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Crônica do RJ: Vai ter Copa para quem?

Chegou o dia que pareceu que nunca chegaria. A primeira Copa no Brasil que muitos de nós vamos presenciar e o clima aqui no Rio é estranho.

Chegou o dia que pareceu que nunca chegaria. A primeira Copa no Brasil que muitos de nós vamos presenciar e o clima aqui no Rio é estranho. Fui acumulando algumas percepções no dia a dia e virou esse texto. Se alguém me perguntasse há anos atrás como eu imaginava que seria o dia de hoje, nem nas minhas previsões mais pessimistas eu descreveria tamanha indiferença. 

É claro que tem os que se jogam de cabeça e comemoram de corpo e alma, mas esses são poucos. O sentimento da maioria eu definiria como, no mínimo, de constrangimento. A gente passa ao lado do Maracanã e fica até sem graça, finge que não vê, como se estivesse passando na frente da casa do melhor amigo que fez uma super reforma pra dar uma festança e esqueceu de nos convidar. 

Pra gente o que sobrou? Proibições, sanções, uma cidade cercada de helicópteros e sirenes ligadas, exigências e mais exigências da dona Fifa. Mais fácil listarem o que pode fazer no Rio, porque a lista do que não pode eu já me perdi. 

Foram tempos difíceis que passamos por causa desses 30 dias de futebol. Mas o legado dessa Copa não serão as obras de maquiagem, os milhões gastos em concreto inútil para atender às exigências da Fifa. O legado dessa Copa ninguém pode nos tirar. Mesmo com tanques do exército nas nossas ruas, mesmo com tantos tiros de balas de borracha e balas de verdade que tomamos e com o gás de pimenta em nossos pulmões nós não nos calamos. De norte a sul nós resistimos e não ficamos indiferentes. Lutamos mesmo sabendo que não havia nada a nosso favor. Garis, professores, motoristas, vigilantes, médicos, metroviários, estudantes… fomos pra rua, avançamos a passos largos do ano passado pra cá, escolhemos não assistir pela TV. 

No meu peito hoje batem sentimentos opostos. Ao mesmo tempo que sinto um gosto amargo de lembrar a custo de quê essa Copa foi construída, bate um sentimento de orgulho de saber que não nos rendemos às marretadas. E agora que tem jornalista da CNN se ferindo com as bombas da PM em São Paulo o mundo pode ver uma amostra do que estava rolando por aqui. 

Vai ter Copa sim, mas não a Copa que sonhamos. Vai ter Copa sim, mas vamos assistir pela TV como a todas as outras. “Não nos convidaram pra essa festa, vamos ficar na porta estacionando os carros. Pagando sem ver toda essa droga.” Mas a verdade é que a maioria dos brasileiros vai torcer pela seleção brasileira. Apesar de tudo não vão abafar nosso grito de gol, porque mesmo se o Hexa não vier, o Brasil já mostrou a sua cara.

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