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Com o socialismo ¡Sí se puede!

Busco no relato abaixo apresentar um apanhado geral de minhas experiências no processo antecessor às eleições gerais na Espanha, mostrando os aspectos mais relevantes. Estive lá por meses enviada pela Esquerda Marxista ajudando nossos camaradas integrantes da corrente “Podemos por el Socialismo”.

Recomendo a leitura de um livro que ajuda (e muito) a compreender o processo atual que ocorre na Espanha, além de me aprofundar na história da Revolução Espanhola, Guerra Civil e II República: “Revolución y contrarrevolución en España” de Félix Morrow.

Mobilizações na ordem do dia e a necessidade de se organizar

Antes do PODEMOS tornar-se esse terremoto político, vamos voltar há alguns anos, precisamente em 15 de maio de 2011, ano onde quando começou uma série de protestos massivos, inicialmente na cidade de Madri (Puerta del Sol) contra os cortes, a precariedade, as políticas de austeridade, a corrupção. Este movimento é comumente chamado de Movimento dos Indignados. Foi questão de apenas alguns dias para esses protestos e ocupações das principais praças rapidamente espalharem-se pelo Estado espanhol, transformando-se em um dos movimentos mais importantes após a queda de Franco. Havia ali uma grande participação da juventude, um sentimento de ruptura com o atual sistema. Grupos como “Democracia Real Ya” e “Juventud sin Futuro” levantavam bandeiras de ordem como “Não nos representa” e “Não somos mercadorias nas mãos de políticos e banqueiros”.  Marcha e greve de mineiros ovacionados com gritos de “viva a luta da classe trabalhadora” em julho do ano seguinte na cidade de Madri demonstrava que a emancipação da classe trabalhadora seria obra dela mesma.

Toda essa indignação e ímpeto de transformar a sociedade precisava ser canalizada e ganhar forma enquanto partido, com programa, propaganda e direção. Grande parte dessa indignação encontrou terreno promissor em um grupo de universitários na Universidade Complutense de Madri (UCM), precisamente falando na Faculdade de Ciências Políticas. Deste lugar saiu o embrião do que hoje seria o PODEMOS e de lá saiu o Pablo Iglesias, um dos principais fundadores do partido, foi aluno e professor desta mesma faculdade (1) . Trata-se de um lugar muito rico em discussão política e elaboração teórica. Tive a oportunidade de conversar com diversos estudantes e ser uma das formadoras dos Círculos Marxistas Universitários, tanto na Faculdade de Ciências Políticas como na de História. Estes Círculos consistiam em debates com posterior intervenção dos presentes e  exposição dos temas mais atuais no cenário político tanto nacional como internacional, além de eventos históricos mais relevantes na luta de classes. Os temas eram sobre o Jihadismo e a intervenção na Síria, sobre o que é o Marxismo e sua atualidade hoje, sobre o legado de Gramsci, entre outros.

Faço um destaque para um dos debates sobre a situação política na Grécia, atividade onde dezenas de pessoas compareceram, entre elas muitos estudantes e alguns professores. Muitos intervieram e buscavam qual a saída e o que fazer frente à traição de Tsipras na Grécia e as lições que essa amarga experiência nos dá frente a uma situação de crise política e internacional, tornando cada vez mais clara a necessidade de um programa socialista. Muitos jovens se aproximaram destes Círculos com a perspectiva de aprender, discutir, estudar e assimilar seu próprio ativismo com a análise marxista. Sempre terminávamos nossos debates apontando a necessidade de transformar a sociedade e não apenas interpretá-la, e isso foi muito importante para jovens estudantes nos procurar, convidar seus colegas e amigos a também compor e elaborar estes Círculos Marxistas.

Durante o período em que fiquei, de outubro a dezembro, ocorreram uma série de manifestações, eram quase uma por semana. Destaco a “Marcha de La Dignidad”(mais sobre: http://www.marxismo.org.br/blog/2015/10/28/marchas-de-la-dignidad-voltam-ruas-da-espanha), contra uma futura intervenção da Espanha na Síria, onde reuniu cerca de 5 mil pessoas em frente ao Museo Reino Sofia e a “Marcha contra la violencia machista”, onde cerca de 100 mil pessoas participaram, onde além de  grupos e coletivos feministas aliados ou não a sindicatos operários e/ou estudantis participaram, as massas também foram às ruas, não só pela precaridade e opressão que as mulheres sofrem- onde essa situação torna-se mais intensa e acirrada frente a atual crise orgânica do sistema capitalista- mas também pelo mal estar geral e pela insatisfação frente a situação de crise e ao governo (mais sobre: http://www.marxismo.org.br/blog/2015/11/16/luta-para-por-fim-violencia-contra-mulheres-deve-ser-uma-luta-anticapitalista).

Campanha eleitoral 

Uma semana antes das eleições presidenciáveis que ocorreram no Estado Espanhol, cerca de 12 mil foram ao comício de PODEMOS na cidade de Madri. Percebia-se um grande entusiasmo pairando no ar. Entre grupos de jovens com seus vinte e poucos anos, grupos de mulheres idosas de roxo cantando “sí se puede” nas ruas, militantes de diversos círculos e trabalhadores com seus filhos pequenos. A fila para entrar já era feita com 2 horas de antecipação, mesmo num domingo de manhã – sob leve neblina.  Entre os presentes, o que mais se ouvia nas conversas era um claro “estamos fartos de PP e PSOE, PODEMOS representa uma mudança”.

Mesmo com o giro à direita no começo deste ano, com a burocratização do partido, com o apoio à traição de Tsipras à classe trabalhadora grega e o programa reformista (mais sobre: http://www.marxismo.org.br/content/o-programa-eleitoral-do-podemos),

PODEMOS aglutina ao seu redor um amplo setor insatisfeito com o bipartidismo (PP-PSOE) dos governos anteriores e aos olhos destes o vê como uma alternativa viável de governo. Entretanto, ainda na reta final das eleições, os principais dirigentes fizeram comícios com discursos inflamáveis e com recorte de classe. As últimas pesquisas de intenção de votos antes do resultado final aparecia com 20% dos votos, diferente dos 10-15% em outubro-novembro.

Figuras centrais, tais como Pablo Iglesias e Ada Colau participaram e sintetizaram o programa em poucos e contundentes minutos. Destaque para a Ada Colau, atual prefeita de Barcelona: com seu histórico de luta em movimentos sociais contra os despejos, com a crítica pungente ao papel de Ciudadanos (a velha direita com roupagem nova), nos cortes a classe trabalhadora e a questão nacional em Catalunha https://www.youtube.com/watch?v=dCrhmW2LRSI.  É figura central em Catalunha com En Comú Podem e além de fazer um discurso que conecta com as mobilizações nas ruas e se dirige diretamente à classe trabalhadora, fez um discurso direcionado para a importância das mulheres participarem da vida política e nas mobilizações sociais, isso é muito importante num atual contexto de crise do sistema capitalista onde a mulher trabalhadora é um dos setores mais atingidos pelos cortes nas áreas sociais e direitos trabalhistas. Foi fortemente aclamada por todos no comício (inclusive pelo próprio Pablo Iglesias) e a perspectiva é de cumprir um papel fundamental no processo de mudança no Estado Espanhol. Pablo Iglesias encerra o comício com a importância de não se esquecer de todos os cortes e despejos, do Movimento dos Indignados, da importância de se governar para as pessoas (“gobierno para la gente”) e não para os bancos e grandes empresas.

É importante notar como as massas se conscientizam de que podem mudar coletivamente suas próprias vidas neste processo. A palavra “mudança” nesse sentido não é usada somente como mera retórica ou como mera campanha eleitoral, mas como uma possibilidade real de que a situação não permanecerá mais como era antes se elas, as massas, entrarem em ação. Muitos se aproximavam das mesas do Círculo Setorial “Podemos Socialismo”  e do Lucha de Clases (seção espanhola da CMI) interessados em procurar as revistas e materiais revolucionários e marxistas.

O mesmo (ou até maior) entusiasmo vi em relação ao resultado final das eleições que ocorreram no dia 20 de dezembro em Atocha, no centro da cidade. Mesmo sendo 1h da manhã de domingo para segunda, milhares de pessoas entre elas trabalhadores, jovens e a imprensa do mundo todo estavam atentos ao discurso de agradecimento da direção do PODEMOS. Ali era perceptível a confiança que as massas depositavam nos novos cargos parlamentares (69 ao todo). Iglesias fez um discurso emocionante e importante no sentido de recordar dos lutadores desde do período da Guerra Civil, passando da ditadura de Franco, dos mineiros das Astúrias, do Movimento dos Indignados, da importância da participação do povo para fazer história (“Aqui está la voz de la clase trabajadora”   https://www.youtube.com/watch?v=8W-63oxFJ4Y).

Quais as perspectivas?

Essas eleições marcaram a ruptura com o bipartidismo PP-PSOE, perda de votos tanto do PP e do PSOE em relação aos anos anteriores, avanço da esquerda anti-austeridade e a perspectiva é de instabilidade, com muitas greves, mobilizações e radicalização. PP, o partido tradicional da burguesia não atingiu maioria absoluta e PSOE ficou com o pior resultado desde 1977, além disso, o parlamento está dividido, o que abre caminho para alianças.

Mesmo PODEMOS ter alcançado o 3º lugar com 20,66% dos votos no geral, essas eleições são marcadas pelo crescimento e aumento de influência do partido, embora ele não tenha claro a estatização dos meios de produção sob controle dos trabalhadores, PODEMOS possui de maneira geral um programa avançado em relação ao atual governo PP (Partido Popular) e aglutina uma militância fresca e combativa na base, além de conseguir influenciar uma camada mais ampla da esquerda de uma forma geral. Desde o início, os companheiros do Lucha de Clases apontavam a necessidade de defender um programa mais claro e direto, um programa transitório como a estatização dos setores mais importantes da economia e não pagamento da dívida interna e externa, ir mais além do que Hugo Chávez fez na Venezuela, pois isso certamente encontraria mais apoio da classe trabalhadora, inclusive apoio internacional.

Não só PODEMOS aumentou a influência, mas principalmente a Esquerda ganhou novo fôlego, em especial nas regiões onde as alianças PODEMOS-IU (IU= Esquerda Unida) foram feitas. As outras regiões de aliança foram em País Valenciano (Compromís-Podemos) y Galicia (En Marea). Regiões como Tarragona e Barcelona, a aliança foram PODEMOS-IU foi a força mais votada, com 24, 74% dos votos. A aliança PODEMOS-IU (que na região da Catalunha, lugar onde ficam as duas regiões citadas, chama-se EM COMÚ PODEM) mostrou-se uma importante referência de como era necessária uma aliança de esquerda nas eleições gerais e confirma, tal como já supracitado, a autoridade política que Ada Colau possui em especial nessa região, conectando-se diretamente com as famílias trabalhadoras catalãs e com a Independência desta região.

As lições desse processo são várias, tais como a importância em acompanhar e participar junto com a classe trabalhadora e a juventude como ela se movimenta e se reorganiza, mostrando que a luta de classes continua e que o “fim da história” (“triunfo do capitalismo”) é um grande equívoco e falácia. A classe trabalhadora é internacional e a solidariedade, o apoio que ela demonstrou, das poucas vezes que discuti sobre as mais de 200 escolas ocupadas pelo levante secundarista em São Paulo contra o governo Alckmin e a PM, demonstra que as fronteiras são linhas imaginárias inventadas para nos dividir, muitas vezes levando à guerra e aos genocídios. O processo que ocorre na Espanha terá desdobramentos importantes por se tratar de uma das economias mais frágeis da zona do EURO, com taxa de 22,37% de desemprego. Tal como ocorre no Brasil, onde uma série de lutas já estão sendo desenvolvidas, como os atos contra o aumento das tarifas em diversas cidades já no começo de 2016 e com a vitória da Ocupação Vila Soma, na Espanha a perspectiva também é de lutas e manifestações. A Espanha nos mostra que a reorganização da esquerda e de todo o sentimento anti-capitalista precisa ser canalizado em torno de um partido que rompa com a política de cortes, que estatize os bancos e grandes empresas sob controle dos trabalhadores, além de um governo dos e para os trabalhadores. Se isso fosse feito, muito provavelmente PODEMOS teria tido um grande apoio e ganharia muito mais representatividade, além de mais confiança. No Brasil, a Frente da Esquerda Unida é necessária pela unidade e, além disso, um governo dos trabalhadores onde seja possível abrir uma nova alternativa frente aos partidos e instituições que representam a burguesia e apresente uma verdadeira saída frente à situação atual.

 (10 A título de curiosidade, link de um curto documentário sobre o surgimento, a linguagem, propaganda e contexto do surgimento de PODEMOS feito em dezembro de 2015. O documentário chama-se: Podemos, 130 dias para hacer La historia https://www.youtube.com/watch?v=lg7HznCOBf4

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