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China: condições de trabalho continuam a se deteriorar, mas a classe trabalhadora começa a se agitar

A crise do capitalismo no Ocidente tomou o centro do palco, com o espetáculo da eleição de Donald Trump e do Brexit. A China saiu do centro das atenções ao manter, por enquanto, certo grau de estabilidade. Esta é a mensagem que a liderança do partido gostaria, pelo menos, de apresentar.

O primeiro-ministro Li Ke Qiang escreveu recentemente em Bloomberg Businessworld, “Em um mundo com pletora de incertezas, a China oferece uma âncora de estabilidade e crescimento com suas mensagens consistentes de apoio à reforma, à abertura e ao livre comércio”.

As palavras de Li Ke Qiang, no entanto, são amargamente irônicas aos ouvidos de muita gente, visto que a vida dos trabalhadores chineses guarda pouca semelhança com as mensagens emitidas pelos líderes do partido e pelos meios de comunicação. O chinês comum não vê nem a estabilidade nem o crescimento a que se refere o primeiro-ministro Li. A classe capitalista sem dúvida submeteu a classe trabalhadora chinesa a condições horrorosas, enquanto realizava lucros enormes. Durante o meu tempo na China, tive a oportunidade de testemunhar a vida dos trabalhadores chineses e as injustiças que enfrentam cotidianamente.

Na China, o contraste entre rico e pobre é rígido e visível para todos. A infraestrutura é variada, correspondendo ao local onde você mora, e ao custo do seu aluguel. Os mais pobres vivem em condições chocantes. Próximo ao meu antigo local de trabalho havia uma coleção de cabanas de concreto cinza nos arredores da cidade, formando uma pequena aldeia improvisada. Muitas vezes eram trabalhadores migrantes, ou os que vieram do meio rural para se instalar nestas áreas. Esses prédios frequentemente tinham portas ou uma cortina improvisada, sem caixilhos de janela. Na maioria não tinham nenhuma decoração, com apenas as necessidades básicas em termos de mobiliário.

Essa aldeia foi depois completamente demolida. Claramente, os que viviam ali eram uma inconveniência, com nenhuma atenção dada ao que lhes aconteceu. Vi isso acontecer mais de uma vez em áreas como essa. A menos de 150 metros dessa aldeia estava o estádio Olímpico, que certamente recebeu vários milhões de Yuan em investimentos, um reflexo amargo e duro da chamada “economia socialista de mercado”.

As paisagens urbanas estão cheias de grandes e altos prédios e blocos de apartamento. Há bairros gigantescos que são os lares de milhares de trabalhadores e suas famílias. Os blocos de apartamento para o trabalhador médio são ambientes sombrios, sujos e deprimentes para se viver, parecendo mais a entrada de uma prisão do que a entrada de uma casa de moradia.

As condições dentro dos apartamentos variam naturalmente, dependendo do locador ou do salário do indivíduo. Lembro do apartamento de um trabalhador, um assistente de vendas, que compartilhava um apartamento alugado com um professor. Todo o apartamento se encontrava em um estado de ruína e deterioração. As superfícies dentro da cozinha estavam gastas. O piso estava sujo e quebrado. Como as cadeiras e utensílios de cozinha enferrujados, todas as peças de metal estavam enferrujadas ou começando a enferrujar por todo o apartamento. A sala de estar se encontrava em estado similar. Eles não tinham dinheiro suficiente para mantê-lo conservado. Claramente, o locador pouco se importava, tudo o que ele queria era que o aluguel fosse pago e seu bolso recheado.

Outra pessoa que morava perto de meu local de trabalho, um guarda de segurança, se dividia entre o seu local de trabalho e o lar. Ela e sua família moravam dentro de um pequeno prédio no espaço total de um quarto e um armário para abrigar uma família de quatro pessoas. Dormiam, comiam e viviam diariamente dentro desta sala. Esses não são exemplos isolados, mas o reflexo das condições enfrentadas pela classe trabalhadora chinesa em toda a China. Enquanto isto, o rico vive em blocos de apartamento onde as condições são um mundo à parte.

Não é difícil de se ver na China uma pessoa em estado de completa pobreza. A falta de moradia é um lugar comum. Muitas vezes alguém que é sem-teto terminou assim devido a alguma condição médica ou a uma deformidade física. Aos cidadãos chineses não é fornecida qualquer assistência médica gratuita, em vez disso eles têm de confiar nos planos de seguro. No entanto, tais planos normalmente apenas cobrem cerca da metade dos custos médicos ou menos, dependendo do tratamento requerido. Os que não podem se dar ao luxo do tratamento são abandonados sem esperança.

Lembro de ter visto um homem se arrastando pela rua em um carrinho, por lhe faltar as pernas, mendigando dinheiro, e de outro indivíduo caído na rua, enlameado, com os pés enfermos. Antes das reformas capitalistas, a velha economia estalinista planificada pelo menos proporcionava saúde pública, onde as pessoas provavelmente não seriam deixadas em situação tão horrenda. Sem pensar no sofrimento dos pobres e da classe trabalhadora, as empresas multinacionais de saúde fizeram uma matança a partir destas “reformas”.

Dentro dos locais de trabalho, a situação não é diferente. Longas horas, salários baixos e poucas férias são a norma. Onde eu morava, um trabalhador médio de supermercado ganhava apenas 1.500 Yuan ao mês, trabalhando usualmente de seis a sete dias na semana. Horas extraordinárias são frequentemente exigidas pelos patrões, naturalmente não-pagas. Em meu local de trabalho, os colegas de trabalho muitas vezes são deixados a trabalhar muito mais tempo do que lhes foi pedido. Lembro de uma de minhas colegas de trabalho me informando sobre o seu salário, queixando-se de que não tinha recebido seu salário de outubro. No momento estávamos no meio de novembro. Os trabalhadores são frequentemente deixados à mercê dos patrões e empregadores.

A China tem de fato um “sindicato”, a Federação Sindical de Toda a China, mas é oficialmente ratificada e controlada pelo Partido Comunista. O presidente do sindicato é um indivíduo selecionado pelos patrões e obediente ao que eles querem. Portanto, fazem muito pouco ou nada para representar ou proteger os trabalhadores nos locais de trabalho. Isso é muito adequado aos capitalistas, proporcionando um ambiente de máxima exploração para garantir o máximo de lucro.

No entanto, a classe trabalhadora chinesa, apesar da ameaça de opressão estatal, não aceitou de forma indolente esta situação. Estas condições são insuportáveis para muitos, e alguns estão buscando desafiar os poderes que estão aí. Em anos recentes, a classe trabalhadora começou a se mover, e com êxito. A classe capitalista está começando a enfrentar uma classe trabalhadora cada vez mais consciente de seus direitos e de seus interesses.

Em Guangdong, 27 varredores de rua estão lutando contra as autoridades locais desde 2014, depois de ficarem sem pagamento durante mais de dois anos, apresentando ações judiciais repetidamente. Os tribunais, naturalmente, decidiram em favor dos patrões, declarando que “os trabalhadores não puderam provar que eram empregados do réu”. No entanto, eles ainda permanecem desafiadores, tentando elevar a consciência de sua luta. No ano passado, vimos os trabalhadores da Wal-Mart de Shenzhen lutar contra a imposição de um novo sistema de horas de trabalho, que representava um corte salarial. Em julho, houve greves em três lojas na China central, depois que 10 mil trabalhadores se juntaram online à Wal-Mart Workers’ Network. Estes são apenas exemplos de uma crescente tendência às greves e à luta dos trabalhadores contra os patrões nos últimos anos.

A luta dos trabalhadores chineses atualmente é por direitos básicos: o direito a se sindicalizar e à negociação coletiva. No entanto, os capitalistas não estão preparados para ceder uma só polegada. Nas atuais condições de crise capitalista, eles não podem se permitir fazer concessões. O monolítico Partido Comunista há muito que deixou de ser comunista, mesmo em palavras. Ele agora é uma ferramenta do domínio da burguesia, um instrumento útil de seu domínio sobre a sociedade.


Artigo publicado originalmente em 1 de fevereiro de 2017, no site da Corrente Marxista Internacional (CMI), sob o título “ China: working conditions continue to deteriorate, but working class beginning to stir“.

Tradução Fabiano Leite.

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