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Crônica de um cozido revolucionário

Uma crônica sobre as cozinheiras em movimento de Joinville.

No dia 16 de junho o Sindicato dos Servidores Públicos Municipais de Joinville e Região (Sinsej) realizou uma reunião de servidoras cozinheiras do município de Joinville. O encontro durou cerca de quatro horas. Flávia Antunes, Neiva Meneghel, Antônio Mafra e Tiago de Carvalho, discutiram com as mais de 50 cozinheiras presentes os caminhos que precisam ser traçados para que essas mulheres tenham condições reais de realizarem o árduo trabalho diário de preparar o alimento de milhares de crianças e jovens. As tarefas são muitas, mas a cozinha está revolucionada, a partir desta noite de organização a história será outra. Abaixo uma pequena crônica do momento vivido na noite histórica das nossas cozinheiras.

“Toda cozinheira deve aprender a governar o Estado!”

Lenin

Elas foram chegando, a noite estava fria, as pernas cansadas, mas todas estavam lindas, como toda a mulher trabalhadora que se prepara para a luta. No horário marcado estavam todas a postos, com os olhos ávidos de expectativas e a mente altamente organizada em torno de seus direitos.

Cada uma das mais de 50 mulheres presentes nesse encontro sabia exatamente que o que as movia era a inconfundível sensação de estarem sendo injustiçadas. A injustiça para além de seus efeitos aparentes mais devastadores como a institucionalização da salvaguarda de privilégios e imunidades à classe dominante, desperta um dos mais transformadores sentimentos no ser humano, a revolta.

Ah, a Revolta … quantos frutos promissores podem advir desse sentimento quando de forma organizada é canalizado para a solução dos problemas do conjunto da classe?

As reivindicações de mudanças que mobilizam essas trabalhadoras são profundas e mostram muito mais que o seu universo mais imediato pode apresentar, mas ilustram escancaradamente a maneira desigual como a nossa sociedade está constituída, onde a grande maioria é submetida aos interesses de dominação de uma minoria.

O cenário de onde falamos é altamente representativo de como essa sociedade foi concebida. Falamos de dentro de uma cozinha, onde historicamente concentram-se os “serviçais”, os empregados “domésticos”, àqueles a quem se pode oprimir por sua condição.

Elas contaram sua opressão, revelaram as humilhações sofridas, a falta de condições mínimas de trabalho e a disposição de mudar essa situação. O fato de estarem coletivamente compartilhando seu duro cotidiano de trabalhadoras conduziu à reflexão de que fazem parte de uma classe, e que o salto de consciência de cada setor depende do avanço do entendimento de que a discussão política é tão importante quanto a econômica.

Deixar de ser classe em si e constituir-se em classe para si significa compreender que os interesses da classe dominante e os dos trabalhadores são inconciliáveis e que só a disposição para a organização pode por fim à exploração e opressão.

Pois bem, há um “basta” cozinhando dentro dessas panelas. Devido à sobrecarga de trabalho, tem-se produzido muito mais gente doente do que alimento. O que se prepara nesses espaços são trabalhadoras ainda jovens prontas para o descarte. O que se oferece nessas cozinhas, dialeticamente, são altas doses de dor, indignação e saltos de consciência.

Cozinhas são e sempre serão laboratórios espetaculares, inclusive para as revoluções mais pontuais. A revolta que se instalou entre essas trabalhadoras e que se expressa na luta por um local salubre para a execução de suas tarefas, na redução de carga horária, no direito a férias e licenças, no direito à saúde pública de qualidade e no respeito às atribuições da função, são, objetivamente, em última instância, fruto da degeneração da democracia que anula a apregoada igualdade.

A opressão que sofrem essas trabalhadoras não se limita a uma questão de gênero, mas efetivamente essa é uma forma do capitalismo reforçar suas formas de dominação. Nesse sentido, a luta pela emancipação da mulher é condição sine qua non para a emancipação de toda a classe trabalhadora e para a construção de um modelo de sociedade onde não haja a exploração do homem pelo homem.

O processo de mobilização e organização da luta que se estabelece com esse conjunto de trabalhadoras e com tantos outros mundo afora, nesse momento, é parte da empreitada que nós marxistas temos. Construir pontes entre as reivindicações cotidianas desses grupos e a compreensão de que só a conquista do poder pelo proletariado pode garantir a emancipação da classe é nossa meta.

Viva a luta da classe trabalhadora!

Viva a organização das cozinheiras de Joinville!

* Flávia Antunes é militante da Esquerda Marxista, historiadora, dirigente do Sinsej.

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