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Dinho Ouro Preto protesta contra Sarney, mas defende “liberdade de empresa”

João Diego

Um dos momentos mais comentados do Rock In Rio foi o protesto do dia 24 feito pelo vocalista do Capital Inicial, contra o atual presidente do Senado, José Sarney. Dinho Ouro Preto dedicou a música, “Que país é esse?” de autoria de Renato Russo, ao senador. 


O vocalista Dinho Ouro Preto

Ele afirmou que a música era para as oligarquias que ainda conseguem deixar jornais, como é o caso do jornal estado de São Paulo, censurados durante dois anos. “Essa aqui é em especial para o José Sarney. Isso daqui se chama Que País é esse”, anunciou Dinho.

No último sábado (01/10), em entrevista ao Jornal Estado de São Paulo, o cantor disse ser favorável à liberdade de imprensa. Para ele, são alarmantes as “agressões” à imprensa na América latina.

O vocalista afirmou que quando as “agressões” contra a imprensa aconteciam em países menores, como na Venezuela de Hugo Chávez, era um espanto. Agora, que isso “acontece” em países como a Argentina, ele diz começar a se preocupar. O pior, segundo Dinho, “é que a Cristina (Kirchner, presidente da Argentina) irá se reeleger”.

Para ele é um absurdo o Partido dos Trabalhadores discutir a regulamentação da imprensa. O músico afirma não saber o que eles têm em mente e que a proposta parece algo ao estilo Stálin.

O roqueiro tem razão sobre Sarney e outras oligarquias, como as de Fernando Collor de Melo, Ciro Gomes e Paulo Maluf.

Mas tratando sobre os outros temas ele confunde as coisas. A briga do Jornal “O Estado de São Paulo” em nada tem que ver com a liberdade de imprensa, mas com a liberdade de empresa.



O jornal foi censurado pela justiça a pedido de Sarney, em 2009, por noticiar as falcatruas da família do senador. Uma delas era o fato do mordomo de Roseana Sarney, ser funcionário do senado com um salário em torno de R$ 12 mil.

“O Estado”, como os outros grandes meios de comunicação, é porta voz de interesses da elite de nosso país. A grande mídia representa o pensamento de determinados setores da burguesia. A briga entre Sarney e o “estadão”, representa a briga entre dois setores da classe dominante.

O que “o estadão” quer, não é uma mídia mais plural e democrática, mas a permissão para poder dizer o que quiser. Ou seja, ele quer denunciar a corrupção do Sarney, mas também fazer campanha contra todo o governo que não seja diretamente o seu, incluindo governos com matizes de esquerda. “O estadão” é o grande defensor das privatizações. A linha editorial do “estadão” não é democrática, é a linha de seus donos que representam um setor da burguesia.

A censura ao jornal não tem relação nenhuma com o que ocorre hoje na América latina e com regulamentação da Imprensa. Na Venezuela, por exemplo, não sei o que Dinho sabe, mas é importante lembrar que não houve nenhuma censura à imprensa. A RCTV, principal canal da Venezuela, junto com a filial da Rede Globo, a CIA e os militares venezuelanos organizaram um golpe contra o presidente Hugo Chávez, em abril de 2002. O golpe ocorreu e só não prosperou porque o povo saiu às ruas e exigiu a volta do presidente. Em 2007, Chávez resolveu não conceder mais a licença para o canal e expropriou suas estruturas.

Em 16 de julho de 2007, coube ao grupo Globo, que é proprietária da DirecTV dar asilo ao Canal golpista, que funcionou até 24 de janeiro de 2010 quando o governo venezuelano, através da Comisión Nacional de Telecomunicaciones (CONATEL), determinou o encerramento das transmissões da rede de TV e de mais cinco canais.  O motivo da extinção foi o não cumprimento da veiculação de 30% do conteúdo transmitindo da Venezuela. A RCTV, na Venezuela só pode ser vista pela internet.

Na Argentina faz pouco tempo foi aprovada a lei dos meios de comunicação, que limita o monopólio no setor. Semelhantes medidas são progressistas, em nada tem a ver com censura. A grande censura à imprensa exercida em nosso país é feita pelas 10 famílias que monopolizam a mídia nacional.

Talvez Dinho também não saiba disso, mas para possuir um canal de TV no Brasil você precisa de uma permissão do governo. E boa parte dessas permissões foi concedida pela ditadura militar!

Assim, ter um canal de TV é ter uma concessão pública, ou seja, você tem a permissão do governo para administrar um serviço que é “público”. Mas o que acontece é que todos os donos dos meios de comunicações agem com se fossem sua propriedade, defendendo suas idéias, atacando os governos que lhes interessa atacar, mentindo, distorcendo fatos e omitindo informações.

Isso não tem nada que ver com a liberdade de imprensa, mas sim com a liberdade deles defenderem suas empresas e as dos outros capitalistas. Defendem a posição que melhor lhes convém e que lhes dão lucros.

A declaração de Dinho Ouro Preto é conservadora e se vincula aos interesses dos grandes meios de comunicação. Afinal, quem paga a banda, escolhe não só a música, mas também o discurso. E Dinho cumpriu a regra.

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