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Crise econômica, privatização da saúde e discriminação

Nos últimos 2 anos, foram registrados mais de 1.700.000 pessoas que saíram dos planos privados de saúde. Essas pessoas estão sendo obrigadas a recorrer ao sistema público de saúde a partir de agora.

Esse é um reflexo da crise do capitalismo, onde a classe trabalhadora é obrigada a pagar pela crise, seja se matando de trabalhar para pagar as abusivas mensalidades ou morrendo por falta de atendimento nas filas dos hospitais. Enquanto isso, os donos das empresas de saúde seguem cada dia mais ricos, seja com os planos de saúde ou as OS’s (Organizações Sociais) que administram a rede pública. Ao trabalhador só resta abrir mão de serviços tão vitais como é o de saúde (e educação), como um esforço para “superar o momento de crise”.

Esse aumento de pessoas na rede pública faz com que o sistema fique ainda mais inchado e precário do que já era. E quem irá pagar essa conta é a classe trabalhadora, sobretudo a negra e das periferias, que nunca dispôs de um plano de saúde e que passou por todo tipo de humilhação para ser atendido em uma fila de hospital.

Para a burguesia era melhor que a rede pública fosse precária e sucateada, pois dessa forma obrigava que os trabalhadores que dispunham de um emprego melhor fizessem esse esforço para garantir a saúde de sua família. Porém, os tempos são outros e a crise obrigou que cada vez mais pessoas recorram aos sérvios públicos, já que o desemprego cresce a galopadas (mais de 12 milhões de pessoas) e o salário cada dia vale menos.

Nos EUA o presidente Obama resolveu esse problema criando uma lei que obriga todas as pessoas (cidadãos americanos ou estrangeiros) a terem um plano de saúde privado, uma vez que lá a burguesia tem condições de não oferecer serviços públicos de saúde. O país das “liberdade individuais” obrigada toda pessoa em solo americano a pagar uma mensalidade abusiva para um empresa privada de saúde. Dessa forma, evita-se que as pessoas morram por falta de atendimento, porém, em muitos casos você sai do hospital com uma dívida impagável pelo resto da sua vida. Podemos imaginar que são as populações mais prejudicadas com esse “programa social”: negros e latinos.

Depois dessa lei, os planos de saúde aumentaram os preços das mensalidades em pelos menos 30%, alguns em 100%. E em muitos casos que não era lucrativo fazer o plano do cliente para as empresas, essas últimas cancelavam os convênios.

No Brasil, dispomos de um sistema de serviço público (SUS), contudo o serviço é tão precarizado que só recorre a ele quem realmente não tem outra opção. A maior parte da população negra do país utiliza o serviço e vive uma das facetas mais cruéis do capitalismo. Não precisa citar aqui todas as dificuldades vividas nessa área, mas é preciso dizer que os hospitais estão nas mãos de empresas (OS’s) que saqueiam o dinheiro público. Enquanto isso, a população pobre e preta morre nas filas dos hospitais sem atendimentos, muitos preferem morrer em casa, pois já sabem que entrar no hospital é certeza de não ser atendido e ainda passar por humilhações. Todo trabalhador pode narrar dezenas de casos desumanos dentro da saúde pública.

Quando falamos que a nossa primeira luta é por sobrevivência não é um exagero! É preciso sobreviver às balas perdidas, à falta de remédios e leitos, à falta de transporte público, à luta pra colocar comida na mesa, à luta pra não cair no vício das drogas, à luta contra a violência (seja a do Estado seja a da barbárie que o capitalismo nos coloca).

O povo negro exige acesso a saúde, educação, emprego e trabalho. Não aceitamos que um trabalhador morra de fome, de doença, por racismo, de bala perdida ou direcionada. Não aceitamos que as armas do capitalismo sigam tirando nossa vida. Merecemos viver, estudar, trabalhar e lutar por uma sociedade justa e igualitária.

  • Saúde, educação e transporte: público, gratuito e para todos!

* Felipe Araújo é professor de filosofia e militante do Movimento Negro Socialista (MNS).

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