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Cuba: As encruzilhadas da Revolução – da praia Girón ao Congresso do Partido Comunista

Amanhã, 16/04/2011, terá início em Havana o 6º Congresso do Partido Comunista Cubano, que está chamado a debater as propostas de abertura da economia da ilha. Há setores que resistem e um forte descontentamento na base. O resultado é imprevisível.

No dia 16 de abril de 1961, cerca de 1.200 homens, bem armados, pisaram em solo cubano. Desembarcaram na praia Girón, na Baia dos Porcos, protegidos por um intenso bombardeio aéreo. Eram ex-soldados, partidários da ditadura de Fulgêncio Batista, ou jovens da pequena-burguesia cubana, que depositavam sua fé no capitalismo. Eram mercenários, treinados para tomar a região, instalar um governo provisório e reclamar a intervenção da “comunidade internacional”.

Como ficou conhecida, a invasão da Baia dos Porcos deixava rastros que a levavam aos escritórios da CIA, a agência de inteligência dos EUA. Que outra nação teria maior interesse em derrotar o processo revolucionário iniciado em Cuba em 1959?

A reforma agrária na ilha havia atingido latifúndios controlados por empresas americanas. Em reação, o governo dos EUA suspendeu a compra da produção de açúcar e o envio de petróleo para Cuba, com o objetivo de desestabilizar o novo regime liderado por Fidel Castro. Mas cada ação imperialista era um estímulo a mais para a ilha dar seus passos rumo ao socialismo. Fidel Castro foi obrigado a estreitar seus laços com a URSS e nacionalizar todas as empresas estadunidenses em território cubano.

Agora, o governo dos EUA apostava em uma intervenção militar. A invasão da praia Girón colocou o povo cubano em uma encruzilhada. No dia dos ataques, a voz clara e estridente de Fidel Castro ecoou nas rádios por todo o país, defendendo, pela primeira vez, o caráter socialista da Revolução Cubana. O caminho estava apontado. Para avançar a marcha, Fidel apelou às energias revolucionárias da classe trabalhadora em Cuba e foi atendido.

Enquanto as tropas regulares se dirigiam à região para combater os invasores, seus caminhões eram parados por populares, que pediam armas para defender a pátria do perigo. As milícias revolucionárias foram as primeiras a entrar em choque com os mercenários, que se renderam no dia 19 de abril. A ameaça mortal que representavam foi convertida em benefício da revolução. Em 1962, esses invasores seriam negociados com o governo estadunidense em troca de 53 milhões de dólares em alimentos, remédios e tratores para o povo cubano.

Passados 50 anos do episódio da praia Girón, Cuba continua resistindo heroicamente às novas ameaças do imperialismo. O bloqueio econômico imposto pelos EUA potencializou os efeitos da atual crise capitalista sobre Cuba. A impossibilidade do socialismo se desenvolver em um só país tem na ilha caribenha um exemplo dramático. A queda do preço do níquel (principal produto mineral de exportação) e a recessão que afeta a indústria do turismo e as remessas do exterior, combinadas com o aumento dos preços do petróleo e dos alimentos (80% importados), ampliaram a dívida externa do país. Por causa do bloqueio, o governo não pode obter empréstimos estrangeiros para aliviar seus déficits comerciais.

Com essa situação, no final do ano passado, uma série de medidas foram anunciadas, como a demissão de 500 mil trabalhadores do setor estatal, a retirada de produtos da cesta básica e a abertura da economia a pequenas empresas de capital privado.

Algumas dessas medidas até podem ser necessárias em uma sociedade de transição para o socialismo. Mas a extensão e o contexto histórico em que são aplicadas fazem toda a diferença. Pressões da burocracia estatal por mudanças na economia segundo o modelo chinês; a corrupção; a queda do poder aquisitivo dos trabalhadores cubanos e o não-atendimento de suas necessidades básicas; a dependência das famílias cubanas das remessas de dólares do exterior e dos negócios legais e ilegais com turistas, podem ser responsáveis pela disseminação de um sentimento generalizado de mal-estar e de desmoralização, minando o entusiasmo revolucionário de uma população já calejada na luta contra o capital.

Assim, Cuba se encontra novamente em uma encruzilhada. O caminho a percorrer é a tarefa dos delegados do 6ª Congresso do Partido Comunista Cubano, marcado para os dias 16 a 19 de abril. As medidas tomadas podem dar um alívio temporário à dureza da caminhada. Mas também podem pôr a perder as conquistas da Revolução.

O futuro do socialismo na ilha depende, evidentemente, do desenvolvimento da revolução mundial. Os acontecimentos recentes nos países árabes e na América Latina, em especial, na Venezuela, servem de alento e de esperança. Mas Cuba tem um outro recurso que não pode ser desperdiçado: a energia do seu povo.

A revolução deve avançar, tirando a produção dos controles mesquinhos da burocracia, e colocando-a nas mãos criativas de uma autêntica democracia operária. Que os acontecimentos da praia Girón sirvam de inspiração.

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