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Congresso Mundial da CMI: Sessão sobre a Espanha, PODEMOS, Esquerda Unida, Monarquia e República

No 5º dia do Congresso Mundial da CMI ocorreu uma sessão especial sobre a situação política na Espanha, o surgimento do PODEMOS (partido que conseguiu um resultado explosivo nas eleições europeias de maio desse ano), e as tarefas dos marxistas.

No 5º dia do Congresso Mundial da CMI (Corrente Marxista Internacional – marxist.com) que ocorreu em Atenas, na Grécia, de 28 de Julho a 03 de Agosto de 2014, houve uma sessão pela manhã sobre as questões de finanças, onde foi discutida a importância da independência financeira e como cada seção nacional tem conseguido arrecadar dinheiro de maneira independente para tornar possível seu trabalho e ainda aportar uma cota para a Internacional.

Em seguida, teve lugar uma sessão especial sobre a situação política na Espanha, que se estendeu até a noite. O camarada Jorge Martin introduziu a discussão começando por constatar que o resultado eleitoral do PODEMOS para o parlamento europeu é a primeira expressão política mais clara do processo molecular que envolve milhões de trabalhadores na Espanha desde que teve início a crise em 2008.

Uma abordagem rotineira (crise – ataques aos direitos – resistência – repressão – reorganização do movimento – etc.) nem sempre nos permite analisar a fundo o que acontece no subterrâneo.

Para ilustrar o acúmulo da ira na Espanha, o camarada Jorge nos relatou que alguns dias antes, em Granada – cidade ao sul da Espanha – na Andaluzia, onde o desemprego chegou a 35%, um operário da construção civil de 37 anos de idade, casado e com 2 filhos, se suicidou. Ocorre que ele devia mais de 100 mil euros na hipoteca de sua casa e sua perspectiva era de que não conseguiria evitar que o banco lhe tomasse a casa. Em todas as partes estão organizados movimentos dos atingidos pelas hipotecas que sofrem este tipo de pressão.

Em 2010, vimos pelo menos duas grandes greves gerais muito militantes. Em 2011 o Movimento dos Indignados, que ocupou a Praça do Sol em Madrid, aparece como o primeiro movimento político de contestação pós-crise, mas de certa forma “anti-político”, pois seu slogan era “Não nos representam” e tinha um caráter anti-partidário.

Em 2012, uma manifestação de dezenas de milhares, convocada pela internet, cercou o Congresso exigindo “A dissolução de todas as instituições de poder”. A avaliação é que os presentes em tal manifestação não acreditavam de fato que fosse possível atingir seus objetivos naquele momento. Mas numa pesquisa na semana seguinte, 70% da população nacional dizia estar de acordo com os objetivos da manifestação.

Na Andaluzia se desenvolveu um movimento praticamente espontâneo que reivindica “Pão, Emprego, Moradia” e que organizou uma Marcha à Madri que reuniu um milhão de participantes.. Movimentos similares têm pipocado por toda a Espanha.

Uma pesquisa mostrou que 25% da população da Espanha participou de alguma manifestação em 2013.

Nota-se um enorme abismo entre o que querem os trabalhadores e o que as direções das organizações operárias tradicionais defendem. Então surge o PODEMOS.

Um terremoto chamdo “PODEMOS”

Na preparação para as eleições europeias candidatos independentes ou ligados À Isquierda Unida se apresentam com uma linguagem anti-sistema e enfrentando publicamente tanto o PP, partido franquista ligado ao DEM brasileiro, como ao PSOE que governou décadas. A princípio parecia ser uma manobra de alguns oportunistas de esquerda para valorizar seu passe e conseguir um colocação melhor na chapa da IU (Izquierda Unida) para as eleições ao parlamento europeu. Entretanto, lançaram um Movimento eleitoral e muito rapidamente, em 48 horas, atingiram as 50 mil assinaturas necessárias para apresentar sua própria chapa (lista) para as eleições. Nunca se havia visto isso na Espanha, um país com enraizados e históricos partidos da classe operária, PSOE e IU (PCE).

Em seguida, o PODEMOS realizou uma espécie de “primárias abertas” que reuniu cerca de 30 mil pessoas por todo o país. Nas eleições para o Parlamento Europeu as pesquisas lhe davam a possibilidade de conquistar um deputado. Mas, no dia das eleições um furcão político se abateu sobre a Espanha e PODEMOS obteve surpreendentes 1 milhão e 200 mil votos, conseguindo 5 deputados para o Parlamento Europeu. A IU teve 1 milhão e 500 mil votos, conquistanto 6 mandatos.

Os programas de PODEMOS e IU são praticamente idênticos. Mas, além de aparecer como algo novo, os candidatos de PODEMOS apareciam como anti-sistema radicais, enquanto que o discurso de IU parece mais moderado. Por isso PODEMOS atraiu tantos votos.

Em Madrid PODEMOS ficou em 3º na frente de IU. Em Astúrias PODEMOS ficou em 2º, na frente de IU que ficou em 3º. Em algumas poucas cidades, onde a IU domina o parlamento local, PODEMOS ficou em primeiro e IU em segundo, com o PSOE em 3º.

Diante deste resultado a mídia burguesa começou uma campanha difamatória, alegando que se o PODEMOS vencer as eleições de 2015, se instalará o “caos econômico”. Mas isso não funciona muito, porque qualquer trabalhador espanhol responde: “Mas já estamos num caos econômico!”.

Nas intervenções que se seguiram com camaradas da Espanha, Itália, Brasil, Inglaterra, muito foi discutido sobre o caráter do PODEMOS, o humor da juventude e da classe trabalhadora, etc. Observou-se que o PODEMOS praticamente não tem conexões com o movimento sindical organizado, o que é uma importante fragilidade política.

Também se discutiu muito a questão da República. Assim que o rei Juan Carlos, que havia sidso nomeado por Franco, abdicou por causa da crise economica e política, centenas de milhares sairam às ruas gritando Abaixo a Monarquia, Viva a República.

Na Espanha a questão da República é essencial. O estado franquista só pode sobreviver nos anos 77 e 78 porque o PCE, de Santiago Carrillo, e o PSOE de Felipe Gonzales, suistentaram o regime abertamente empossando o rei Juan Carlos designado pelo general Franco. A monarquia é o pilar do estado burgues na Espanha. Por isso, no dia seguinte das grandes manifestações contra a monarquia, toda a mídia burguesa, o PP, o PSOE unidos em coro iniciaram uma campanha desesperada de defesa da monarquia dizendo que ela era a única garantia da democracia na Espanha e que a República era o caos e a guerra civil.  Isso mostra a podridão destes partidos e a incapacidade do imperialismo espanhol de sobreviver sem um regimew reacionário, sua incapacidade de estabelecer mesmo uma democracia burguesa digna deste nome. Só os marxistas, que lutam pelo socialismo são capazes de ir até o fim na luta pelo fim da Monarquia e pelo estabecimento da República. E como a revolução espanhola dos anos 30 já mostrou, esta é uma bandeira da revolução proletária na Espanha.

O fato é que a abdicação do rei imposto por Franco e as manifestações que se sucederam em todo país deixaram claro que os trabalhadores não aprovam a monarquia.

O questionamento das instituições burguesas é algo que vem ocorrendo em um país após o outro. Quando é levantada a questão da República na Espanha, não se trata mais apenas de uma crise econômica, mas uma crise do regime. Processos similares poderão se desenvolver em outros países europeus no próximo período.

Em 2015 haverá eleições municipais no primeiro semestre e gerais no segundo. Pesquisas mostram que pelo menos 1 terço dos votos da IU deve se transferir para o PODEMOS. As pesquisas dão 11% dos votos para o PODEMOS, 9% para a IU, 7% para o PSOE e 5% para o PP.

Existe um grande sentimento entre as massas trabalhadoras da necessidade de unidade entre IU e PODEMOS. Em Barcelona foi criada uma lista unitária, reunindo PODEMOS, IU e Movimentos Sociais.

Em Málaga, em uma lista similar, chegou-se ao acordo de que os vereadores possam ser substituídos a qualquer momento e que as decisões realmente importantes deveriam ser tomadas por assembléias populares e não pelos parlamentares. Isso demonstra como as massas começam a se colocar a questão do poder.

Não há como saber o que virá. Logo após o resultado das eleições ao parlamento europeu, corria um forte bochicho nas fábricas sobre o novo PODEMOS. Segundo pesquisas, em muitas grandes cidades PODEMOS já é o 1º ou o 2º partido em intenções de voto. O sentimento entre os trabalhadores é de que agora é possível ter um governo “verdadeiramente” de esquerda. Um clima muito favorável para a unidade.

Observamos um salto qualitativo bastante importante desde o o movimento “anti-partidário” dos Indignados em 2011 até a participação política em PODEMOS agora. Mas, não se deve alimentar nenhuma ilusão nos líderes do PODEMOS que carregam traços de oportunismo e centrismo reacionário. Eles não são marxistas e buscam negar a luta de classes. Falam contra o sistema mas não se dizem dispostos a abolir o capital, ao contrário.

Nos próximos meses veremos um rearranjamento do campo da esquerda na Espanha. Como reagimos nós diante disso? Em 10 de Maio houve uma Conferencia da Sessão Espanhola analisando a situação. E agora o Congresso Mundial aprofundou a discussão em especial ressaltando o fato de que PODEMOS mostra que as massas não estão neste momento buscando usar os aparatos tradicionais mas sim organizar-se fora deles em um novo eixo de independencia de classe, e que este é o nosso terreno privilegiado de construção, assim como da importancia crucial da consigna de luta por Abaixo a Monarquia, Viva a República.

Desde nosso trabalho no interior da IU e também com um trabalho aberto e independente devemos agitar pela frente única entre IU e PODEMOS com nossa plataforma política independente, marxista, que combina um programa de reivindicações imediatas com consignas de transição e palavras de ordem socialistas. É assim que nossos camaradas também tem participado das atividades do PODEMOS, vendido nosso jornal, etc.

O mais importante não é nos perdermos em especulações sobre um futuro impossível de prever em detalhe, mas buscar abrir diálogo com os milhares de jovens que despertaram para a luta política através do PODEMOS. Este furacão é o produto mais acabado da situação política internacional e da luta dos trabalhadores e da juventude para construir uma direção revolucionária capaz de conduzir a luta contra o capital e avançar para o socialismo. O fenomeno PODEMOS pode se desenvolver a qualquer hora em qualquer país. A tarefa dos marxistas é construiir sua organização e estar preparados para intervir nesse processo.

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