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China: a raiva sob a superfície

O Partido Comunista Chines comemora seus 90 anos. E como estão os trabalhadores chineses?

Durante os acontecimentos revolucionários no Egito, as autoridades chinesas exibiram extremo nervosismo aumentando a presença policial nas ruas e censurando a Internet, onde as referências à Revolução Egípcia estavam proibidas. Por que os governantes da China ficaram tão preocupados com acontecimentos que ocorriam em países tão distantes?

A mídia está repleta de comentários elogiosos sobre o crescimento econômico da China, que, se supõe, ignorou a crise econômica mundial, com uma média de crescimento anual de mais de 10%. Mas estes números nada nos dizem sobre os efeitos deste crescimento econômico sobre a massa da população. Nada nos dizem sobre a grande desigualdade e sobre o fosso crescente entre ricos e pobres. Nada nos dizem sobre os 150 milhões de desempregados ou sobre o sofrimento de milhões de camponeses chineses que são forçados a migrar para as cidades superpovoadas, a fim de ganhar a vida nas fábricas, onde sofrem exploração extrema e condições industriais semelhantes às da Inglaterra nos tempos de Charles Dickens.

Ao contrário da Rússia, a contrarrevolução capitalista na China tem sido realizada de forma controlada, sob as regras draconianas da burocracia e do assim chamado Partido Comunista, que, agora, admite capitalistas em suas fileiras e é visto como um trampolim para carreiristas e alpinistas sociais. Os trabalhadores têm poucos direitos e o papel dos sindicatos oficiais é o de policiá-los e não o de lutar por seus interesses.

A China se assemelha a uma gigantesca panela de pressão com a válvula de segurança entupida. Pode explodir a qualquer momento e sem aviso prévio. Isto se evidenciou recentemente com os eventos em Xintang, na província industrializada de Guangdong, no sul da China, onde, durante três dias, os trabalhadores se revoltaram contra as condições intoleráveis, queimando veículos policiais e mesmo lutando contra a polícia. Emissoras de Hong Kong informaram que a polícia disparou bombas de gás lacrimogêneo para dispersar a multidão.

Pobreza e riqueza

A cidade de Xintang fica a cerca de uma hora de viagem de Guangzhou, a opulenta capital do sul da província de Guangdong, próxima à fronteira com Hong Kong e que produz cerca de um terço das exportações do país. Cerca de 150 milhões de trabalhadores se deslocaram do campo para as cidades em busca de melhores padrões de vida.

Os confrontos da sexta-feira, 10 de junho, começaram depois que a polícia agrediu uma mulher grávida, vendedora ambulante, Wang Lianmei, durante uma operação de repressão ao comércio ambulante. A agência estatal de notícias, Xinhua, informou que ela caíra durante a disputa, enquanto que outras fontes informam que a chengguan – a força policial de baixo escalão – a tinha empurrado. Não importando qual das versões esteja correta, não há dúvidas de que a massa popular acreditou na agressão.

Os trabalhadores migrantes seus conterrâneos da província de Sichuan imediatamente se juntaram. A polícia local tem reputação de delinquente e quando os veículos policiais foram chamados à cena foram recebidos com uma chuva de garrafas, tijolos e pedras. A maioria dos manifestantes era formada por trabalhadores migrantes, como a mulher que sofreu a agressão policial.

Os manifestantes destruíram o escritório do governo no subúrbio da cidade de Dadun, incendiando pelo menos seis veículos. Pedaços de portões de ferro e cercas de arame farpado ficaram espalhados e destroçados. A multidão começou a atirar tijolos, pedras e garrafas sobre a polícia e as autoridades locais, bem como foram vandalizados postos policiais e de telecomunicações. Como foram espalhados rumores de que a polícia tinha matado o marido de Wang, Tang Xuecai, e que ela tinha sido gravemente ferida, outra multidão se reunião no dia seguinte.

A mídia local informou que Tang tinha aparecido em uma conferência de imprensa no domingo para dizer que sua esposa e seu bebê estavam “bem” e que ele estava “feliz com a intervenção do governo no caso”. Mas estas suaves palavras não conseguem esconder a raiva incandescente que está fervendo logo abaixo da superfície da sociedade chinesa.

Muitos moradores estavam com muito medo de falar sobre o incidente e os que o fizeram se recusaram a dar seus nomes por medo às represálias. “O ambiente é tenso e todos nós nos sentimos um pouco nervosos. Não devemos falar sobre isto”, disse You, uma costureira de 42 anos de idade, que, como outros, se recusou a dar seu nome completo.

“Estamos irados”, disse um trabalhador migrante de Sichuan à agência Reuters. O homem estava muito nervoso para revelar seu nome, dada a presença maciça de policiais em seu bairro. “Sinto que o Estado de Direito aqui não parece existir… Os funcionários locais podem fazer o que bem quiserem”.

Chao, de 27 anos de idade, proprietário de uma loja de jeans em Xintang, disse ao jornal Bangkok Post (15 de junho): “Foi muito assustador – a coisa mais assustadora que já vi desde que nasci”. Chao disse que em determinado momento da confusão havia “alguns milhares de manifestantes” enfrentando uma força policial poderosa, acrescentando: “Eles incendiaram um dos prédios”. E que “juntos viraram os carros da polícia e lhes puseram fogo. Logo chegaram centenas de policiais, que começaram a bater indiscriminadamente nas pessoas com bastões de metal”.

“Apenas um confronto normal”

As autoridades locais, naturalmente, tentaram minimizar o que aconteceu. “O caso foi apenas um confronto normal entre vendedores de rua e o pessoal local de segurança pública, mas foi usado por um punhado de pessoas que queria causar problemas”, disse Ye Niuping, prefeito local, pedindo aos moradores para não espalhar “boatos e invencionices”.

As palavras do prefeito são interessantes e disseram mais do que pretendiam. Ele considera que o evento tinha sido “apenas um confronto normal entre vendedores de rua e o pessoal local de segurança pública”. Isto significa que tais confrontos não são excepcionais, mas ocorrências regulares. Só que, desta vez, a raiva e o ressentimento acumulados do povo transbordaram. Tudo isto tem notável semelhança com a explosão que abalou a Tunísia, após o suicídio de um jovem vendedor de rua depois de ser agredido pela polícia.

“Havia muitas pessoas nas ruas tarde da noite, gritando e tentando criar caos. Algumas delas até quebraram veículos da polícia”, disse um trabalhador da fábrica de roupas Fengcai, que fica nas proximidades, acrescentando que os chefes proibiram os empregados de sair da fábrica. Um funcionário de um hotel na área disse que a polícia havia-lhes recomendado ficar em casa.

O relato de que os chefes das fábricas haviam proibido os trabalhadores de sair de seus recintos também é interessante. Isto revela que eles temiam que seus trabalhadores se juntassem aos que protestavam. A agência estatal de notícias Xinhua informou, na última segunda-feira, que as autoridades enviaram grupos de trabalho às aldeias e condomínios residenciais “para acabar com os mal-entendidos”. Mas o comando geral da polícia de Guangdong se recusou a fazer comentários e as chamadas para a estação local de polícia não eram atendidas, informou The Guardian em sua reportagem de segunda-feira, 13 de junho.

Mais de mil policiais foram convocados para Xintang depois dos distúrbios. Na quarta-feira uma calma tensa tinha se estabelecido em Xintang, de acordo com um repórter da AFP [Agência France-Press], mas muitas lojas e restaurantes permaneceram fechados, enquanto policiais armados com cassetetes e escudos e em veículos blindados realizavam patrulhas regulares, criando uma atmosfera de medo e intimidação. Mas, mesmo assim, alguns milhares de pessoas se reuniram, apesar da forte presença policial.

“Em torno da vila você pode ver marcas de queimaduras no terreno devido aos incêndios. Fui parado cinco vezes por policiais perguntando o que estava fazendo ali”, disse ao The Bangkok Post um moto taxista de 59 anos de idade, cujo sobrenome é Chen. “No primeiro dia do motim, os combates continuaram a partir das 11 horas até às seis horas do dia seguinte – foi muito duro. Você pode ver que hoje está mais silencioso, mas as restrições ainda se encontram em plena vigência”, acrescentou ele.
Situação explosiva

Estes acontecimentos devem causar um arrepio de medo nos escalões dirigentes. Eles representam a crescente frustração na sociedade chinesa. A recente onda de incidentes sublinha a situação explosiva que se encontra logo abaixo da superfície do crescimento econômico da China. Caso a caso, as causas aparentes da agitação são diferentes, mas as causas objetivas subjacentes são as mesmas: exploração selvagem, baixos salários, desigualdade extrema, completa falta de direitos e violência policial.

O que aconteceu em Xintang não é um caso isolado. Na primeira semana de junho, centenas de trabalhadores entraram em confronto com a polícia em Guangdong, na sequência de uma disputa sobre salários atrasados. Em Lichuan, Hubei, perto de dois mil manifestantes atacaram a sede do governo recentemente, depois que um político local, que se queixava da corrupção oficial, morreu sob a custódia da polícia.

Outros confrontos surgiram no sul da China nas últimas semanas, inclusive em Chaozhou, onde centenas de trabalhadores migrantes, exigindo o pagamento de salários em uma fábrica de cerâmica, atacaram prédios do governo e incendiaram veículos. Dois policiais foram detidos no centro da China após mil e quinhentos manifestantes entrarem em confronto com os esquadrões de choque após a morte, sob a custódia da polícia, de um legislador local.

Na sequência dos últimos protestos, um instituto de pesquisa interdisciplinar do estado alertou que dezenas de milhões de trabalhadores chineses derramando-se nas cidades vindas das zonas rurais se tornariam uma ameaça séria à estabilidade, a menos que fossem tratados de forma mais justa. Existem milhões de trabalhadores mal remunerados que migraram para as cidades do coração industrial da China, em busca de trabalho.

Tentando evitar problemas, os salários foram melhorados, mas há uma enorme desigualdade entre ricos e pobres e um fosso entre trabalhadores migrantes e residentes locais, o que tem fomentado ressentimentos e faz muitos se sentirem como cidadãos de segunda classe:

“Há muitas cidades em Guangdong que ainda estão muito [divididas entre] os habitantes locais e forasteiros. Os trabalhadores migrantes ainda são os piores pagos, realizam os trabalhos mais sujos e sofrem discriminação diariamente. Isto está causando ressentimentos e raiva crescentes”, disse Geoff Crothall, do Boletim Hong Kong do Trabalho da China. Mas ele acrescentou: “Há muita raiva reprimida e muita frustração entre as pessoas comuns – e não somente entre os trabalhadores migrantes”.

Embora os dados sejam difíceis de obter, a agitação social na China é cada vez mais frequente. Há dezenas de milhares de greves, protestos de camponeses e outras perturbações da ordem pública registrados a cada ano, muitas vezes ligados à raiva sobre corrupção oficial, abusos do governo e apreensão ilegal de terras para o desenvolvimento. Tais incidentes têm aumentado nas últimas semanas.

A Mongólia Interior, no norte da China, testemunhou o maior protesto de rua dos últimos 20 anos, quando um pastor da Mongólia foi morto por tentar parar a invasão de caminhões de carvão nas pastagens. Os mongóis étnicos protestaram durante dias contra a invasão dos campos de pastagens por equipamentos de mineração. E, no final de maio, um homem matou quatro pessoas descontentes, incluindo ações de vingança tendo por motivo o confisco de propriedade no sul do país.

A Academia Chinesa de Ciências Sociais estima que houve mais de 90 mil “incidentes de massa” em 2006, com novos incrementos nos dois anos seguintes. A resposta das autoridades em pânico indica que estão bem conscientes do perigo que essas queixas generalizadas representam e que poderão terminar por explodir como aconteceu aos regimes da Tunísia e do Egito.

Os círculos do poder estão mais nervosos do que nunca desde o massacre na Praça Tiananmen, em 1989. Estão preocupados com uma agitação em escala muito maior. A China aumentou seu orçamento de segurança interna em 13,8% este ano, atingindo 624,4 bilhões de Yuan (59 bilhões de libras). Isto significa que, pela primeira vez, a China gasta mais agora em segurança interna que na defesa.

O rápido crescimento econômico da China e sua industrialização fortaleceram enormemente a classe trabalhadora, que já não está mais disposta a tolerar baixos salários e condições análogas de escravidão nas fábricas. As explosões sociais estão se preparando e podem ocorrer de repente, quando ninguém espere por elas. Parafraseando as palavras de Napoleão: “A classe operária chinesa é um gigante adormecido e quando acordar abalará o mundo”.

Londres, 29 de junho de 2011.

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