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Cunha preso: fim da impunidade ou bode expiatório?

Na esquerda, há quem comemore a prisão preventiva de Cunha decretada pelo juiz Sergio Moro. Claro que dá gosto ver se dar mal um crápula político como Cunha, porém como disse o filósofo holandês Espinoza “Nem rir, nem chorar, mas compreender!”.

A Operação Lava-Jato, por seu alcance e envergadura, pode ter muitos propósitos, mas nenhum deles é “acabar com a impunidade e a corrupção”, pelo contrário. Seu propósito central é manter o sistema capitalista, seu Estado e suas instituições; logo manter também a corrupção, que é inerente e intrínseca ao capitalismo.

O Poder Judiciário brasileiro está muito afinado com a burguesia imperialista internacional. Buscam salvar o Estado burguês brasileiro e suas instituições contra a revolta popular. Este alarme soou para eles com as Jornadas de Junho de 2013. Logo após, no início de 2014, deflagram a Operação Lava Jato. Seus principais objetivos políticos são:

  1. Promover uma renovação de representantes políticos da burguesia (compreenderam a necessidade disso para buscar salvar as instituições). E há referências históricas disso em outros países; a mais notável foi a “Operação Mãos Limpas” que promoveu uma renovação desse tipo na Itália nos anos 1990, levando a uma remodelação de todos os grandes partidos italianos.
  2. Criminalizar e desmoralizar o PT (a renovação já incluiria o PT, ainda mais quando este mostrou não ser mais útil como mantenedor da “paz social”, após junho de 2013) e com isso criminalizar todos os movimentos sociais e organizações da classe trabalhadora e da juventude (aqui é preciso dizer que isso vinha sendo operado com o apoio do próprio governo Dilma – por exemplo, Lei Antiterrorismo).
  3. Facilitar a concentração de capital para as grandes multinacionais do petróleo e da construção (por isso o cerco às empreiteiras nacionais privadas como Odebrecht, OAS, etc. e à petroleira estatal Petrobras).

Cunha articulou o impeachment de Dilma para tentar safar ele e seus comparsas desta faxina imposta pelo imperialismo e seus sócios menores burgueses através do Judiciário brasileiro. Isso está nítido nos grampos divulgados com conversas entre Romero Jucá e Sergio Machado. E os que de fato mandam no jogo, muito mais espertos que Cunha, deixaram que ele trabalhasse enquanto lhes era conveniente. Ele acabou ajudando em um dos objetivos da operação: desmoralizar o PT. Mas agora, chegou a sua vez. Resta saber se ele ainda terá cartas na manga para tentar ser varrido somente para debaixo do tapete. O mais provável é que façam de Cunha um bode expiatório para que a limpeza não vá “longe demais”. Certamente, Serras, Aécios, Alckmins, Calheiros, Temers e outros estão trabalhando para isso. Nenhum deles gostaria de uma delação premiada de Cunha. Mas ainda assim, Cunha pode negociar e delatar quem lhe for conveniente, poupando outros aliados. A mesma Lava-Jato pode ainda buscar condenar Lula, mesmo sem provas. Será uma decisão política e não uma consequência jurídica, assim como foi o impeachment de Dilma.

Romero Jucá e Sérgio Machado falavam claramente em uma das conversas grampeadas: “ELES querem pegar todos os políticos (…) Acabar com a classe política para ressurgir, construir uma nova casta, pura, que não tem a ver com…”.

“ELES” são os seus amos imperialistas, que decidiram renovar seus representantes brasileiros, antes que o povo em revolta o faça. E os seus ex-representantes estão tentando se defender. O impeachment de Dilma foi um meio para chegar a um pacto que consideram necessário com o Supremo, para estancar a Lava-Jato. Mas não combinaram com os imperialistas. E os imperialistas estão medindo a temperatura para ver até onde devem levar a cabo sua faxina. Pretendem refundar a república sobre bases burguesas ainda mais submissas ao capital financeiro internacional – a PEC 241 que propõe congelar por 20 anos o orçamento nacional para engordar o pagamento de juros da dívida é uma amostra disso.

No meio desta guerra entre máfias brasileiras e setores do imperialismo e da burguesia nacional, nós devemos ganhar tempo para construir as forças do proletariado e varrer todos eles através de uma Assembleia Popular Nacional Constituinte, que decrete a falência do Estado Burguês. Construir isto é o único caminho. Não é pra já, sabemos. Pode levar tempo. Mas as massas estão fazendo suas experiências. Demonstraram um claro rechaço ao sistema político burguês com o aumento de votos nulos, brancos e abstenções nas duas últimas eleições. Aprenderão a superar suas direções que só falam em Greve Geral da boca pra fora, e na prática desorganizam e rifam o movimento. Uma nova geração de trabalhadores, que hoje são estudantes ocupando escolas, virá. É provável que ainda haverá eleições burguesas no meio do caminho que não deverão ser ignoradas. Participaremos delas também, mas sempre levantando alto as consignas revolucionárias. E só assim asseguraremos que todos os Cunhas não sejam varridos para debaixo do tapete, mas para a lata de lixo da história, que é o lugar deles!

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