Início / Artigos / Internacional / Considerações sobre as eleições internas do Partido Comunista Francês

Considerações sobre as eleições internas do Partido Comunista Francês

Entre os dias 2 e 5 de maio, os militantes do Partido Comunista Francês (PCF) votaram para escolher a “base comum” de discussão para seu Congresso Nacional, a ser realizado no início de junho em Aubervilliers. Cinco documentos estavam na concorrência: um adotado (por 80%) pelo Comitê Nacional do partido e quatro “textos alternativos”.

Entre os dias 2 e 5 de maio, os militantes do Partido Comunista Francês (PCF) votaram para escolher a “base comum” de discussão para seu Congresso Nacional, a ser realizado no início de junho em Aubervilliers. Cinco documentos estavam na concorrência: um adotado (por 80%) pelo Comitê Nacional do partido e quatro “textos alternativos”.

Primeira lição desta eleição: a participação no partido continua a cair. Os resultados detalhados indicam cerca de 53 mil militantes “registrados”, ou seja, com contribuições em dia, contra os 64,2 mil ao fim de 2012. São 11,2 mil a menos. Desde o congresso de 2008 (com 78,8 mil registrados), o partido perdeu quase 26 mil filiados.

As ideias contidas no documento apresentado pelo Comitê Nacional não estancarão esta hemorragia de militantes. O texto propõe reforçar a política equivocada da direção – particularmente, sua recusa a romper claramente com o Partido Socialista (PS). Como consequência, o documento do Comitê Nacional não recebeu mais que 51,2% dos votos. Este é o pior resultado registrado por uma Direção em fim de mandato desde que o Estatuto do PCF permitiu a apresentação de textos alternativos (55% no congresso de 2003, após uma desastrosa eleição presidencial para o partido).

Quando da eleição interna para o Congresso de 2013, na esteira do sucesso da Frente de Esquerda para as eleições presidenciais, o documento da Direção em fim de mandato havia obtido 73,2% dos votos. É esta mesma “maioria” que acaba de se dividir: cerca de um terço daqueles votos ficou, dessa vez, com o texto alternativo apresentado pelos quadros dirigentes intermediários, L’Ambition communiste pour um Front de Gauche populaire et citoyen (A ambição comunista por uma Frente de Esquerda popular e cidadã), que recebeu 23,7% dos votos. Este documento, muitas vezes confuso, contesta a estratégia das “primárias da Esquerda”, refuta o fim da Frente de Esquerda, pede uma ruptura com o Partido Socialista e deixa aberta a possibilidade de um apoio do PCF a Mélenchon[1] em 2017. Ele foi visto por muitos militantes como mais à esquerda que o texto do Comitê Nacional. É a principal razão de seu êxito.

O conjunto dos outros três documentos alternativos recua ligeiramente em comparação ao Congresso anterior, onde cada uma dessas três tendências já havia apresentado um texto. Eles não conseguiram cristalizar uma oposição crescente, nas fileiras do partido, às políticas da direção nacional. Isto se explica, principalmente, pelo apego de muitos militantes comunistas à experiência da Frente de Esquerda, para a qual os três documentos em questão viram as costas[2].

A falência das “primárias da esquerda”

Em nossa Contribution (http://www.marxiste.org/actualite-francaise/front-de-gauche/1993-le-congres-du-pcf-et-la-crise-du-front-de-gauche) ao Congresso do PCF, escrevemos que a proposta das “primárias da esquerda” poderia “ruir sob o peso de suas contradições internas”, ou seja, em razão das posições de uns e outros (“rebeldes” do PS, etc.). Parece já ser o caso, embora a direção do partido ainda não o diga abertamente. No Congresso Nacional do início de junho, a proposta das “primárias” poderia ser abandonada em favor de uma “nova” estratégia cujo objetivo, contudo, seria o mesmo: jogar a bola na esperança que uma candidatura surja, nos próximos meses, como alternativa “viável” (aos olhos de Pierre Laurent[3]) à de Mélenchon.

Ignorando a falência do PS e o enorme distanciamento deste da esquerda, os dirigentes do PCF repetem (sem justificativa) que a candidatura de Mélenchon não poderá fazer além do que fez em 2012. Esperam que os próximos meses assim o demonstrem. Enquanto isso, para fazer a militância aguardar e criar a ilusão de que tem iniciativa, a Direção do partido distribui 500 mil “questionários” para preenchimento pelo “povo”. O questionário indaga se o povo quer um bom salário, um emprego estável, serviços públicos de qualidade, a paz mundial – ou o contrário. Diversos militantes comunistas levam a sério esta iniciativa, e com razão.

Em nossa Contribution, analisamos as profundas causas da crise do PCF. E não começou ontem. Mas um novo limiar foi atingido desde que a Direção do partido voltou as costas à Frente de Esquerda – de fato, senão literalmente – para se comprometer no lamaçal das “primárias”. Se ela (a Direção do PCF) persistir pelo caminho do grande (e vago) “encontro” com tudo o que a esquerda possui de oportunistas e reformistas ultra-moderados, uma quantidade significativa de militantes comunistas se juntará à campanha de Mélenchon, em particular se ele conseguir cristalizar uma oposição maciça de esquerda em relação às políticas de austeridade. O PCF se encontraria, então, fora desse processo, tendendo a desaparecer do horizonte político.

Os sucessivos erros da direção do PCF empurraram o partido a um impasse do qual só poderá escapar dando uma guinada à esquerda – e, principalmente, rompendo claramente com o aparato do PS (incluindo os “rebeldes”). Com relação às eleições presidenciais de 2017, o PCF tem todo o interesse em lutar por uma candidatura unitária da Frente de Esquerda, sobre um programa de ruptura com as políticas de austeridade e o capitalismo em crise. Nesse contexto, a participação do PCF na campanha de Mélenchon, sobre a base de um programa debatido e aprimorado por todos os militantes envolvidos em tal campanha, contribuiria positivamente para o surgimento de uma alternativa de esquerda ao PS. O PCF não sairia enfraquecido, mas fortalecido.


[1] Atual líder da Frente de Esquerda e co-presidente do Partido de Esquerda, quarto colocado nas eleições presidenciais francesas de 2012.

[2] La Riposte perdeu metade de seus votos do Congresso anterior, enquanto que os demais textos alternativos tiveram um ligeiro aumento.

[3] Secretário Nacional do PCF.

Artigo publicado originalmente em 9 de maio de 2016, no site Révolution, da sessão da Corrente Marxista Internacional (CMI) na França, sob o título “Remarques sur le vote interne au PCF.

Tradução de Nathan Belcavello.

Deixe seu comentário

Leia também...

Argentina: Mobilização para combater os capitalistas e seu ajuste

O governo federal avança a toda velocidade tentando impor o ajuste disfarçado de reforma. Assim …