. E explica o que é esse fundo: “O Fundo Humanidade Metalúrgicos se concentra principalmente em projetos de desenvolvimento e de ajuda de emergência em países em desenvolvimento, mas também apoia as comunidades canadenses em crise. O Sindicato dos Metalúrgicos (USW) (no Canada e EUA) contribui para o Fundo através de cláusulas negociadas em acordos coletivos onde, em alguns casos, os empregadores fazem contribuições correspondentes às dos trabalhadores”. Ou seja, além da quantia ridícula e miserável ainda é dinheiro dos trabalhadores e as vezes com a gentil colaboração do patrão que ajuda a manter a saúde pública na África em estado de barbárie.

Como ele mesmo se apresenta: “O IndustriALL Global Union representa 50 milhões de trabalhadores em 140 países, dos setores de energia e mineração, e é uma força de solidariedade global levando a luta por melhores condições de trabalho e os direitos sindicais em todo o mundo”.

Fundado em 19 de junho de 2012, esta nova organização reúne filiais das antigas federações sindicais mundiais como a Federação Internacional dos Metalúrgicos (IMF), Federação Internacional da Química, Energia, Minas e Indústrias e Sindicatos Gerais de trabalhadores (ICEM) e Federação Internacional Têxtil, Vestuário e couro (ITGLWF). Para entender melhor o que é esta engenhoca, misto de Sindicato com ONG e de quinta roda do carro das multinacionais sugiro a leitura de meu artigo “Remodelagem do movimento sindical” publicado na revista América Socialista Nº 3.

A IndustriALL Global Union agrupa sindicatos dos setores de extração de petróleo e gás, mineração, geração e distribuição de energia elétrica, produção de metais e produtos de metal, construção naval, automotivo, aeroespacial, engenharia mecânica, eletrônica, produtos químicos, borracha, papel e celulose, materiais de construção, têxteis, vestuário, couro e calçados e serviços ambientais. Sai sede é em Genebra, na Suíça.

Esta poderosa organização mundial tem todos os meios para campanhas verdadeiras de solidariedade, pressão sobre as multinacionais que pilham a África, sobre os governos que garantem este saqueio com armas e soldados, bombas e corrupção, assim como ajudar de fato na organização sindical de classe nem todos os países africanos tão perseguidas pelos corruptos governos locais.

Ao invés disso o que faz? Envia dinheiro para as ONGs continuarem a substituir e impedir o nascimento de verdadeiros serviços públicos universais e gratuitos, publica lamentações e suplica aos governos e multinacionais com quem colabora na dita “Governança Global” em busca de “desenvolver a democracia e a inclusão”.

A dita “remodelagem do movimento sindical”, política global de transformação dos sindicatos em ONGs de colaboração integrada com as multinacionais, é isto. Tem pavor da luta de classes e tenta aliar uma ação midiática humanitária com uma suposta ajuda caridosa, como antes fizeram as hordas fanáticas do Vaticano pelo mundo. É a cara do tripartismo.

Só que isso não resolve nada. Eles podem enrolar os trabalhadores um tempo. Mas, a luta de classes é o motor da história e as novas gerações vão varrer estes velhos pelegos. E em todo o mundo, na África, nas Américas, na Ásia e na Europa a Internacional será cantada, um dia, outra vez, pelos trabalhadores nas manifestações de rua e em suas festas revolucionárias.

A catástrofe e a indignação que nos causa o que se passa na África é combustível puro para a continuidade da luta pela revolução socialista, único meio de terminar com este mundo desprezível do regime da propriedade privada dos grandes meios de produção.

A África é linda, o planeta Terra maravilhoso, o universo infinito e a história da Humanidade só está começando. Avante juventude, avante comunistas!

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