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Defendendo a teoria, ou a ignorância nunca ajudou ninguém

Em 1846, Weitling queixou-se de que Marx e Engels escreveram apenas “intelectualidades” sobre assuntos obscuros de nenhum interesse aos trabalhadores. A resposta de Marx, com as seguintes palavras, foi colérica: “A ignorância nunca ajudou ninguém”. Sua resposta continua ainda válida.

A publicação da série The Class Struggle in the Roman Republic (A Luta de Classes na República Romana) trouxe grande interesse dos leitores à página marxist.com. De acordo com as informações, passadas a mim pela equipe editorial, houve um recorde de visitas a estes artigos. Foram cerca de 2.200 visualizações, o que é significativamente mais alto que a média de acessos a artigos individuais.

Este fato confirma a correção da política da marxist.com, que estabeleceu uma forte reputação pela qualidade de seus artigos teóricos. Em uma época onde as ideias de Marx recebem ataques de todos os lados, nossa página destaca-se pela defesa firme e consistente da teoria marxista em toda a sua riqueza e diversidade. Isso mostra que as pessoas em todo mundo estão interessadas, e entusiasmadas, em aprofundar seu conhecimento sobre o marxismo.

Entretanto, existem também algumas críticas sobre a marxist.com. Alguns de nossos críticos queixam-se de que escrevemos artigos sobre a Roma Antiga no meio de uma das maiores crises do capitalismo desde 1930. Sendo justos conosco, foram publicados uma grande série de artigos sobre a crise e pretende continuar fazendo. Contudo, temos também o dever de escrever sobre outros problemas, de elevar o conhecimento teórico de nossos leitores, de providenciar uma análise marxista não somente da economia, mas também da história, da ciência, arte, música e qualquer outra esfera do conhecimento humano.

Como responder aos que querem que limitemos o nosso escopo para que caiba em seu limitado esquema mental? Na verdade não temos que responder, pois Lênin já o fez há muito tempo ao escrever: Sem uma teoria revolucionária não pode haver um movimento revolucionário. É uma verdade fundamental em que todos os grandes marxistas insistiram. Deixe-nos relembrar desse fato elementar com alguns significativos simples exemplos.

Não há revolução sem teoria

Mesmo antes de escreverem o Manifesto Comunista, Marx e Engels – que, deixe-nos lembrar, começaram sua vida revolucionária como estudantes da filosofia hegeliana – conduziram uma luta contra os líderes “proletários” que adoravam o atraso e métodos primitivos de luta e, teimosamente, resistiam à introdução da teoria científica.

Wilhelm Weitling

Annenkov, o crítico russo, que coincidentemente estava em Bruxelas durante a primavera de 1846, deixou um curioso relato de um encontro quando Marx e Weitling, o comunista utópico alemão, tiveram uma discussão furiosa. Em algum momento, Weitling, que era um trabalhador, queixou-se de que as “intelectualidades” sobre assuntos obscuros que Marx e Engels escreveram não eram do interesse do trabalhador. Ele acusou Marx de escrever uma “análise fútil sobre doutrinas muito distantes do sofrimento que afligia o povo”. Marx, que geralmente era muito paciente, neste momento ficou indignado. Annenkov escreve:

“Ao ouvir as últimas palavras, Marx finalmente perdeu o controle e esmurrou a mesa com tanta força que a lamparina tremeu e quase caiu. Finalmente, disse: ‘A ignorância nunca ajudou ninguém’”. (Reminiscences of Marx and Engels, p.272, realces meus, AW)

Weitling opôs-se à teoria e ao trabalho propagandístico paciente. Como Bakunin, ele defendeu que os pobres estão sempre prontos para a revolta. Esta defesa da “ação revolucionária” em oposição à teoria acreditava que enquanto existissem líderes resolutos, uma revolução poderia ser engendrada a qualquer momento. Ainda encontramos ecos destas ideias pré-marxistas nas fileiras dos marxistas.

Marx entendia que o movimento comunista só poderia avançar por meio de uma ruptura radical com essas noções e com uma limpeza nas fileiras. A ruptura com Weitling era inevitável e aconteceu em maio de 1846. Depois disso, Weitling migrou para os Estados Unidos e deixou de fazer parte do movimento. Somente a ruptura com o “ativismo trabalhista” de Weitling tornou possível estabelecer a Liga Comunista em uma base sólida. Mesmo assim, a tendência primitiva representada por Weitling constantemente se reproduz no movimento. Primeiramente com as ideias de Bakunin, e depois, com as formas variadas de extremismo que ainda são pragas no movimento marxista atual.

Em Trabalhos Reunidos de Marx e Engels, encontramos uma verdadeira mina de ideais. Neste texto encontramos os escritos de Engels sobre a Guerra Camponesa na Alemanha, sobre a história dos povos germânicos, eslavos e irlandeses, sua história sobre o cristianismo primitivo. No seu artigo sobre a morte de Engels, Lênin escreveu:

“Marx trabalhou na análise dos complexos fenômenos da economia capitalista. Engels, em livros de escrita simples e geralmente de caráter polêmico, lidou com problemas científicos mais genéricos e com fenômenos diversos do passado e do presente no espírito da concepção materialista da História e da teoria econômica marxista.”

Uma breve lista dos trabalhos de Engels imediatamente revela a amplitude da sua visão. Temos o seu magnífico trabalho polêmico em Anti-Dühring, que aborda com profundidade com a filosofia, as ciências naturais e as ciências sociais. A origem da Família, da Propriedade e do Estado lida com as origens da sociedade humana. O que tudo isso tem a ver com a classe trabalhadora e a luta de classes, nossos críticos “práticos” perguntarão. Somente isso: que estes foram os trabalhos que definiram as bases da teoria marxista do Estado, na qual, mais tarde, Lênin desenvolveu em Estado e Revolução, o livro que estabeleceu as fundações da Revolução Bolchevique.

Mikhail Bakunin

E o que temos a dizer sobre Ludwig Feuerbach e o Fim Da Filosofia Clássica Alemã? Neste livro, Engels lida não somente com as ideias “abstratas e obscuras” de Hegel, bem como com as ideias obscuras de filósofos alemães menores do movimento de esquerda hegeliano. Encontramos especialmente em Correspondências de Marx e Engels um tesouro de um alcance desconcertante. Os dois amigos trocaram opiniões sobre todo o tipo de assuntos, não apenas sobre economia e política, mas também filosofia, história, ciência, arte, literatura e cultura.

Aqui está uma resposta esmagadora aos críticos burgueses de Marx que apresentam uma caricatura do marxismo como sendo uma doutrina estreita e seca que reduz todo o pensamento humano ao econômico e ao desenvolvimento das forças produtivas. Ainda hoje existem pessoas que se auto intitulam marxistas que defendem, não as ideias genuínas de Marx e Engels com toda a sua riqueza e profundidade, mas a mesma caricatura “economista” dos críticos burgueses do marxismo. Definitivamente, isso não é marxismo. Porém, para usar a expressão de Hegel: “die leblosen Knochen eines Skeletts” (os ossos de um esqueleto sem vida), sobre a qual Lênin comentou: “O que é necessário não é leblose Knochen, mas vida pulsante.” (Lênin, Cadernos Filosóficos, Obras Reunidas, Vol. 38)

Lênin e a teoria

Lênin sempre realçou a importância da teoria. Mesmo na fase inicial, na fase embrionária do Partido, ele conduziu uma luta sem piedade contra os economistas, que tinham uma mentalidade estreita sobre o “prático proletário” e que desmereciam a teoria como sendo uma esfera dos intelectuais, e não dos trabalhadores. Respondendo sobre esse absurdo, Lênin escreveu:

“A afirmação de Marx: ‘Cada passo do movimento real é mais importante que uma dúzia de programas’. Repetir essas palavras em um período de desordem teórica é como desejar aos pranteadores em um funeral muitos retornos no mesmo dia. Ainda mais, estas palavras de Marx foram tiradas de sua Carta ao Programa de Gotha, na qual ele condena ferozmente o ecletismo na formulação dos princípios. Se desejamos união, escreve Marx aos líderes do partido, entremos em acordo para satisfazer os detalhes práticos do movimento, mas não permitamos uma barganha sobre princípios, não façamos ‘concessões’ teóricas’. Esta era a ideia de, e ainda existem pessoas entre nós que buscam o seu nome para diminuir a importância da teoria!

“Sem uma teoria revolucionária, não pode haver movimento revolucionário. Esta ideia não pode ser insistida firmemente em uma época de pregação oportunista flexível que anda de mãos dadas com um namoro com as formas mais estreitas de atividade prática. Mesmo assim, para os sociais democratas russos, a importância da teoria é reforçada por três outras circunstâncias, que são frequentemente esquecidas: primeira, pelo fato de que o nosso Partido está somente em um processo de formação; seus recursos estão apenas sendo definidos e ele ainda está muito longe de estabelecer com as outras facções do movimento revolucionário que ameaça divergir o movimento do caminho correto.” (“O que fazer?“, Dogmatismo e “Liberdade de Crítica”)

A vertente economista, como Weitling e Bakunin, posou como uma tendência “genuinamente proletária” lutando contra a perniciosa influência dos “teóricos intelectuais”. Uma rápida desestruturação desta corrente, que combinava demagogia “proletária” com reformismo e unionismo sindical, na prática, era a condição principal para a formação do bolchevismo. Porém, a luta pela teoria contra os “práticos” foi uma figura constante ainda muito depois disso.

Lenin escreveu em 1908:

“A luta ideológica firmada pelo Marxismo revolucionário contra o revisionismo no final do século 19 é o prelúdio às grandes lutas revolucionárias do proletariado, que continua marchando para a vitória completa de sua causa mesmo com todas as movimentações e fraquezas da pequena burguesia”. (“Marxismo e Revisionismo”)

Em seu livro Stalin, Trotsky descreve com detalhes a psicologia dos “homens do comitê” bolchevique, que também tinham a mesma mentalidade dos “práticos”. Eles cometeram uma série de erros por causa de sua falta de habilidade para entender o movimento real dos trabalhadores em 1905-6. A razão dos seus erros, geralmente uma característica dos extremistas, foi a falta de entendimento da dialética. Eles tinham uma ideia completamente abstrata e formalística da construção de um partido, que não estava relacionada com o movimento real dos trabalhadores. É por isso que em 1905, para o horror de Lenin, os bolcheviques em São Petersburgo deixaram o primeiro encontro dos Sovietes, pois se recusaram a aceitar o programa do partido.

Em 1908, quando se viu em minoria na liderança da facção bolchevique, que era liderada pelos extremistas Bogdanov e Lunacharsky, ele estava preparado para se separar em razão de uma querela sobre a filosofia marxista. Não é acidental que naqueles tempos difíceis, quando a simples existência de uma tendência revolucionária estava em perigo, ele gastou muito tempo escrevendo um livro sobre Filosofia: Materialismo e Empírico-Criticismo.

Alguém pode questionar o que Vladimir Ilyich estava pensando ao escrever livros sobre tais assuntos. Qual a possível relevância os escritos do Bispo Berkeley têm para os trabalhadores russos? Alguém pode também questionar porque Lenin achou necessário romper com a maioria dos líderes bolcheviques sobre a questão da filosofia. No entanto, Lenin compreendeu muito bem a relação causal entre a rejeição de Bogdanov do materialismo dialético e as políticas extremistas adotadas pela maioria.

Georg Wilhelm Friedrich Hegel (retrato de Jakob Schlesinger)

Durante a Primeira Grande Guerra Mundial, Lenin retornou à filosofia, fazendo um estudo profundo de Hegel, que foi publicado muitos anos depois como Cadernos Filosóficos. Um de seus últimos trabalhos foi sobre O Significado do Materialismo Militante, no qual ele realça novamente a necessidade de se estudar Hegel:

“É claro que este estudo, esta interpretação, esta propaganda da dialética hegeliana é extremamente difícil, e os primeiros experimentos nesta direção serão certamente acompanhados por erros. Mas somente aquele que nunca faz nada, nunca erra. Tomando como base o método de Marx de aplicar materialisticamente a dialética concebida por Hegel, podemos e devemos elaborá-la em todos os aspectos, imprimir no jornal excertos dos principais trabalhos de Hegel, interpretá-los materialisticamente e fazer comentários sobre eles com a ajuda de exemplos da dialética na esfera das relações políticas e econômicas, cuja história recente, especialmente a moderna guerra imperialista e a revolução, oferecem em uma abundância não usual”.

Trotsky e a teoria

Trotsky, como Lenin, devotou sua vida inteira à defesa intransigente da teoria marxista. No seu excelente artigo sobre Engels, ele realça uma escrupulosa atitude em relação à teoria:

“Ao mesmo tempo, a magnanimidade intelectual do mestre em relação ao seu pupilo foi verdadeiramente inesgotável. Ele costumava ler os artigos mais importantes do prolífico Kautsky na forma manuscrita e, cada uma de suas cartas de crítica contém preciosas sugestões, o fruto de pensamentos sérios e algumas vezes de pesquisa. O trabalho mais conhecido de Kautsky, Antagonismos de Classe na Revolução Francesa, que foi traduzido para quase todos os idiomas da humanidade civilizada, parece também que passou pelo laboratório intelectual de Engels. Sua longa carta sobre agrupamentos sociais na época da grande revolução do século 18, bem como sobre a aplicação dos métodos materialistas dos eventos históricos, é um dos mais magníficos documentos da mente humana. É bem conciso e cada uma de suas formulas pressupõe um grande conhecimento para conseguir colocá-lo em circulação para a leitura do público em geral; porém, este documento, que foi deixado escondido por muito tempo, permanecerá para sempre, não somente como fonte de instrução teórica, mas também como gozo estético para qualquer um que pondere seriamente a dinâmica das relações de classe na época revolucionária, bem como os problemas gerais envolvidos na interpretação materialista dos eventos históricos”. (“Cartas de Engels para Kautsky”, Trotsky, 1935)

Em todos os trabalhos de Trotsky podemos perceber uma amplitude de visão e um interesse geral não somente em história, mas também em arte, literatura e cultura em geral. Antes da Primeira Grande Guerra Mundial, ele escreveu artigos sobre arte e escritores como Tolstoy e Gogol. Depois da Revolução de Outubro, escreveu extensivamente sobre arte e literatura. Seu livro Literatura e Revolução é um produto daquele período.

Única fotografia em cores de Leon Tolstói (por Prokudin-Gorskii)

Em 1923, Trotsky escreveu: “literatura, cujos métodos e processos têm suas raízes profundas em um passado distante e representam a experiência acumulada de um artesão verbal, que expressa seus pensamentos, sentimentos, humores, pontos de vista e esperanças em uma nova época e em uma nova classe”. (Trotsky, As raízes sociais e a função social da literatura). No meio do período turbulento da revolução e da contrarrevolução nos anos de 1930, ele encontrou tempo para escrever sobre literatura e arte. Em 1934, pouco depois da catástrofe alemã, fez uma resenha sobre o romance Fontamara, de Ignazio Silone. Em 1938, escreveu o Manifesto para uma arte revolucionária independente com o escritor surrealista Andre Breton.

Podemos apenas imaginar a indignação do filisteu pseudomarxista: “O que é isso? O camarada Trotsky está perdendo tempo neste momento revolucionário na história escrevendo sobre arte? O que a arte tem a ver com o proletariado e a luta de classes?” O filisteu sacode a sua cabeça tristemente e conclui que o camarada Trotsky não é mais o homem que ele era antes. “Este não é o Trotsky d’ O Programa de Transição! O velho deve estar perdendo as suas faculdades mentais!” Sim, podemos perceber isso!

Em um momento em que a Europa estava convulsionada pela revolução e contrarrevolução, quando os seus apoiadores foram sendo assassinados e a Quarta Internacional estava lutando pela sua sobrevivência, por que Trotsky encontrou tempo para se devotar a tais questões como a arte e a literatura? Quando respondermos esta questão, estaremos prontos para perceber a diferença entre o genuíno marxismo, a genuína revolução operária e a caricatura superficial que se passa por marxismo em alguns círculos.

“Meros teóricos”

Durante a luta de facções que levou à divisão na militância, a facção Maioria disse que Ted Grant e Alan Woods eram “meros teóricos”. Esta frase pinçada diz tudo o que deve ser dito sobre aquela tendência. Por décadas devotamos nossas vidas para construir a tendência que se tornaria o movimento trotskista mais bem sucedido desde a Oposição da Esquerda Russa. Começando com um pequeno grupo no início dos anos de 1960, logramos sucesso em construir uma grande organização com raízes sólidas no Movimento Trabalhista.

Ted Grant

Todo esse sucesso foi resultado de anos de um trabalho paciente. Em última análise, eles foram o resultado de ideias, métodos e perspectivas corretas trabalhadas por Ted Grant, o grande pensador marxista. Ted estava muito à frente de seus contemporâneos. Ele estava profundamente baseado na teoria marxista e conhecia os trabalhos de Marx, Engels, Lenin e Trotsky como a palma de sua mão.

Quando Ted Grant e eu fomos expulsos da militância, nós nos achamos em uma posição difícil. A Maioria tinha um enorme aparato, muito dinheiro e uma equipe de 200 pessoas em tempo integral. Não tínhamos nem uma máquina de escrever. Mesmo assim, eu e Ted não nos preocupamos com as pequenas coisas. Tínhamos as ideias marxistas e isso era tudo o que importava. Toda a minha experiência me convenceu de que se você tem as ideias certas, sempre pode construir um aparato. Porém, o contrário não é verdade. Você pode ter o maior aparato do mundo, mas se estiver trabalhando com base em teorias e métodos errados, você falhará.

Consideramos a nossa posição e chegamos à conclusão de que na situação à época, especialmente após o colapso da União Soviética, nossa tarefa mais preeminente seria defender as ideias e teorias básicas do marxismo. O primeiro resultado foi o livro Razão e Revolução: Filosofia Marxista e Ciência Moderna. Nossos antigos camaradas deram muitas risadas sobre o livro. O comentário sarcástico foi: “Vejam só! Ted e Alan abandonaram a política para escrever livros sobre filosofia!” Foi esta a atitude para com a teoria marxista – uma atitude na verdadeira tradição de Weitling e dos membros do comitê bolchevique, porém não de acordo com Marx, Engels, Lenin e Trotsky.

Cedo ou tarde, erros teóricos se transformam em desastres da prática. A Maioria pagou pelos seus erros. O que era formalmente uma tendência poderosa com profundas raízes no movimento trabalhista reduziu-se a uma sombra do foi. Por outro lado, Razão e Revolução, foi uma importante peça na formação da Esquerda Marxista. Foi traduzido para diversos idiomas e comentado por muitos trabalhadores, socialistas, comunistas, líderes sindicais, bolivarianos – incluindo Hugo Chavez.

Como explicar isso? Trabalhadores e jovens mais esclarecidos possuem uma certa sede para ideias e teorias. Eles querem compreender o que está acontecendo na sociedade. Não são atraídos por tendências que meramente diga o que eles já sabem: que o capitalismo está em crise, que existe desemprego, que eles vivem em casas ruins, ganham salários ridículos e por aí vai. Pessoas sérias querem saber porque as coisas são como elas são, o que aconteceu na Rússia, o que é o marxismo, e outras questões de ordem teórica. É por isso que a teoria não é uma opção extra como os “práticos” imaginam, mas uma ferramenta essencial para a luta revolucionária.

Os trabalhadores e a cultura

Seria uma calúnia dizer que os trabalhadores não se interessam por assuntos como cultura, história, filosofia, etc. Na minha experiência ao longo dos anos, encontrei muitos trabalhadores que entendem mais desses assuntos que muitos dos chamados extratos médios cultos. Lembro-me que muitos anos atrás, eu encontrei um metalúrgico que tinha aprendido português por conta própria para ler os trabalhos de um poeta brasileiro do qual eu nunca havia ouvido falar.

Leon Trotsky

Essa ideia de que os trabalhadores não estão interessados em cultura vem invariavelmente de intelectuais pequeno burgueses que não têm conhecimento algum da classe trabalhadora e que confundem os trabalhadores com o proletariado alienado. Por esta razão, eles demonstram desprezo pela classe trabalhadora e um esnobismo próprio de classe média em relação aos trabalhadores. Este tipo de pessoa tenta se passar por trabalhador vestindo-se como trabalhador e tentando imitar o linguajar dos trabalhadores. Usam palavrões para tentar melhorar suas credenciais.

Tenho presenciado vários casos de supostos marxistas educados que acham inteligente imitar a linguagem e hábitos do proletariado imaginando que isso os tornará mais credenciados como “trabalhadores reais”. De fato, trabalhadores não utilizam esse tipo de linguagem em suas casas ou na frente de pessoas mais educadas. Imitar a conduta do mais baixo e mais degradado estrato dos trabalhadores e dos jovens não é digno de um marxista e muito menos de alguém que inspire ser líder. Em seu maravilhoso artigo A Luta Por uma Articulação pela Cultura, Trotsky descreveu tal linguagem como a marca de uma mentalidade de escravos, que revolucionários não deveriam imitar, mas lutar para eliminar.

Nesse artigo, escrito em 1923, Trotsky elogia os trabalhadores do setor de calçados na Comuna de Paris por terem aprovado uma resolução para evitar palavrões e para impor multas à linguagem inapropriada. O líder da Revolução de Outubro não considerou isso com um detalhe insignificante, mas como uma importante manifestação da luta da classe trabalhadora para se livrar da mentalidade de escravos e aspirar a um nível mais alto de cultura. “Linguagem inapropriada e palavrões são um legado de escravidão, humilhação e desrespeito à dignidade humana – à sua própria e a de outras pessoas.” Foi isso que o líder da Revolução de Outubro escreveu.

Existem muitos diferentes níveis na classe trabalhadora que refletem diferentes condições e experiências. As camadas mais avançadas do proletariado estão ativas em sindicatos e partidos dos trabalhadores. Elas aspiram a uma vida melhor. Têm um vivo interesse em ideias e teorias e lutam para se educar. Estas lutas são a garantia de um futuro socialista, quando homens e mulheres quebrarão não somente as amarras físicas que as prendem, mas as amarras psicológicas, que as mantêm escravizadas a um passado bárbaro.

Trotsky realçou a importância da luta por uma articulação pela cultura: “a luta por educação e cultura providenciará aos elementos mais avançados da classe trabalhadora todos os recursos do idioma russo em sua extrema riqueza, sutileza e refinamento.”

Ele explica que a revolução está “em primeiramente um despertar da personalidade humana nas massas — que supostamente não poderiam ter personalidade”. É “antes e acima de tudo, o despertar da humanidade, que está em marcha e está marcada por um crescente respeito pela dignidade pessoal de cada indivíduo e uma preocupação crescente com todos os fracos”. (ibid.)

A transformação socialista significa não somente a conquista do poder: este é apenas o primeiro passo. A revolução real – o salto da humanidade do reino da necessidade para o reino da liberdade – ainda tem de ser atingido. Engels apontou que em qualquer sociedade onde a arte, ciência e governo são o monopólio de uma minoria, esta minoria usará e abusará para manter a sociedade em servidão.

Fazer concessões ao baixo nível de consciência das camadas mais atrasadas e analfabetas da classe trabalhadora não ajuda a elevar o seu nível de consciência aos níveis exigidos pela sua tarefa histórica. Ao contrário, ajuda a diminuí-lo, e sempre ocorrerão consequências retrógadas e reacionárias. Pode-se resumir a discussão da seguinte maneira: é o progresso e a revolução que servirão para elevar o nível de consciência do proletariado. Ou seja, o reacionário serve para diminuí-la.

Os marxistas devem ser a primeira linha da classe trabalhadora que luta para modificar a sociedade. Nossa tarefa é educar e treinar os quadros da futura revolução socialista. Para executar essa tarefa, devemos insistir no que é positivo, progressista e revolucionário e, decididamente, rejeitar tudo o que é retrógado, ignorante e primitivo. Temos nossa tarefa fixada em um horizonte bastante alto. Devemos elevar a visão da classe trabalhadora, para começar com os mais avançados elementos, ao horizonte sobre o qual Trotsky falou em Literatura e Revolução:

“É difícil predizer a extensão do autogoverno que o homem do futuro pode alcançar ou aos níveis que ele pode levar a sua técnica. A construção social e a autoeducação psicossocial se tornarão dois aspectos do mesmo processo. Todas as artes – literatura, drama, pintura, música e arquitetura darão a este processo uma bela forma. Mais corretamente, a concha onde a construção cultural e a autoeducação do homem comunista será fechada desenvolverá todos os elementos vitais da arte contemporânea ao ponto mais alto. O homem se tornará incomparavelmente mais forte, sábio e sútil; seu corpo se tornará mais harmonizado e, seus movimentos mais ritmados, sua voz mais musical. As formas de vida se elevarão aos níveis de um Aristóteles, um Goethe ou um Marx. E acima desse cume, novos picos se elevarão.

Artigo originalmente publicado em 15 de outubro de 2009 no site da seção britânica da Corrente Marxista Internacional (CMI), sob o título “In defense of theory – or Ignorance never yet helped anybody”.

Tradução de Ivison Poleto.

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