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China: Protestos contra o Japão revelam profundas mazelas sociais

Operários da fábrica Hi-P International protestam durante paralisação em Xangai após conflitos trabalhistas

Em agosto e setembro as manobras militares japonesas realizadas nas disputadas ilhas de Diaoyu provocaram alguns dos maiores protestos vistos na China desde o levante na Praça Tiananmen em 1989. A disputa pelas ilhas é uma luta imperialista por recursos naturais e rotas comerciais. Contudo, o protesto foi muito além da expressão de um popular sentimento anti-japonês. De fato, embora o regime de Pequim se esforce para limitá-los a isso, as manifestações foram dirigidas ao governo chinês assim como às manobras agressivas do Japão.

Operários da fábrica Hi-P International protestam durante paralisação em Xangai após conflitos trabalhistas

Em agosto e setembro as manobras militares japonesas realizadas nas disputadas ilhas de Diaoyu provocaram alguns dos maiores protestos vistos na China desde o levante na Praça Tiananmen em 1989. A disputa pelas ilhas é uma luta imperialista por recursos naturais e rotas comerciais. Contudo, o protesto foi muito além da expressão de um popular sentimento anti-japonês. De fato, embora o regime de Pequim se esforce para limitá-los a isso, as manifestações foram dirigidas ao governo chinês assim como às manobras agressivas do Japão.

Na imprensa mundial as manifestações foram exibidas como sendo patrocinadas pelo governo da China contra o Japão, seu rival geopolítico mais direto na região. Mas esse é só um lado da história. Embora os governantes chineses de fato tenham utilizado os protestos nacionalistas para seus próprios fins e permitido que fossem além do que é normalmente permitido, isso ocorreu até certo ponto.

Informações sugerem que a organização original das passeatas não se deve ao governo, mas sim aos grupos conhecidos como “Nova Esquerda”. Por “Nova Esquerda” são conhecidos os marxistas, maoistas, neomaoístas e outros grupos radicais de esquerda que se posicionam contra a deterioração da sociedade resultante da abertura do país ao capitalismo, promovida por Deng Xiaoping e seus seguidores no partido.

Por exemplo, membros do grupo Wuyouzhixiang teriam sido alguns dos primeiros organizadores do protesto em Pequim, segundo informações. O Wuyouzhixiang é um grupo maoista que até recentemente dirigia um site que promovia debates entre grupos da Nova Esquerda. O grupo foi recentemente banido pelo Partido Comunista, acusado de ser simpatizante de Bo Xilai, ex-líder do partido que muitos viam como de esquerda e renovador das políticas maoistas (embora nem de longe isso corresponda à realidade).

O Wuyouzhixiang não é um grupo de simpatizantes do regime e muito menos organizado por ele. É claro que somente esse exemplo não é suficiente para demonstrar que os manifestantes eram contrários ao regime. Mas a conduta dos manifestantes é prova mais que suficiente. Em muitas cidades houve conflitos com a polícia, alguns deles, de grandes proporções. Em Shenzhen, cidade portuária ao sul do país, os protestos foram mais intensos e tiveram um claro cunho crítico ao governo. Como tal, no dia 16 de setembro, houve confrontos entre a tropa de choque e dois mil manifestantes, isso porque eles primeiro atacaram um prédio público do governo e depois, uma loja japonesa.

Ataques ao Partido Comunista por sua “falta de patriotismo”

O ataque ao prédio do Partido Comunista ocorreu depois que os manifestantes viram um carro japonês parado no estacionamento do edifício. Muitos dos que protestavam já estavam irritados com a polícia, que defendia propriedades japonesas e prendia manifestantes. Começaram as acusações de falta de patriotismo por parte das autoridades, que pretendiam garantir os interesses econômicos das empresas do Japão do que a soberania nacional chinesa. Enquanto que esses discursos podem parecer nada mais do que exemplos de nacionalismos toscos, devemos analisar as motivações políticas mais profundas desse tipo de manifestação.

Oficialmente o governo chinês e o Partido Comunista se esforçam para se apresentar como nacionalistas e defensores dos interesses da China. A luta nacional da China tem sido uma das principais forças motrizes da história por mais de um século, começando com a resistência à agressão imperialista desde a Guerra do Ópio, em 1842, até as revoluções de 1925-1927 e 1949, que foram essencialmente lutas pela libertação nacional. Essa última foi direcionada contra a ocupação japonesa e ocidental na costa e em boa parte do leste da China.

Os enormes crimes do imperialismo japonês na China foram hediondos, levando a perda de mais de vinte e dois milhões de vidas. Esses crimes não foram esquecidos, pois o governo japonês se recusa a apresentar qualquer pedido de desculpas oficiais, oferecer auxilio às vítimas ou tomar uma posição contrária àquele período de sua história. Por exemplo, o ex primeiro ministro e atual líder da oposição Shinzo Abe mantém o hábito de fazer visitas ao santuário Yasukuni, que presta homenagens a criminosos de guerra japoneses, em diversas ocasiões.

Abe declarou que deseja retirar uma declaração de 1995, feita pelo então primeiro-ministro Tomiichi Murayama, desculpando-se pelas agressões de guerra, e outra de 1993, pedindo perdão pelo uso de mulheres coreanas como escravas sexuais para soldados japoneses. Que o Japão foi utilizado pelo imperialismo internacional não melhora a situação; o envolvimento dos EUA em favor do Japão só contribui para aumentar, entre os chineses, que seu país esta sofrendo uma nova agressão de velhos inimigos.

Esclarecida essa questão, não é difícil entender porque os chineses guardam tamanho ressentimento contra os japoneses. Eles esperam que seu governo garanta sua soberania e os defenda contra seus antigos dominadores. Mas o que encontram? Um governo disposto a colaborar com empresas japonesas, porque assim convém aos seus próprios interesses, enquanto prega patriotismo ao povo. Enquanto discursam contra o Japão, os líderes chineses adquirem eletrônicos e automóveis japoneses. A hipocrisia dos governantes soa forte aos olhares de muitos chineses comuns, o que não é nada positivo para a liderança do país.

Protestos sociais se espalham

É importante entender que a luta de classes e o radicalismo político nem sempre se expressam da mesma forma. Em países onde não há um movimento operário independente e forte, como é o caso da China, e não há como desafogar a insatisfação, a revolta encontrará outros meios para emergir. É exatamente o que ocorre na China atual. A incapacidade do governo chinês de defender os territórios disputados despertam nas massas chinesas as duras lembranças dos tempos pré-revolucionários, quando o país era alvo de agressões frequentes por parte das potencias estrangeiras, especialmente o Japão.

A evidente falta de patriotismo demonstrada pelas autoridades chinesas foi a gota d’água para muitos chineses. Instabilidade social cresce a medida que o país, após décadas de elevado crescimento econômico, não conseguiu diminuir a desigualdade social, pelo contrário, nos últimos vinte anos a distancia entre ricos e pobres só aumentou. Em muitos locais a corrupção ultrapassa os limites do aceitável com burocratas vendendo propriedades rurais (depois de expulsar quem nela estivesse) a baixo preço para a iniciativa privada, deteriorando ainda mais as condições de vida da população. A poluição se expande totalmente fora do controle das autoridades, que fazem vista grossa às atividades das industrias tóxicas.

Isso tem levado a uma intensificação da luta de classes radical nos últimos anos. Em Wukan a população derrotou a policia em um combate aberto, forçando-a a se retirar da cidade enquanto protestava contra a venda das propriedades agrícolas da comunidade ao setor privado. E em Ningbo um protesto contra a poluição excessiva durou semanas e forçou as autoridades a recuarem. Em ambas as localidades os protestos impuseram duras derrotas ao governo e a classe capitalista chinesa.

Esse sentimento geral de insatisfação foi um importante fator de motivação para os protestos contra o Japão, uma vez que o governo da China falhou ao defender a soberania nacional. A medida que esse fracasso foi se tornando cada vez mais óbvio, as manifestações passaram a ser mais críticas. A presença de tantas bandeiras vermelhas e das fotos do presidente Mao foi interpretada como sinal de apoio ao governo, mas não é bem assim. A bandeira da China não é apenas uma bandeira nacional, mas de uma revolução, e Mao foi o líder dessa revolução, não apenas um símbolo do regime – uma revolução que cada vez mais se distancia da realidade da China atual.

Anti-imperialismo

Bandeiras vermelhas são cada vez mais vistas nos protestos, e retratos de Mao são utilizados em greves contra o governo ou os capitalistas. Também se viu isso nas manifestações contra o Japão. Como foi dito antes, a revolução também foi uma libertação do domínio dos japoneses. Dessa forma, muitos veem no maoismo a única política capaz de defender o país contra agressões externas, em oposição a atual defesa do capitalismo. Em Xangai, nos protestos de 16 de setembro, um rapaz exibiu um retrato de Mao com a seguinte mensagem: “É inadmissível que o governo da China seja tão fraco. Somente a ideologia de Mao poderá derrotar a agressão japonesa”. Esse é um claro exemplo de como os protestos são críticos ao governo da China, revelando a natureza social por de trás das palavras de ordem nacionalistas.

O significado da exposição de propaganda maoista foi muito bem explicado em um artigo no “Asahi Shimbum”: “Um dos fatores que levaram aos protestos é a insatisfação com as reformas econômicas e a abertura do país iniciada por Deng Xiaoping após a morte de Mao, em 1976, e que prossegue até hoje”. No mesmo artigo foi escrito que “pouca referencia a Mao foi feita nos protestos de 2005 e 2010”. Isso mostra o caráter diferenciado dos protestos atuais.

Enquanto que nós, marxistas, entendemos que não há diferenças entre o imperialismo japonês e o chinês, não quer dizer que o povo chinês entenda dessa forma. As manobras japonesas foram fundamentalmente imperialistas e ligadas ao setor ultranacionalista de direita, mas não foi assim na China. Muitos viram a reação do país como uma forma de defesa nacional. Isso pode ser atestado não apenas pelos exemplos dados neste artigo, mas por muitos outros.

Em Shenzhen, por exemplo, a palavra de ordem dos protestos era “abaixo o imperialismo japonês”, e comparações foram feitas entre a disputa atual e os ataques imperialistas nipônicos do século XIX e XX. Não por acaso, as manifestações atingiram seu pico no dia 18 de setembro, o aniversário da invasão japonesa da Manchúria, em 1931.

Uma situação perigosa para o regime de Pequim

Originalmente o regime da China viu nessa disputa uma oportunidade para despertar o nacionalismo em parcelas consideráveis da classe trabalhadora. Tanto que a marinha chinesa enviou barcos de Hong Kong para as ilhas disputadas, sabendo que isso pioraria a situação. Mas não só isso, a manobra foi financiada por lideres da Aliança Democrática pela Melhoria e Desenvolvimento de Hong Kong, partido que governa Hong Kong e aliado próximo do regime de Pequim.

Contudo, eles não conseguiram controlar a situação. Não somente a organização dos protestos caiu na mão de grupos de esquerda, mas também de muitos grupos abertamente críticos ao regime. Simpatizantes de Bo Xilai, da ala mais a esquerda, esteve presente nas manifestações, com bandeiras pedindo o fim da corrupção, desigualdade e problemas de abastecimento. Em algumas áreas, os conflitos assumira caráter de classe, como no caso das greves em fabricas japonesas em Shenzhen e Cantão.

Como foi dito antes, quando não um movimento operário independente e forte, a situação explodirá por outros meios. Quando o governo autorizou o povo a tomar as ruas para protestar contra os japoneses, o mesmo povo aproveitou para se manifestar contra tudo que está errado na China – o que fere diretamente os interesses do regime. No fim das contas, a situação não pôde mais ser tolerada e o governo teve que usar seu poder contra os manifestantes.

Já em 17 de setembro a policia baniu protestos em Xian, além do uso de celulares e mensagens online para convocar protestos. Em Xangai, tropas protegeram o consulado japonês ao longo de todo o período de protestos, inclusive repelindo a bala os que tentavam se aproximar, alertando para que não se manifestassem perto do prédio. Em Cantão o governo alertou a população para não se reunir em grande número.

No dia 19 de setembro, a situação passou dos limites. As autoridades enviaram as forças de repressão para banir os protestos e evitar que novos fossem organizados. Em Pequim as estações de metro próximas aos locais de protesto foram fechadas, as ruas foram reabertas para tonar impossível a marcha dos manifestantes e mensagens via celular foram enviadas por toda Pequim para alertar contra a organização de novas manifestações. A policia, ao longo de todo o país, jurou revidar sobre qualquer manifestante, e as empresas estrangeiras foram estimuladas a reportar qualquer prejuízo causado por protestos. Isso mostra que o governo de Pequim não deseja a continuação dessas marchas, e tem bons motivos para isso.

Um sinal do que está para acontecer

O regime de Pequim se acha sentado sob uma bomba que pode explodir a qualquer momento. A segurança em torno do congresso do partido é a maior jamais vista. A venda de aviões de brinquedo foi suspensa, motoristas de taxi foram instruídos a não baixar os limpadores de vidros para impedir a propagação de panfletos através deles, donos de pombos foram instruídos a manter seus animais trancados e a venda de facas de cozinha foi temporariamente proibida. Pela primeira vez na historia moderna, o estado chinês investe mais na segurança interna do que na externa. O regime está temeroso de que as nuvens carregadas da Primavera Árabe cheguem ao Extremo Oriente. Eles vem cada vez mais instabilidade social, o aumento de força do movimento operário, movimentos de camponeses, protestos contra a poluição massiva, isso sem falar dos conflitos nacionais no Tibet, Uigures no Noroeste e pela democracia em Hong Kong. De fato, nas ultimas eleições de Hong Kong, viu-se um ganho expressivo para partidos de esquerda e organizações de trabalhadores.

O que falta para todos esses movimentos é um ponto focal, que direcione toda a revolta na,luta contra a restauração do capitalismo e a burocracia corrupta. De certa forma os protestos no Japão demonstraram esse ponto focal, ainda que de uma forma distorcida. O regime entendeu isso e impediu a continuação do movimento, preferindo ser humilhado pelos japoneses a ceder às pressões internas. Os protestos provaram que a situação atual da China não pode prosseguir nesse caminho no futuro.

Em algum momento, algum incidente – pequeno ou grande – direcionará todas essas lutas dispersas em uma mesma luta contra o regime. Foi o que ocorreu no Oriente Médio, quando Mohamed Bouazizi ateou fogo ao próprio corpo, atitude longe de ser inédita, mas que foi capaz de iniciar uma revolução em toda uma região. Quando um evento desencadeador irá ocorrer na China é difícil prever, mas os protestos indicaram que poderá ser antes do que se imagina. Entretanto, de uma coisa podemos estar certos: quando as massas chinesas novamente se colocarem na rota da revolução, nenhum poder no mundo será capaz de detê-las.

Traduzido por Arthur Penna

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