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Chaplin: a silenciosa crítica de um gênio

Nossa homenagem a Charles Chaplin pelo seu 122º aniversário. Esse artista que revolucionou o cinema e soube fazer de sua obra um poderoso instrumento de crítica à sociedade moderna e ao seu modo de produção com tremenda sensibilidade e senso de humor.

O fantasma da pobreza

Charles Spencer Chaplin, o genial criador do personagem Carlitos e de obras clássicas do cinema, nasceu em 16 de abril de 1889.

Ele, no entanto, tinha tudo para ser mais um garoto de enorme potencial e talento a ser engolido pelo capitalismo na batalha diária pela sobrevivência. Sobre sua infância em Londres ele declararia anos mais tarde:

“Durante a infância, a fome e o medo do amanhã eram duas constantes em minha existência. Por mais rico que possa vir a ser, jamais conseguirei me libertar desse medo. Sinto-me como um homem perseguido por um fantasma – o fantasma da pobreza.”

Seus pais eram artistas de music hall, espécie de teatro de variedades muito popular na Inglaterra vitoriana. A vida confortável começou a decair quando o pai de Chaplin rendeu-se ao alcoolismo e separou-se de sua mãe, Hannah Hill. Ela passou a cuidar sozinha de seus dois filhos, Charles e Sydney. A voz de Hannah começou a falhar e ela teve que abandonar os palcos, sem emprego e sem dinheiro, realizou um esforço sobre-humano para manter os filhos limpos, protegidos e aquecidos, inclusive utilizou tecido de seus vestidos para costurar agasalhos a eles. A fome os rondava permanentemente, mudavam sempre para uma casa pior que a anterior. Sem moradia acabaram em um asilo. Nesse período, Charles e Sydney tiveram que se afastar da mãe, poucas semanas depois os dois foram transferidos para um orfanato, aumentando ainda mais essa distância.

No filme O Garoto há uma cena memorável: os funcionários de um orfanato, com a ajuda de um policial, tentam separar Carlitos da criança que ele cuidava como seu filho desde bebê, o desespero do Vagabundo e do Garoto com essa separação, a luta para permanecerem juntos mesmo com toda a pobreza que os rodeava, sem dúvida é uma alusão ao período em que Chaplin foi forçado a afastar-se de sua mãe.

Hannah começou a ter problemas mentais, isso provocou novos períodos de separação dos filhos durante suas internações. Com a morte do pai de Chaplin por cirrose, a situação econômica se agravou. Ela trabalhava intensamente com costura, passando noites acordada sobre a máquina. Chaplin experimentou seu primeiro emprego como dançarino no grupo “Os Garotos de Lancashire”, mas trabalhou também como vendedor de flores, entregador, recepcionista de consultório médico, garoto de recados, soprador de vidro, tipógrafo, etc.

Quando Charles tinha 14 anos sua mãe teve uma grave crise. Segundo os médicos ela estava louca, além de muito fraca pela subnutrição – acabou internada em uma clínica. Ele, que não queria retornar a um orfanato, mentiu dizendo que iria morar com uma tia, na realidade voltou para o apartamento e passou semanas só, pois seu irmão nessa época estava fora, trabalhando como marinheiro. Só quando Sydney chegou, os dois puderam visitar a mãe. Chaplin, com a ajuda do irmão, que entrou antes no mundo dos espetáculos, deu nesse período passos decisivos na carreira artística, as coisas foram melhorando e em pouco tempo a pobreza e a miséria ficariam para trás.

O sucesso de Carlitos

Antes de chegar ao cinema e a Hollywood, Chaplin passou pelo teatro fazendo apresentações cômicas. Em uma excursão pelos EUA, em 1913, foi descoberto pela companhia cinematográfica Keystone e em fevereiro de 1914 apareceu no seu primeiro filme, Carlitos Repórter. E já no segundo filme, Corrida de Automóveis para Meninos, Chaplin surge com as vestimentas do personagem que iria conquistar o mundo: O Vagabundo (The Tramp), também conhecido como Carlitos.

O sucesso de Carlitos foi meteórico. As distribuidoras pediam mais e mais filmes com Chaplin. O sucesso lhe permitiu assumir a direção das produções. O ritmo de produção era frenético, em 1914 participou de 35 filmes, isso incomodava Charles, um perfeccionista. Seus primeiros filmes eram mais uma comédia pastelão, muito longe das obras-primas que viria a produzir, mas o cinema estava dando os seus primeiros passos e Chaplin os seus primeiros passos nessa nova linguagem que ajudaria a revolucionar.

Carlitos e a luta de classes

Chaplin criou um herói, mas esse herói não é um príncipe, um rei, um guerreiro, um burguês, muito menos um super-herói vindo de outro planeta. Nosso herói era um trabalhador, o vidraceiro de O Garoto, o pedreiro de Dia de Pagamento, o garimpeiro de Em Busca do Ouro, o operário e tantas outras coisas de Tempos Modernos, o barbeiro de O Grande Ditador, etc. Sua experiência pessoal de ter passado por diversas profissões para sobreviver certamente o ajudou a compor os diferentes ofícios para Carlitos.

Chaplin disse certa vez sobre seu método:

“Um fato, por exemplo, no qual sempre baseio meus filmes, consiste em fazer o público se defrontar com alguém que se encontra em uma situação ridícula e embaraçosa. Já repararam o que acontece quando um policial uniformizado escorrega na rua e cai de pernas para o ar? Todo mundo ri. Por quê? Porque o policial e o seu cassetete encarnam a autoridade. Todas as pessoas humildes têm uma antipatia dissimulada pelos oficiais e riem quando um deles vai ao chão.

Imaginem um capitalista cheio de orgulho, com a sua cara solene, calças de listras, sobrecasaca, polainas, chapéu alto – todos os atributos do milionário. Mesmo o mais inofensivo de nós já teve a absurda ideia de lhe puxar pela barba. E se um homenzinho como eu puxar a barba de um capitalista, o público desata a rir, encantado. Sempre haverá alguns espectadores que acharão tal ato escandaloso e revolucionário, mas constituem uma minoria. Noventa por cento dos espectadores regozijam-se de ver a realização de seus próprios desejos.”

Nessa singela concepção existe uma boa dose de luta de classes, provavelmente noventa por cento ou mais riam de cenas do tipo, pois a maioria esmagadora da sociedade é formada por trabalhadores, que na dura realidade diária são oprimidos pelo Estado com seus policiais e pelos patrões no trabalho. Que alegria era vê-los caindo de pernas para o ar, levando um chute no traseiro, ou recebendo uma torta na cara! Carlitos propiciava esse tipo prazer.

A ridicularização do poder chegou ao seu auge no filme O Grande Ditador – por coincidência ou cópia, Adolf Hitler usava um bigodinho igual ao do Vagabundo. No filme, Chaplin interpreta dois personagens: Carlitos, o barbeiro judeu, e o ditador Adenoid Hynkel, uma paródia de Hitler. Sua interpretação de Hynkel explora todo o ridículo do ditador, a eloqüência nos discursos, o desejo de poder ao dançar e brincar com o globo terrestre, a demagogia e os delírios de grandeza.

Chaplin, mesmo com todo o dinheiro e fama que conquistou, jamais se esqueceu de seu passado e de sua classe de origem. Contraditoriamente, a mesma pobreza que tanto sofrimento causou, foi a essência para a criação de seus belos filmes. Ele soube, como poucos, atrair, divertir e emocionar os trabalhadores, retratando a sofrida vida cotidiana de nossa classe.

Um exemplo disso é o filme Vida de Cachorro. Só o título nos faz indagar: quem teria essa vida de cachorro? Apenas o cão que aparece no filme, ou também levaria uma vida de cachorro Carlitos, desempregado e rejeitado pela sociedade, e a cantora que é explorada pelo dono do bar? Certamente, o paralelo entre a vida do vira-lata e de seu dono, o Vagabundo, é inevitável. Em uma das cenas, Carlitos entra em uma agência de empregos, é o primeiro candidato a chegar. Quando abre um guichê ele se dirige a ele, mas o segundo candidato se adianta e passa à sua frente. Abre o segundo guichê, ele se dirige a ele, mas o terceiro candidato passa à sua frente. E assim segue em uma rápida seqüência, ele indo de um guichê para o outro, mas sempre com outro chegando à sua frente. Quando finalmente ele chega primeiro no guichê, este se fecha: acabaram-se as vagas. Sim, a vida da classe trabalhadora sob o capitalismo é realmente uma vida de cão.

Tempos Modernos

O filme Tempos Modernos estréia em 1936 após 4 anos de trabalho. Com o perfeccionismo de Chaplin, a mesma cena era rodada várias vezes até ficar aceitável. Além disso, muitas ideias e cenas eram gravadas e cortadas na edição final. Para esse filme foram gravados setenta e cinco mil metros de filme, restaram ao final dois mil e trezentos metros projetáveis. O filme falado já era um sucesso, mas Chaplin o manteve essencialmente como filme mudo.

Tempos Modernos é uma visão do capitalismo e dos sofrimentos que esse sistema traz. Chaplin não era um marxista, mas provavelmente deve ter lido algo de Marx – seu espírito curioso não o permitiria ficar sem conhecer minimamente aquilo que tantos o acusavam ser.

Na cena inicial, a imagem de um rebanho de ovelhas é sobreposta a de operários saindo de uma estação de trem. Sim, é uma bela metáfora para o tratamento que o capitalismo dá aos trabalhadores. Somos tratados como gado a serviço do lucro do patrão.

O dono da fábrica, muito ocupado entre a leitura de histórias em quadrinhos e jogos de quebra cabeça, manda acelerar a produção, o operário Carlitos não consegue se adaptar a esse processo desumano, com as ações e o ritmo sendo ditados pela máquina. O patrão vai fiscalizá-lo com um vídeo inclusive dentro do banheiro e ordena que retorne ao trabalho.

Em uma cena engraçadíssima, o dono da fábrica, visando explorar cada segundo de trabalho de seus operários, vai para a linha de produção testar em Carlitos uma inovadora máquina que alimenta o operário sem que ele precise parar o seu trabalho. A engenhoca entra em pane e submete Carlitos a uma pequena seção de tortura. O patrão avalia sabiamente: “Não serve, não é prática”.

Em outra cena genial, Carlitos já está um pouco transtornado pelo trabalho repetitivo, ele corre para apertar os parafusos de uma peça que passou pela esteira, e então é engolido pela máquina, entalado dentro de suas engrenagens, continua a apertar todos os parafusos que vê pela frente.

Carlitos é internado e quando sai e volta para a fábrica descobre que ela fechou, eram os anos da Grande Depressão após a crise de 1929. Perambulando pela rua, uma bandeira vermelha de sinalização cai de um caminhão, ele pega a bandeira e vai atrás do caminhão gritando para alertar ao motorista a queda da bandeira, logo atrás surge uma manifestação, pela frente vem a polícia, Carlitos fica encurralado e nosso comunista involuntário é preso. O que no final acaba lhe agradando: quando é solto não quer ir embora da cadeia, pois prefere ficar preso a ser “livre” nesse mundo.

Nosso herói encontra uma garota, de espírito livre e com muitos sonhos, ela o traz à vida. Os dois batalham, sonham, fogem da polícia. E seguem nessa difícil luta em busca da felicidade.

O discurso final de O Grande Ditador

O primeiro e único filme em que Carlitos fala é O Grande Ditador, lançado em 1940. É outro filme delicioso que não pode deixar de ser apreciado. É a despedida de Carlitos, o último filme do personagem. Mas que belas palavras ele nos deixa ao final!

Carlitos é confundido com o ditador Hynkel, é levado para um palanque em que se vê obrigado a fazer um discurso aos soldados e ao povo de um país conquistado, é impossível não se emocionar com o discurso, alguns trechos:

“O caminho da vida poderia ser o da liberdade e da beleza, porém nos extraviamos. A cobiça envenenou a alma dos homens… levantou no mundo as muralhas do ódio… e tem-nos feito marchar a passos largos para a miséria e os morticínios (…)

Neste mesmo instante a minha voz chega a milhares de pessoas pelo mundo afora… milhões de desesperados, homens, mulheres, crianças… vítimas de um sistema que tortura seres humanos e encarcera inocentes. Aos que me podem ouvir eu digo: Não desespereis! A desgraça que tem caído sobre nós não é mais do que o produto da cobiça em agonia… da amargura de homens que temem o avanço do progresso humano.

Soldados! Não vos entregueis a esses brutos… que vos desprezam… que vos escravizam… que arregimentam as vossas vidas… que ditam os vossos atos, as vossas idéias e os vossos sentimentos! Que vos fazem marchar no mesmo passo, que vos submetem a uma alimentação regrada, que vos tratam como gado humano e que vos utilizam como bucha de canhão! Não sois máquina! Homens é que sois! E com o amor da humanidade em vossas almas! Não odieis! (…)

Lutemos agora para libertar o mundo, abater as fronteiras nacionais, dar fim à ganância, ao ódio e à prepotência. Lutemos por um mundo de razão, um mundo em que a ciência e o progresso conduzam à felicidade de todos nós. Soldados, em nome da democracia, unamo-nos!”

Perseguição política

Apesar de não se considerar comunista, os filmes de Chaplin, em especial Tempos Modernos e O Grande Ditador apresentavam uma crítica contundente ao atual sistema. Seu primeiro filme sem Carlitos, Monsieur Verdoux (1946), sofreu para ser liberado pela censura e mesmo depois de liberado nacionalmente, foi censurado em diversas cidades nos EUA.

Ao final da guerra cresceu a perseguição aos comunistas nos EUA. Chaplin era sistematicamente acusado de ser comunista. Ele afirmava não sê-lo, mas dizia também admirar a coragem dos russos na 2ª Guerra e se orgulhar da amizade com o ator negro Paul Robeson e com o dramaturgo e poeta Bertolt Brecht, ambos comunistas.

O pânico obsessivo contra o comunismo foi instalado nos EUA. O senador Joseph McCarthy encabeçou um processo que ficou conhecido como marcartismo, onde uma lista de comunistas determinava quem deveria ou não ser perseguido. Cidadãos eram chamados para interrogatórios públicos em que eram acusados de exercer atividades anti-americanas. Muitos, com essa onda, perderam o emprego e tiveram a reputação destruída, outros foram presos por se negarem a responder as perguntas, invocando a Constituição.

Foi feita uma “lista negra” de Hollywood, em que Chaplin estava incluído, muitos artistas nesse processo perderam tudo e nunca mais foram contratados pela indústria cinematográfica.

O FBI, chefiado por J. Edgar Hoover, alimentava um longo processo investigativo sobre Chaplin. Ele chegou a ser convocado para um interrogatório pela comissão de atividades anti-americanas, mas depois de várias postergações, acabou sendo dispensado.

Em 1952, Chaplin vai à Europa para divulgar seu novo filme – o lindo e comovente Luzes da Ribalta. No navio, pouco depois de partir dos EUA, recebe a notícia de que seu visto foi revogado, fica então impedido de voltar ao país. Chaplin desiste de voltar à América e declara:

“(…) Desde o fim da última guerra mundial, eu tenho sido alvo de mentiras e propagandas por poderosos grupos reacionários que, por sua influência e com a ajuda da imprensa marrom, criaram um ambiente doentio no qual indivíduos de mente liberal possam ser apontados e perseguidos. Nestas condições, acho que é praticamente impossível continuar meu trabalho do ramo do cinema e, portanto, me desfiz de minha residência nos Estados Unidos.”

Fixou residência em Vevey, na Suiça. Não parou de trabalhar, fez mais dois filmes, Um Rei em Nova York e A Condessa de Hong Kong. Recebeu diversas condecorações e prêmios pelo mundo. Em 25 de janeiro de 1977, Charles Spencer Chaplin faleceu. Entretanto, sua obra permanece viva, encantando públicos de diferentes idades e em diversos países. Esses clássicos, certamente, continuarão nos emocionando por muitos e muitos anos.

Futuro

Nosso querido amigo Carlitos apela em O Grande Ditador:

“Vós, o povo, tendes o poder – o poder de criar máquinas. O poder de criar felicidade! Vós, o povo, tendes o poder de tornar esta vida livre e bela… de fazê-la uma aventura maravilhosa. Portanto – em nome da democracia – usemos desse poder, unamo-nos todos nós. Lutemos por um mundo novo… um mundo bom que a todos assegure o ensejo de trabalho, que dê futuro à juventude e segurança à velhice.”

Lutemos sim, com bom-humor e otimismo, por um novo mundo! Um mundo que, a nosso ver, só será possível enterrando de vez o velho e doente capitalismo, fazendo florescer uma sociedade em que a felicidade e o bem-estar do povo estejam acima do lucro de um punhado de capitalistas – um mundo socialista!

* Alex Minoru é formado em artes cênicas pela Universidade Estadual Paulista e dirigente da Esquerda Marxista.

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