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Clinton é agora claramente a favorita da classe dominante

Setores decisivos dos banqueiros, dos empresários da indústria, do alto comando militar, e dos líderes conservadores dos sindicatos, fizeram sua escolha, junto aos principais líderes do próprio Partido Republicano.

19 de outubro/2016

Agora ficou bastante claro que o Establishment estadunidense fez sua escolha: Hillary Clinton é a favorita dos setores decisivos dos banqueiros, dos empresários da indústria, do alto comando militar, e dos líderes conservadores dos sindicatos, e inclusive dos principais líderes do próprio Partido Republicano.

Um artigo do Wall Street Journal de 23 de setembro assinalou que nenhum dos CEOs Fortune 100 [Diretores Executivos de Empresas – NDT] contribuiu para a campanha de Donald Trump, enquanto 11 deles fizeram doações à campanha de Clinton. Por outro lado, em 2012, o último porta-estandarte Republicano, Mitt Romney, ganhou o apoio de um terço desses executivos, enquanto somente 5 deles apoiaram o Presidente Barack Obama.

Estes diretores executivos citam as declarações inflamadas de Trump contra mexicanos, negros, mulheres e outros como fatores de medo, para definir as forças incontroláveis de oposição que se poriam em marcha caso ele seja eleito. Ainda mais, a retórica populista de Trump despertou o ressentimento popular contra os grandes interesses empresariais onde ele nasceu e com quem esteve junto durante toda sua vida.

Em um editorial de 10 de outubro do New York Times, o financista Steve Rattner assinalou que “nenhum candidato Republicano anterior foi tão impopular na comunidade empresarial… Em uma reunião do Conselho há duas semanas, conversei separadamente com dois empresários Republicanos proeminentes. Um deles, o diretor executivo de uma empresa da Fortune 100, disse que nunca havia votado por um Democrata, mas que não podia apoiar Trump. O outro, um investidor de capital privado que tinha votado pelos Democratas apenas uma vez, disse que ele tinha tanto medo de Trump na presidência que doou ‘cada centavo possível’ sob as regras da campanha financeira para Hillary Clinton”.

Embora vários sindicatos da polícia tenham respaldado Trump, Clinton compilou uma lista de apoio mais longa e impressionante de policiais aposentados que Trump, de acordo com a edição online de PoliticsUSA de 15 de outubro. A campanha de Clinton também conta com o apoio de praticamente toda a liderança trabalhista.

Unidos contra a classe trabalhadora

Os meios de comunicação capitalistas tomaram o exemplo de cima e foram atrás de Trump com sentimento de vingança. Trump não recebeu o apoio editorial de um só dos mais importantes jornais estadunidenses. Um deles, o Arizona Republic, apoiou um candidato presidencial Democrata pela primeira vez em seus 125 anos de existência, escrevendo que “o candidato Republicano de 2016 não é um conservador e não está qualificado”.

O candidato Republicano à presidência em 2008, John McCain, cancelou seu apoio, e em 9 de outubro USA Today descobriu que “mais de três dúzias de governadores, senadores e deputados estadunidenses tinham decidido não votar no candidato de seu partido”.

Donald Trump é, portanto, um estranho, uma bala perdida, um elemento incontrolável que fala sem pensar, que dispara para todos os lados, e não pode ser confiável, pelos que controlam o poder, para administrar com competência o poder estatal em seu interesse coletivo. A classe dominante está agora utilizando todos os meios ao seu alcance para derrotá-lo. Eles lançaram praticamente todo o seu apoio por trás do único candidato em que agora confiam para defender seus interesses: Hillary Clinton.

Hillary e seu marido Bill, embora não tenham nascido no mesmo berço de ouro de Donald Trump, no entanto apostaram seus “serviços” governamentais e suas conexões políticas nacionais e internacionais em um vasto império financeiro de 2 bilhões de dólares e em uma riqueza pessoal estimada em 111 milhões de dólares.

Ambos os candidatos são ricos, e ambos estão dedicados a promover os interesses de sua classe contra o resto de nós. Mesmo assim, os que controlam o poder decidiram que Clinton é o seu candidato.

Uma vitória de Trump significará o fascismo?

Apesar de que Trump tem agora somente 8% de chances de ganhar a eleição, a partir de 18 de outubro – de acordo com as previsões do New York Times – existem numerosos elementos entre as fileiras de apoiadores do Partido Democrata que continuam batendo no tambor, de forma monótona e implacável, o princípio central da campanha de Clinton: Trump é um homem perigoso que vai trazer o fascismo para os EUA, e deve ser detido a todo custo.

Isto é um absurdo total.

Leon Trotsky, que conhecia um pouco mais do assunto, resumiu em linhas curtas a experiência histórica do mundo com o fascismo real:

“Em todos os países onde triunfou o fascismo tínhamos, antes do crescimento do mesmo e sua vitória, uma vaga de radicalização das massas; dos trabalhadores, camponeses e fazendeiros mais pobres, e da classe pequeno-burguesa. Na Itália, depois da guerra e antes de 1922, tivemos uma vaga de tremendas proporções; o estado estava paralisado, a polícia não existia, os sindicatos podiam fazer o que quisessem, mas não existia um partido capaz de tomar o poder. Como reação, veio o fascismo.

“Na Alemanha, o mesmo. Tínhamos uma situação revolucionária em 1918; a classe burguesa sequer pediu para participar do poder. Os socialdemocratas paralisaram a revolução. Em seguida os trabalhadores tentaram de novo em 1922-23-24. Esta foi a época da bancarrota do Partido Comunista, onde havia ingressado os trabalhadores. Em seguida, em 1929-30-31, os trabalhadores alemães novamente começaram uma vaga revolucionária. Os comunistas e os sindicatos tinham uma força tremenda, mas, então, apareceu a famosa política do socialfascismo, uma política inventada para paralisar a classe trabalhadora. Somente depois destas três tremendas vagas, o fascismo se converteu em um movimento grande. Não há exceções a esta regra: o fascismo vem somente quando a classe trabalhadora mostra completa incapacidade para tomar em suas mãos o destino da sociedade” (Leon Trotsky, Problemas Norte-Americanos, agosto de 1940).

Repitamos para dar ênfase: “Não há exceções a esta regra”. Nunca houve. Não há razão para esperar isto.

Trump proporcionou uma plataforma pública para os que abraçam o racismo, o sexismo e a xenofobia. Como resultado, muitas pessoas estão usando abertamente esta retórica. No entanto, isto não é a mesma coisa que o fascismo. O fascismo é um movimento de massas bem-organizado que abarca não somente as camadas mais conservadoras da população – acima de tudo, a “pequena burguesia enraivecida” – mas é também organizado politicamente, com o apoio dos elementos fundamentais do aparato do estado, como os militares. Longe de abraçar Trump, os setores decisivos do Partido Republicano e a hierarquia militar rejeitaram Trump e temem as consequências de sua vitória.

O fascismo, portanto, não está na agenda para os EUA em 2016. Ainda estamos no início da quebra e desintegração dos partidos e instituições estabelecidas, sob a pressão da crise econômica e social insolúvel do capitalismo. Além dos eventos que estão por vir, enfrentaremos oportunidades para construir novos partidos e sindicatos que podem ganhar poder e liderar uma transformação socialista da sociedade. Mais cedo ou mais tarde, de uma forma ou de outra, um partido de massas da classe trabalhadora se desenvolverá e os sindicatos serão transformados em organizações de luta.

O que significaria uma vitória de Clinton?

O simples fato da questão é que a campanha de Clinton está reduzida a levantar este medo ficcional do fascismo porque não tem nada de substancial a oferecer às massas de trabalhadores e de jovens nas quais deve confiar para ganhar a eleição. Cortes continuados dos programas sociais, o destripamento da educação, mais assaltos militares no mundo, e o uso contínuo da brutalidade policial contra civis inocentes – é o que está vindo sob a próxima presidência, independentemente de quem seja eleito. E com o “ciclo dos negócios” tendo ultrapassado o seu ápice, a nova recessão a caminho certamente significará ainda mais desemprego, mais execuções de hipotecas, e o endividamento mais profundo daqueles de nós que dependem de salários para viver.

Um voto por Hillary Clinton em 2016 significa exatamente o que seria sem sua feliz circunstância de ter este palhaço vil, Donald Trump, como concorrente: um voto pelo governo continuado dos exploradores e opressores, com toda a sua brutalidade e miséria associadas; em uma palavra, um voto pelo capitalismo.

Não devemos ser atraídos ou distraídos por este drama imundo. Nossa tarefa é nos prepararmos para o futuro através do estudo da história e da teoria marxista, educando-nos a nós mesmos e aos outros, e juntando-nos à luta daqueles que estão lutando por seu direito a uma existência civilizada. Aprendendo e aplicando estas lições, podemos ter êxito onde os outros falharam. Podemos não ter um cavalo de corrida hoje, mas podemos começar a nos preparar agora para quando nosso dia chegar. Convidamos àqueles que querem um futuro melhor para a humanidade a se organizar nas fileiras da CMI.


Artigo publicado originalmente em 20 de outubro de 2016, no site da Corrente Marxista Internacional (CMI), sob o título “Clinton Now the Clear Ruling-Class Favorite“.

Tradução Fabiano Leite.

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