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É preciso lutar por uma linguagem polida? Reflexões a partir de Trotsky e Vigotski

Em seu livro “Questões sobre o modo de vida”, Trotsky analisa uma série de dificuldades ligadas à cultura e ao modo de vida russo pós-revolução de Outubro. Em um dos itens, intitulado “É preciso lutar por um linguagem polida”, Trotsky analisa a importância da linguagem a partir de um exemplo prático:

“Por ocasião de uma assembleia geral na fábrica de calçados ‘A Comuna de Paris’, foi decidido pôr fim à linguagem grosseira, e aplicar multas pelos ‘palavrões’ etc.”

A partir desse exemplo, e das análises de Trotsky sobre o tema, nesse texto vamos refletir sobre a importância da linguagem nos dias atuais, especialmente, no cotidiano de militantes que possuem uma atividade política regular.

Trotsky aponta que a grosseria russa era fruto da escravidão, da humilhação e do desprezo pela dignidade humana, tanto dos outros quanto a própria. Nos dias de hoje, em uma sociedade que banaliza a morte, personaliza as coisas e coisifica as pessoas, não vivemos muito distantes disso. Estamos imersos em um ambiente no qual a dignidade quase inexiste, expressando-se através da linguagem, da forma como nos referimos aos outros e a nós mesmos.

Trotsky afirma que a grosseria – entre outros vícios – foi herdada pela revolução e que, assim como os demais problemas, deve ser superado:

“Mas a revolução é acima de tudo o despertar da personalidade humana em camadas que outrora nenhuma personalidade possuíam. Apesar de toda a crueza e sangrenta ferocidade de seus métodos, a revolução é, sobretudo, um despertar do sentimento humano (…)”.

Para Trotsky, lutar contra a grosseria na linguagem era tão importante quanto lutar pelas melhorias das condições materiais. Ele afirmava também que não seria uma tarefa simples, pois o modo de vida e os hábitos são transmitidos de geração em geração, ficando enraizados em uma sociedade.

Em relação a esses hábitos de linguagem, cabe relembrar um erro que muitos ainda cometem, e que Trotsky já condenava desde então:

“(…) certas ‘personalidades’ consideram que é seu dever exprimir-se grosseiramente por verem nisso um meio de entrar em contato com o campesinato…”

Consideramos, portanto, que não se deve “camuflar-se”, tentando imitar hábitos e maneirismos para, supostamente, estabelecer intimidade com camadas mais amplas dos trabalhadores, mas sim discutir com qualquer pessoa de forma honesta, franca e polida. Não se deve buscar uma linguagem “próxima” daquele grupo em questão, tentado atrair sua atenção, mas sim, utilizando-se de uma linguagem objetiva, que apresente os conceitos e demandas de forma simples e direta, buscar elevar as discussões, ampliando a capacidade de abstração e de entendimento dos problemas cotidianos, com vistas à superação do senso comum.

O esforço pela depuração da linguagem nada tem a ver com a perspectiva pós-estruturalista, segundo a qual os discursos determinam a realidade, permitindo que, desse modo, a mudança das falas determine as alterações sociais. Para os marxistas, como afirmou Trotsky e o próprio Marx, a consciência define-se pelo ser, em relação recíproca com as relações sociais de produção e reprodução da vida. Portanto, uma transformação real do modo de vida e da linguagem só é possível em relação direta com a transformação das relações sociais de produção.

O exemplo da Rússia pós-revolução nos mostra a dificuldade de, mesmo após a tomada do poder e dos meios de produção pelo proletariado, superar os hábitos e modos de vida construídos com base na exploração e na humilhação. Portanto, a nossa tarefa, no nosso período histórico, de lutar pela mudança na linguagem é imensa e não será completa antes da revolução.

É bom também afirmar que essa tarefa, tampouco, tem ligação com uma perspectiva colonialista ou opressiva em relação às formas próprias de linguagem dos diferentes povos, pautadas nos costumes e cultura regional, por exemplo, no período stalinista em relação às diversas culturas que compunham a Rússia.

Outro teórico que trouxe contribuições importantes para a compreensão da relação entre pensamento, linguagem e cultura, é Vigotski. Seu trabalho buscava, na Rússia pós-revolução, desenvolver uma teoria marxista do funcionamento intelectual humano.

Seu livro intitulado “A formação social da mente” inicia com a famosa citação de Marx, em O Capital:

A aranha realiza operações que lembram o tecelão, e as caixas suspensas que as abelhas constroem envergonham o trabalho de muitos arquitetos. Mas até mesmo o pior dos arquitetos difere, de início, da mais hábil das abelhas, pelo fato de que antes de fazer uma caixa de madeira, ele já a construiu mentalmente. No final do processo do trabalho, ele obtém um resultado que já existia em sua mente antes de ele começar a construção. O arquiteto não só modifica a forma que lhe foi dada pela natureza, dentro das restrições impostas por ela, como também realiza um plano que Ihe é próprio, definindo os meios e o caráter da atividade aos quais ele deve subordinar sua vontade.”

Ou seja, o que nos difere dos outros animais mais desenvolvidos é a nossa capacidade de estabelecer um plano anterior à ação, e nesse processo, a linguagem cumpre um papel fundamental, organizando o pensamento.

Segundo Vigotski, a partir de estudos realizados com crianças:

“O primeiro exemplo significativo da ligação entre essas duas funções da linguagem [fala egocêntrica e fala social] é o que ocorre quando as crianças descobrem que são incapazes de resolver um problema por si mesmas. Dirigem-se então a um adulto e, verbalmente, descrevem o método que, sozinhas, não foram capazes de colocar em ação. A maior mudança na capacidade das crianças para usar a linguagem como um instrumento para a solução de problemas ocorre um pouco mais tarde no seu desenvolvimento, no momento em que a fala socializada (que foi previamente utilizada para dirigir-se a um adulto) é internalizada. Ao invés de apelar para o adulto, as crianças passam a apelar a si mesmas; a linguagem passa, assim, a adquirir uma função intrapessoal além do seu uso interpessoal. No momento em que as crianças desenvolvem um método de comportamento para guiarem a si mesmas, o qual tinha sido usado previamente em relação a outra pessoa, e, quando elas organizam sua própria atividade de acordo com uma forma social de comportamento, conseguem, com sucesso, impor a si mesmas uma atitude social.”

Ou seja, o salto qualitativo ocorre quando a criança passa a utilizar a linguagem não só direcionada à outra pessoa, com o objetivo de conseguir o que deseja, mas quando passa a utilizar a linguagem como meio de organizar o seu próprio pensamento, elaborando planos para conseguir o que quer. A fala passa a preceder a ação.

Nas palavras de Vigotski:

“Inicialmente a fala segue a ação, sendo provocada e dominada pela atividade. Posteriormente, entretanto, quando a fala se desloca para o início da atividade, surge uma nova relação entre palavra e ação. Nesse instante a fala dirige, determina e domina o curso da ação; surge a função planejadora da fala, além da função já existente da linguagem, de refletir o mundo exterior”

Essa reflexão nos ajuda a pensar sobre a importância da linguagem como organizadora do pensamento, ou seja, uma vez que nos colocamos a tarefa de buscar uma nova forma de linguagem, estamos também nos colocando a tarefa de reorganizar nosso pensamento, uma vez que aquilo que falamos, expressa o que pensamos e o que apreendemos do meio à nossa volta.

Nossa tarefa, portanto, é superar, cotidianamente, as formas de linguagem grosseiras e indignas, uma vez que elas exprimem os vícios desta sociedade que buscamos destruir.

“A luta contra a grosseria faz parte da luta pela pureza, a clareza e a beleza da linguagem.” Leon Trotsky.

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