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Construção pela base ou bolchevismo?

Como chegar às massas? Esta questão tem sido o centro do debate revolucionário desde o nascimento do movimento socialista. As revoluções são precedidas por períodos preparatórios de fermentação e debate, clarificação de ideias, perspectivas e tarefas, sacudindo a inércia de períodos anteriores de estabilidade e passividade. Nesses períodos, há um sentimento crescente de que a sociedade se encontra em um beco sem saída, enquanto, ao mesmo tempo, a história está se acelerando e grandes acontecimentos estão emergindo. Isso empurra camadas mais amplas da sociedade à atividade política e há uma sede de ideias que possam explicar a crise do sistema e a forma de transformá-lo.

Vemos hoje a proliferação de círculos de discussão socialista, grupos de leitura marxista, clubes socialistas universitários e grupos de trabalho de todos os tipos por todo o país. A popularização do socialismo nos últimos anos está transformando o panorama político. De forma mais notável, está ocorrendo um vigoroso debate dentro e em torno das forças crescentes e em expansão dos Socialistas Democráticos da América (DSA, na sigla em inglês) sobre questões de tática e estratégia: como deveríamos nos relacionar com a participação eleitoral? Em que tipo de atividades deveriam participar os socialistas? Como podemos construir um amplo movimento socialista? Como podemos chegar às massas?

A última pergunta – uma das mais urgentes e fundamentais – tem sido o centro do debate revolucionário desde o nascimento do movimento socialista.

Uma revolução socialista nos EUA somente pode ter êxito se a classe trabalhadora – uma vasta camada da população que alcança 250 milhões de pessoas ou mais, e que se espalha por uma extensão continental de mais de 3 mil quilômetros – for conquistada por um programa de transformação socialista da sociedade. Como podemos cobrir a imensa lacuna entre o tamanho de nossas forças hoje e as fileiras de muitos milhões da classe trabalhadora como um todo?

“Construção pela base” e “duplo poder”

Uma proposta de solução para se chegar “às massas” que ganhou popularidade recentemente é o conceito de “construção pela base”. Às vezes apresentada como uma estratégia revolucionária, outras vezes como uma forma de se “construir o poder da classe trabalhadora” de forma abstrata, a construção pela base se tornou um chavão no DSA e entre outros grupos da esquerda.

Já em 1851, Marx lutou contra as tentativas de desviar a luta de classes para “experimentos doutrinários, bancos de troca e associações de trabalhadores, e daí para um movimento em que se renuncia à revolução do velho mundo por meio de seus próprios, grandes e combinados recursos e se busca, em vez disso, encontrar a salvação para ele pelas costas da sociedade, de forma privada, dentro de suas condições limitadas de existência, e que por isso acaba necessariamente em naufrágio”.

Essa abordagem teve um ressurgimento nos anos recentes, visto que foram feitas tentativas para definir e codificar a construção pela base como metodologia para os grupos de ativistas. Em um artigo de 2017 no Philadelphia Partisan, uma publicação local de ativistas produzida pela Philly Socialists, Tim Horras dá uma descrição do que ele chama de “tarefas práticas” de construir pela base:

“… bater de porta em porta, conversar cara-a-cara, atender as necessidades imediatas das massas, combater os opressores locais junto com elas… Há milhões de táticas que podemos utilizar para entrelaçar o socialismo ao tecido da vida da classe trabalhadora, porque a vida da classe trabalhadora tem milhões de facetas. Podemos organizar ligas esportivas da classe trabalhadora, aulas de autodefesa, dar aulas particulares aos jovens, organizar festas de bairro, bailes de formatura, saraus de poesia, pintura de murais, montar cooperativas de trabalhadores, participar de pesquisas e de reportagens investigativas, organizar associações de inquilinos, redes de organização de ativistas, reuniões de bairro, convenções sindicais, proporcionar apoio legal aos membros da comunidade, lutar contra o roubo de salários e muito mais”

De forma crescente, o termo “duplo poder” vem sendo utilizado para se referir ao mesmo conceito, embora se diferencie da compreensão marxista clássica, que o vê como parte de uma situação pré-revolucionária na qual o cambaleante Estado capitalista ainda não foi derrubado pelo nascente Estado dos trabalhadores. Como explicou Sophia Burns, do Seattle Communists:

“O duplo poder é um tipo de instituição e uma estratégia para mudar o mundo. O duplo poder significa instituições novas e independentes para que as pessoas atendam suas próprias necessidades de uma forma que o capitalismo e o governo não podem ou não querem… Ao desenvolvê-lo, as pessoas criam um segundo tipo de poder social, econômico e mesmo político, separado do governo e do capitalismo. (É o que significa o “duplo”, em dualidade com o sistema atual)”

Em outro artigo, intitulado “Construção pela base: redes de ativistas ou organizar o desorganizado?”, Horras acrescenta:

“A tarefa dos radicais no momento deve ser se aprofundar na classe, ir ‘às massas’, construir relações de longo prazo com as camadas de pessoas oprimidas e da classe trabalhadora e nos organizarmos em nossos bairros e locais de trabalho. Esse é o trabalho duro e cansativo que os ativistas preferem evitar, mas que constitui o único caminho a seguir”

Embora essa concepção esteja ganhando espaço como algo novo, passando de pequenos grupos de ativistas com foco local às fileiras mais amplas do DSA e além, na verdade ela reflete uma tendência com uma longa história e proporciona muitas lições para os revolucionários de hoje.

“Ir ao povo”

“A prisão do propagandista”, de Ilya Repin (anos 1880).

Quase meio século antes da Revolução Russa de 1917, a luta revolucionária contra o czarismo foi travada pelos antepassados do movimento socialista russo – os narodniks. Primordialmente um movimento de jovens e da intelligentsia da classe média com uma mistura de ideias anarquistas e liberais, os narodniks eram no entanto lutadores desinteressados e comprometidos na incitação de um movimento de massas para derrubar o czar. Sua principal palavra de ordem era “Ir ao Povo!” e tinham por objetivo enraizar-se entre o campesinato pobre, que constituía a esmagadora maioria da população.

Os narodniks estavam divididos em duas alas – cada uma com suas próprias ideias sobre a melhor maneira de se chegar “às massas” – os “educadores” e os “insurrecionistas”. Assim como os “construtores de base” de hoje, os “educadores” se centravam em ganhar as pessoas com atos culturais e educativos de serviço comunitário e ativismo local. Buscavam a mudança através de “pequenas realizações”. Em tempos de fome, montavam refeitórios como parte das campanhas de auxílio, em outros momentos criavam comitês de alfabetização para ensinar a ler e escrever etc. No entanto, apesar do autosacrifício e dos esforços incansáveis para politizar suas atividades, nessa etapa os camponeses russos estavam principalmente interessados em adquirir suas próprias propriedades e se mostraram insensíveis às ideias revolucionários – muitas vezes chegando ao ponto de denunciar os liberais em seu meio às autoridades czaristas.

O impasse tático resultante levou a uma divisão em favor da ala terrorista. Embora ostensivamente pretendendo iniciar um movimento amplo através da “propaganda pelo ato”, ela refletia na realidade a impaciência pela “ação” e a falta de fé “nas massas”. Os narodniks tiveram êxito no assassinato de um grande número de funcionários czaristas, incluindo o próprio czar Alexandre II em 1881, mas cada um desses atos era recebido com uma onda de terror e repressão pelo Estado. No início dos anos 1880, todos os principais líderes da ala terrorista do narodinismo estavam presos e o movimento se fragmentou em pequenos grupos.

Em meados dos anos 1880, a crise do narodinismo tornou-se evidente e muitos ativistas começaram a repensar seus métodos e a buscar um caminho a seguir. Durante as duas décadas seguintes, o movimento revolucionário se viu mergulhado em um intenso debate sobre como proceder. Isso coincidiu com um período de greves e de renascimento da luta de classes. Foi nesse contexto que as ideias marxistas encontraram um campo fértil e começaram a se espalhar rapidamente.

Em “Bolchevismo: o caminho à revolução”, Alan Woods descreve a mudança posterior do enfoque estreito do ativismo para a combinação do ativismo com a educação política e o treinamento de militantes da classe trabalhadora:

“As tempestuosas batalhas dos anos 1880 proclamaram ao mundo que os batalhões pesados do proletariado russo estavam prontos e dispostos a lutar. Mas revelaram também a fraqueza, a natureza espontânea, desorganizada e inconsciente do movimento, sua falta de direção e de liderança. O exército estava ali. O que se necessitava era a preparação do futuro estado-maior. Agora, essa conclusão penetrou irresistivelmente na consciência dos melhores trabalhadores. E com o enfoque sério e único que caracteriza os trabalhadores ativistas de todo o mundo, se prepararam para aprender.”

Da construção pela base ao treinamento de quadros

Os revolucionários veteranos do narodinismo, buscando a ação imediata e a luta total contra o czarismo, não se adaptaram facilmente à necessidade de uma organização de quadros, que enfatizava o estudo e a discussão para o estabelecimento de um núcleo bem-educado e comprometido de marxistas dentro do movimento dos trabalhadores. Mas a esgotadora experiência do ativismo local e das “pequenas façanhas” – familiar atualmente a muitos ativistas que experimentam o cansaço pelo trabalho interminável de organizar reuniões, manifestações, piquetes, chamadas por telefone e outros esforços mais específicos – levou-os à conclusão de que um movimento revolucionário necessitaria de uma base ideológica mais séria.

Mesmo depois de o narodinismo ter desaparecido, a mentalidade de “ir ao povo” sobreviveu na ideia de que os socialistas não deveriam se ver como os “líderes” dos trabalhadores, mas só como “servidores” deles ajudando nos piquetes e nos confrontos com o Estado. Havia pressão para se concentrar exclusivamente nas questões econômicas do “pão e da manteiga”, em vez da discussão política ou das questões teóricas que seriam demasiado “difíceis” ou “abstratas” para os trabalhadores entenderem. Os marxistas lutaram contra essa tendência, conhecida como “economicismo”, e enfatizavam a importância do treinamento teórico para os militantes da classe trabalhadora e da necessidade de combinar as lutas econômicas e políticas.

Em 1900, Lenin escreveu a seguinte descrição do emergente movimento socialista:

“Os últimos anos foram marcados pela expansão espantosamente rápida das ideias socialdemocratas entre nossa intelligentsia… Círculos de estudos de trabalhadores e intelectuais socialdemocratas estão surgindo por todos os lados, panfletos de agitação locais estão sendo amplamente distribuídos, a demanda por literatura socialdemocrata está crescendo e está superando a oferta… O movimento está crescendo, está se espalhando para regiões cada vez mais amplas, está penetrando cada vez mais profundamente na classe trabalhadora e está atraindo a atenção pública em grau cada vez mais elevado.”

Esse foi o resultado de um período de estudos teóricos e de debates nos pequenos círculos – um adequado epitáfio para os experimentos de construção de bases dos anos precedentes. É claro que as batalhas políticas estavam longe de terminar, mas os alicerces para um novo tipo de movimento foram lançados. No ano seguinte, Lenin lançaria o Iskra e escreveria seu famoso “O que Fazer?” a fim de unir os círculos marxistas díspares em um programa comum e em um plano de ação.

Lenin e outros marxistas russos com a Liga de Combate pela Emancipação da Classe Trabalhadora, um grupo marxista de São Petersburgo que reunia 20 círculos de estudo.

“O que fazer” em 2018?

Somente 15 anos depois de Lenin expor sua concepção do tipo de organização necessária, os bolcheviques tiveram êxito em estabelecer raízes entre a classe trabalhadora e, no transcorrer de 1917, conquistaram-na para o programa da transformação socialista da sociedade. Como colocou Trotsky, “a intransponível distância que na época do czarismo separava os revolucionários clandestinos do governo se reduziu a nada”.

As décadas anteriores de trabalho paciente e meticuloso, de recrutamento de trabalhadores para grupos semanais de leitura e de produção e distribuição da imprensa revolucionária, de debates e clarificação de ideias desempenharam, de fato, o papel de uma academia revolucionária que preparou o estado-maior da Revolução de Outubro. De forma embrionária, uma estrutura muito maior de organização foi estabelecida – composta por marxistas altamente profissionais e treinados que lutaram ombro a ombro junto às lutas dos trabalhadores e que sabiam como transmitir o programa revolucionário a camadas cada vez mais amplas da população.

Não foram apenas as discussões políticas, mas também a disciplina revolucionária do trabalho clandestino que proporcionaram à rede marxista a agilidade e o dinamismo requeridos para crescer de 8 mil quadros, no início de 1917, para 250 mil membros em outubro.

Desnecessário dizer que o caminho para a revolução socialista americana não será idêntico ao dos bolcheviques, nem que seus métodos não podem ser replicados mecanicamente. Mas as etapas através das quais o movimento deve passar são notavelmente semelhantes. E embora o ritmo dos eventos também seja diferente, em termos práticos a tarefa dos socialistas revolucionários hoje permanece essencialmente a mesma: construir uma força política que possa conectar um programa revolucionário às camadas mais amplas da classe trabalhadora. É um objetivo ambicioso, mas, um século mais tarde, a história produziu novamente uma geração que está à altura da tarefa.

Artigo originalmente publicado em 9 de junho de 2018 no site Socialist Revolution, seção americana da Corrente Marxista Internacional (CMI), sob o título “Base-Building or Bolshevism?“.

Tradução de Fabiano Leite

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