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Colapso do mercado de ações: Prenúncio de uma nova recessão mundial

As bolsas mundiais entraram em colapso de Xangai e Shenzhen a Londres e Nova Iorque. Um mar de luzes vermelhas tomou as telas dos computadores das bolsas de valores de todo o mundo em um pânico global de vendas em massa. A comoção e a incredulidade entre os investidores eram onipresentes. Mesmo que Dow Jones tenha se recuperado de suas piores perdas, extrema volatilidade impregna todo o sistema. Seria este um acidente isolado, que rapidamente voltará ao normal, ou o início de uma série de choques em uma cadeia interminável de acontecimentos?

As bolsas mundiais entraram em colapso de Xangai e Shenzhen a Londres e Nova Iorque. Um mar de luzes vermelhas tomou as telas dos computadores das bolsas de valores de todo o mundo em um pânico global de vendas em massa. A comoção e a incredulidade entre os investidores eram onipresentes. Mesmo que Dow Jones tenha se recuperado de suas piores perdas, extrema volatilidade impregna todo o sistema. Seria este um acidente isolado, que rapidamente voltará ao normal, ou o início de uma série de choques em uma cadeia interminável de acontecimentos?

Vale a pena recordar que a Depressão dos anos 1930 começou com o Crash de Wall Street de 1929, que, por sua vez, produziu toda uma série de recuperações e colapsos dos mercados ao longo dos três anos seguintes. As recuperações se mantinham durante meses, mas somente para abrir caminho a quedas maiores. Naturalmente, a história nunca se repete com exatidão; mas seria uma tolice ignorar estas semelhanças.

Atualmente, a estabilidade econômica, ou o pouco que havia dela, desapareceu. O crash do mercado de ações da segunda-feira foi acompanhado por um forte salto na volatilidade em todos os lugares. O índice de volatilidade Vix da bolsa de Chicago, conhecido como “medidor do medo” de Wall Street, saltou, na segunda-feira, fechando o dia em 40,74 pontos – leituras acima de 20 são consideradas um sinal de inquietação dos investidores. A elevação marcou a sexta subida diária consecutiva do índice, incluindo seu quarto aumento contínuo de dois dígitos.

O colapso dos mercados globais de ações na segunda-feira ocasionou um tumulto que aniquilou centenas de bilhões de dólares em ações em todo o mundo. A primeira a ser golpeada foi a China, logo seguida pelos mercados na Ásia, depois na Europa e finalmente nos EUA, onde os mercados de ações estiveram em queda livre. Larry Summers, ex-secretário do Tesouro dos EUA, tuitou o eufemismo do século: “Isto pode ser grave”. George Osborne, segundo se informou, manifestou preocupações com a China, mas nada mais do que isto. Parecem confusos e desorientados, como deviam estar os passageiros de primeira classe do Titanic perguntando sobre as estranhas vibrações no casco do navio.

Um grande problema na “não tão pequena” China

O mercado de ações de Xangai caiu 11,5% na semana anterior, o que levou as autoridades a intervir. Contudo, sua intervenção teve pouco efeito. Derramaram dinheiro, mas a volatilidade continuou. Na “Segunda-feira Negra”, o mercado de ações de Xangai experimentou seu pior dia de negociações desde fevereiro de 2007. Depois da abertura, o mercado veio abaixo em seu primeiro segundo de negociação – uma queda de 9% que aniquilou os ganhos de um ano inteiro! Até o final do dia, a “Segunda-feira Negra” viu o mercado cair até significativos 8,5%, intensificando ainda mais os temores de uma desaceleração econômica. Este medo reverberou por todo o globo, afetando os mercados acionários globais como um vírus incontrolável. Hoje [25 de agosto], o índice de Xangai caiu mais uns 7,6%.

“É um momento importante para a China”, disse Angus Nicholson, analista de mercado de IG. “O mercado de ações em queda livre, o sistema bancário cada vez mais carente de liquidez, o aumento das saídas de capital e uma rápida desaceleração da economia” (Financial Times, 24/8/15). Foi uma tempestade completa.

As autoridades chinesas reagiram como o fizeram em outros abalos e rapidamente derramaram 200 bilhões de dólares para escorar o mercado. Adicionalmente, fizeram vários pequenos cortes na taxa de juros. O corte de hoje foi o quinto desde novembro. Enquanto no passado tanta liquidez servia para frear os problemas, desta vez não conseguiu reverter as coisas. Parece que perderam o controle da situação, o que só leva a mais turbulência e pânico.

A causa inicial desta desordem no mercado de ações foi o medo de uma desaceleração dramática da economia chinesa. Todos os mais recentes indicadores de crescimento industrial e das exportações estavam deteriorando. A maioria dos números oficiais deve ser considerada com um pouco de cautela. Alguns comentaristas sérios acreditam que a taxa real de crescimento da economia chinesa está em torno de 3,5%. A produção industrial da China encolheu em ritmo mais rápido a partir de 2009, o ponto mais baixo da crise mundial. Neste Verão, as exportações chinesas caíram 8%. As importações também encolheram em quantidade similar. Esta dramática desaceleração forçou Pequim a desvalorizar o Yuan em 11 de agosto, em um esforço para reverter a situação, mas, no processo, produzindo o caos nas ditas economias “emergentes”.

O presidente chinês, Xi Jinping, tentou mostrar tranquilidade diante da situação econômica. “Devemos estar confiantes de que o crescimento econômico ainda goza de perspectivas promissoras”, disse ele aos funcionários do governo do nordeste da China no mês passado.

Tais garantias são tão reconfortantes quanto àquelas dadas por George W. Bush de que “os fundamentos da economia dos EUA são sólidos”, exatamente antes do colapso de Lehman Brothers.

Caindo na realidade

Enquanto, no passado, o crescimento chinês beneficiou enormemente a economia global mediante a redução dos preços dos produtos básicos e proporcionando mercado e campos de investimento lucrativos, agora se transformou em seu oposto exportando seus problemas e debilidades. Em mais de 15% da economia global, a China contribui com cerca de 25% do crescimento global, segundo o FMI.

Embora a China tente se livrar da dependência do investimento massivo de capitais indo em direção a uma economia mais equilibrada, sua taxa de crescimento teve um enorme êxito. Os níveis de acumulação de capital alcançados se tornaram insustentáveis. Com a austeridade na Europa e o estancamento dos salários nos EUA, o mercado para as mercadorias chinesas alcançou os seus limites. A superprodução afetou muitas áreas da economia, criando uma bolha imobiliária e uma crise do sistema de “shadow banking” [o “shadow banking system” aqui se refere a atividades financeiras não controladas pelas instituições reguladoras – NDT]. Isto não poderia ter vindo em pior hora para o capitalismo global, que ainda está lutando para escapar da crise de 2008. A desaceleração na China nas atuais condições está empurrando a economia mundial para outra recessão.

Os mercados de ações estiveram no auge durante vários anos enquanto a economia real ia dando tombos. Tornaram-se cada vez mais divorciados da realidade. Os preços das ações não refletem mais a saúde da economia ou sua rentabilidade futura. Com taxas de juro próximas a zero criando dinheiro “barato” e com a existência de enormes montanhas de dinheiro ocioso, o dinheiro derramou para as ações e participações em busca de ganhos especulativos. No dia em que a QE (Quantitative Easing – flexibilização quantitativa – em suas siglas em inglês) foi lançada na Grã-Bretanha, em 9 de março, o FTSE 100 (índice da bolsa de valores de Londres – NDT) se situava em 3542 pontos. Seu recente pico, em 27 de abril deste ano, foi de 7103 pontos, um ganho de 100,5%. Há um padrão similar entre as três rodadas de QE nos EUA e a performance do S&P 500 [O S&P 500, ou a Standard & Poors 500, é um índice do mercado de ações americano com base nas capitalizações de 500 grandes empresas – NDT], que foi mais de 200% durante o mesmo período.

A situação é semelhante à do personagem de desenho animado que corre para o abismo, pensando que continua com terreno sob os pés… até que a lei da gravidade finalmente se impõe.

No nosso mundo artificial de ações, mais cedo ou mais tarde tinha de haver uma “correção”, em que os preços ficariam mais em linha com seus valores reais. Mas uma “correção” destas, como a atual, sob as presentes condições de instabilidade, pode ter consequências de grande alcance: um crash pode precipitar uma profunda depressão.

Contágio

O destino da Ásia está diretamente ligado à China. A queda dos mercados de ações chineses imediatamente se espalhou aos mercados asiáticos. Hoje, houve novas quedas, com o Nikkei do Japão caindo 4%.

Logo se converteu em uma pandemia na segunda-feira enquanto os mercados abriam na Europa, com os mercados europeus caindo 7,8%. No final do dia, mais de 500 bilhões de euros foram apagados do valor das ações. Durante o mês de agosto o pan-europeu FTSE Eurofirst 300 caiu 12%, a caminho de superar a queda de 12,68%, de outubro de 2008.

“Lembram-se da crise bancária de 2008? Bem, as ações europeias estão atualmente a caminho de seu pior desempenho desde aqueles dias sombrios”, declarou o Financial Times (24/8/15).

Enquanto isto, o índice francês CAC também caiu quase 5% e o alemão DAX perdeu 5%. Em Londres, o FTSE 100 perdeu 5,5%, a primeira vez em que caiu abaixo de 6000 pontos e a caminho de ser seu mais baixo nível desde dezembro de 2012. Isso acabaria borrando 74 bilhões de libras do valor do índice. Todos estes recuperaram algo na terça-feira.

Nos EUA, na segunda-feira, o Dow Jones Industrial Average caiu 6,5% – perdendo 1000 pontos nas primeiras e frenéticas negociações. Foi a maior queda desde 2008 e está agora 14% abaixo de seu máximo histórico. O S&P 500 caiu 4%, e o Nasdaq perdeu 8,5% levantando temores de que uma bolha tecnológica fresca tenha explodido. As quedas se deram na sequência das já pesadas perdas da última semana. As ações de tecnologia foram as mais atingidas, com Facebook perdendo 14% em determinado momento e Apple 11%. Este é o colapso mais sério do mercado de ações desde a queda de Lehman Brothers.

Na terça-feira, o mercado estadunidense se recuperou, indicando grandes mudanças nos valores. Se isto vai mudar é duvidoso dados os problemas subjacentes da economia mundial.

Uma tormenta completa

Em termos mais gerais, uma “tormenta completa” ocorrera, afetando setores importantes da economia global. Nos chamados mercados emergentes, que no passado eram considerados como os salvadores da economia mundial, tudo está em queda: moedas, ações e os preços das commodities. O dinheiro é abundante e muito barato, mas isto não faz nenhuma diferença. O aumento da taxa de juros proposto nos EUA – o primeiro desde 2006 – enviou ondas de choque através dessas economias.

A queda dos preços das commodities, que os golpeou, e a expectativa de uma elevação da taxa de juros nos EUA colocou-os em uma posição impossível. A contração do mercado de exportação, especialmente com a queda da demanda e a superprodução na China, está levando a uma guerra de exportações e a desvalorizações da moeda. Todos estão tratando de fazer suas exportações mais baratas numa corrida para o fundo do poço.

As dívidas dos mercados dos países dominados estão se tornando insuportáveis enquanto suas economias desaceleram. O tamanho da dívida duplicou nos últimos cinco anos atingindo 4,5 trilhões de dólares. Mas com dívidas denominadas em dólares, cada aumento no valor do dólar (empurrado para cima devido aos prometidos aumentos na taxa de juros dos EUA) leva a um aumento dos encargos e custos de seu serviço. O laço está cada vez mais apertado.

Os mercados emergentes experimentaram uma dramática fuga de capital, sobretudo proveniente da China. A fuga dobrou nos últimos 13 meses até o valor de 1 trilhão de dólares. As desvalorizações do Yuan acelerarão as fugas, que alcançaram o máximo de 70 bilhões em julho. As ações dos chamados mercados emergentes, bem como suas moedas, caíram 10% este ano. É uma guerra comercial sem barreiras alfandegárias.

A turbulência fez com que o Ringgit da Malásia caísse 1,4% frente ao dólar, um nível nunca alcançado desde a crise asiática de 1998. A Rupia Indonésia também alcançou seu nível mais baixo desde os anos 1990. O Bath tailandês estava em seu ponto mais baixo desde 2009. A crise se espalhou rapidamente à África do Sul e Brasil, demonstrando mais uma vez que a globalização significa crise global. Este é o significado real do contágio.

O preço do petróleo, que era de 150 dólares o barril, devido à queda da demanda caiu a 39,05 dólares o barril para o petróleo West Texas e a 44,24 dólares o barril para o petróleo Brent. Em vez de decorrer de uma fonte de força, a queda dos preços foi produto de uma deflação mundial.

Uma crise orgânica

A “recuperação” agora se exauriu. O investimento estagna ou cai. Os capitalistas estadunidenses estão sentados sobre uma pilha de dinheiro de 2 trilhões de dólares, e são incapazes de desenvolver as forças produtivas como o faziam no passado. Enquanto isto, as forças produtivas se rebelam contra os limites do mercado e da propriedade privada. Esta era de “estagnação secular” não é uma era de equilíbrio. Longe disso. O ciclo de expansão e recessão mudou neste período, em que as expansões são fracas, enquanto as recessões são profundas e prolongadas.

A crise de 2008 foi o ponto de virada. Ela marcou o início da maior crise desde os anos 1930, e dela ainda estamos sofrendo. A única razão de não termos experimentado uma profunda Depressão como a dos anos 1930 se deve aos massivos resgates em escala mundial, não menos importantes na China, o que permitiu ao capitalismo manter a cabeça fora d’água. Mas todas as velhas contradições mais uma vez emergiram. A crise se arrastou enquanto a austeridade reduzia o mercado e os salários se mantiveram baixos em todos os lugares. Isto reflete uma crise orgânica do sistema capitalista, onde nenhum dos indicadores anteriores de crescimento, emprego, produtividade ou rentabilidade podem se repetir.

A superprodução periódica se manifesta em recessões profundas, como em 2008. Pode haver todo tipo de crise, em que a linha da produção capitalista pode se romper em grande número de lugares, incluindo a crise do mercado de ações, que não está diretamente ligada às contradições no modo de produção. As crises nos mercados de ações, em última análise, são sintomáticas dos processos que se desenvolvem na economia real. Elas podem agir como gatilhos de uma crise real na economia. Este foi o caso durante a Grande Depressão de 1929 nos EUA. O escândalo das subprimes e do colapso de Lehman Brothers agiram assim em 2007-8. Se esta atual crise do mercado de ações vai levar à outra recessão, não pode ser previsto com precisão. Claramente, os elementos estão presentes para outra recessão mundial, mas se vai servir como seu gatilho é impossível de se afirmar. Há muitos elementos que podem desempenhar este papel.

Tudo o que podemos dizer com certeza é que esta “recuperação” econômica se exauriu. Uma fase de descenso está sendo preparada.

Uma amostra do que virá

Como Marx explicou no Livro III de O Capital, “A causa final de uma crise real é sempre a pobreza e o consumo restringido das massas, em comparação com a tendência da produção capitalista de desenvolver as forças produtivas de tal forma que somente o poder absoluto de consumo da sociedade seria o seu limite”.

Atualmente, dadas a austeridade e a redução dos salários reais, o “consumo restringido” é claramente evidente. O investimento, a alma do capitalismo, está perdendo força ou secando. Todas as contradições do capitalismo, que permitiram que o capitalismo continuasse durante o período anterior, estão mais uma vez vindo à superfície. O cenário mais uma vez está sendo montado para outra recessão, ainda mais severa que a última.

Os estrategistas capitalistas sérios estão com medo porque todos os meios de luta já foram utilizados durante a última crise. Os governos estão financeiramente sobrecarregados com dívidas colossais e as taxas de juro estão zeradas. Eles estão reduzidos a realizar pequenos ajustes, como na China. Isto não os salvará. A atual turbulência no mercado de ações é simplesmente uma antecipação do que vai acontecer.

Tradução: Fabiano Leite

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