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Como a crise se desenvolve

As bolsas, o mercado financeiro, giram cada vez mais em falso…

O Dólar, o Real e o Ouro

Recentemente, o artigo de um economista elogiava o Presidente Lula por ter recomendado que todos consumissem durante a crise e que isso impediu a crise de chegar tão forte ao Brasil, e que essa atitude do presidente foi louvável, contrária a todas as outras atitudes.

Tal afirmação, na realidade, compartilha filosoficamente com a chamada teoria da moeda fiduciária*, na qual o valor da moeda seria dado pela confiança nela depositada, e não pela sua relação com outras mercadorias.

As duas afirmações são falsas, impedem que possamos ver como a crise se desenvolve e quais seus próximos desdobramentos. Nós iremos demonstrar isso brevemente.

O Valor da Moeda

A moeda era, inicialmente, um peso em ouro ou prata cunhada pelo rei ou senhor feudal. A “cunhagem”, ou seja, dar um formato e um selo a uma determinada quantidade (peso) de ouro ou prata ajudava no comércio, que não necessitava de balanças ou discussões sobre pesos para saber o valor de determinada moeda.

A “moeda” deixa de ser ouro ou prata, no decorrer da idade média e particularmente no século 19 quando os bancos passam a emitir “bilhetes” que garantiam ao portador o direito de resgatar em ouro (ou prata) um determinado valor mencionado no “bilhete”.

Esse “bilhete” vai dar origem às notas bancárias e, com a centralização das notas nos chamados “bancos centrais” vinculados ao tesouro nacional de cada país, dar ao dinheiro o valor tal como o conhecemos hoje.

No século 20 esse dinheiro vai passar por uma transformação – passamos a ter um “dinheiro” de crédito, ou seja, o que temos hoje, cada um de nós, é um cartão de plástico e uma promessa de que o valor que aparece lá na maquininha do banco poderá nos ser entregue caso o reclamemos na boca do caixa (caixa humano ou na maquininha). A questão é que isso levou a uma “descentralização” não contabilizada, ou seja, cada banco tem “números” no computador maiores que o dinheiro em papel disponível.

Em outras palavras, segundo a teoria do valor “fiduciário” depende da confiança que os “agentes econômicos” tenham que os bancos entreguem o dinheiro prometido para saber o valor da moeda, já que não é possível conferir “in loco” tal valor.

Mas o mundo, inclusive as leis econômicas, existem apesar das teorias dos economistas.

E no mundo real a maior parte do comércio mundial é feita em dólar, excetuando-se as internas de cada país e as internas da zona do euro (Europa). No mundo real, mais de 70% das “reservas” (dinheiro que cada país tem em caixa) está em dólar, uma parcela grande em euros (quase 20%), outra em libras e yuans e 2% das reservas mundiais em ouro. Estas são as moedas que contam no mercado mundial e a relação entre elas e a moeda de cada país (câmbio) é que determina o valor de cada moeda.

O Dólar cai

O dólar está caindo de valor porque o Tesouro americano está emitindo moeda, ou seja, criando moeda sem relação com a economia real ou sem a sua contrapartida em bens e serviços. Assim, as empresas e bancos receberam ajudas bilionárias feitas por um dinheiro criado… do nada. Em outras palavras, o total de dólares existentes no mundo aumentou para que a GM, a Chrysler, todos grandes bancos americanos, recebessem bilhões para continuar funcionando.

Em todo o mundo este movimento foi feito e significou uma transferência de dinheiro de quem não recebeu essa “ajuda” para os que receberam, ou seja, do bolso do trabalhador, do pobre, para os bolsos de banqueiros e industriais.

No Brasil foram mais de 300 bilhões de reais! Fora o que se concedeu como “isenção” fiscal que chegou a 25 bilhões no último ano e a 100 bilhões em todo o Governo Lula. A grande questão é que isso foi feito de uma forma tão grande e em ritmo tão rápido nos EUA que a moeda lá caiu de valor em relação a outras moedas. E, como conseqüência, a “reserva” de valor real – o ouro – subiu de 940-950 dólares a onça para 1050-1100 dólares! Uma valorização de mais de 10%. E o dólar caiu 15%, 20%, 30% em relação a todas as outras moedas.

O Real sobe

Outra questão influencia o preço das moedas: a taxa de juros que o Banco Central promete pagar para remunerar os empréstimos feitos para o governo.

Em um momento que todos os grandes Bancos Centrais mantêm uma taxa de juros negativa, a insistência de manter um taxa alta leva também ao encarecimento do real, já que o dinheiro é mais atraído para países com taxas de juro altas.

E o bolo cresce

Sim, cresce o bolo financeiro, já que a produção real caiu no mundo inteiro. O comércio mundial levou um tombo entre os 12 meses anteriores a set/08 e de out/08 a set/09 entre 20% a 30%.

A China, intervindo no mercado de câmbio, rebaixou a sua moeda (em outras palavras, diminuiu ainda mais o salário real dos operários chineses, o que levou a uma onda de greves e revoltas operárias sem precedentes) e, ainda assim, teve queda em suas exportações. Por quê? Porque, independente do preço, o mercado está saturado e produz muito mais que o consumo capitalista consegue absorver.

A crise clássica de superprodução, no mercado mundial como um todo, continua a grassar. As bolsas, o mercado financeiro, giram cada vez mais em falso, mantendo suas altas e seus lucros baseados em uma coisa – nos lucros que as empresas extraíram com as demissões em massa, com o fechamento de parques industriais e também com o dinheiro a rodo que os governos despejaram nos bancos e empresas em dificuldades. O bolo – deles – cresceu. E a comida do trabalhador do dia-a-dia diminuiu.

O Brasil é uma exceção?

O mercado mundial não é uma toalha uniforme que cobre o mundo. Pelo contrário, é uma toalha velha, cheia de furos, sujeiras e queimados. E, quando os furos aumentam em alguns lugares, é necessário correr e comer aonde ainda está “limpo”.

O Financial Times explicou porque o Brasil conseguia uma taxa de investimento sem precedentes: a paz social que o governo Lula logrou. Ou como Lula já explicou: nunca antes os empresários tiveram tantos lucros. Enquanto isso dura, o dinheiro flui para o Brasil. Flui enquanto essa “paz social” permite os juros altos e lucros imensos para o capital financeiro.

Flui enquanto a “paz social” garante que as fábricas, minas, o agronegócio continuem a funcionar e auferir lucros. Quanto tempo? No mercado mundial, as “bolhas financeiras” criadas pelo aumento do déficit dos governos, o esgarçamento do próprio mercado na medida em que o dólar perde valor, a fuga em direção aos ativos “seguros” que é, neste momento, o próprio ouro, já que o Tesouro americano se encontra sob suspeita. Tudo isso leva a um tic-tac que apavora a burguesia.

Quanto tempo até a próxima queda? Impossível prever. Mas é muito menos tempo que os 30 anos que se seguiram à queda dos anos 70.

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* Diz-se dos valores fictícios, fundados na confiança com que foram emitidos: o cheque bancário é uma moeda fiduciária.

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